Anos 90: a última era do rock que governou e fez tremer a terra
by Brunelson
há 1 dia
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Confira matéria especial publicada pela revista Spin, escrita pela jornalista britânica Lily Moayeri, falando sobre a época mágica, frutífera, íntegra (em sua maioria) e super criativa que os anos 90 gerou na história do rock'n roll, onde para muitos, foi o último pico na história do rock que atingiu o público mainstream e underground na mesma medida, influenciando a cultura, postura e até a moda, através dos movimentos musicais e sociais vindos de uma cultura subjacente, e não de um produto comercial para vender.
Segue a reportagem quase na sua íntegra:
Afinal, os anos 90 foram mesmo tão bons assim?
Mas é claro!
Cresci ao som de uma trilha sonora dividida entre o brilho da new wave e a arrogância do hair metal dos anos 80, moldada pelo programa televisivo semanal de paradas musicais do Reino Unido, chamado Top of The Pops, e mais tarde pelas contagens regressivas diárias para assistir aos programas da MTV. Assim, meus anos de adolescência passaram voando em meio a sintetizadores, solos de guitarra virtuosos e a convicção inabalável de que nenhuma música jamais poderia rivalizar com os anos 80.
Então a década virou, e com ela entrei na casa dos meus 20 anos de idade. Meu gosto musical se desenvolveu a partir das minhas próprias descobertas, em vez do que a cultura pop me impunha. A banda STONE ROSES deu início à onda "Madchester" aqui na Inglaterra, e depois vieram os grupos THE CHARLATANS e INSPIRAL CARPETS, tudo isso bem antes do chamado movimento inglês pós-grunge, "Britpop", dominar as paradas, com bandas como o BLUR, OASIS e RADIOHEAD.
Não era apenas a música que me tocava ou me fazia sentir parte de uma comunidade, mas porque essas bandas eram meus contemporâneos. Tínhamos a mesma idade, vivenciávamos experiências semelhantes no mesmo país, demarcando nosso lugar no mundo e destemidos em nossa busca.
A Geração X dos anos 90 — outrora ridicularizada como a “elite da pobreza” e os “consumidores abutres da cultura” — era selvagem. Vagávamos livremente pelas ruas, confiando em nossos instintos e nos conectando com todos que encontrávamos. Ninguém sabia onde estávamos ou o que estávamos fazendo. Mesmo assim, estávamos presentes naquele momento, sem precisar documentar cada passo que dávamos e sem esperar pela aprovação pública para nos sentirmos validados. Nossas comunidades se mantinham unidas por nossa profunda conexão com a música que amávamos.
Éramos resilientes e éramos sobreviventes, sendo que tudo isso transbordou para a música...
E havia muita música nova surgindo.
Através do rock alternativo nasceu nos EUA o grunge de Seattle e região, um híbrido de heavy metal com punk rock, além do revival do punk rock americano, o metal sendo abraçado pelo público mainstream, grupos de rap brotando pelas ruas e dando corda até para um novo gênero, o rapcore. Cada inovação abriu espaço para novas vozes criativas e ninguém pedia permissão para se expressar sobre assuntos antes não falados em letras musicais. A artista Tori Amos escreveu sobre o estupro que sofreu à mão armada em seu álbum de estreia e lançou como seu 1º single oficial a música "Me and a Gun", apesar dos protestos de sua gravadora. Indispensável dizer que essas bandas e artistas aplicavam realmente e literalmente o conceito de "atitude" em suas obras e comportamentos.
A experiência de vida de cada artista transparecia em sua música, sem filtros, crua e sem precisar de explicações. Mesmo que você não compartilhasse do trauma deles, você o sentia, com a certeza de que eles estavam expressando não apenas a sua verdade, mas também a sua.
Os músicos dos anos 90 tinham um ponto de vista, uma convicção que os tornavam inspiradores e até mesmo líderes. Eram verdadeiros originais da cultura cujas interpretações de suas influências davam origem a novos sons. Havia tanto caminho a ser trilhado... Eles seguiam menos as pistas externas dos holofotes e mais suas próprias reações ao mundo. Eles não se repetiam e a cada álbum exploravam novos caminhos e ideias. Tinham algo a dizer e não se desculpavam por isso, o que tornava tudo o que faziam serem autênticos por natureza. Suas personas eram realmente suas personalidades e não tinham medo de errar ou se iria agradar ao público ou se iria vender bem.
Produzir música era difícil e caro na década de 90. Era preciso trabalhar mais e gastar mais para criar algo profissionalmente competitivo. A tecnologia de estúdio ainda não havia avançado o suficiente para suavizar as imperfeições naturais de uma performance de um ser humano normal. O som que você produzia era o que realmente transparecia do seu interior e essas imperfeições tinham um caráter distinto e se tornaram identificadores familiares, reconfortantes e duradouros, mesmo décadas depois.
Mas não podemos esquecer que o tratamento dado às mulheres era abominável. A cultura do estupro era generalizada e todos nós vimos o documentário sobre o Woodstock Festival de 1999, onde esse tipo de agressão contra as mulheres ficou impune. Isso não se limitou a um festival ou a um momento específico, mas com as mulheres precisando se preparar para o pior só por estarem na rua caminhando a noite ou esperando o ônibus em um ponto... Nenhum lugar era realmente seguro.
Também não podemos esquecer sobre as doenças mentais, que eram comuns entre os músicos, mas nunca antes discutido, assumido ou cantado em suas letras até os anos 80, assim como o abuso de substâncias e álcool. Tudo isso era destrutivo, fragmentando relacionamentos criativos e pessoais, e em alguns casos, ceifando vidas, como as de Kurt Cobain (NIRVANA), Shannon Hoon (BLIND MELON) e o cantor Jeff Buckley, para citar apenas alguns. Essas perdas são notórias, mas uma lista muito maior de músicos eventualmente encontrou ajuda e reconstruiu o que havia destruído, muitas vezes se tornando mais fortes do que antes.
O que nos leva ao presente atual, em que os músicos dos anos 90 "estão vivendo a melhor década de suas vidas". Bandas que haviam se separado se reuniram, tocando em locais maiores do que nunca e criando algumas das melhores músicas de suas carreiras. A reunião do OASIS foi um empreendimento tão grandioso e bem-sucedido que existe em um universo próprio. Enquanto isso, grupos com o NINE INCH NAILS e SUBLIME chegaram ao topo das paradas em 2025.
Sem a pressão de serem novatos, estarem em ascensão ou tentarem manter sua posição, essas e tantas outras bandas dos anos 90 estão hoje livres das expectativas das paradas musicais, das exigências de vendas de discos, do escrutínio da mídia ou da interferência das gravadoras. Seu trabalho é o mais puro possível e sua relação com os fãs é mais direta do que nunca. Eles se beneficiam com mais de 30 anos de lealdade com seu público original e atraem organicamente novos fãs de todas as gerações, o que poderia ser um bônus inesperado.
Assim como observou a diretora criativa June Ambrose na série documental, "Sneaker Wars: Adidas vs Puma" — embora talvez isto sempre tenha sido verdade: “O que é retrô é relevante. Tudo o que fazemos hoje é resultado do que já aconteceu”.
Só que o atual ressurgimento dos anos 90 não parece nem um pouco retrô - parece relevante. Numa época em que o TikTok determina se uma música viraliza, em que os músicos hesitam em confiar no próprio trabalho sem a aprovação passageira de um público virtual com déficit de atenção, em que a música em si não é mais o cartão de visitas, mas sim, a interseccionalidade construída pelo artista, em que cada lançamento exige uma história de fundo para gerar identificação, em que as personalidades são construções e em que a autenticidade se tornou uma palavra de moda no marketing, não é nem um pouco surpreendente que a música introspectiva dos anos 90 esteja ressoando tanto com o público atual.
Os músicos dos anos 90 se entregam completamente, expondo suas entranhas na esperança de se conectar com outros seres humanos. Era o que faziam naquela época e é o que fazem agora. É por isso que a música deles impacta tanto, porque parece atemporal e porque continua sendo exatamente o que as pessoas precisam.
Então, sim, os anos 90 foram realmente incríveis e continuam sendo.
Você encontrará essa energia dos anos 90 em grupos atuais como IDLES, KHRUANGBIN, UNKNOWN MORTAL ORCHESTRA, GRETA VAN FLEET, THE LAST DINNER PARTY, TAME IMPALA e THE ACES. Assim como seus antecessores, eles são "esotéricos, ousados, criativos, aventureiros, excêntricos, rebeldes, agitadores e provocadores" - citando a vocalista do GARBAGE, Shirley Manson.
Ou seja, o que eles criam incorpora tudo o que as pessoas amam na música e tudo o que precisam dela.
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