top of page

Ed O'Brien: “somos seres espirituais vivendo em um corpo físico", disse o guitarrista do Radiohead

  • by Brunelson
  • há 2 horas
  • 9 min de leitura

Ed O’Brien, guitarrista do RADIOHEAD, falou sobre superar sua “noite escura da alma” e o futuro do RADIOHEAD, em uma nova entrevista para a revista britânica New Music Express.




Confira quase na íntegra essa matéria e entrevista:

 


O guitarrista revelou como a meditação, a natureza e a experiência de “atravessar o fogo” da depressão moldaram seu novo álbum solo, "Blue Morpho", além de abordar a nova confiança que encontrou no RADIOHEAD e por que “a sociedade não quer realmente encarar as causas” dos problemas de saúde mental.


Ele disse sobre como superar seu período de depressão e sua "noite escura da alma", o que moldaram seu novo e terapêutico 2º disco solo, "Blue Morpho", bem como sobre a turnê de retorno em 2025 e futuro da sua banda, o RADIOHEAD.



O'Brien descreveu o período de 06 anos a partir da pandemia em 2020 como uma trajetória: "Com altos e baixos, mas muito boa ultimamente. Gostei de gravar esse meu 2º disco solo, gostei de viver a vida, gostei de ser pai e gostei de passar por um período difícil. Todo mundo passa por esses momentos na vida e eu superei tudo isso... Na verdade, sou grato pela experiência. Sinto que faz parte da jornada da vida, poder encarar tudo isso de frente e com a sorte que tenho, quero dizer, é bom poder sair do outro lado e me sentir mais inteiro”.


Aquele "período difícil" surgiu com a pandemia que freou bruscamente a vida de todos e impôs a O’Brien um período de reflexão forçada, além de um acerto de contas com seus sintomas reprimidos ao longo de toda uma vida.


“Eu não tive escolha”, admitiu ele. “Acho que é preciso descobrir quais são as raízes da depressão. Eu estava lendo o livro de Gabor Maté, 'When The Body Says No'. Basicamente, ele defende que a depressão, as doenças autoimunes e o câncer, todas possuem suas sementes na infância. Nós reprimimos muita coisa porque não processamos essas experiências. Durante a pandemia, quando não podíamos ir a lugar nenhum, aquilo me forçou a estar naquele lugar sombrio, a permanecer nele, a senti-lo, a não ter medo dele e a realmente enfrentar meus medos”.


“Obviamente, foi muito difícil. Pareceu um desafio enorme, mas o que me deu sustentação foi o fato de eu já manter uma prática espiritual há algum tempo — uns vinte e poucos anos. A meditação é a base de tudo isso".


"Quando algum amigo meu está passando por uma situação difícil, a primeira pergunta que faço é: ‘Você medita?’ É a coisa mais poderosa que podemos fazer. Acredito que deveriam ensinar meditação nas escolas”.


Além de praticar "a forma mais simples e profunda de meditação" — sentar-se e observar a própria respiração por 20 minutos todas as manhãs — O’Brien também encontrou, no poder de cura da natureza ao redor de sua casa na zona rural no País de Gales, o conforto necessário para lidar com suas questões pessoais.


“Isso envolve estar em águas frias de rios na natureza, caminhar e despertar”, compartilhou ele. “Sempre fui um homem do campo e amei a vida ao ar livre, mas sinto que a Mãe Natureza não é apenas extraordinária, mas também profundamente curativa. Um dos problemas que temos como sociedade moderna é que estamos muito desconectados da Mãe Natureza. Todas as nossas decisões são tomadas por pessoas que vivem em vilas e cidades. Já vivi em ambos os ambientes, mas há algo especial no campo e no poder das estações”.


Ele acrescentou: “Perdemos isso de vista. Fico maravilhado com esse planeta que recebemos como presente e no qual vivemos. Ouvir o canto dos pássaros e encontrar serenidade na Mãe Natureza, foi nisso que busquei refúgio”.


Vivendo sem “chefe ou emprego das 9hs às 17hs”, O’Brien desfrutava do raro privilégio de ter tempo e espaço, algo que, segundo ele, lhe proporcionou a liberdade de enfrentar a depressão de frente: “Não precisei recorrer a medicamentos, então, pude realmente sentir a dor. Pude sentir a escuridão e pude atravessar o fogo. Isso leva tempo, pois não existem atalhos. Vivemos em uma sociedade que busca gratificação instantânea”.


O’Brien, agora com 58 anos de idade, compartilhou que seus 30 anos ocupados fazendo e excursionando 09 álbuns de estúdio com o RADIOHEAD e seu papel como marido e pai, o ajudaram a “adiar” e “basicamente manter os fantasmas sob controle”.


“Então, veio aquele período de isolamento na pandemia, onde os fantasmas tocaram no meu ombro e disseram: ‘É hora de processar isso. É hora de reconhecer essas coisas’”, disse ele. “Quando você sente, aí pode processar. É o Inferno de Dante. A meio caminho da vida, me perdi na floresta”.


Tendo conseguido superar essa fase, O’Brien diz sentir que agora “amadureceu” e está “mais inteiro” em comparação com o homem que era durante sua última entrevista para essa mesma revista em 2020: “Se eu não tivesse passado por essa experiência, você estaria conversando com outra versão do cara com quem entrevistou há 06 anos atrás”, admitiu ele. “Aquele cara não percebia o quanto estava perdido. Ele não estava sendo realmente honesto consigo mesmo”.


Se esse período de imobilidade forçada tivesse ocorrido mais cedo — digamos, se o RADIOHEAD tivesse feito uma pausa mais significativa nos anos 2000 ou durante a década de 2010 — será que ele teria passado por um processo semelhante?


“Essa é uma boa pergunta”, respondeu o guitarrista. “Na verdade, tiramos 01 ano de folga em 2012 e foi nessa época que minha família e eu fomos morar no Brasil. Não aconteceu naquela ocasião, pois eu tinha 44 anos de idade e cuidar de crianças de 05 e 07 anos exigia toda a nossa atenção. Era uma rotina intensa e estávamos totalmente voltados para a vivência em família. Não havia espaço para que isto surgisse e ainda não era o momento certo”.


“Quanto mais envelheço, menos acredito no acaso e em momentos de sorte inesperada. Enfrentei crises de saúde ao longo do caminho e sempre busquei melhorar. A saúde mental e a depressão são questões com as quais lido há anos. Eu achava que as mantinha sob controle com a meditação, mas às vezes, o corpo simplesmente diz: ‘Ok, você já fez muita coisa, mas vamos te atingir com um baque forte agora’. Mesmo assim, você consegue superar isso e acredito firmemente que o tempo é tudo”.


Ele acrescentou: “Você guarda a 07 chaves coisas da sua infância. Meu corpo e minha alma simplesmente disseram: ‘Isso é insustentável’. Se você quer ficar bem e se quer se sentir inteiro, precisa olhar para essas coisas e processá-las”.


Ao fazer isso, O’Brien viu-se questionando a maneira como nós, enquanto sociedade, discutimos e lidamos principalmente com a “saúde mental masculina”, dadas “as dimensões da dor que as pessoas estão sentindo”.


“Essa expressão, ‘saúde mental masculina’, é tão absurdamente inadequada”, argumentou ele. “É tão sem graça, sabe? Você está vivenciando as profundezas da coisa e essas palavras não fazem jus a isso. É como se estivessem tirando toda a personalidade da saúde mental”.


Além da medicação e terapia, O’Brien afirmou que a sociedade precisa levar em conta toda a abrangência do que uma recuperação pode envolver, especialmente a dimensão espiritual: “Somos seres espirituais vivendo em um corpo físico. Muitas pessoas sofrem e isso não é encarado da maneira correta”.


“Já falei abertamente sobre a minha depressão no passado e jovens vieram conversar comigo a esse respeito. Eu disse: ‘Sabe de uma coisa? Considerando o mundo em que vivemos e considerando tudo, a reação mais legítima a isso é uma forma de desespero e depressão, porque essa merda é uma desgraça’. Estamos vivendo a forma mais bruta do capitalismo, o qual se manifesta em guerras e chegamos a esse ponto ridículo da história”.


O’Brien acrescentou: “Sabemos que isso não está fazendo bem ao planeta, a este belo lar onde vivemos. Sabemos que não está fazendo bem às pessoas e elas estão tão transtornadas, fragmentadas e atormentadas que não quero nem usar o termo ‘saúde mental’. Nossos líderes políticos continuam agindo como se tudo estivesse normal. E ainda se perguntam por que as pessoas estão tão desencantadas com a política? É porque todo esse sistema de merda não gera pessoas felizes nem um planeta feliz”.


“As pessoas tiram a própria vida para escapar dessa dor e a sociedade não quer realmente encarar quais são as causas. A causa é esse sistema de merda que submete as pessoas a níveis enormes de pressão, dívidas e tensão. Daqui a 500 ou 600 anos, a humanidade vai olhar para a nossa época e pensar: ‘Vejam só como eles eram unidimensionais’. Toda geração acha que é a mais avançada que a anterior, mas nós somos patéticos. Somos capazes de coisas extraordinárias, mas o sistema nos mantém acorrentados a esse caminho insustentável”.


Seguir o fio do "extraordinário" na humanidade e na natureza é o que permeia o novo disco solo de Ed O'Brien, "Blue Morpho". Batizado em homenagem a uma borboleta nativa do Brasil associada ao "recomeço", o disco surgiu da "noite escura da alma" do músico, impulsionado por seu recém-descoberto senso de propósito.


“Uma parte de mim pensava: ‘Que diabos estou fazendo?’”, disse ele, relembrando a pandemia em 2020. “Eu tinha acabado de lançar meu 1º disco solo, ‘Earth’, e estava insatisfeito com alguns aspectos do meu trabalho. Eu me perguntava: ‘Será que dou conta disso?’ Além disso, eu realmente não esperava voltar a integrar o RADIOHEAD: ‘O que sou eu agora? O que é a minha vida?’”


“Meu único propósito, além de ser pai e tudo mais, era tentar trazer um pouco de beleza ao mundo e celebrar as coisas belas. Seja a Mãe Natureza ou algumas das coisas que os seres humanos são capazes de realizar. Já existe escuridão suficiente no mundo e trata-se de trazer beleza e luz”.


“O álbum 'Blue Morpho' e o processo de criação dele me mostraram que vou fazer isso até o dia em que eu morrer, quer as pessoas queiram ouvir ou não”, disse O’Brien. “Eu amo fazer música e amo o efeito que ela causa. O processo foi, por vezes, profundamente desconfortável, e é justamente isso que eu adoro nele. Antes, eu não gostava dessa característica e tratava apenas como algo que precisava superar. Agora, vejo como isso tem um propósito... E assim, quero gravar outro disco solo e tenho ideias mais do que suficientes para o próximo”.


Ele comentou que “provavelmente” não levará mais 06 anos até o seu 3º álbum solo, visto que a fase em que se dedicava intensamente a acompanhar os filhos durante a pandemia e as etapas escolares chegou ao fim, agora que eles têm 20 e 22 anos de idade.


“Uma das grandes vantagens de vir do espírito do RADIOHEAD é não ter medo de fazer merda”, admitiu ele. “Era preciso haver algum risco. Podia haver momentos musicalmente horríveis, mas isso não importa, porque você está em busca desses momentos de transcendência que envolvem elementos se movendo de maneiras diferentes”.


Diante de tudo o que vivenciou e refletiu nos últimos 06 anos — como homem, pai e artista — a ideia de voltar à estrada com o RADIOHEAD para a aclamada turnê de retorno de 2025 (desde 2018 sem subir aos palcos) chegou a parecer intimidante, ou ele estava pronto e renovado para o desafio?


“Foi simplesmente incrível”, respondeu O’Brien. “Era algo intimidador, é claro, porque todo mundo quer que dê certo e da última vez que fizemos isso em 2018 não foi muito bom. Somos muito abençoados por haver pessoas que querem ver o que fazemos, mas no fundo, somos apenas um grupo de 05 pessoas no palco”.


“Eu sentia isso com muita força e dizia: ‘Se o amor entre nós 05 estiver presente, então, tudo flui a partir disso e não temos com o que nos preocupar’. De certa forma, as músicas quase tocam sozinhas, desde que haja amor e aquele sentimento entre nós 05, coisa que havia e foi glorioso. Tocando em um palco central bem no meio das arenas, tudo estava no meio e fluía a partir dali... E todo mundo conseguia sentir aquilo”.


Tanto que O’Brien passou a aproveitar e valorizar muito mais o seu lugar no RADIOHEAD. Não é à toa que eles já estão planejando fazer "20 shows por ano" em um continente diferente a partir de 2027.



“Para ser sincero, sempre me senti inseguro em relação ao meu canto comparado ao de Thom Yorke (vocalista do RADIOHEAD), por ele ser o único cara que faz harmonias vocais daquele jeito com aquela voz incrível dele”, confessou. “No início, quando comecei a fazer os back-vocais no RADIOHEAD, tivemos vários engenheiros de monitor e eu não conseguia me ouvir cantar, então, desenvolvi inseguranças profundas. Mas a grande vantagem de cantar como vocalista principal e ter de trabalhar isso em estúdio é que, quando chega a hora de fazer os vocais de apoio com o RADIOHEAD, tudo parece muito mais fácil”.


“Eu adorei. Adorei a confiança de pensar: ‘Eu dou conta’. Poder cantar e trabalhar as nuances, foi incrível. Senti que conseguia acompanhar vocalmente Thom pela 1ª vez. De fato, conseguimos fazer coisas que talvez eu tivesse evitado fazer 10 anos atrás”.


Nesse momento, perguntamos a O’Brien se ele achava que sua crescente confiança se refletiria, de alguma forma, na composição do próximo álbum do RADIOHEAD — ainda sem previsão nenhuma o tão aguardado sucessor do álbum "A Moon Shaped Pool" (9º disco, 2016).


“De onde você tirou essa ideia de que existe outro álbum do RADIOHEAD?”, ele respondeu, rindo. “Eu sei, é muito engraçado e a intenção é boa. As pessoas querem ouvir outro álbum do RADIOHEAD. Eu nem consigo imaginar isso, porque a gente nem sequer conversou sobre outro disco. Acho que é porque o último álbum foi uma merda absoluta de fazer... A história daquele disco é muito sombria. Ele projeta uma sombra enorme, sabe? Talvez você possa me fazer essa pergunta daqui a 06 anos”.


Por enquanto, O’Brien encerrou dizendo que simplesmente se sentia: "Em estado de paz e sortudo como músico e criador de canções. Seja depressão, uma crise de saúde, questões de saúde mental, colapsos, tudo isso, sempre há um antes e um depois”, concluiu ele. “E eu me identifico mais com o depois, porque o depois é uma sensação boa”.

Comentários


Mais Recentes
Destaques
bottom of page