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Ramones: matéria especial da revista Spin comemorando os 50 anos do álbum homônimo de estreia

  • by Brunelson
  • há 57 minutos
  • 10 min de leitura

Confira matéria especial da revista Spin, celebrando os 50 anos do icônico álbum homônimo de estreia dos RAMONES, o grupo que criou o punk rock.


Segue:



“Eles eram os 'Unfab Four'”.


O produtores, Craig Leon, Mickey Leigh e Rob Freeman, estavam presentes quando tudo aconteceu e relembram a criação do icônico álbum de estreia da banda em 1976.


“Eles eram os 'Unfab Four'”, ri Craig Leon. Para ele, coproduzir o álbum de estreia dos Ramones em 1976 foi como entrar em um estranho mundo bizarro misturado com os BEATLES. Também coproduzido com o baterista original dos RAMONES, Tommy Ramone, as sessões estiveram perto de entrar naquele universo alternativo da DC Comics que existiu no final dos anos 50 até o final dos anos 60, onde super-heróis como o Superman eram retratados como versões distorcidas de si mesmos.


“Era o planeta Terra e todos os personagens dos quadrinhos, só que invertidos”, disse Leon. “Coisas que eram boas se tornaram ruins. Os personagens sentiriam repulsa por uma flor e adorariam um monte de lixo, e essa é basicamente a premissa que eu queria explorar. Eu também estava pensando em algo que pudesse estabelecer a identidade deles”.


Se os RAMONES tivessem feito um álbum "polido", disse Leon, teria soado mais como o THE STOOGES ou o MC5, "mas com letras mais estranhas", isso não teria funcionado. "Pensei: 'Vamos fazer algo que refletisse a personalidade deles', e eles gostaram da ideia de serem os BEATLES do lado negativo. Eles eram os BEATLES do mundo bizarro".


RAMONES era a antítese da arena rock e do rock progressivo, e de tudo o que era mainstream em meados da década de 70. Reduzidos ao essencial, "som alto e rápido", e sequenciados por canções de 03 acordes, sendo todas com menos de 03 minutos de duração. Era uma doutrina minimalista do punk rock e uma amálgama de todo o rock que veio antes, desde a explosão inicial da sua clássica música, "Blitzkrieg Bop", e a brutalidade humorística de canções como "Beat on The Brat" ou "Chain Saw", passando pela temática do terror na música "I Don't Wanna Go Down to The Basement", até o apelo mais sentimental da canção "I Wanna Be Your Boyfriend", as arestas mais ásperas da crônica sombria de Dee Dee Ramone (baixista) sobre prostituição masculina e vício na música "53rd and 3rd", com a canção inspirada nos clássicos da rádio AM, "Let's Dance".


A simplicidade dos RAMONES serviu de modelo inicial para bandas como U2, METALLICA, GREEN DAY, BLINK 182 e muitas outras que puderam seguir seus próprios caminhos. METALLICA frequentemente cita os RAMONES como uma de suas primeiras influências, especificamente o estilo de tocar guitarra de Johnny Ramone, que ajudou a moldar o próprio estilo de James Hetfield (frontman do METALLICA), enquanto que o PEARL JAM foi se inclinando para o som cru e agressivo dos RAMONES para suas músicas de resposta rápida.




E fiel ao estilo dos RAMONES, o álbum foi produzido da maneira mais improvisada possível: equipamentos gambiarra, músicos de estúdio convidados para vocais de apoio e harmonias, além de outros efeitos sonoros. E tudo montado aos poucos, em 01 semana e com um orçamento baixíssimo.


Naquela época, Mickey Leigh, o irmão mais novo do vocalista Joey Ramone, estudava teoria musical e composição no Queensborough Community College e tornou-se o "faz-tudo" da banda, desde transportar equipamentos e levar a banda para os shows em seu carro, até gerenciar as passagens de som antes dos shows e outras funções de empresário de turnê, além de também tocar e cantar no estúdio quando era necessário.


Anos antes dos RAMONES, Leigh estava presente na origem de algumas das músicas da banda, tocando violão com seu irmão Joey no quarto deles em Forest Hills, Queens (New York), e nos primeiros ensaios da banda no porão da galeria de arte da mãe deles.


“Dei meu violão para o meu irmão”, conta Leigh. “Ele já estava tocando e não queria que eu soubesse, mas eu vi os arranhões e tal surgindo no corpo do violão e lhe disse: ‘Escuta, eu sei que você está tocando com meu violão’”. Leigh começou a ensinar seu irmão, que era canhoto. Em vez de trocar as cordas a cada vez, ele transformou seu violão Yamaha em um de 02 cordas para Joey, e assim ele aprendeu sua 1ª música, “I’m Eighteen”, de Alice Cooper.


“Ele tocava essa música umas 20 vezes por dia”, lembrou Leigh. “A partir desses acordes, ele compôs as canções ‘I Don’t Care’ e ‘Here Today, Gone Tomorrow’ dos RAMONES” (ambas seriam lançadas somente no 3º disco, "Rocket to Russia", 1977).


Quando a banda assinou seu contrato de gravação no final de 1975, Leigh acabou recebendo um salário de US$ 50 dólares por semana e continuou sendo o "faz-tudo" do grupo, auxiliando nas sessões de gravação dos RAMONES, tocando guitarra, montando a bateria e fornecendo vocais de apoio quando necessário. Leigh chegou a ajudar a banda a registrar os direitos autorais de suas músicas, já que havia aprendido a escrever partituras e transcrevia as canções da banda das fitas de rolo de gravação.


Embora tenha havido algumas divergências iniciais sobre o som durante as primeiras sessões de gravação do álbum de estreia dos RAMONES — Tommy queria overdubs e Johnny discordava — um som em que todos concordavam, disse Leigh, era o disco ao vivo "Live at Leeds" de 1970 do THE WHO, que ajudou a guiar os RAMONES.


“Todos nós adorávamos o álbum 'Live at Leeds' do THE WHO, e não havia overdubs nele, mas o som era grandioso e ótimo”, disse Leigh. “E Tommy havia dito: ‘Sim, mas esse é um disco ao vivo. As pessoas estão acostumadas a ouvir álbuns ao vivo dessa forma’. Então, Johnny havia dito: ‘Exatamente e todos nós adoramos. O som é ótimo! Por que não podemos fazer assim?’”


Outra música do THE WHO, "Heaven and Hell", lado-b do single de 1970 da canção "Summertime Blues", também foi fundamental para ajudar a banda a chegar a um consenso.


“Acho que isso ajudou todo mundo a chegar a um entendimento”, disse Leigh. “Foi uma espécie de acordo. O álbum 'Ramones' acabou sendo gravado quase como um disco ao vivo. Decidiram que era assim que eles fariam o álbum, e não haveria overdubs e nem nada do tipo”.


A partir daí, Leigh disse que Leon também foi forçado a repensar a maneira como iria produzir seus discos. Com a formação clássica, Leon, que mais tarde produziria bandas como BLONDIE, SUICIDE, BERLIN e THE BANGLES, foi inicialmente influenciado pelo rock and roll, soul music e R&B quando criança durante a década de 60, juntamente com as primeiras bandas de garage punk, como THE BOBBY FULLER FOUR. Isso serviu como a transição perfeita para o que estava acontecendo na cena punk rock de New York.


Na época, Leon trabalhava em seu pequeno estúdio na Flórida quando seu amigo e mentor, Richard Gottehrer, que era coproprietário da gravadora Sire Records junto com seu primo, Seymour Stein, sugeriu que ele trabalhasse com os RAMONES, depois de ter feito alguns trabalhos com o grupo britânico, CLIMAX BLUES BAND.


Leon viu os RAMONES tocarem pela 1ª vez no lendário clube CBGB em New York no início de 1975 e se sentiu imediatamente atraído pela banda, apesar de sua desordem. "Achei aquilo incrivelmente cru, mas incrivelmente bom no sentido de que eles eram como a antítese de tudo o que estava sendo exagerado da época".



Leon ansiava por algo diferente do que tocava nas rádios: "Eu não era contra a folk music ou contra bandas como o EAGLES. Eu só era contra a maneira de como esses artistas gravavam seus discos".


Para Leon, os shows dos RAMONES era como uma "performance artística", e ele foi fundamental para que a banda assinasse com a gravadora Sire Records: "Era como uma grande peça dividida em 10 ou 15 pequenos segmentos. Eles tocavam, depois discutiam entre si, dizendo: 'Você entrou errado. Que música você quer tocar? Mas eu não quero tocar essa música'. Eles tocavam por 20 ou 30 segundos, e depois tudo desmoronava, e então, eles tocavam outra música e depois outra".


Se essa energia pudesse ser transformada em música concreta, pensou Leon, ele tinha certeza de que a banda merecia uma gravadora e um álbum: "Eu queria ajudá-los a se lançar no mercado".


Em janeiro de 1976, pouco depois da assinatura do contrato dos RAMONES com a Sire Records, Leon foi contratado para produzir o álbum de estreia da banda, com um orçamento de US$ 6.400 dólares e 07 dias reservados no estúdio Plaza Sound Studios, em New York, um espaço originalmente construído para a Orquestra Sinfônica do canal americano, NBC, e que ficava no 8º andar do prédio Radio City Music Hall.


A banda já tinha um conjunto de gravações demo que haviam gravado no estúdio 914 Sound Studios, em Blauvelt, New York, um dos estúdios onde Tommy trabalhava. O fato da banda estar lançando um álbum, disse Leon, especialmente algo tão underground durante os anos 70, já era uma conquista por si só.


Inicialmente, a Sire Records ofereceu à banda um contrato somente para lançar singles, oferta que Leon os incentivou a recusar, propondo a produção de um álbum completo com o orçamento para 02 singles. A gravadora concordou, mas com um orçamento menor, o que era um desafio em uma época analógica.


“Eu queria fazer algo radicalmente diferente”, disse Leon. “Tommy queria fazer algo mais ou menos no meio termo, e todos na banda tinham suas próprias ideias, mas no fim, tudo acabou se encaixando”.


Com Joey mais interessado na música "pop britânica de rádio AM" e Johnny em um rock mais pesado como THE STOOGES, tudo culminou no álbum "Live at Leeds" do THE WHO.


“Parte da ideia por trás da nossa escolha pelo som estéreo dividido, vinha da forma como bandas faziam na Inglaterra, quando elas usavam gravadores de 03 canais e tinham o baixo de um lado, e a guitarra e a bateria no meio”, disse Leon. “Os BEATLES usavam isso no início por necessidade e eu queria isso porque queria subverter tudo, da mesma forma como os RAMONES eram”.


Ele acrescentou: "Queríamos que fosse uma versão realmente crua daquela técnica de gravação dos anos 60, e conseguir que eles fossem crus não foi tão difícil".


No estúdio, a banda media o tempo com um metrônomo de luz intermitente que Tommy instalou, e os instrumentos eram isolados por salas adjacentes, com as guitarras invadindo os camarins da companhia de dança chamada The Rockettes.


“Tínhamos o baixo e todos os amplificadores montados em uma sala, a guitarra em outra, e a bateria em uma sala muito maior do que uma cabine de bateria comum de estúdio”, lembrou Leon. “E havia a sala de ensaio das The Rockettes, que era um grande espaço envidraçado com espelhos onde elas podiam se ver praticando, e os amplificadores de Johnny ficavam todos lá e o pessoal da banda ficava no corredor, que era bem no meio das 03 salas, com a sala de controle do estúdio ao lado”.


Para aprimorar o som, Leon adicionou algumas sobreposições para dar textura às guitarras e preencher os vocais, que foram gravados pela banda juntamente com ele próprio, Leigh e o engenheiro de som, Rob Freeman — que pode ser ouvido cantando o refrão final da música “I Wanna Be Your Boyfriend”. O então empresário da banda, Danny Fields, e o diretor artístico do grupo, Arturo Vega — responsável pela criação do icônico logotipo dos RAMONES — também adicionaram palmas na gravação ao álbum.


“Era tudo feito de forma caseira, porque não tínhamos dinheiro para pagar ninguém”, disse Leon. “Isso remete à ideia de que a música dos RAMONES fazia parte da música daquela época da cena urbana de New York, porque todos os integrantes eram autênticos e era algo que todos queriam fazer”.


Tudo foi tirado de algum lugar. Até mesmo o início da canção de abertura do álbum, “Blitzkrieg Bop”, disse Leon, foi “roubado” do grupo BAY CITY ROLLERS. Em certo momento, um jovem vocalista foi recomendado para gravar os back-vocais no álbum, mas a gravadora não quis pagar sua passagem de trem de Connecticut para New York, o que resultou em mais vocais gravados por conta própria.


“Seymour Stein (proprietário da Sire Records) havia dito: ‘Não temos orçamento para isso, então, façam com o que vocês têm’”, lembrou Leon. “Então, aquele jovem vocalista de Connecticut não fez as gravações, e o nome dele era Michael Bolotin, que depois ele mudou para Bolton. Então, Michael Bolton (ele mesmo) quase esteve no álbum de estreia dos RAMONES”.


Durante o 30º aniversário do álbum, o engenheiro de som, Freeman, relembrou vividamente a gravação do disco: "Os RAMONES colidiram com um pedaço de fita magnética de 02 polegadas como um caminhão desgovernado em uma ladeira se chocando contra uma parede de tijolos".


Junto com seu engenheiro assistente, Don Hünerberg, Freeman foi uma das poucas pessoas, fora da banda, presentes nas salas durante as sessões de gravação do álbum "Ramones", mas ele jamais imaginou que esse disco se tornaria tão icônico ao relembrar todas as pessoas que estavam no estúdio há 50 anos atrás.


“Quando ouço esse álbum dos RAMONES hoje, percebo uma declaração sólida, coesa e poderosa, que se torna ainda mais fascinante justamente por sua sonoridade em preto e branco”, disse Freeman. “Ouço o Plaza Sound Studios com sua acústica poderosa que o estúdio tinha deixando sua marca indelével em todo o disco. Eu jamais poderia ter previsto que, 50 anos depois de gravar esse álbum e de todos os discos que trabalhei em minha longa carreira, o álbum 'Ramones' seria aquele sobre o qual todos querem falar”.


Até hoje, Freeman disse que artistas do mundo todo ainda o procuram, tentando reproduzir o som dos RAMONES desse 1º disco e perguntando quais eram os microfones usados e os posicionamentos de cada microfone, mesas de gravação e equipamentos externos que foram usados ​​durante as sessões: "É incrível como esse pequeno projeto, que levou apenas 07 dias no total para ser concluído, teve o tremendo impacto que teve. Eu não fazia ideia de que o álbum de estreia dos RAMONES se tornaria tão icônico quanto é".


Para Leigh, não importa quantas décadas passem, os RAMONES ainda estão vivos na música e na história da banda que ele tenta manter presente, juntamente com a memória do seu irmão e a festa anual de aniversário de Joey Ramone que eles sempre fazem em 19 de maio: "Você fica se perguntando se foi real ou não", disse Leigh. "Isso me lembra que meu irmão não está aqui, quando ouço a voz dele nas músicas ou quando ouço alguém falar dos RAMONES, me faz lembrar que foi real".


Antes da morte do seu irmão em 2001, após uma longa batalha contra o linfoma, Leigh, que lançou um EP com Joey em 1994 como SIBLING RIVALRY, chamado "In a Family Way", disse que eles teriam explorado mais música juntos, mas a próxima colaboração deles, ao lado do pai e do tio, foi a abertura de uma nova casa de shows em New York para abrigar os eventos de Joey Ramone, apresentando bandas independentes, entre outros projetos, tudo para ajudar a promover bandas locais.


Ao relembrar os 50 anos desde o lançamento do disco "Ramones", Leigh disse que ainda parece irreal. É quase como um sonho, finalizando: “É como se você acordasse e estivesse sonhando, e tudo parecesse tão real. É esta a sensação. Sinto como se tivesse acordado no meio de um sonho e leva algumas horas para aceitar que foi um sonho... Só que não foi um sonho”.



“Blitzkrieg Bop” (1º disco)


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