Black Flag: “um amigo me falou que, agora que estamos mais velhos, nossa missão é espalhar alegria", disse Henry Rollins
by Brunelson
há 15 minutos
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Confira matéria e entrevista que a revista Spin realizou com o eterno vocalista do BLACK FLAG, Henry Rollins:
Henry Rollins está espalhando alegria.
O cantor, escritor e agora arquivista, fala sobre sua próxima exposição punk em Nashville, sua paixão por preservar a história da música e o motivo pelo qual ele come espinafre e sopa de mariscos quase todos os dias.
Henry Rollins está esperando na porta quando chego à entrada da casa dele, em Nashville. Apertamos as mãos e ele me convida para entrar.
O cantor, autor e apresentador de rádio tem 65 anos de idade e continua com um porte quase tão imponente quanto o que tinha há 10 anos atrás. Ele se mudou para cá há 05 anos, atravessando o país ao volante de um carro Mazda surrado vindo de Los Angeles, onde viveu por 40 anos.
Ele me conduz ao seu espaço de trabalho, que possui uma decoração minimalista tendo uma mesa de madeira simples posicionada mais ou menos no meio do ambiente, e a pouca distância, uma estação de trabalho onde ele grava seu programa semanal na rádio KCRW e redige sua escrita. Estantes embutidas cobrem as paredes, repletas de livros que ele escreveu e publicou por conta própria — entre eles, "Adult Roar", "Preferred Blur", sua série "Fanatic" (composta por 10 volumes) e "Get in The Van" — além de muitos outros que ele leu e colecionou ao longo dos anos.
“Isso nunca vai acabar”, disse ele, enquanto nos sentamos um de frente para o outro em sua mesa. “Preciso autografar 05 pilhas disso aqui para as pré-vendas de um livro”.
Esse livro é seu próximo trabalho de memórias, "Bait Dog Boy", com lançamento previsto para 02 de março de 2027.
“Pergunte-me sobre o livro”, ele me diz. “Eu o escrevi. É intenso... Não espere que eu fique me gabando ou jogando confete em mim mesmo, mas está tudo certo e acho que ele se sustenta...”
Em seguida, ele começa a mencionar grandes impressões emolduradas, protegidas por acrílico antirreflexo com revestimento contra raios UV, as quais estão apoiadas em suas estantes feitas sob medida.
“Esse tipo de coisa... Não sou eu, sabe? Eu não sou o Dave Vanian (vocalista do THE DAMNED), mas sou fã dele. Não sou o Iggy Pop, mas sou um grande admirador dele. Também não sou uma raridade. Mas isso aqui daqui, sim!”, diz Rollins, apontando para um cartaz de um show do MINOR THREAT realizado em 23 de setembro de 1983 no Lansburgh Cultural Center, na capital Washington, no qual a banda tocou ao lado dos grupos TROUBLE FUNK e BIG BOYS. É um item que ele ganhou do seu amigo, Ian MacKaye (vocalista do MINOR THREAT e do FUGAZI, e fundador da maior gravadora independente do planeta, a Dischord Records).
“Esse é o último show da história do MINOR THREAT”, diz ele, orgulhoso. “Quase chorei. Eu queria esse poster há tantos anos e levei direto para a molduraria”.
Esta peça — entre outras — estará em destaque na exposição inaugural de Rollins, intitulada, Henry Rollins: Cool Evidence, que reunirá itens de memorabilia da cena punk e hardcore. O evento terá duração de 02 dias e será aberto ao público gratuitamente.
O evento acontecerá nos dias 06 e 07 de novembro na galeria Radar615, em Nashville. A mostra incluirá itens raros, como pôsteres de turnês, obras de arte, setlists e fotografias de bandas como MINOR THREAT, GUN CLUB, THE STOOGES, JOY DIVISION, THE CRAMPS, entre outras. BLACK FLAG também estará presente, no entanto, se dependesse apenas de Rollins, qualquer material que exibisse seu rosto ficaria de fora da exposição.
Ao longo de 47 anos, Rollins reuniu mais de 400 peças emolduradas, que atualmente estão guardadas no que ele diz que, futuramente, será a sua sala de estar.
Rollins disse que ele e sua empresária de longa data, Heidi May, tiveram a ideia de realizar o evento: “Estávamos parados praticamente onde esta foto foi tirada”, diz ele, mostrando uma imagem de sua antiga casa em Los Angeles, um local que, assim como sua residência em Nashville, está repleto de obras de arte e itens colecionáveis emoldurados. “E ela me perguntou: ‘O que você está fazendo?’. Eu respondi: ‘Bom, eu coleciono coisas e mando emoldurar tudo com materiais de conservação. Basicamente, os 03 andares desta casa são assim’. Ela comentou: ‘Olha, você passou do limite. Ficou estranho e ninguém vem aqui ver isso, mas ao mesmo tempo é tudo muito legal. Você deveria pensar em mostrar isso ao mundo para que as pessoas possam conferir’”.
Rollins gastou milhares de dólares do próprio bolso para realizar seu evento temporário em Nashville. Ele conta que seu grande amigo, o colecionador e avaliador de itens musicais, Jeff Gold, lhe disse: “Agora que estamos mais velhos, nossa missão com esse tipo de coisa é espalhar alegria. Com o seu museu ou seu evento temporário, seja lá o que for, espalhe alegria, Henry”.
“Vou sempre guardar isso comigo”, disse Rollins.
Rollins é um sujeito modesto e sente-se desconfortável com a autopromoção. Sua paixão por arquivar e curar a história da música é contagiante, à medida que ele relembra as histórias por trás dos itens que estarão presentes em sua exposição. Ele mantém viva a chama da filosofia "faça você mesmo" (DIY) do punk rock, realizando e custeando tudo por conta própria, com o apoio de sua equipe bastante reduzida: May e a assessora de imprensa do THE CRAMPS, Jo Murray, com quem Rollins trabalha desde que se tornou o principal responsável pelo acervo da banda.
Ele leva uma vida modesta e relativamente frugal. Seu carro, o já mencionado Mazda, é velho e está bastante surrado. Ele faz compras no supermercado nas redondezas, aproveitando promoções do tipo "Leve 02, Pague 01", alimenta-se basicamente de espinafre e de mini baldes de sopa de mariscos que custam U$ 10 dólares cada, além de usar roupas simples e básicas compradas na rede de lojas Walmart. Sua casa, embora de bom tamanho, não é nada extravagante. Em vez disso, a maior parte do dinheiro que ele ganha é destinada a atividades de arquivamento.
“Com esse nível de gastos, continuo me vestindo assim e comendo espinafre”, disse ele. “Me sinto confortável, sabe? De certa forma, trabalho todos os dias e essa é a minha filosofia. Vou continuar com esse visual até morrer”.
Conhecendo o entusiasmo de Rollins por discos de vinil, pergunto a ele: “Você tem discos?”
“Tenho alguns, é...”, disse ele. “O que são aquilo? São discos?”, ele me pergunta, apontando para trás de mim.
É, sou um otário mesmo...
“Isso foi ótimo, você me perguntar se tenho algum disco”, disse ele, zombando de mim. “É como olhar para uma barracuda e perguntar: ‘Será que tem algum peixe aqui?’”
Atrás de mim, no nível inferior do cômodo, fica a imensa coleção de discos de vinil de Rollins. Toda essa parte da casa, ele me conta, é um anexo, construído pelo proprietário anterior para festas durante as transmissões de futebol americano nas noites de segunda-feira.
“O restante da casa é incrivelmente normal, mas eu a comprei por causa disso”, disse ele. “Preciso de um espaço pouco convencional para discos e para trabalhar”.
A ampliação conta com uma infraestrutura elétrica dedicada para operar sistemas de áudio de alta fidelidade e equipamentos de transferência de fitas. Dispõe também de um sistema próprio de climatização para o controle de temperatura e umidade, requisitos necessários para o armazenamento de acervos com qualidade profissional.
“Esse é o melhor espaço de trabalho e audição que já tive”, disse ele. “O sistema nunca soou tão bem, porque está recebendo toda a potência de que precisa — como é o caso dos amplificadores. É como um fluxo avassalador de potência”.
Entre a extensa coleção de discos de Rollins está a única cópia sobrevivente (única!) da banda do ensino médio de Iggy Pop, THE IGUANAS, as gravações realizadas pelo produtor Martin Rushent para a banda BUZZCOCKS, e uma de somente 25 prensagens de teste originais do THE CRAMPS do disco lançado na versão para o Reino Unido, "Songs The Lord Taught Us", que contém a versão alternativa pré-remix do álbum.
No início de 2026, Rollins trabalhou com MacKaye e com Larry Hardy, fundador da gravadora, In The Red Records, para realizar uma reformulação completa e lançar "Gravest Gravy", o álbum perdido do THE CRAMPS de 1977. Um segundo lançamento, "More Gravy", tem previsão para ser lançado agora em novembro.
Além de sua própria coleção, Rollins adquiriu — e atualmente preserva — materiais de outros músicos da cena punk rock e garage rock, a fim de evitar que se deteriorem.
“Levou para mim e para Larry — principalmente para Larry Hardy — uns 06 ou 07 anos tentando convencer Poison Ivy (guitarrista do THE CRAMPS) até que ela nos deixasse retirar as fitas-cassete do THE CRAMPS da garagem dela”, contou Rollins. “Porque, afinal, é uma garagem e não é um lugar bom para guardar fitas. Certa vez, ela veio aqui em casa e eu disse: ‘Ivy, preciso de todos os seus papéis e de todas as suas fitas. Quero ser o seu arquivista... Pense nisso’”.
Por fim, segundo ele, Ivy concordou. Rollins voou para Los Angeles, alugou uma van, dirigiu até Glendale e os transportou de volta para sua casa em Nashville. Desde então, ele vem transferindo a coleção de fitas matrizes da banda THE CRAMPS para caixas de arquivo, arcando ele mesmo com os custos.
Ele também firmou parcerias com Kid Congo Powers — guitarrista/vocalista da banda GUN CLUB e com passagem pelo THE CRAMPS — resgatando e catalogando seu álbum de fotos das turnês, figurinos de palco e outros itens. E com Alicja Trout, guitarrista da banda LOST SOUNDS, para catalogar sua coleção de mais de 300 panfletos, setlists e cartazes da cena punk rock de Memphis.
Para aprender a arquivar corretamente esses itens, Rollins contratou um especialista da Smithsonian Institution para treiná-lo em digitalização profissional, manuseio adequado de documentos e armazenamento arquivístico. Como resultado, ele realiza um cruzamento minucioso de informações entre negativos fotográficos, folhetos de eventos e recibos, a fim de verificar a origem histórica.
Após passar o ano seguinte promovendo seu livro de memórias, Rollins planeja transformar sua exposição temporária em Nashville em mostras de maior escala e longa duração, transportando para museus e galerias de grandes cidades dos EUA e de outros países, apresentando uma parcela muito maior de sua coleção.
“Alguns deles estarão nos eventos, mas vou praticar preços ao estilo punk rock”, disse ele. “Grande parte do material, o máximo possível, será gratuito”.
Ele também está trabalhando em outros projetos sobre os quais ainda não pode revelar, mas todos relacionados à sua trajetória musical.
Rollins finalizou a entrevista, dizendo: “Pra mim, cuidar de artefatos físicos — setlists, folhetos, fitas master, discos de teste — e compartilhá-los com os fãs, é o que quero fazer pelo resto da minha vida. É isso que me interessa e é isso que quero fazer até morrer”.
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