Josh Homme: "uma vez me disseram que meu organismo metaboliza rapidamente drogas e medicamentos, então, acabo consumindo 10 gramas de cogumelos quanto tomo"
by Brunelson
há 10 minutos
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Confira matéria e entrevista que a revista Spin realizou com o vocalista/guitarrista do QUEENS OF THE STONE AGE, Josh Homme, em promoção ao novo álbum de estúdio, "Perfecth" (foto), 9º disco da banda lançado agora em 30 de outubro de 2026:
Após anos de turbulência, os veteranos do rock, QUEENS OF THE STONE AGE, abrem o jogo em seu novo álbum de estúdio, "Perfecth", deixando que as imperfeições permaneçam.
E para Josh Homme, a perfeição sempre foi um alvo em movimento, se não uma piada.
O título do novo álbum do QUEENS OF THE STONE AGE, "Perfecth", já dá uma pista. Trata-se de uma abordagem marcada por um humor ácido — aquele tipo de riso diante da desgraça — sobre a ideia de que está tudo bem, quando na verdade, você está em um barco sem remos e sem rumo. Enquanto o álbum anterior da banda, "In Times New Roman" (8º disco, 2023), trazia Homme canalizando a brutalidade da vida em uma sonoridade tão áspera e implacável quanto o próprio título, o álbum "Perfecth" adota uma postura mais direta e desarmante. Aos 53 anos de idade, Homme cansou de se esconder atrás de abstrações, quando a verdade já dá conta do recado.
O amor, em todas as suas formas contraditórias — algo capaz tanto de tirar você da lama quanto de levá-lo a questionar se você sequer deseja estar aqui - é a força motriz do novo disco. Algumas dessas canções remontam ao início dos anos 2000, enquanto outras foram escritas em 2021, período em que Homme atravessava uma profunda desilusão amorosa. Juntas, elas compõem o retrato de um artista que lida com a mortalidade, a paternidade e a possibilidade libertadora de dizer exatamente o que pensa. Mesmo assim, a música não perde seu caráter aventureiro, transitando da inquietação ambiental na canção “It’s Only Love” à irreverência orquestral da música “Where The Goth Girls At”, assim como a simplicidade com ares de BEATLES na canção “From The Cliff”. Inclusive, Homme opta por manter as imperfeições, acolhendo o atrito humano que surge quando músicos tocam juntos no mesmo ambiente, em vez de polir cada detalhe até eliminar qualquer aspereza.
O disco chega após um período extenuante na vida de Homme, que incluiu a gravação de um disco ao vivo que era um projeto há muito sonhado, o qual foi realizado em meio a grandes dificuldades nas lendárias Catacumbas de Paris, além de um diagnóstico de câncer e uma amarga disputa judicial pela guarda dos filhos com sua ex-esposa, Brody Dalle (vocalista/guitarrista do THE DISTILLERS). O trabalho marca um reencontro do músico com o que realmente importa, incluindo, de forma notável, sua relação com os colegas de banda: Troy Van Leeuwen (guitarrista), Michael Shuman (baixista), Dean Fertita (guitarrista/tecladista) e Jon Theodore (baterista). A atual formação do QUEENS OF THE STONE AGE passou anos aprimorando sua química explosiva, ao mesmo tempo em que seu líder se via confrontado com os limites do controle.
A revista Spin conversou com Homme em New York, durante um dia de folga da recente turnê do grupo por estádios abrindo os shows do FOO FIGHTERS, cujo frontman, Dave Grohl, é um amigo próximo e colaborador de Homme desde que seus caminhos se cruzaram décadas atrás. Como o próprio Homme observa, o objetivo do álbum "Perfecth" não é acertar tudo, mas sim, prestar atenção antes que o momento passe.
Jornalista: Não consigo deixar de me lembrar de quando vi o QUEENS OF THE STONE AGE com Dave Grohl na bateria, no show de lançamento do álbum "Songs For The Deaf" (3º disco) no Bowery Ballroom em New York, no mês de maio de 2002. Você se lembra daquela noite?
Josh Homme: Lembro, sim. Foi muito divertido. Cada um ali tinha uma personalidade marcante, mas dava para perceber que aquilo não podia durar. Não dá para ter tanta dinamite dançando com fósforos — mas não importa se dura ou não de qualquer maneira. O que importa é que aconteça. É disso que a vida é feita, de correr o risco de dançar com a dinamite.
Jornalista: Quando o baixista Nick Oliveri saiu da banda em 2004 (membro original), acho que você e eu fizemos a única entrevista que você concedeu falando sobre o assunto na época.
Homme: Foi um período difícil. As pessoas não compreendem o estoicismo de decidir: "Vou tentar agir com elegância". Não quero detonar meu amigo, sabe? De fato, acho que muita gente não entendeu o que estava acontecendo na época. Além disso, as pessoas não fazem ideia de quão difícil é chegar ao ponto em que você precisa demitir um amigo. Sempre haverá os que criticam, pois é só isso que eles sabem fazer, e não dá para dar ouvidos a eles. Eu diria a eles: "Tente demitir seu melhor amigo e veja se você gosta da experiência". Não é fácil e não é nada prazeroso, cara.
Jornalista: Especialmente pelo momento em que isso aconteceu, justamente quando a banda estava ganhando um novo fôlego em termos de visibilidade e popularidade após a turnê do álbum "Songs For The Deaf".
Homme: O sucesso é algo realmente bizarro e nenhum conselho ajuda. Cada situação é específica e você acaba sendo forçado a aprender na prática. Não dá para saber como você vai lidar com isso, especialmente quando é algo que você jamais esperava. O grande público se voltou para nós sem que houvesse qualquer intenção de que isso acontecesse. Lidar com estes sentimentos é algo muito complexo.
Jornalista: Entendo... Bom, mais ou menos. Mas vamos falar mais sobre sentimentos, já que este é um álbum que reflete muito os seus. Depois da gravação do disco ao vivo, "Alive in The Catacombs" (2025), como estava a sua cabeça em relação aos rumos da música do QUEENS OF THE STONE AGE?
Homme: Para tentar fazer com que você desistisse de tocar nas Catacumbas, os funcionários do local diziam que não era permitido ligar nenhum equipamento à tomada elétrica, com a esperança de que isto servisse como um desestímulo para nós. Como tenho o hábito de romantizar as coisas e buscar um significado mais profundo, pensei: "Se um dia conseguirmos tocar lá, isto simbolizará o soar do sino que marca o nosso 3º ato". No início da carreira, ao fazer música, você está apenas tentando acompanhar a sua própria inspiração. Você compõe várias músicas e depois surgem outras tantas. Com o tempo, essa fase passa, e você acaba se protegendo nas letras por meio da abstração — o que, na verdade, é apenas medo de dizer o que realmente está acontecendo. Mas hoje tenho 53 anos de idade e muita coisa aconteceu. Essas músicas mais suaves e sinceras sempre estiveram presentes em todos os nossos discos, mas passaram despercebidas, a ponto das pessoas comentarem agora: "Vocês ficaram mais calmos e mais leves!". Eu penso comigo mesmo: "Ora, consigo apontar 03 músicas de nossos álbuns que vocês claramente deixaram passar". Cito, "I Never Came" e "Long Slow Goodbye", que foram lançadas no álbum "Lullabies to Paralyze" (4º disco, 2005), e "Suture up Your Future" que foi lançada no álbum "Era Vulgaris" (5º disco, 2007). Percebi que a culpa foi minha por tê-las colocadas no final desses álbuns, pois na época eu tinha medo demais de posicioná-las para o início da track-list.
Homme: Já o álbum "Perfecth"é na verdade uma coletânea de músicas, sendo que algumas delas são antigas. Outras foram escritas em 2021, período em que vivi o auge de uma profunda mágoa, chegando a questionar se eu ainda deveria estar aqui. A gente percebe que o amor pode te destruir e as facetas do amor são vastas e capazes de muitas coisas. Ele pode ser a única força capaz de te libertar daquela lama em que você se sente preso, servindo como seu único canal para a esperança, mas ao mesmo tempo, ele pode te destruir de uma forma brutal, a ponto de você quase enlouquecer. Aprendi o suficiente, cometi erros demais e agi como um tolo tantas vezes que, agora, não tenho medo de colocar essas músicas em 1º plano. Se para você isto significa que somos "moles" — e é com base nisso que você decide se gosta ou não de algo — então, acho que é um adeus. No fim das contas, só quero que este trabalho seja uma representação fiel do momento em que me encontro na vida. E a única maneira de fazer com que este nosso último disco esteja entre os meus melhores é correndo esse risco, o que é exatamente isso que eu quero.
Jornalista: Nunca antes ouvi ruído ambiente em um disco do QUEENS OF THE STONE AGE, como acontece na canção de abertura do álbum "Perfecth", “It’s Only Love”. Parece a maneira perfeita de começar o disco.
Homme: Esse título não é muito diferente do título de outro álbum nosso, "Like Clockwork" (6º disco, 2013), no que diz respeito a humor ácido. Sabe, aquele tipo de situação em que você está num bote a caminho do inferno e diz: "Ah, está tudo perfeito". É engraçado quando você comenta isso quando está acompanhado de alguém, mas perde a graça quando você está sozinho. O contraste entre estar com pessoas de quem você gosta e estar por conta própria é uma questão bem atual. As pessoas se veem sozinhas com frequência e não sabem o que fazer. Entendo isso muito bem, sabe? Como compositor, vale a pena explorar como é essa experiência. Este é, talvez, o nosso álbum mais universal, porque trata apenas de amor e é só sobre isso.
Jornalista: Onde aquele trem foi gravado?
Homme: No Sound City Studios, que fica em uma área particularmente terrível e deprimente de Los Angeles, bem no fundo do bairro Valley. Sente-se o cheiro vindo da fábrica da cerveja Budweiser que fica ali perto. O local fica ao lado de trilhos ferroviários industriais, onde pessoas moram ali. Em termos de produção, se o objetivo é capturar uma sensação dolorosa, ou digamos, uma sensação "de merda", então, de certa forma, aquele momento precisa soar mesmo "uma merda" ou tão cru quanto a própria sensação nos deixa. A questão é: você vai se colocar na frente do trem quando ele passar, ou vai deixar que ele siga seu caminho? É quase como uma equação matemática, tipo, se acontece isso, então fazemos aquilo. Chegamos bem perto do trem para gravar quando ele estava vindo, com o maquinista gritando "não!" e uma expressão de pânico no rosto. É instigante se aproximar desse tipo de sensação.
Homme: A estrutura da música é bem simples. Ela não é muito longa e em certo momento, quando estávamos compondo juntos, Mark Lanegan havia me dito (agora já falecido vocalista do SCREAMING TREES e longo colaborador no QUEENS OF THE STONE AGE): "Deixa essa pra mim". Isso foi há pelo menos 15 ou 16 anos atrás, sabe? Jack White já disse que não compõe músicas sobre coisas dolorosas ou pessoais, porque ele precisa cantá-las o tempo todo, então, ele escreve sobre uma mistura de elementos e sobre outras pessoas. Acho isso muito interessante e legal, mas não sei como fazer. É claro que já escrevi letras que são uma mistura de coisas, mas no contexto do QUEENS OF THE STONE AGE não sei como cantar sobre outra pessoa. Simplesmente ainda não cheguei nesse ponto.
Jornalista: A canção “Insignificant Other”, um dos singles do novo disco, remonta às sessões do álbum anterior, "In Times New Roman"?
Homme: Eu tinha algumas partes prontas dela quando terminamos de gravar o disco "In Times New Roman". Dadas as circunstâncias que eu estava vivendo, teria sido muito simples compor essa música para o álbum "In Times New Roman", mas fazer um disco do tipo “coitado de mim” naquele momento não me parecia certo. Pareceu-me melhor cantar sobre a brutalidade e as arestas cortantes da vida, conferir ao álbum uma sonoridade brutal e, talvez, focar mais no mundo de modo geral. Mas eu sabia que isso servia apenas como uma preparação para tornar o álbum "Perfecth" possível. Para respirar um pouco e para ganhar um pouco de distância.
Homme: Gravamos a canção “Insignificant Other” por volta da meia-noite. A sessão já tinha acabado, era o último dia de gravação e eu simplesmente disse para o pessoal da banda: “Tenho mais uma coisa. Talvez a gente possa só fazer um esboço”. Tocamos as partes e eu fui indicando os arranjos, e o interessante de fazer isso é que todo mundo precisava olhar um para o outro. Você realmente escuta e toca em conjunto. O andamento oscila, surgem problemas de afinação, acontecem pequenos erros, mas o resultado soa, porra, tão humano, cara. Em grande parte, esse disco acabou sendo sobre nem sequer cogitar a possibilidade de corrigir qualquer coisa na mixagem. Você pode até disfarçar, como se nada tivesse acontecido, mas você sabe que aconteceu. Em um mundo onde se conserta e se corrige tanta coisa, é bom poder dizer: “Beleza, nós não vamos fazer nada disso”. Não por raiva — já existe o suficiente disso por aí — mas porque vamos simplesmente ser humanos.
Jornalista: QUEENS OF THE STONE AGE já soou tanto assim parecido com o ROLLING STONES?
Homme: Essa música tem uma pegada bem estilo ROLLING STONES mesmo. A gente falava muito sobre uma canção específica de Tom Petty, “You Got Lucky”. Ela traz aquela sensação de que é noite e as luzes estão baixas. Não estamos tocando suavemente, mas também não estamos tocando alto. Estamos apenas tocando, sabe? A música “Miss You” do ROLLING STONES também possui esta mesma sensação e isso acabou permeando todo o nosso disco.
Jornalista: A canção e último single lançado, “Where The Goth Girls At”, apresenta uma justaposição divertida entre uma orquestra e um riff de guitarra com uma pegada bem crua.
Homme: Sim, a coisa mais idiota que consigo imaginar! É algo que vem se desenvolvendo desde o trabalho que fizemos com Iggy Pop em seu disco solo de 2016, "Post Pop Depression". Eu tinha uma ideia com Iggy, tipo, se ele gritasse em uma certa parte de alguma música, por que essa parte não poderia soar tão alta a ponto de, literalmente, encobrir a mixagem? Então, foi o que fiz. Depois, no nosso álbum seguinte do QUEENS OF THE STONE AGE, "Villains" (7º disco, 2017), pensei: "Bom, que se dane". Tipo assim, quando você começa a escutar um álbum e percebe que o volume está baixo — a ponto de você precisar aumentar o som do seu aparelho para poder ouvir melhor — e de repente, acontece isso, certo? Você aumenta o som rapidamente e todo aquele som alto e estridente aparece de uma vez só. Então, por que não dar um susto nos fãs somente naquela parte da canção? Mas para o álbum seguinte, "In Times New Roman", a proposta foi outra, tipo, imagine que você está tocando uma música dentro do seu carro, mas finja que há uma orquestra tocando a mesma coisa no carro ao lado — e eles te odeiam. Eles tocam a mesma música que você, mas de repente, batem em cheio na lateral do seu carro, assumem o controle do som e depois vão embora.
Homme: Na música, “Where The Goth Girls At”, pego toda essa experiência e penso: "Nossa, este riff é tão tosco... Mas, e se ao chegar ao refrão — em vez de guitarras barulhentas e teclados altos — uma orquestra assumisse o comando?" Não é uma justaposição interessante? Adotar medidas extremas acaba sendo algo muito prazeroso. Você começa a seguir por esses caminhos e como está pensando dessa forma, coisas boas acabam acontecendo. Muita gente talvez nunca perceba nada disso do que estou falando, mas tudo bem, não estou fazendo discos para essas pessoas. Eu quero que você curta nossos álbuns, mas acho que nossos álbuns são para todos...
Jornalista: Fiquei pensando se a frase “morrer faz você se sentir vivo” tem a ver com o fato de você ter crescido em Palm Springs, California...
Homme: Sim, com certeza. Quando nós tínhamos 13 anos de idade, o shopping era o único lugar para estar naquela cidade.
Jornalista: O shopping Town Center em Palm Desert?
Homme: Sim! Você já foi lá?
Jornalista: O tempo todo. Meus avós moravam em Rancho Mirage, California, durante a maior parte da minha vida.
Homme: Ah, porra, que legal. A loja de discos, Alley Records, era de Palm Desert! E a rede de lojas, JCPenney, também ficava nesse shopping center. Sabe, eu conhecia 03 garotas góticas, sendo que duas delas eram mexicanas. Góticas mexicanas são o padrão ouro, cara. Aos 13 anos de idade, eu costumava tomar sorvete e fumar cigarros, sempre andando de skate — essa combinação é, até hoje, sinônimo de nostalgia pra mim. Eu via senhoras idosas que estavam vestidas para jogar golfe, sentadas no balcão de maquiagem dessas lojas no shopping, deixando que aquelas garotas góticas as maquiassem de um jeito super radical. Eu pensava: qual é a diferença entre esses 02 tipos de pessoas? Um dia você vai ser como elas e elas já foram como você. É só uma visão nostálgica do amor na juventude e do fascínio juvenil e da obsessão juvenil. É como se, nesta cidade, não houvesse nada para mim, mas aquelas garotas góticas, cara, elas sabiam de alguma coisa. Eu usava roupas de couro e um moicano, e em uma cidade pequena quando você se veste assim, está dizendo: "Foda-se, foda-se você e foda-se este lugar". Você paga um preço por isso e pra mim, a versão feminina dessa atitude eram aquelas garotas góticas... Eu as achava tão fortes.
Jornalista: Outra canção do novo álbum, chamada “Mono”, soa como algo que você escreveu por impulso e depois gritou bem alto sem motivo aparente.
Homme: (risos) Essa é mais uma, provavelmente de 2021, gravada no cômodo acima da minha garagem. Ela captura uma dor profunda em tempo real, momentos em que preciso parar de cantar porque desabo e tudo fica desafinado e fora do tempo. O som é meio uma porcaria, mas é exatamente esta a sensação. É o mais próximo que consegui chegar da sonoridade de estar com o coração completamente partido. Mesmo concordando com Jack White, não me importo de cantar sobre isso. No fim das contas, prefiro encarar estes sentimentos de frente a fingir que eles não existem. Não estou dizendo que é isso que White faz, mas é o que eu faço.
Jornalista: Depois, há uma referência aos BEATLES da fase do "White Album" na música “From The Cliff”. Não me lembro do QUEENS OF THE STONE AGE ter soado tão marcado pelo bater de pés ou tão acústico assim.
Homme: Não, mas sempre tive vontade de tocar algo assim. O nosso baixista, Michael Shuman, compôs essa música quando estávamos em New Orleans. Ele estava na sala de controle do estúdio tocando esse riff. É parecido com o que acontece na minha banda paralela, EAGLES OF DEATH METAL. Nosso frontman, Jesse Hughes, traz os riffs e quando um deles me chama a atenção, eu digo: "Meu Deus, podemos fazer isso ou aquilo". Estou sempre tentando mostrar aos caras que eles devem trazer o que quiserem, porque se algo saltar aos meus olhos, a gente vai tocar. Sempre quis tocar uma música sobre amor, no estilo de "I Want to Hold Your Hand" dos BEATLES. Sim, tem uma pegada meio BEATLES. É simples, ingênua e pura. Não tenho mais medo de dizer algo assim sem rodeios poéticos, sabe? E justamente por isso, acaba sendo poético da mesma forma. Muitas vezes, fico obcecado tentando encontrar as palavras certas, mas no fim, acabo usando apenas um "é isso". É muito raro quando todas as palavras surgem de uma vez só, tipo, dá para contar nos dedos... A canção "Go With The Flow" (3º disco, "Songs For The Deaf", 2002) foi um desses casos. A gente se sente muito sortudo às vezes e Johnny Cash tinha uma frase ótima, ele dizia que não era o criador da música, mas sim quem a entrega. Em grande parte, você funciona como um mordomo, fica esperando o telefone tocar para preparar um chá e levá-lo lá para cima. Se você ouvir o álbum "Perfecth" com atenção, vai perceber que ele é autêntico e que representa o melhor que posso oferecer.
Jornalista: Você e Iggy Pop já tinham gravado a música “Sunday” para o álbum solo de Iggy de 2016, "Post Pop Depression". O que você buscou na sua própria versão lançada aqui no álbum "Perfecth" que pudesse oferecer um contraponto à dele?
Homme: Precisávamos de algo vibrante e efervescente. A track-list desse disco surgiu naturalmente e foi o mais fácil de fazer em... Nem sei dizer há quanto tempo. Quando compus as partes principais da canção “Sunday” lá em 2016, eu quase a guardei para mim, mas na manhã seguinte, no estúdio em Joshua Tree, California, eu falei para Iggy: “Eu te amo e quero que saiba que você tem direito a tudo o que tenho a lhe oferecer, e a única forma de provar isso, é confessar que eu pretendia ficar com essa música para mim. Se um dia eu precisar dela, farei uma regravação". O pessoal da minha banda não ficou muito entusiasmado com a ideia de regravarmos a canção "Sunday" para o disco "Perfecth", afinal, a familiaridade excessiva pode gerar certo desdém e eu compreendo isso. Mesmo assim, conseguimos uma gravação musical excelente, mas percebi que eu estava apenas imitando Iggy Pop, quando de repente, me veio um estalo: a sonoridade dela remete à disco music francesa dos anos 70. Comecei a ouvir em minha mente um turbilhão de contra melodias e torci para que esta canção fosse lançada no álbum, e assim que a remodelamos e terminamos a mixagem, estávamos todos dançando na sala de controle do estúdio.
Jornalista: O que a cantora country Nikki Lane trouxe para a música “Easy Street”? Single principal do álbum "Perfecth".
Homme: Obviamente, não somos Crosby, Stills, Nash & Young, mas essas letras possuem uma força própria. Tudo se baseia em um desejo: "Quem dera eu pudesse encontrar a 'easy street', e se encontrasse, prometo que te diria onde ela fica. E se você a encontrar, jure que vai me contar. Será que podemos ir juntos?" Por isso, senti que a música precisava de uma contraparte feminina. Gravei com Nikki e de certa forma ela salvou a minha vida ao me convidar para trabalhar com ela. Eu estava passando por um período terrível e ela realmente me reergueu e me deu uma oportunidade. Ela é uma pessoa forte, poderosa e com um perfil de liderança nato — alguém que assume o comando. Nunca tínhamos feito um dueto e no fim das contas, trata-se de fazer algo que eu ainda não tinha feito, mas de uma maneira que ainda soa com a cara do QUEENS OF THE STONE AGE.
Jornalista: Você mencionou anteriormente a questão de “nada de poesia”, e a música “Phantom Limb” não apresenta muitos artifícios. Por acaso, trata-se de uma espécie de viagem guiada por substâncias psicoativas?
Homme: Criei esta canção em janeiro de 2026, para começar o ano. São explorações interiores, e uma vez me disseram que meu organismo metaboliza rapidamente drogas e medicamentos (risos), então, acabo consumindo 09 ou 10 gramas de cogumelos. É uma dose considerável, como se fosse uma combinação de MDMA puro com injeções de cetamina. É um mergulho bem profundo, sabe? Aprender a aceitar e deixar fluir foi a minha marca registrada deste ano. Se você quer qualidade, precisa estar presente. Se tem filhos, precisa se ajoelhar e olhar para eles na altura dos olhos deles. “Phantom Limb” foi outra música que gravamos de uma só vez. Cheguei um dia em casa às 8:00hs da manhã e criei essa música, quando era 15:30hs da tarde, ainda sob o efeito dessa experiência e envolto por aquela sensação de acolhimento, já tinha um carro me esperando para me levar ao estúdio. Estavam todos lá aguardando minha chegada e eu já tinha decorado as letras: “Não há poetas aqui para interferir”. Sei que, ironicamente, essa é uma das coisas mais poéticas que já disse, mas a mensagem era: "Não vou atrapalhar a mim mesmo com palavras rebuscadas, tentando intelectualizar demais o simples ato de dizer 'eu te amo'”. Algumas palavras são difíceis de pronunciar, sabe? Além disso, eu estava escutando muito ALICE IN CHAINS nessa época e acho que, abrindo um parênteses aqui, quando eu era mais jovem e arrogante, não conseguia admitir para mim mesmo que gostava do ALICE IN CHAINS. A força de suas harmonias e da voz de Layne Staley (falecido vocalista original) somada à técnica apurada de Jerry Cantrell na guitarra... Sabe, precisávamos lançar esta canção no álbum, porque é um som de rock ‘n’ roll conduzido pelo violão.
Jornalista: Dave Grohl está de volta à bateria na música de encerramento do álbum, “Run Away From The Mob”. Por que essa foi a melhor maneira de finalizar o disco e por que esta canção demorou tanto para ser concluída e lançada em um ábum do QUEENS OF THE STONE AGE?
Homme: Ela já tem 25 anos e essa gravação é de 2013, eu acho... Às vezes, quando eu tinha algo que ainda não estava totalmente pronto, eu forçava a finalização. E assim, eu sabia, lá no fundo, que por ter forçado, o resultado ficava pelo menos uns 20% pior. Dave Grohl me disse: "Nem toda música precisa ser a sua melhor música". E eu respondi: "Por quê? E se for? A gente simplesmente não sabe". Então, depois de ter forçado a conclusão de algumas músicas anteriormente, pensei: "Sabe de uma coisa? Eu não tenho a competência necessária para terminar isso. O problema sou eu e essa música tem um potencial enorme". Eu optava por não finaliza-la e nem escutava mais, mas de vez em quando eu a cantarolava para mim mesmo, só para ver se a essência ainda estava lá. A gravação dela já estava toda pronta e faltava apenas as letras e definir como seria a melodia vocal.
Homme: Tendo passado por situações em que estive perto da morte, não me dei conta de que, na verdade, era uma carta para o meu filho do meio, do tipo: "Se eu não estiver mais aqui e tudo for para o espaço, eis o que você precisa saber". É a música de encerramento perfeita, porque certas progressões de acordes simplesmente remetem a algo como a canção "Hallelujah" de Leonard Cohen. Temos uma outra música lançada no álbum "In Times New Roman" chamada "Made to Parade", cujo final transmite a sensação de mãos estendidas e algo que eleva o espírito. E a canção “Run Away From The Mob” traz isto ta)mbém. Sonoramente, ela carrega um certo otimismo, mas as letras não condiz com sua sensação sonora.
Jornalista: Você teve tempo suficiente para refletir sobre onde o disco "Perfecth" se encaixa no catálogo do QUEENS OF THE STONE AGE, ou sobre o que, especificamente, faz com que você se orgulhe dele?
Homme: Acho que tudo se encaixa no lugar certo. Não teria sido possível chegar até aqui sem todas essas outras vivências. Já fui de tudo um pouco na vida: metido, fora de mim, firme, confiável e totalmente indigno de confiança. Mas a maior lição que tirei dos últimos anos é que quero saber ouvir. Não quero deixar passar nada importante que venha das pessoas que eu realmente amo e não quero que essas coisas escapem aos meus ouvidos e se percam no nada. Esse disco chegou no momento certo para nós, porque sua essência está em se colocar de joelhos e encontrar as pessoas onde elas estiverem. Foi preciso passar por tudo o que passei para chegar a esse ponto e criar esse trabalho. Sinto muito orgulho dele, porque, no fundo, tudo se resume a algo simples e fazer algo que você acha legal. Já não estamos mais preocupados em fazer parte do mainstream, portanto, isso nem chega a ser um ato de revolta ou algo do tipo. Tapetes vermelhos e estádios lotados não são o meu foco aqui.
Jornalista: Ouvi recentemente o disco homônimo de estreia e o único do THEM CROOKED VULTURES (2009), em alto volume e com os vidros abertos da minha casa em Los Angeles, e não pude deixar de me perguntar se você, Dave Grohl e John Paul Jones (baixista do LED ZEPPELIN) poderiam vir a gravar outro álbum?
Homme: O que é ótimo nessa turnê que estamos fazendo abrindo os shows do FOO FIGHTERS, é que a gente se apresenta em um dia, e no outro não. Dave tem alugado um carro e nós 02 saímos para viver aventuras. Vamos tomar café da manhã o tempo todo, coisas assim, mas é diferente quando estamos só nós 02, passando 07 horas do dia juntos, ali, na companhia um do outro. Conversamos sobre todo tipo de assunto e ambos entendemos como seria legal dar mais uma volta nessa história com o THEM CROOKED VULTURES. Então, é algo que, sem dúvida, está sendo conversado. Cada um de nós possui suas funções e não cabe a mim organizar tudo. Cabe a Dave pegar o telefone e fazer isso acontecer. Vejo John Paul Jones com frequência e sei que existe esse desejo nele também. É bem parecido em entrar numa brincadeira de pular corda, tipo, você não quer levar uma chicotada da corda na sua cara, então, a questão é justamente saber como entrar no ritmo antes de mergulhar fundo.
Jornalista: Para finalizar nossa entrevista, você e Dave estão resolvendo tarefas rotineiras nesses dias de folga ou estão embarcando realmente em alguma aventura?
Homme: Fomos até um cemitério em Ohio e encontramos o túmulo da avó dele e vimos a casa onde ele passou a infância. Depois, levei-o à loja Bass Pro Shops pela 1ª vez na vida dele, e logo depois, encontramos uma loja de fogos de artifício que era enorme. Éramos os únicos ali dentro e gastamos um dinheirão (risos). É muito bom poder estar a sós com ele, apenas como amigos, sabe? Às vezes, é difícil conseguir esse tempinho só para nós. Conheci Dave quando eu tinha 19 anos de idade, e de lá pra cá, passamos por todo tipo de loucura juntos. É algo difícil de entender, de conciliar e de lidar, mas é justamente isso que torna nossa amizade tão valiosa. Significa muito pra mim, porque, afinal, quem mais me entenderia?
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