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Ayron Jones: você conhece esse guitarrista solo de Seattle?

by Brunelson
há 9 minutos
10 min de leitura

Confirma matéria e entrevista que a revista Spin fez com o guitarrista solo de Seattle, Ayron Jones:



Com licença, para quem ainda não conhece: Ayron Jones.


Após 03 anos, o roqueiro de Seattle retorna com um álbum que fará todo mundo parar para prestar atenção.


Quase 100 anos depois de Robert Johnson ter feito sua mítica jornada até a encruzilhada, Ayron Jones viu-se diante de um dilema semelhante alguns anos atrás. Não foi em um cruzamento emblemático no Mississippi, mas sim, em sua terra natal, Seattle, no momento em que o roqueiro buscava um novo rumo a seguir. Felizmente, ele soube tomar uma decisão melhor do que fazer um pacto com o diabo.


Jones percebeu que não precisava vender sua alma. Ele só precisava se livrar de um contrato com uma grande gravadora que o estava destruindo. Com essa transação concluída em 2023, ele realizou um dos atos de desaparecimento para aprimorar ainda mais sua arte com seu colaborador, Marti Frederiksen, e agora retorna com um novo nível de domínio em seu álbum, "Excuse Me". A ser lançado em 26 de fevereiro de 2027 pelo selo independente, Thirty Tigers, este é o 1º álbum de Jones em 03 anos.


“Foi aí que eu realmente comecei. Posso ter feito sucesso nas rádios de rock com músicas como 'Blood in The Water', mas também venho desse universo do blues”, disse Jones.


"Blood in The Water" (4º disco, "Chronicles of The Kid", 2023)


“Sério, pergunte a todos os caras do blues da minha faixa etária — e até aos mais velhos — eles sabem quem eu sou, porra. Eu estava na cena blues antes de qualquer outra coisa”, acrescentou Jones com firmeza, relembrando a época em que abria shows para os saudosos B.B. King e Jeff Beck por volta de 2014, quando ele tinha apenas 28 anos de idade e dava seus primeiros passos como músico profissional em clubes noturno pelo Noroeste do Pacífico americano (Seattle e região). 


“Pra mim, era importante resgatar essas raízes nesse novo disco. Acho fundamental falar sobre de onde eu vim”.


A capa do álbum é o primeiro ponto de contato (foto). Com um filtro em preto e branco granulado e uma fonte retrô na cor mostarda, ela parece uma peça resgatada de arquivos. No centro, Jones aparece com uma guitarra pendurada no ombro em um gesto de proteção — como uma mãe que carrega o filho pelo quadril. Ele caminha por um beco rústico, com escadas de incêndio ao fundo e poças d’água sob os pés. Seu olhar, levemente enviesado, parece dizer: “Venha comigo, que aqui tem coisa boa”. Se você ouvir o disco com atenção, não vai se arrepender. O talento de Jones para o blues transborda das caixas de som na contundente canção “Freedom” e se faz presente no lamento da guitarra na música “When My Day Comes”, uma canção que evoca os grandes mestres do gênero com uma precisão amplificada.


Mas o blues é apenas uma das sonoridades que Jones explora em seu disco de retorno: “Tenho minhas próprias regras”, declara ele, exercendo plenamente sua autonomia como um artista livre. “Esse disco não se prende a nenhum conceito nem a um gênero específico. Eu só queria criar um álbum que reunisse tudo o que amo na música”.


Isto se traduziu em uma paleta vibrante que abrange rock ‘n’ roll, soul music, metal, hip-hop e claro, a rica sonoridade de Seattle que permeia o cotidiano de Jones. É inegável que a canção de abertura, “Strike of a Match”, carrega aquele tédio angustiado típico do Big 4 do grunge (NIRVANA, PEARL JAM, ALICE IN CHAINS e SOUNDGARDEN), enquanto a intensa e melódica música, “Glad You Came”, revela-se uma descendente ainda mais evidente — chegando a tocar, quase tateando, o universo do ALICE IN CHAINS para capturar o DNA da banda.


Embora Jones tenha nascido em 1986, por volta da época em que o NIRVANA e o SOUNDGARDEN davam seus primeiros passos, ele foi acolhido no círculo mais próximo à medida que seu talento começou a ser comentado pela cidade. Na verdade, foi o rapper e produtor de Seattle, Sir Mix-A-Lot, quem descobriu a 1ª banda de Jones, Ayron Jones and The Way, em um bar pequeno e simples de Seattle.


“Ele foi a primeira pessoa que me ajudou a produzir um disco independente e a me colocar na composição”, lembrou Jones. “Essa foi a primeira vez que aprendi sobre estrutura e composição musical”. Essa conexão acabou criando um caminho para Barrett Martin, baterista do SCREAMING TREES, que logo se tornou um mentor importante.


“Barrett foi a pessoa que me ensinou o que significava ter uma sonoridade típica de Seattle… Os timbres que venho usando desde os meus discos independentes, foi Barrett quem me ensinou, por exemplo, que, se você conectar sua guitarra a um alto-falante Leslie, obtém aquele som com uma pegada grunge meio aquoso, sabe?”


A partir daí, lendas de Seattle como Duff McKagan (baixista do VELVET REVOLVER), Mike McCready (guitarrista do PEARL JAM, TEMPLE OF THE DOG e MAD SEASON) e Matt Cameron (baterista do SKIN YARD, SOUNDGARDEN, TEMPLE OF THE DOG e ex-PEARL JAM) tornaram-se rapidamente aliados e grandes incentivadores: “Sean Kinney (baterista do ALICE IN CHAINS) trouxe maconha aqui em casa ontem e depois fomos buscar meu filho na escola... É assim que as coisas são em Seattle”, conta Jones, rindo, o que evidencia ainda mais os laços profundos que continuam a existir naquela comunidade.


A prova desse vínculo está nas paredes de sua casa. No cômodo de onde ele está sendo entrevistado, é impossível não notar uma galeria de fotos em destaque logo atrás dele: “A maioria é de mim mesmo, porque sou um desgraçado egocêntrico”, brincou ele, uma fala que, curiosamente, acaba soando humilde, ainda que seja verdade. Mas considerando a origem, o “museu” particular de Jones tem um caráter mais documental do que de auto-exaltação. Todas as imagens foram feitas por sua grande amiga, Karen Mason Blair, uma fotógrafa icônica que acompanhou, de camarote, os primórdios da cena grunge de Seattle.


Mason Blair registrou fotos promocionais raras do MOTHER LOVE BONE (a banda pré-PEARL JAM), bem como o 1º show do PEARL JAM, além de imagens do NIRVANA que estamparam capas de DVDs ao vivo. Ela também fez as primeiras fotos do ALICE IN CHAINS para a revista Rolling Stone. Entre as imagens de Jones — que incluem tanto registros ao vivo quanto retratos — a mais antiga é de 2015. Uma foto marcante em preto e branco tirada: “Na época em que eu ainda tinha uma linha de mandíbula bem definida”, comentou Jones, rindo. A imagem está pendurada perto de um pôster de outro de seus ídolos de Seattle, o nativo Jimi Hendrix, cujo estilo de tocar com o uso de pedais wah-wah e uma mistura de blues rock, serve como uma referência constante para o trabalho musical de Jones.


“Sem a família Hendrix, eu realmente não estaria aqui”, admitiu Jones. “Foi isso que me inspirou a me tornar um artista daquele ponto em diante, porque antes disso eu tinha uma ideia, mas vendo o que Jimi Hendrix fazia, pensei: 'Cara, é isso que tenho que fazer'. Então, sim, sem a família Hendrix e todas essas coisas acontecendo, eu não estaria aqui. E é por isso que é tão importante para mim continuar esse legado. Não apenas como pessoa, mas também no meu som. Eu faria um péssimo serviço a mim mesmo se todas essas pessoas estivessem envolvidas na minha carreira e eu dissesse: 'Ah, sim, vamos tocar alguma música emo então”.


Nada disso deveria ter acontecido com Jones. Ele se autodenomina, com modéstia, “o ‘Quem Quer Ser um Milionário?’ do rock ‘n’ roll”. Como ele mesmo explicou: “Se você observar a elite da indústria musical, verá um bando de jovens que foram preparados e criados para estar ali. Eles foram treinados como ‘garotos Disney’ e tiveram pais que eram isso ou aquilo na sociedade. E aqui estou eu, um garoto que veio das ruas, mas que encontrou um jeito de entrar nesses ambientes e de ficar diante de pessoas que poderiam me ajudar”.


Jones descreve seu pai como um “gângster e cafetão” que nunca estava presente na infância, e sua mãe como uma “jovem impressionável” de 19 anos de idade que lutava contra o vício em drogas e álcool. Ele foi legalmente emancipado de seus pais biológicos aos 07 anos de idade e criado por uma tia que “fez um ótimo trabalho”, embora eles entrassem em conflito com frequência: “Eu a considero uma figura materna, mas sabia que não era filho dela e sentia isso vindo dela”, ele acrescentou, algo que Jones compreende melhor agora que também é pai de 05 filhos.


Naturalmente, a música tornou-se seu refúgio: “Eu simplesmente mergulhei de cabeça nisso”, referindo-se à composição musical. O frisbee também se tornou uma válvula de escape - Jones é campeão na modalidade e conquistou uma medalha pela equipe dos EUA no Campeonato Mundial de 2008.


Quando criança, ele aprendeu a tocar piano por conta própria e por puro tédio: “Naquela época, só tínhamos acesso à TV aberta, porque não tínhamos condições de pagar por TV a cabo”. Logo depois, vieram o violino e o violão, mais ou menos na mesma época em que um professor de línguas e literatura despertou seu interesse pela poesia. No projeto de conclusão do ensino médio, Jones já havia composto um set completo para uma orquestra, sincronizada com sua execução no violão: “Eu fazia essas coisas ainda muito jovem. Olhando para trás, percebo que era uma forma de escapar da minha realidade, antes mesmo de ter idade suficiente para sair de casa e seguir meu próprio caminho. Pra mim, a música era isso... E ainda é”.


Muitas dessas provações e lições da infância serviram como matéria-prima natural para seus 02 primeiros álbuns de estúdio pela grande gravadora Big Machine, que foram "Child of The State" (3º disco, 2021) e "Chronicles of The Kid" (4º disco, 2023). Ambos tiveram um bom desempenho, especialmente nas rádios, somado a turnês em que abriu shows para o ROLLING STONES. Esse trabalho ajudou a consolidar Jones como uma nova força de peso. 


Em 2022, ele foi indicado na categoria de "Melhor Novo Artista de Rock" no prêmio iHeartRadio Music Awards, sendo que 01 ano antes, ele se tornou o primeiro artista solo negro a alcançar o 1º lugar na parada Mainstream Rock do ranking da Billboard, com a música "Mercy". É um feito que ele trata com naturalidade. 


"Mercy" (3º disco)


"De certa forma, essa é a realidade da população negra nos EUA. Estamos sempre enfrentando adversidades, superando obstáculos e conquistando essas vitórias por conta própria. Se o mundo quiser tirar um tempo para celebrar isso, ótimo, mas no fim das contas, não foi por isso que fizemos. Fizemos por amor à música".


Com seu novo álbum, "Excuse Me" (5º disco, a ser lançado em 2027), fica claro que Jones atingiu a plena maturidade artística: “Era para ser uma trilogia”, diz ele sobre sua última série de 03 álbuns. “De fato, essa era toda a premissa. Se eu tivesse permanecido na gravadora Big Machine, acho que provavelmente teria sido assim também. É na verdade, a evolução de Ayron Jones”.


Na verdade, ele quase deu ao novo álbum o nome de Ayron Jones: “Mas meu empresário disse: ‘Então, você vai ter um álbum chamado 'Ayron Jones', do Ayron Jones?’. E eu respondi: ‘Ah, não’”.


Além disso, o nome "Excuse Me" reflete uma mudança de atitude que permeia todo o álbum, podendo ser educado e convidativo, ou extremamente grosseiro: “É as 02 coisas, tipo: ‘Aqui estou eu. Estou de volta à minha rotina no cenário independente, o qual eu nunca fui embora’. Mas também é como estar em uma sala cheia de gente, exigir a atenção de todos e dizer: ‘Com licença, tem pessoas sofrendo agora e é importante que elas sejam ouvidas’”.


Fiel a essa proposta, Jones preenche as 10 músicas do seu novo álbum com narrativas sobre ansiedade, raiva, existencialismo e desigualdade, tudo isso embalado em elegias sobre as adversidades da vida aprendidas com os mestres do blues: “É uma forma simples de contar histórias e é algo de fácil assimilação. É um jeito de fazer com que as pessoas realmente se envolvam com o que você está criando, consigam cantar junto e sintam a sua música”, resumiu Jones, referindo-se ao que aprendeu com os grandes nomes do gênero. “Você quer oferecer algo que as pessoas possam sentir e levar para casa algo que seja real”. 


Mas as canções também carregam o peso característico da sonoridade de Seattle: “A realidade parece sombria para muita gente, assim como era nos anos 90 para muitos jovens daquela época... E senti que era importante falar sobre tudo isso”.


Com a canção, “Strike of a Match”, o álbum começa apresentando a visão sombria sobre o ciclo “nascer-estudar-trabalhar-morrer”. Jones admitiu: “A base dessa mensagem é que nós vamos morrer. Ponto final”. Mas fiel ao seu estilo característico de compor letras com duplo sentido, a ideia de riscar um fósforo não se refere apenas a acender a chama que faz tudo implodir. Pode ser também um incentivo para: “Bater enquanto o ferro está quente”, com Jones complementando. “De fato, a música aborda o barril de pólvora sobre o qual estamos sentados agora. Basta um detalhe e tudo desaparece”, explicou ele com um estalar rápido de dedos. “Então, o que você vai fazer agora?”


Ao longo do álbum, Jones reflete sobre relacionamentos e sobre a dificuldade de conhecer pessoas em nossa atual bolha de isolamento, vide a música “Glad You Came”, além de levantar o véu sobre a indústria do entretenimento e sua capacidade de desviar a atenção da crescente disparidade de riqueza na densa canção “Hollywood”.


“Só quero que todos percebam que o orgulho americano nunca pertenceu a uma pessoa ou a outra. E é possível ter orgulho do seu país e ainda assim desejar que as coisas mudem”.


Mas em meio aos comentários inevitáveis, o disco "Excuse Me" também deixa aos ouvintes mensagens poderosas de esperança. A música, “A la Prochaine”, fortemente influenciada pelo artista Prince, é o exemplo mais evidente. Um testemunho carregado de sentimento de que o tempo cura e segue um fluxo contínuo que sempre reunirá as pessoas, não importa o quanto nos afastemos.


Ao longo dos anos, Jones passou bastante tempo na França, onde conquistou uma base de fãs fervorosa e aprendeu o idioma, sendo essa expressão em particular que lhe marcou profundamente: “'A la prochaine' foi uma das primeiras frases que aprendi, e é, provavelmente, a mais profunda. É como um ‘até a próxima’, mas em que o tempo fica subentendido”, explicou ele, relacionando o termo ao momento em que se viu em uma encruzilhada em sua carreira e na vida em geral, ciente de que tinha 02 opções a escolher: estagnar ou seguir em frente. 


Para finalizar sua ideia, Jones concluiu: “Pra mim, era como dizer: 'Se não nos encontrarmos nesse mundo, nos encontraremos no próximo... É uma mensagem de esperança e a percepção de que a vida simplesmente continua para sempre. Não vamos perdê-la”.


"Take Me Away" (3º disco)


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