• by Brunelson

Jimi Hendrix: após 50 anos de sua morte, ele ainda é o maior guitarrista de todos os tempos?


Explorador psicodélico, filósofo místico, estilista esperto e lenda do rock. Cinquenta anos após a sua morte, Jimi Hendrix inspira uma nova geração.


E antes de iniciar esta resenha, para responder o título desta matéria não iremos focar somente na já explorada e reconhecida questão musical de Jimi Hendrix...


Você não precisa chamar um teórico para entender Jimi Hendrix, mas não é um mau começo: "Isso vai soar meio nerd", ri Phil Bywater, um professor de música do Australian College of The Arts, da cidade de Sydney, Austrália, quando questionado sobre a essência do legado do falecido maestro do rock. "É o acorde dominante com a 7ª e 9ª sustenido".


Mas não se preocupe, Jimi Hendrix também não conhecia teoria musical.


Ele não inventou o punhado de notas que usava para levar o seu nome, ele apenas nos mostrou como sacudi-las. Clássicas músicas de Hendrix comprovam o seu poder e atemporalidade, como "Purple Haze" e "Foxy Lady" (ambas lançadas no 1º álbum de estúdio, "Are You Experienced", 1967).


O professor da escola de música continuou, referente a estas duas canções: "Este som combina o conceito de Jimi Hendrix sobre harmonia, timbre, o seu desejo de chocar, tipo, eles estão todos conectados nesses acordes".


Este microcosmo apenas sugere o universo de inspiração que James Marshall Hendrix entregou quando deixou este planeta aos 27 anos de idade, em um 18 de setembro de 1970 - fazendo 50 anos amanhã. Desde sempre, Hendrix é quase vencedor de todas as pesquisas de "Melhor Guitarrista" já publicadas.


"Os seus riffs eram uma escavadeira funk rock pré-metal e as suas linhas principais eram uma viagem elétrica de ácido LSD até a encruzilhada onde ele literalmente fazia a sua guitarra falar", refletiu uma vez o guitarrista do RAGE AGAINST THE MACHINE, Tom Morello, para uma entrevista à revista Rolling Stone.


"Foi como se ele tivesse descoberto um novo instrumento em um novo mundo de impressionismo musical", complementaria o guitarrista do THE WHO, Pete Townshend, maravilhando-se em seu livro de memórias.


Depois de 50 anos, quando o pioneiro das seis cordas de Seattle deu o último tapa em seu acorde musical, vale a pena se perguntar o que tudo isso significa até hoje.


Desde as últimas décadas, o rock'n roll foi totalmente rodeado pelo hip-hop, boy e girl bands, música eletrônica e com ferramentas digitais que há muito tempo eclipsaram a guitarra na fronteira da criação musical. Os períodos cibernéticos de atenção atomizados não têm tempo para voos extravagantes de musicalidade virtuosa.


"Os meus pais são daquela geração 'baby boomer' (bebês nascidos pela geração hippie dos anos 60) onde todos amam PINK FLOYD, LED ZEPPELIN e Jimi Hendrix, sendo que todos estes artistas ainda possuem uma grande influência no 'guarda-chuva' de gerações", disse o professor da escola de música. "Todos estes artistas dos anos 60 possuem esse tom 'overdrive' característico em suas músicas, onde muitas pessoas têm tentado igualar durante todas as suas vidas inteiras e chegando até a atual geração".


Jimi Hendrix provavelmente aprovaria a declaração de missão deste jovem professor: "Estou apenas em uma grande aventura sonora, mais do que ter inspirações específicas ou ter um ídolo, eu apenas gosto de paisagens sonoras".


Darren Hart é outro jovem multi-instrumentista prolífico da mesma escola de música que se baseia mais literalmente na aparência, som e energia de Jimi Hendrix. Mais uma vez, a homenagem é difícil de ignorar ao relacionar a guitarra sendo tocada atrás da cabeça, curvada para trás, de joelhos ou com a boca, vendo o estudante vestido com jaqueta amassada de veludo e de cabelo comprido.


“Eu me lembro quando estava aprendendo guitarra na adolescência, a sensação de alegria finalmente acertando alguns daqueles riffs e licks icônicos foi muito motivacional para mim”, diz ele. "Também é muito gratificante ver outras pessoas descobrindo o trabalho de Jimi Hendrix pela primeira vez".


“Eu queria fazer isso”, continua Hart, “tentar abrir a sua música e iluminar o seu legado para uma geração nova ou mais jovem que pode não ter ouvido ou não estar tão familiarizada com quem ele era e o que ele queria dizer".


E o que foi isso exatamente? A palavra "liberdade" aparece fortemente na maneira revolucionária com que Jimi Hendrix usou o seu instrumento, mais como uma extensão de si mesmo (da sua alma) para verbaliza-la num equipamento elétrico. Foi um ato contínuo de rebelião contra as limitações físicas e por extensão, contra as leis do universo musical.


Apesar disso e incrivelmente falando, no auge de sua fama, Jimi Hendrix havia dito numa entrevista: "A música que posso ouvir em minha cabeça eu não consigo entende-la na guitarra. Eu gostaria de unir estilos diferentes, como Handel e Bach ou Muddy Waters e música flamenco... Se eu pudesse conseguir esse tipo de som, ficaria muito feliz".


Transportando para os tempos modernos essa linha de pensamento que Hendrix gostaria para o seu som no futuro, sabemos que é fácil se perder na tecnologia atual. Para o professor da escola de música, o legado de Hendrix em contraste com a atualidade é: "Sobre a tecnologia ser equilibrada, centrada e conectada à sua arte, a nível pessoal, emocional e espiritual".


E aqui está o ponto principal. Depois que a tecnologia surgiu e todos os pedais de guitarra foram usufruídos e dissecados como uma preciosa coleção de avós, é a dimensão visionária que mantém artistas atuais ainda retornando às gravações de Jimi Hendrix como portais para possibilidades futuras.


“Isso é definitivamente algo que o hip-hop e a música eletrônica ainda extraem de Jimi Hendrix”, continua o professor. “Quando estou trabalhando com um artista e falamos sobre conseguir alguma vibração 'Hendrix', não estamos necessariamente falando sobre guitarra... Estamos falando sobre um clima ou uma energia".


“Jimi Hendrix é quase como um Jedi ou uma figura mística. Há tanta liberdade, criatividade e senso de exploração em sua arte, que independentemente do gênero musical, é uma grande inspiração para você olhar em sua própria prática artística e dizer: 'Por que ainda estou dentro desta caixa? O que eu posso fazer para ir mais fundo?'"


A referência ao Jedi não foge das comparações, mas para o bem ou para o mau, a precoce morte de Jimi Hendrix - uma carreira ainda tão cheia de promessas - é também a chave para o que o torna tão atraente até os dias de hoje.


O professor acrescentou: "Sempre haverá uma mística sobre qualquer pessoa que morre cedo. De qualquer maneira, há um certo nível de mística sobre os artistas da era pré-internet, porque para a geração atual muita coisa é boato e rumores..."


Talvez usando uma das frases que mais sintetizam os confrontos de eras, o professor afirmou: "Hoje em dia, não há mais mística nos artistas. É apenas exposição máxima, certo? Eu gosto da mística. É legal e você sempre terá perguntas intermináveis quando alguém não lhe deu tudo de graça. Você vai manter gerações inspiradas porque elas não sabem das respostas".


E como seria Jimi Hendrix em tempos atuais?


A pergunta soa como inspiração eterna, mesmo que a resposta pudesse ser desanimadora se ele ainda estivesse conosco.


"Hendrix poderia ter uma atitude muito 'descuidada' no palco, o que era comum nas bandas de rock da época e isso poderia se tornar uma confusão", lembrou Stuart Penney, um escritor musical nascido na cidade de Sheffield que viu Jimi Hendrix se apresentar 04 vezes, incluindo a sua última aparição no Reino Unido que foi no Isle of Wight Festival, duas semanas antes da sua morte.


Hoje em dia, escrevendo um blog como testemunha ocular sobre a época de ouro e os músicos do rock, Penney contou uma história no mínimo curiosa que presenciou no Saville Theatre, em Londres, quando estava perto o suficiente para ver o roadie de Jimi Hendrix substituir uma barata guitarra Fender Mustang que Hendrix estava tocando, por uma Fender Stratocaster (que era a sua marca registrada de uso), pouco antes de Hendrix a destruí-la no final do show. “Financeiramente falando, Hendrix deve ter tido uma semana tranquila”, observou Penney.


Porém, os fragmentos de memórias sobre Jimi Hendrix também registram indignidades semelhantes.


Um show em 1968 na cidade de Atlanta, EUA, "foi uma chatice", disse Penney. “Quem quer ficar sentado numa viagem de avião para chegar na hora do show e ver as pessoas da platéia gritando o tempo todo para Hendrix: 'Você vai queimar a sua guitarra esta noite?' Tipo, que merda é essa, cara?"


Essa merda é o showbiz e Jimi Hendrix provou o melhor e o pior disso. Em sua ascensão de 04 anos como uma força musical, é difícil pensar em muitos aspectos do clichê de rockstar que Hendrix não abraçou e finalmente, é claro, tropeçou. “Mas não me lembro de ter ficado desapontado neste show, porque musicalmente, Hendrix estava fantástico".


Voltando para a capital da Austrália em Sydney, a estilista de moda, Monique Moynihan, vê Jimi Hendrix em várias bandas com as quais ela trabalha. "Vários artistas deste século atual estão na vanguarda desse estilo de moda eclético e frequentemente extravagante que Jimi Hendrix deixou para trás, mas com um toque da geração cibernética. Os babados, o veludo, as flores nas camisas, tipo, embora estes artistas não se referem diretamente ao seu estilo musical, definitivamente foram inspirados pelos seus looks mais extravagantes".


“A indústria da moda em geral está constantemente se referindo a ele”, acrescentou a estilista. "Vestimentas que se tornaram icônicas são refeitas anos após anos, e toda a coleção da Gucci deste ano assumiu as rédeas a uma ode à era Hendrix do rock boêmio".


Então, caros leitores, o acorde de Jimi Hendrix ainda ressoa até os dias de hoje, conforme o professor de artes complementou: "Pare para pensar: estamos a 1/5 do caminho através do século 21, mas para mim e para a grande maioria dos meus amigos músicos, somos criaturas profundas do século 20".


"Para a minha geração, Hendrix ainda é o núcleo das coisas, mas posso ver que para a atual geração de alunos que estou ensinando, também há um visual e uma certa atração por celebridades como Hendrix e outros da época, mas há menos conexão direta com a música".


E se após 50 anos da morte de Jimi Hendrix a história do rock nos ensinou alguma coisa, é que, eventualmente, tudo volta ao normal.


"Na verdade, estamos tocando para que o nosso som entre na alma das pessoas, para ver se elas conseguem despertar algum tipo de coisa em suas mentes, porque existem muitas pessoas que ainda estão dormindo".


A frase acima foi dita por Jimi Hendrix num programa de auditório em 1969... Realmente, tão atual e moderna como carecem os dias de hoje.

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