Nação Zumbi: a dissertação no encarte do álbum "Rádio Samba"

June 18, 2018

 

Em 2000, a banda NAÇÃO ZUMBI lançava o seu 4º álbum de estúdio (o 2º sem o risonho Chico Science nos vocais), “Rádio Samba”. 

 

E no encarte do livrinho que acompanha esse disco, contém uma dissertação sobre os tempos modernos cibernéticos que já estavam em funcionamento naquela época, ou digamos assim, engatinhando ainda, para depois se transformar na realidade que nós conhecemos de hoje em dia. 

 

Este tema é exposto na dissertação logo abaixo que está relacionado também com a arte musical.

 

Detalhe para o nome do álbum que na verdade a palavra "Samba" é escrita assim: "S.amb.a", que quer dizer "Serviço Ambulante da Afrociberdelia".

 

Esta dissertação foi escrita pelo antropólogo brasileiro, Hermano Vianna, e começa assim:

                           

 

Fome e Tecnologia

 

Quando o mundo começou a ficar conectado por transmissores de rádio, números de telefone e indústrias multinacionais, muita gente profetizou que as diferenças culturais estariam com os seus dias contados. Passaríamos a viver num planeta onde qualquer pessoa se veste igual, come igual e pensa igual. Hoje, depois de tantas décadas de aldeia global, essas previsões não podem mais ser levadas a sério. Muitas diferenças já desapareceram, é claro! Mas novas diferenças e produtos da voracidade com que os povos do 3º mundo incorporam a tecnologia ocidental, surgem todos os dias modificando todas as fronteiras.

 

A música popular é um exemplo perfeito dessa nova realidade/variedade tecno-social. Em todos os continentes existem bandas reprocessando o rock e o funk americanos, inventando centenas de outros ritmos a partir das mesmas informações. A combinação do sampler com o computador e com o equipamento de gravação digital (cada vez mais baratos), facilitou a pirataria entre os estilos da música popular e as suas simbioses com tradições musicais de todas as culturas.

 

Quanto mais uma determinada cultura tem fome de tecnologia e de inovação, mais o resultado dessas apropriações se tornam interessantes. O exemplo jamaicano é incontestável: nos anos 60, dos estúdios mais pobres de Kingston (capital da Jamaica), saíram técnicas de gravação e mixagem que ainda hoje são copiadas pela vanguarda da música “trance” ou “ambient”. Também foi no gueto negro das grandes cidades americanas (o 3º mundo dentro do 1º mundo) que apareceram as colagens rítmicas do hip hop, da “house” e do techno, renovando as concepções de composição musical e da relação música/tecnologia que dominavam a indústria fonográfica. E nos estúdios de Lagos (cidade da Nigéria), Colombo (cidade do Sri Lanka) ou do Cairo (capital do Egito), estão sendo produzidas outras novas maneiras de se fazer ou de pensar música, que certamente irão ser reapropriadas pelos músicos do resto do mundo e assim por diante...

 

A pobreza dos seus criadores não tem tanta importância, porque vale mais ter a sua “fome” canalizada na direção da antropofagia cultural certa. Isso não quer dizer que nós vivemos num planeta de igual oportunidade para todos. A melhor descrição para a nossa situação atual foi feita num livro de ficção científica chamado “Islands in The Net” (que foi traduzido para o português como “Piratas de Dados”), do escritor cyberpunk, Bruce Sterling. De um lado existe a Rede e os seus “privilegiados” que trabalham para as corporações transnacionais, sendo que do outro lado existem ilhas de pirataria informatizadas lutando contra o domínio da Rede. Os piratas da informática, como os seus antepassados marítimos, é um paralelo de subversão intercontinental. Eles também são os herdeiros mais contemporâneos da “bandidagem” de Antônio Conselheiro, Lampião ou de Zapata.

 

Voltando para a música, hoje também existe uma grande Rede, aquela das gravadoras transnacionais ao lado de um circuito (também transnacional) de pequenas ilhas independentes de piratarias sonoras de todos os tipos. A relação entre a Rede e as ilhas piratas não é apenas de confronto. Nada acontece de interessante sem a troca de informações, muitas vezes clandestina e muitas vezes oficial entre esses 02 territórios. A Rede precisa dos piratas (pois a sua burocracia é comprovadamente incapaz de produzir inovações) e os piratas precisam da Rede (quem mais tem tanto dinheiro para desenvolver os equipamentos que todos necessitam?) E então, a fome é generalizada com todo mundo buscando alimento nos lugares menos esperados.

 

No Brasil esta situação se complica ainda mais. Aqui, só uma minoria tem acesso aos aparelhos que possibilitam a interação com a Rede ou com qualquer um dos seus tentáculos. A poucos quilômetros das grandes cidades é fácil encontrar músicos que constroem os seus próprios instrumentos musicais com a pele dos animais que eles mesmos caçaram, com armas do tempo da onça ainda... Não existe uma distância intransponível entre o totalmente rural e o iniciante ciberespaço brasileiro - mas nada disso é exatamente um problema. Se a situação é mais complexa, as possibilidades de piratarias e mediações culturais se multiplicam. E se é assim, quem tem mais fome (de bola, de tecnologia ou de outras culturas) vai mais longe.

 

O futurólogo, Alvin Toffler, já disse que o Brasil é um país de todas as ondas. Aqui, a 1ª onda foi a da revolução agrícola que convive com a 2ª onda que foi a da revolução industrial, e com a 3ª onda que foi a da revolução da informática. É difícil saber qual é a onda de quem, quem manda em qual terreno e quem tem fome de quê?

 

O Brasil é um país de famintos. Um país que (como já disse Gilberto Gil) só conhece a raiz se for de mandioca. Um país que, para saciar a sua eterna fome pode até misturar o maracatu rural com o heavy metal. Tudo isso com o molho do caranguejo mutante e do mais profundo mangue.

 

por: Hermano Vianna (2000).

 

 

ps: Gilberto Freyre definiu em 1923, no jornal Diário de Pernambuco, os habitantes da cidade de Recife/PE como um povo “amigo do silêncio”... Ainda bem que os tempos mudaram.

 

 

Confira o vídeo clipe da canção que foi o single desse álbum, a música "Quando a Maré Encher":

 

 

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