• by Brunelson

Jimi Hendrix: a dedicatória em anexo ao álbum “Electric Ladyland”

Em 1968, JIMI HENDRIX lançava o seu 3º álbum de estúdio, o disco duplo “Electric Ladyland”.

E no ano de 2010 esse álbum foi relançado acompanhado de 01 DVD que conta algumas histórias sobre a construção desse disco e assim como dentre vários bônus, 01 dedicatória escrita pelo famoso escritor e jornalista inglês, Derek Taylor, que era também responsável pela assessoria de imprensa dos BEATLES.

Segue logo abaixo essa homenagem escrita na íntegra:

Ele não deve envelhecer como um velho, assim como alguns que são deixados para envelhecer...

A posteridade tem realizado o seu devido cuidado com JIMI HENDRIX nos mostrando um homem real que realmente vive e que não é apenas uma lenda... Embora Deus saiba que ele foi um farol de fogo e som com um show de luzes de muitas cores, batendo ritmos inconfundíveis.

Shakespeare e o seu intérprete, Sr. Buckley, estavam errados! Agora e de novo, o bom jazz soando como um gato cortado ao meio, miando lamentos por tempos e tempos e mostrando o mal que está escondido nos seus ossos, ainda soa e assim tem sido com JIMI HENDRIX.

Bem como todas as grandes estrelas, o seu imaginário é imediato, evocativo, um tópico onipresente e que demonstra sempre uma necessidade de querer saber mais. Para querer ter um outro olhar ou uma outra escuta sobre isso, isto é um esclarecimento que somente o estrelato pode lhe dar - ou será que é definido também pelo poder de sobreviver a sua própria era?

Jimi vive novamente nos dias de hoje em álbuns, livros, pôsteres, memorabilias, cinema e vídeos. Aqueles de nós que vivemos aquela época, temos a recuperação instantânea do sorriso inconfundível dessa auto invenção que foi os anos 60. Com um pouco de sangue indígena Cherokee, principalmente afro-americano e inteiramente musical, dirigido pela sua imaginação enraizada no soul, rock sólido, na essência de BOB DYLAN e em todas as linhas de blues que existem - e com a sua única e pirata guitarra a qual lhe ajudou a pagar as suas dívidas nos EUA - Jimi obteve as suas primeiras recompensas "balançando" a cidade de Londres. Confiante por inserir na cidade colorida, ele foi levado pelo brusco, divertido e visionário cidadão nativo de Newcastle/Inglaterra, Chas Chandler, que era ultimamente um dos membros da banda THE ANIMALS e que havia se tornado agora um “criador de estrelas” peripatético.

A longa distância, JIMI HENDRIX escreveu uma carta ao seu amado pai, Al Hendrix, que sempre morou em Seattle e que vivia em condições financeiras extremas, estando apto a se “quebrar” se fosse preciso para alimentar a sua família, órfãos de mãe: "Sou eu, pai, Jimmy, e estou na Inglaterra porque conheci algumas pessoas e elas estão querendo me fazer..., me tornar uma grande estrela. Eu mudei o meu nome para Jimi".

Dentro de alguns meses, com o seu próprio talento e ambição de uma unidade divina e encontrando nutrientes reais no rico cenário underground em Londres, Jimi permitiu que estas pessoas lhe “fizesse” se tornar uma estrela. A estrela das estrelas, de fato, usando os melhores tópicos que a contracultura psicodélica supra nacional poderia conjurar, devido ao imperialismo britânico, da sua própria nativa América e de outros países muito além.

Ele foi muito desenhado em cartazes, fotografias, decorações e em vestidos. Ele se tornou a personificação das compulsões artísticas de si próprio e dos seus contemporâneos... Ele se pôs livre.

Em meu próprio esboço poderoso de memória, estamos agora em 1967 no famoso Monterey Festival nos EUA, quando Jimi estava com o seu chapéu e demonstrando uma performance com muita intensidade, cheia de fogo e à propósito..., com muita coisa em jogo. Esta poderia ser (era para ser) a sua descoberta e reconhecimento pelo seu próprio povo americano. Para outros, esse evento foi apenas um sorriso mais relaxado de Jimi, mostrando a sua ousadia em ser atrevido e de amaldiçoar um público que estava muito satisfeito em ouvi-lo. Algumas das visões que me ficaram deste show seriam a do seu chapéu com os anéis de metal fixados nele, os muitos lenços que caiam pelo corpo de Jimi e que fazia cobertura nas suas costas, mais parecendo um BOB DYLAN de cabelos eletrificados - com um Jimi de olhos quase fechados ou em concentração com alguma outra coisa com os seus olhos abertos..., ou ambos.

As pessoas que percorreram um longo caminho de volta nas suas mentes com essa história, irão se lembrar de um menino-homem de cabelo curto que havia sido dispensado do exército, o qual havia caído na estrada fazendo parte da banda de apoio de vários cantores como: LITTLE RICHARD, SAM COOKE, KING CURTIS e com a banda ISLEY BROTHERS. Existem pessoas de sorte que estavam em torno de Chas Chandler quando ele descobriu Jimi tocando no clube noturno Cafe Wha? em Greenwich Village (bairro de New York), que era onde Jimi vivia até então. Não deixar o seu cabelo crescer e ficar assoprando a sua mente com as limitações de ser um integrante de uma banda de apoio, eram condições que Jimi não estava mais aceitando na sua carreira musical...

Você tem que ter sorte, mas você tem que ser uma “boa moeda” para ser "encontrada", para depois ser tomada, encaçapada e polida. Depois deste processo todo, não importando o quão bom você seja, você tem que ter mais sorte ainda para não se tornar em uma moeda mal gasta ou mal utilizada. Eu sempre senti que até o último momento terrível da sua confusão e morte, Jimi tinha uma vida satisfatória muito boa, absorvendo muito mais como uma figura conhecida mundialmente do que qualquer menino pobre que havia nascido em Seattle nos anos 40, sem nenhum motivo para a sua vida ficando sentado esperando por algo...

Houve um acerto absoluto no reconhecimento de JIMI HENDRIX. Talvez, acima do seu próprio posicionamento em todo o cenário musical, mas não sendo necessariamente o mais “poderoso” da música moderna, seja em comparação com LOUIS ARMSTRONG, DUKE ELLINGTON, DAVID CROSBY ou FRANK SINATRA. Ou também com os “bluesmen” dos anos 20 até aos anos 50, ou ainda com ELVIS PRESLEY, CHUCK BERRY, LITTLE RICHARD, BUDDY HOLLY, BEATLES, ROLLING STONES, BOB DYLAN, THE BYRDS e todo o momento musical que se passava na cidade de San Francisco/EUA nos anos 60. A coisa com Jimi, como aconteceu com todos esses cantores e bandas que foram citados acima, é que ele era absolutamente o seu próprio homem. Ele tinha tanta inteligência e sensibilidade que ele sabia o que fazer, quando e onde fazer. Durante os anos como obediente guitarrista das bandas de apoio que participou, ele sabia que tinha mais a oferecer do que a maioria. Todas as estrelas estão cientes dessa especialidade que cada uma delas possuem, assim como quando as crianças geralmente sabem de algo verdadeiro banhadas em sua inocência ou quando uma certa questão é correta ou não.

* Aos 15 anos de idade, JIMI HENDRIX viu o seu 1º show do ELVIS PRESLEY em 1957 (mas que ano foi esse para o rei, não é?!)

Ele confiou em pessoas para ajudá-lo a realizar o seu potencial. Ele se agarrou no blues, soul e de acordo com o seu amigo MILES DAVIS, na música country também! E agora, como alguém em seus 20 e poucos anos, justamente quando o rock’n roll britânico foi jogado em torno das nossas mentes com os seus alucinógenos e drogas psicotrópicas, se viu com um real potencial em se tornar em uma nova marca somente usando 02 palavras do seu nome (JIMI HENDRIX) para ser reconhecido? Ainda ocasionando um significado ambíguo em relação a sua forma de ortografia, maravilhosamente comercial em sua fonética e no seu impacto visual.

Mas acima de todo este imaginário, esse gato citado por Shakespeare ainda poderia tocar. E que, assim como Mitch Mitchell (uma alma gêmea de Jimi na bateria que era uma parte inteligente na evolução da banda) diria, era o que estava em causa no momento e isso foi o que JIMI HENDRIX nos mostrou através da música. Muitas citações lembram de Jimi testemunhando o seu desejo intenso e maduro para fazer música, com a sua voz e instrumentos para levar as suas canções ao público em novos lugares (ele poderia ter feito tudo isso em um terno marrom de tecido mohair, mas não teria sido tão divertido assim).

Já escrevi em outro lugar (não muito frequentemente, eu espero) em ter acordado em uma manhã na cidade de Los Angeles em 1967 para me encontrar com um dos fundadores do Monterey Festival, e que Paul McCartney (que foi tanto um fã quanto um mentor de Jimi) havia me dito que Jimi deveria ser a atração principal desse festival - e eu acabo de me lembrar de uma outra estrela do rock e amigo meu americano, que foi muito rude comigo na época sobre Jimi me dizendo que Jimi tinha pouco a oferecer.

Ambas as atitudes de alguma forma, explicaram como Jimi “zeitgeist” (palavra alemã que significa “espírito da época” ou “espírito de um certo tempo”) chegou a deixar os EUA com 23 anos de idade e ter oferecido o seu gênio para o povo britânico, que desde sempre era um povo que havia sido muito sensibilizado pelos melhores talentos americanos que já haviam existido até aquela época, particularmente aqueles que ficaram a margem do mainstream americano.

Foi em toda a Grã-Bretanha nos anos de 1966/67, que JIMI HENDRIX havia se tornado um "rockstar" irresistível para as mulheres (sendo que este sentimento era mútuo) e um herói para os homens. Foi depois do Monterey Festival que ele conseguiu caminhar para a ponta e para a maioria das pessoas, no final dos anos 60 ele era o ponta. Sem a sua particular visão musical ele teria sido como algumas outras belas imagens que passaram na história do rock’n roll, recebendo 01 ou 02 “estrelinhas” com notas de rodapé, mesmo tocando guitarra com os seus dentes, jogando-a para trás, tomando ácido LSD e deixando 04 álbuns de “estúdio” na sua retrospectiva em vida.

* "O homem mais sexy que andou no planeta". NENEH CHERRY disse uma vez (cantora sueca).

As pessoas são tão cruéis... A sua precoce morte se tornou em opiniões alheias de várias mentes atrapalhadas que somente falavam: "Ah,sim... Eu me lembro dele... É aquele que morreu de drogas, não é?"

Mas como um guitarrista que possuía tal respeito por todos e que oferecia o seu vislumbre gratuitamente a todos também, uma vez e agora ele é um homem coroado por uma joia e é por isso e muito mais que estamos todos aqui hoje, celebrando este 3º álbum de estúdio de JIMI HENDRIX, “Electric Ladyland”. Talvez este seja um consolo para o seu pai, Al Hendrix, que perdeu tão cedo um filho tão bom e de uma forma tão ruim...

Após o sucesso britânico de Jimi, guitarristas entraram na fila para elogiá-lo. Ao longo dos anos as homenagens foram se acumulando.

ALBERT COLLINS: "Ele não tocava músicas de ninguém..., Jimi era original".

BUDDY GUY: "Um daqueles caras que era tão explosivo..., Jimi basicamente tocava blues, mas ele acrescentou coisas a mais no blues".

ERIC CLAPTON: "Eu gostava de FREDDIE KING, BB KING, ROBERT JOHNSON e de BUDDY GUY. Nós gostávamos todos das mesmas pessoas, mas ver JIMI HENDRIX tocando foi uma emoção diferente para mim, porque era tudo inédito ver e escutar as coisas que Jimi conseguia fazer, era algo que eu só consegui aprender a partir de várias e várias audições dos seus álbuns de estúdio. Esse cara estava entre os maiores e ele foi um deles ".

Depois do Woodstock Festival em 1969, NEIL YOUNG falou: "Absolutamente, o melhor guitarrista que já viveu! Não há e não houve ninguém sequer no mesmo nível desse cara".

MILES DAVIS: "Ele tinha um ouvido natural para a música e isso foi ótimo, cara! Ele me influenciou e eu influenciei ele, e essa será sempre a melhor maneira de se fazer uma boa música. Todo mundo está mostrando alguma coisa para alguém e em seguida, movendo-se a partir disso... JIMI HENDRIX veio do blues, como eu, e nós nos entendemos um ao outro imediatamente. Ele era um grande guitarrista de blues".

No inédito DVD que vem acompanhado nesse relançamento, ele se reporta em um documentário esclarecedor sobre o “making of” desse inovador 3º álbum de estúdio, "Electric Ladyland". STEVE WINWOOD, um artista musical que era muito admirado por Jimi, mostra nesse DVD que, o que fazia com que o ponto chave sobre Jimi ter sido uma pessoa motivadora, é que ele conseguia estabelecer um clima de camaradagem à sua maneira tranquila e agradável de ser mesmo sofrendo interferências do mainstream, mas ele a fazia da maneira mais simples de ser...

JIMI HENDRIX foi um grande portador de confraternizações entre as pessoas. Ele se fez uma unidade fina e feliz também devido à experiência do seu charmoso, hábil e engraçado baixista, Noel Redding, e do seu corajoso e confiável baterista, Mitch Mitchell - um elenco inspirado, diga-se de passagem.

O famoso fotógrafo dessa época, Gered Mankowitz, que assumiu esplêndidas imagens de Jimi, diz hoje: "Ele era charmoso, despretensioso e divertido, e muitas vezes ele estava rindo, iluminando toda a sua face. Uma pessoa feliz, agradável e acolhedora. Muitos ainda irão testemunhar o seu gosto/amor que ele tinha pelas pessoas. Ele realmente adquiriu discípulos para segui-lo”.

A música rock’n roll foi super isolada e segregada devido ao seu costume laxista de ser, que ocasiona por muitas vezes um preconceito de imediato em certas pessoas, mas o ecletismo de Jimi fez muito para mudar esse modo de ver as coisas. Quando ele voltou como um herói para os EUA, depois de ter se consagrado no Reino Unido, havia plateias brancas sem precedentes para vê-lo. Ele faria de New York a sua base até a sua morte em 1970.

Eu passei uma noite com Jimi uma vez, em um certo clube..., não havia muitas pessoas lá. Eu gostaria de me lembrar mais... Eu me lembro bem das vibrações daquele homem que ainda continuam..., apenas as vibrações.

Mas que vibrações! E que homem!

por: Derek Taylor

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