Chris Cornell: explicando porque a inocência da cena de Seattle morreu bem antes do falecimento de Kurt Cobain
by Brunelson
há 4 minutos
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Teria sido impossível explicar a ascensão do grunge para alguém que nunca tivesse ouvido falar dele em 1989 - quando o termo nem tinha nascido ainda, mas a cena já era efervescente no underground durante a década de 80 em Seattle e região.
Nos anos 80, toda a cena do rock and roll girava em torno da exuberância e todos os maiores nomes da música se vestiam com esmero, na esperança de poder exibir seus visuais para as câmeras sempre que seus vídeos estivessem passando na MTV.
Então, quando bandas como NIRVANA e PEARL JAM chegaram ao mainstream com a explosão do grunge no começo dos anos 90, o vocalista do SOUNDGARDEN, Chris Cornell, já sabia que algo estava mudando em Seattle.
Por outro lado, ninguém na cena de Seattle queria necessariamente ser famoso. Havia uma oportunidade de trabalhar como músico na cidade, mas qualquer um que imaginasse que alguém se tornaria uma das maiores estrelas do mundo antes de Kurt Cobain, era praticamente um sonho.
Mas isso não significava que não houvesse uma maneira das estrelas se alinharem na ordem certa.
Desde o lançamento da clássica música "Smells Like Teen Spirit" do NIRVANA (2º disco, "Nevermind", 1991), tudo mudou na MTV da noite para o dia. Tudo o que antes era considerado descolado e fashion passou a ser visto como piada, e Cobain foi impulsionado a se tornar uma das vozes da nova geração do rock and roll, vestido apenas de jeans, camisas normais e tênis de skate (como se estivesse andando normalmente pela rua).
Pode ter sido muito divertido vê-los ganhar destaque na perspectiva de Cornell, mas ele não conseguia deixar de sentir que faltava alguém na cena grunge de Seattle.
Foi ótimo que alguém tivesse aberto caminho até o mainstream, mas o mainstream sempre se esqueceria de Andy Wood depois que ele faleceu. Sua ascensão como vocalista do MOTHER LOVE BONE realmente veio alguns anos antes do previsto, mas considerando sua presença de palco quando seu grupo estava se apresentando nos bares e clubes de Seattle, onde todas as outras bandas da cidade estavam lá para vê-los, ele claramente tinha o carisma para levar o MOTHER LOVE BONE ao próximo nível e talvez até mesmo atropelar alguns artistas do hair metal dos anos 80 antes da passagem do NIRVANA - até porque, o MOTHER LOVE BONE foi a 2ª banda de Seattle a ser contratada por uma grande gravadora, atrás do SOUNDGARDEN.
Mas após sua morte por overdose de heroína em 1990 e poucos meses antes de lançarem seu disco de estreia, "Apple", Cornell sabia que o mundo do rock nunca mais seria o mesmo sem Andy Wood, afirmando: "O que realmente aconteceu com a morte dele afetou o país inteiro em termos de música, porque o que estava acontecendo com o rock comercial na época era que o rock estava se autodestruindo. Ninguém se importava com as músicas e o MOTHER LOVE BONE se encaixava nesse novo gênero surgindo e era real... Era como uma banda saindo de 1976".
Enquanto bandas de Seattle com viés mais punk rock como o MUDHONEY e NIRVANA normalmente faziam vista grossa a qualquer coisa remotamente ligada ao rock mainstream, Wood nunca teve medo de tocar para o público como um típico frontman. Ele era a resposta alternativa a alguém como Freddie Mercury do QUEEN em muitos aspectos, mas no minuto em que ele faleceu, houve uma certa inocência perdida que lançaria a 1ª sombra negra sobre Seattle.
Das cinzas do MOTHER LOVE BONE, o guitarrista e o baixista dessa banda, Stone Gossard e Jeff Ament, formariam mais tarde o PEARL JAM, e pouco antes a convite de Chris Cornell, o PEARL JAM e o SOUNDGARDEN se juntaram para formar o TEMPLE OF THE DOG e gravaram seu único álbum homônimo de estúdio em tributo a Andy Wood, lançado em 1991.
Ao contrário de Cobain, que foi esmagado pelo peso de ser um astro do rock, Wood sempre servirá como o fantasma do passado de Seattle. A morte de Cobain provou a todos que os problemas sobre saúde mental e pressão da fama que ele cantava eram assustadoramente reais, mas a música de Wood lembrava a todos aqueles tempos em que ainda não havia nenhuma preocupação com o mundo e onde aquelas bandas só queriam se divertir atrás de uma pulsão de vida.
Em suma, é por isso que Cornell deixou registrado no documentário do PEARL JAM, "PJ20" (2011), que a perda da inocência da cena de bandas de Seattle não morreu com o falecimento de Cobain em 1994, e sim, bem antes com a morte de Wood.
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