top of page

Nirvana: resenha do show em Birmingham, Alabama - 01/12/1993

  • by Brunelson
  • há 15 horas
  • 7 min de leitura

Confira na íntegra a matéria do jornalista Ben Flanagan do site Alabama Life & Culture, publicada no dia 1º de dezembro de 2020, contando sua experiência, do seu irmão e de seu pai, em terem visto um show do NIRVANA na cidade de Birmingham, Estado do Alabama, EUA, ocorrido no dia 1º de dezembro de 1993 (foto):



Meu primeiro show de qualquer banda foi do NIRVANA no Boutwell Auditorium em Birmingham, Alabama, quando eu tinha 09 anos de idade. Era uma noite normal de escola.


Você não esquece um detalhe como esse, nem em uma quarta-feira, 1º de dezembro de 1993, e nem pelos próximos 27 anos de uma vida que você passou se gabando em ter visto Kurt Cobain ao vivo, muito menos quando você ainda era uma criança.


Mesmo naquela idade, o NIRVANA teve um impacto considerável em mim. Meu pai, frequentador assíduo de shows na época em que o LED ZEPPELIN e o ROLLING STONES ainda se apresentavam em cidades do interior, me deu meu 1º CD, que foi o álbum "Nevermind" do NIRVANA (2º disco, 1991). Então, para completar, por que não o próprio NIRVANA para ser meu 1º show?


Certamente não me lembro daquela noite nota por nota, mas saí com memórias vívidas que guardo até hoje, principalmente algumas semanas antes, quando descobri que nosso pai levaria meu irmão e eu por 01 hora na estrada para ver uma sensação mundial no auge.


Certa noite, nossa família se reuniu na cozinha como de costume para jantarmos, quando o desabafo do meu irmão no canto da mesa me paralisou. Sem sabermos de nada, ele viu 03 ingressos presos atrás de um ímã de geladeira que diziam: "NIRVANA, Quarta-feira, 1º de dezembro de 1993. 20hs. Auditório Boutwell. Entrada geral".


Sem palavras, meu pedaço pessoal da história estava a poucos dias de distância, mas em uma noite de escola? Eu tinha completado 09 anos 01 mês antes. Meu irmão tinha 11 anos. Sabíamos que nosso pai amava música e shows, e tinha um currículo que alimentava nossa "raiva" e inveja há décadas.


"Fiquei surpreso que eles estivessem se apresentando em Birmingham e fiquei muito feliz", disse meu pai, Steve Flanagan. "E era um ingresso barato, tipo, equivalente a uns US$ 15 dólares, o que ainda era um bom preço na época. Eu me lembro de pensar que, como os meus filhos conheciam e gostavam do NIRVANA, eu daria a eles a oportunidade de irem a um show deles sem dizer nada antes, porque o NIRVANA na época era uma sensação mundial".


Meu irmão mais velho, Graham, agora com 38 anos de idade, sentiu-se sortudo em poder assistir a este show: "Eu estava na 6ª série na época. Meu irmãozinho estava na 3ª série e foi uma atitude muito legal do nosso pai ter nos dado essa oportunidade".


Só deixando claro para a nova geração, o NIRVANA não era o KIDZ BOP.


Sendo os rostos do movimento da música grunge no início dos anos 90, os álbuns do NIRVANA - "Bleach" (1º disco, 1989), "Nevermind", "Incesticide" (3º trabalho de estúdio, 1992) e seu último lançamento, "In Utero" (4º trabalho de estúdio, 1993) - abordavam assuntos maduros que nem meu irmão nem eu entendíamos ou apreciávamos totalmente.


Mas era um sucesso. Era forte. Então, nós os amávamos.


E a permissão do nosso pai para irmos ao show estava de acordo com as restrições um pouco mais flexíveis do que o normal que tínhamos em relação a filmes e TV.


Para contextualizar, 03 anos antes de assistir a este show do NIRVANA, nosso pai deu permissão para meu irmão e a mim para assistirmos nosso 1º filme com classificação indicativa "R" (restrito) no cinema, nada menos que o filme "O Exterminador do Futuro 2", no que não podemos deixar de listar como um dos melhores dias de nossas jovens vidas, talvez agora em 2º plano em relação ao show do NIRVANA.


Como crianças animadas que éramos, chegamos ao Auditório Boutwell, que nosso pai lembra que estava menos cheio do que ele esperava, dizendo que era um show "sem ingressos esgotados".


Mas quando você entrava no local, o palco ficava logo à sua frente, com um fosso central para quem quisesse ficar em pé, além de assentos elevados à esquerda e à direita - todos lotados. Sentamos na 1ª fila, à direita, principalmente para evitar o mosh pit e o crowd-surfing, e porque as crianças precisam de um lugar para se sentar nos shows.


"Eu me lembro de que havia muita energia naquele local", disse meu irmão Graham. "Tínhamos assentos realmente bons e uma vista perfeita do palco".


Após a 1ª apresentação abrindo a noite, uma banda de garage/rock progressivo chamada COME, da qual mal me lembro - exceto pela cabeça inclinada do vocalista gritando no microfone - a próxima banda a subir ao palco, THE BREEDERS, cujo videoclipe do single da música "Cannonball" estava em exibição regular na MTV, se apresentou e "detonou mesmo", segundo meu irmão. "E quando o NIRVANA subiu ao palco depois, eles detonaram mais ainda, tocando todos os sucessos e músicas que eu nunca tinha ouvido falar e que mais tarde viria a apreciar ainda mais quando fui crescendo e conhecendo mais a banda".


Para a surpresa do meu pai, ele não se lembra muito bem dos mosh pits acontecendo, mas se lembra de Kurt Cobain falando com a plateia: “Lembro que, durante o show, Cobain comentou que o público era simpático porque não havia muito mosh pit rolando”, disse meu pai. “Ele ficou agradecido, como se eles vissem que o público não estava se debatendo no chão, talvez porque estivessem acostumados a ver isso em shows nas cidades maiores”.


Talvez nem tanto, mas eu definitivamente me lembro de ver alguns moshs e crowd-surfing, até mesmo alguns caras corajosos pulando do palco e passando correndo por Cobain e o baixista Krist Novoselic para pular nas primeiras fileiras da multidão, antes que os seguranças pudessem pegá-los. Provavelmente foi melhor mantermos distância, apesar de que não tínhamos medo do ambiente, mas nos destacávamos como crianças muito pequenas.


"Eu senti como se todos lá fossem bem mais velhos do que nós", disse meu irmão. "Não me lembro de ter visto nenhuma outra criança lá. A multidão parecia ser um bando de universitários descolados e me senti muito bem por estar ali no meio daquele grupo. Como era uma noite normal de meio de semana que teríamos que acordar cedo no outro dia para ir à escola, muitos jovens não puderam ir ao show, então, o fato de termos entrado me fez sentir como se eu fizesse parte de algo muito exclusivo e especial".


E apesar de alguns títulos provocativos e brincadeiras bobas no palco (Cobain e Novoselic observaram a multidão e acharam que viram John Travolta entre os habitantes do Alabama), saímos praticamente ilesos.


"Não me lembro de nada que fosse ofensivo ou obsceno, nem deles gritando palavrões ou algo assim", disse meu pai, rindo de uma lembrança das palhaçadas no palco do novo 4º integrante do NIRVANA, o guitarrista Pat Smear, incluindo trazendo o mesmo violão Buck Owens para a sessão acústica na reta final do show, que ele tinha tocado no Acústico da MTV duas semanas antes.


Foi especial, é claro, e ainda é especial 27 anos depois, mas mesmo naquele momento, ficamos impressionados pelo NIRVANA estar se apresentando em nossa cidade.


“Ver aquele grupo no palco ao vivo e no auge da fama, foi um momento surreal para um garoto no início dos anos 90, que cresceu ouvindo MTV e a rádio FM”, disse meu irmão. “É uma experiência de show que nunca esquecerei".


Cobain tiraria sua própria vida cerca de 05 meses depois, com apenas 27 anos de idade. Como tantos outros, ficamos devastados com a notícia. Ainda animados por vê-lo se apresentar a poucos metros de nós, sabíamos que nos gabaríamos disso a cada dia seguinte, quanto mais pelas próximas 03 décadas.


"Naquela noite, meu pai comprou para mim uma camisa com a capa do disco 'In Utero'", disse meu irmão, referindo-se à icônica figura anatômica com asas de anjo na capa do álbum, que eles também usaram como adereço de palco naquela turnê. "Usei com orgulho aquela camisa na escola no dia seguinte ao show e sem dúvida a exibi para que todos soubessem que eu tinha visto o show do NIRVANA na noite anterior".


Até hoje, quando o NIRVANA surge em uma conversa, meu irmão usa essa experiência como um símbolo de honra por tê-los visto quando ainda estava na 6ª série em uma noite de semana de aula, o que ele chama de "um crédito total ao nosso pai".


É verdade. Aquela noite ficará para sempre como um peso em nossos ombros que usaremos para superar nossos amigos em conversas em festas pelo resto das nossas vidas.


É um fato. Estávamos lá, mas o contexto em que ocorreu tão próximo ao falecimento de Cobain, não nos escapa nem um pouco. Ele ainda me atinge como uma tonelada de tijolos, como se houvesse um buraco naquele momento em que ele estava muito vivo e presente com sua arte que significava tanto para as pessoas.


“O mais importante é que vimos um show do NIRVANA tão perto da morte de Cobain”, disse meu irmão. “Pudemos assistir a um dos últimos shows que eles fizeram. Tive a sorte de ver um show com um repertório que realmente abrangeu todos os discos do NIRVANA. Foi uma das experiências de show mais incríveis que eu já tive na vida”.


"Acho que vocês estavam super animados por estarem lá e não conseguiam acreditar que estavam lá e que a ideia de ir foi minha", acrescentou meu pai. Sim, aquela noite não saiu da minha mente e nem do meu espírito. Ela ocupa um lugar especial e permanecerá para sempre em mim.


Como eu disse, não me lembro de cada verso cantado durante a música "Lithium" ou mesmo do cheiro que tinha aquele local, mas deixou muitas memórias e criou um padrão alto que ainda mantenho para os outros shows que fui vendo no decorrer da minha vida, dos quais infelizmente há muito poucos agora em 2020 e no futuro próximo devido a pandemia.


NIRVANA ainda aparece bastante nas mídias e seu impacto é tão pertinente como sempre foi, seja visto em documentários como "Montage of Heck" ou nesses incríveis relançamentos dos seus álbuns de estúdio com vários bônus em anexo.


Embora eu não tivesse amadurecido o suficiente naquela época para apreciar a sutileza da música do NIRVANA ou a arte de Kurt Cobain, eu amava e ainda amo suas músicas. Para cada pedacinho de tristeza, raiva e solidão que você ouve em suas notas e letras, muitas vezes você encontra uma dose igual de alegria em canções como "In Bloom" e "All Apologies".


E graças a Cobain, Novoselic e ao baterista Dave Grohl, nosso Estado do Alabama vislumbrou algo especial, mesmo que não entendêssemos a urgência de valorizar os poucos momentos que nos restavam com uma banda que significava algo para o mundo. 


Certamente entendemos agora, especialmente em dias de escola.


Setlist:


  1. Radio Friendly Unit Shifter

  2. Drain You

  3. Breed

  4. Serve The Servants

  5. Come as You Are

  6. Smells Like Teen Spirit

  7. Sliver

  8. Dumb

  9. In Bloom

  10. About a Girl

  11. Lithium

  12. Pennyroyal Tea

  13. School

  14. Polly

  15. Frances Farmer Will Have Her Revenge on Seattle

  16. Milk It

  17. Rape Me

  18. Territorial Pissings

  19. Jesus Doesn't Want me For a Sunbeam (cover THE VASELINES)

  20. The Man Who Sold The World (cover David Bowie)

  21. All Apologies

  22. Molly's Lips (cover THE VASELINES)

  23. On a Plain

  24. Scentless Apprentice

  25. Heart Shaped Box

  26. Endless Nameless

Comentários


Mais Recentes
Destaques
bottom of page