• by Brunelson

Rage Against The Machine: “ainda há muitos sons de guitarra novos para descobrir"


O revolucionário da guitarra de 06 cordas de bandas como RAGE AGAINST THE MACHINE, AUDIOSLAVE e PROPHETS OF RAGE, Tom Morello, relembrou um pouco da sua vida e carreira em uma nova entrevista para a revista Guitar World.

Ele é formado na faculdade de Harvard, ativista político e eterno músico inovador, cujo aventureirismo sônico com as suas bandas destruiu as regras da guitarra elétrica.

Agora, enquanto Tom Morello vivencia a pandemia, ele compartilhou memórias de prática obsessiva, shows ruins e noites atrás das grades...


Seguem alguns trechos dessa entrevista:

“Quando criança, eu tinha um pequeno violão e provavelmente tocava a música 'Smoke on The Water' (DEEP PURPLE), mas naquela idade eu não tinha ambições além de pular no sofá com ele. Então, aos 15 anos, eu tive algumas aulas de guitarra que realmente não me levaram a nada, porque eles queriam me ensinar como afinar a guitarra e tocar a escala de si maior, mas eu queria aprender a tocar canções como 'Black Dog' (LED ZEPPELIN) e 'Detroit Rock City' (KISS)".

"A partir dos 19 anos, tornei-me um obsessivo-compulsivo pela guitarra, o que mais parecia uma vocação religiosa pra mim, sabe? Era quase algum tipo de um saudável transtorno mental, onde não poderia deixar de tocar guitarra e foi uma compulsão que dirigiu por toda a minha vida”.

“Na minha banda do colégio, nós ensaiamos muito para saber tocar a música 'Born to Be Wild' (STEPPENWOLF) para uma batalha de bandas no colégio. Quando subimos no palco, o nosso tecladista tocou os acordes errados, o baixista tocou na nota errada (Adam Jones, futuro guitarrista do TOOL) e foi um começo nada auspicioso para a minha carreira musical".

“Mas ainda estávamos num tipo de crescimento musical e então, quando o refrão começou, pulei do degrau do palco e o lugar todo enlouqueceu. Foi como: ‘Passamos 04 meses aprendendo a música, mas o que deveríamos praticar era ficar pulando pra cima e pra baixo com os nossos instrumentos’. Foi uma lição que não esqueci e sempre tive um histórico de praticar esportes no colégio e por algum motivo, desde o início eu sempre pude tocar guitarra enquanto ficava pulando”.

“Tive uma experiência ruim quando comprei a minha primeira guitarra da marca Kay por U$ 50 dólares. O vendedor da loja ficou zombando de mim, dizendo que eu não iria mesmo tocar solos extensos de qualquer maneira por ter comprado aquela guitarra e guardei aquilo que ele me falou..."

“Aquela guitarra da marca Kay foi a minha guitarra principal até eu conseguir comprar uma Gibson Explorer. Em seguida, a guitarra Kay ficou por 30 anos na casa da minha mãe, até que um dia, sentei-me na cama onde dormia quando morava na casa da minha mãe, peguei aquela guitarra Kay e a entreguei para o meu técnico de guitarra e lhe disse: ‘Vamos ver o que temos aqui’. Guitarras baratas podem ser ótimas, quero dizer, eu também tinha outra guitarra que custou U$ 40 dólares e por meio de um amplificador da Marshall rendeu ao RAGE AGAINST THE MACHINE o nosso primeiro Grammy pela música 'Tire Me' (2º disco, "Evil Empire", 1996)”.

“Quando os meus amigos começaram a amar o punk rock, deixando para trás as suas roupas spandex do glam metal e bandas do heavy metal, eu ainda queria ter um pé firme nos dois mundos, sabe? Eu nunca desisti do BLACK SABBATH, IRON MAIDEN, JUDAS PRIEST e ao mesmo tempo abraçando a crueza do punk rock".

“Sabe, THE CLASH é a minha banda favorita de todos os tempos e Joe Strummer (vocalista/guitarrista), no que diz respeito a guitarristas, é ao mesmo tempo o maior e alguém que mal sabia tocar para os padrões dos leitores da revista Guitar World, certo? No rock 'n' roll, é muito mais sobre o espírito do que você está fazendo ao invés da habilidade técnica, mas eu queria ter os dois tipos em mim”.

“Estudar na faculdade de Harvard enquanto tocava rock 'n' roll foi um desafio. Foi um salto bastante significativo na carga de trabalho e largura de se ter uma banda de rock, e então, adicionado a isso, foi o meu regime de prática obsessiva-compulsiva. Terminava de estudar às 02:00hs da madrugada e treinava guitarra até às 06:00hs da manhã, como se não fosse nada, sabe? Apenas sozinho no meu quarto, dia após dia".

“A faculdade não ajudou necessariamente com as minhas habilidades sociais, relacionamentos ou oportunidades de trabalho. Nos meus 04 anos em Harvard, talvez tenha perdido 02 dias de treinamento na guitarra devido a alguma doença realmente debilitante. Então, me senti muito culpado por perder aqueles 02 dias de guitarra”.

“Mudar-se para Los Angeles nos anos 80 foi triste... Eu sou uma verdadeira personalidade tipo A, então, pensei: 'Procuro montar uma banda com política neomarxista e riffs do BLACK SABBATH'. Eu coloquei uma postagem no jornal com esse tipo de anúncio junto com o meu telefone".

“Achei que iria me mudar pra lá e que seria um mundo de Steve Vai's e Yngwie Malmsteen's (guitarristas), mas era tudo sobre essa imagem muito particular da cena glam metal dos anos 80. Foi o auge daquelas bandas e ninguém queria montar uma banda comigo. Me lembro de fazer planos para tocar com alguma banda de metal, mas antes que eu entrasse nesta banda, o empresário deles me telefonou para perguntar: ‘Primeiro de tudo, vamos ter que mexer no seu cabelo. Não quer? Então, não estamos interessados’”.

“O que eu não sabia era que havia uma cena underground borbulhando em Los Angeles, com bandas como o JANE'S ADDICTION e RED HOT CHILI PEPPERS, que possuíam uma estética muito diferente dos grupos do glam metal. Entrei para uma banda chamada LOCK UP que não se importava com o tamanho do meu cabelo e eles apenas pensavam que eu era um guitarrista todo zoado".

“Aquela cena underground me apresentou à ideia de que você poderia combinar riffs pesados com letras e imagens inteligentes, e não ter vergonha disso. Então, quando o LOCK UP se separou, eu estava determinado a nunca jogar o jogo da indústria musical e nunca escrever ou tocar uma música em que eu não acreditasse totalmente”.

“Tive a sorte em Zack de La Rocha (vocal), Brad Wilk (bateria) e Tim Commerford (baixo), de encontrar músicos que sentiam o mesmo que eu. Nós não tínhamos quaisquer ambições comerciais de qualquer tipo de espécie, sabe? Não havia esperança de um contrato com uma gravadora. Não havia bandas tocando em clubes que se pareciam conosco, você sabe, um rapper militante de raízes mexicanas, um cara meio negro destruidor de guitarras, um baterista judeu e um baixista que praticava halterofilismo".

“E então, nós fizemos aquele tipo de música para o 1º álbum (homônimo) do RAGE AGAINST THE MACHINE em 1992 com uma total inocência. Nós ensaiávamos num parque industrial no vale de San Fernando e lembro que a primeira pessoa para quem tocamos foi para um cara que trabalhava lá. Ele se sentou, tocamos quatro músicas para ele e depois ele se levantou e disse: ‘A sua música me faz querer lutar pelos nossos direitos!’”

“Nos primeiros dias do RAGE AGAINST THE MACHINE eu ainda praticava oito horas de guitarra por dia, você sabe, todo tipo de retalhamento que poderia criar... Então, fizemos um show inútil na faculdade, abrindo para duas bandas cover onde os guitarristas de cada grupo tocavam de forma tradicional".

“Eu estava assistindo a passagem de som desses dois guitarristas (bandas) e pensei: 'Bom, não precisa haver um 3º igual'. Então, durante as minhas 08 horas de treino diário, comecei a praticar as excentricidades na minha execução, experimentando com os botões de alternância ou se eu havia cometido algum erro, repetindo esse erro umas 16 vezes e tornando-o a pedra angular de uma música".

“Em alguns dos meus solos no RAGE AGAINST THE MACHINE há uma técnica envolvida. No início com a banda, eu ainda tinha aquela mentalidade de ser um guitarrista virtuoso e técnico, você sabe, para ser enquadrado na cena mais rápido, mas era muito mais uma questão de imaginação e criatividade do que habilidade técnica que eu tinha”.

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Morello também lembrou de quando foi levado pela polícia para a prisão.

“Já fui preso 04 vezes por desobediência civil. O sentimento evoca o que poderia ter sido estar vivendo na mesma época de Martin Luther King, onde eu cantava canções com os meus colegas de bandas e me sentia numa missão, já sabendo naquela manhã que estaria na prisão a noite".

“Por exemplo, o show de protesto do RAGE AGAINST THE MACHINE ao lado de fora da Convenção Nacional Democrata em 2000 foi realmente perturbador. Parecia que todos nós poderíamos morrer a qualquer momento, sabe? Havia dezenas de milhares de pessoas cercadas e a polícia deu a todos um aviso de 05 minutos para se dispersarem, atacando a multidão após cerca de 30 segundos. A minha namorada na época, que agora é minha esposa, foi atingida por um cassetete. Estávamos tentando sair vivos dali..."

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Morello também citou algumas de suas influências musicais.

“Sempre fui atraído pela música pesada. Primeiro foi o metal, depois foi o punk rock, depois foi o rap e o hardcore, mas descobri a música folk muito tarde e quando o fiz foram com os primeiros discos de Bob Dylan, Bruce Springsteen, Woody Guthrie e coisas assim".

“E percebi que a música folk é a mais pesada de todas, porque o dístico certo combinado com o acorde menor certo e as letras de protesto, podem mantê-lo acordado 05 noites seguidas, sabe? A fim de transmitir o que eu quero como um trovador, ainda é uma parte muito importante da minha vida musical”.

“Acredite em mim, ainda há muitos sons de guitarra novos para descobrir e lhe garanto isso. Tenho novidades vindo e há alguns tons de guitarra bem loucos que criei... É uma busca para toda a vida expandir os limites do que considero o maior instrumento já inventado, que é a guitarra elétrica".

“Enquanto as tendências musicais vêm e vão, e enquanto a música da guitarra diminuiu e ainda flui nas paradas, não há nada na história da música ao vivo ou gravada como o som de uma guitarra elétrica distorcida e a levada caindo junto com ela. Há boa música de muitos outros tipos - country, música clássica, jazz e rap - mas não há nada que se compare a esse pico de adrenalina”.

Morello finalizou: “Quando eu olho em meu novo livro de fotos, 'Whatever it Takes', eu me lembro de como a minha carreira tem sido um mosaico maluco. É como esta colcha bizarra de rock 'n' roll e ativismo político com o RAGE AGAINST THE MACHINE, AUDIOSLAVE, PROPHETS OF RAGE, apresentações solo ou aquela turnê que fiz a convite de Bruce Springsteen. Pra mim, é apenas a minha vida e eu vivo isso dia após dia, mas quando você reúne tudo isso em um único volume e ver o que já vivenciei, é meio espantoso pra mim, sabe?"


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Confira o áudio de estúdio da música do RAGE AGAINST THE MACHINE citada aqui nesta entrevista por Tom Morello, "Tire Me", gravada com uma guitarra de U$ 40 dólares num amplificador da Marshall e que ganhou o Grammy:


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