Mike McCready: guitarrista do Pearl Jam irá lançar álbum solo junto com uma história em quadrinhos baseada na era grunge
by Brunelson
há 1 hora
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Mike McCready explora as muitas "estações" da música de Seattle.
O guitarrista do PEARL JAM foi entrevistado pela revista Spin e contou uma nova história em sua estreia em quadrinhos e álbum complementar.
Confira essa matéria e entrevista na íntegra:
O guitarrista Mike McCready já viu de tudo, tanto no palco quanto em suas experiências viajando pelo mundo com o PEARL JAM por mais de 35 anos, mas ele está prestes a contar uma nova história de uma maneira completamente diferente.
No dia 06 de outubro de 2026, ele lançará a graphic novel original da editora Z2, chamada Farewell to Seasons, que reimagina a ascensão e queda da cena musical grunge de Seattle de meados da década de 80 até meados da década de 90, bem como as mortes do vocalista do MOTHER LOVE BONE, Andrew Wood, de Kurt Cobain do NIRVANA, de Layne Staley do ALICE IN CHAINS e MAD SEASON, e anos depois, de Chris Cornell do SOUNDGARDEN e TEMPLE OF THE DOG.
As edições de luxo de Farewell to Seasons virão acompanhadas de uma ópera rock de mesmo nome, que apresenta novas canções de McCready, interpretadas por alguns colaboradores locais já conhecidos e vividas na pele do personagem principal do romance, chamado David Williams. A música não estará disponível imediatamente em plataformas digitais ou serviços de streaming.
O romance foi escrito em parceria com Mark Sable e ilustrado por Sebastian Piriz, sendo que R. Kikuo Johnson desenhou a capa, enquanto Daniel Danger criou a arte da capa do álbum, no estilo ópera rock. Rantz A. Hoseley, editor-chefe da Z2, afirmou em um comunicado oficial: “Tendo estado no coração da cena musical do Noroeste do Pacífico dos EUA como jornalista na década de 90, há anos desejava trabalhar em um projeto que refletisse como era de fato para os músicos e fãs quando ‘o mundo veio a Seattle’. Posso dizer, sem qualquer hipérbole ou exagero, que sinto que toda a minha vida criativa me levou a estar envolvido com esse livro, e me sinto muito grato por fazer parte da divulgação da bela e comovente história de Mike McCready para o mundo”.
McCready foi entrevistado para falar sobre as origens de Farewell to Seasons, como o processo criativo diferiu do seu trabalho com o PEARL JAM e como ele continua a homenagear seus camaradas da cena de Seattle que faleceram.
Jornalista: Esse projeto é diferente de tudo que um membro do PEARL JAM já fez antes. Você já estava trabalhando nele em segredo antes de chegar ao ponto de poderem contá-lo ao público?
Mike McCready: Comecei a trabalhar nisso durante a pandemia da covid. Telefonei do nada para o diretor de filmes, Cameron Crowe, e fiz algumas perguntas, do tipo: "Hey, quero trabalhar em uma ópera rock e tive essa ideia", sem imaginar que se transformaria em uma graphic novel ou algo do tipo. Porque originalmente, a ideia era para um musical para os palcos. Cameron me deu dicas e ideias muito boas, incluindo a "música da última hora", que é para ser um grande número de impacto perto do final de um musical. Então, comecei a escrever um roteiro com 03 personagens, quase como uma ficção histórica baseada na cena musical de Seattle de meados da década de 80 até por volta de 1995. Não tinha nada muito concreto por muitos anos, por isso não falei muito sobre isso. Também sou tão hiperativo que finalmente consegui concretizar isso com a ajuda de outras pessoas.
McCready: Um dos personagens principais é David Williams, baseado em mim mesmo. Há uma personagem feminina chamada Angela Sunrise e outro chamado Jonathan Alexander, que é a nossa figura trágica. A ideia surgiu quando pensei em todos os cantores da cena de Seattle e em quantos deles já morreram. Será que valeu a pena para eles? Essa é uma pergunta que tento responder, mas não sei a resposta. Por que as pessoas se interessaram tanto por essa música feita em Seattle? Uma das personagens, a Rainha das Estações, é a narradora de todo o projeto, porque a história vem dos sonhos dela. Há um certo misticismo nisso, sabe? É uma ficção histórica baseada em alguns fatos, mas também há diferentes espíritos que encontram os personagens. Hollow é o enganador e irá provocar cada um desses personagens ao longo de sua jornada com suas tentações, enquanto Echo é um vidente do futuro. Quando terminei o roteiro, enviei para algumas pessoas e não houve interesse inicial, mas a editora Z2 entrou em contato. Eu não tinha pensado em apresentar isso como uma graphic novel, mas eu adoro graphic novels e adoro quadrinhos.
Jornalista: O passar do tempo lhe proporcionou uma perspectiva diferente sobre o que realmente significou perder amigos próximos como Layne Staley e Chris Cornell, e como eles continuam a inspirá-lo todos esses anos depois?
McCready: Essa é uma ótima pergunta. O tempo me deu perspectiva... Vejo isso como a perda de colaboradores musicais, grandes artistas e amigos, e é uma coisa triste. Sinto falta de Layne e Chris. O que eles estariam fazendo agora? E Kurt Cobain? Eu não o conhecia muito bem, mas tenho curiosidade. Vivi uma vida inteira de experiências desde que alguns deles se foram. A questão de, se valeu a pena para eles, me atormenta e me assombra em sonhos, porque a música deles ainda está por aí.
McCready: Com o álbum do MAD SEASON, penso na pungência das letras de Layne e em como ele estava lutando e escrevendo sobre tudo isso enquanto trabalhávamos. Agora ele se foi e é difícil para mim ouvir esse disco, mas também tenho muito orgulho dele. Tenho todos estes sentimentos diferentes sobre esse tipo de coisa, quero dizer, comecei a tocar com Stone Gossard (guitarrista do PEARL JAM) somente depois que Andy Wood morreu. Tive que pensar por muitos e muitos anos sobre como a morte de alguém se tornou uma oportunidade para mim. Mesmo com o TEMPLE OF THE DOG eu estava muito consciente disso. De repente, estou tocando nesse disco incrível com músicas que Chris Cornell escreveu sobre Andy, a quem eu não conhecia muito bem, mas conhecia muito bem Jeff Ament (baixista do PEARL JAM) e Stone. Eu não queria ultrapassar os limites e provavelmente fui cauteloso demais nesse disco do TEMPLE OF THE DOG, por isso que uma certa hora, Chris saiu para fumar um cigarro para me dar privacidade enquanto eu gravava a melodia principal da canção "Reach Down". Depois disso, quando ele retornou e mostrei para ele como que tinha ficado, eu pensei: "OK, eu mereço estar aqui".
Jornalista: Chris Cornell me disse uma vez que, quando Andy morreu, para muitos de vocês foi a 1ª vez que experimentaram a perda de alguém da sua idade, e não, digamos, um avô ou um parente distante.
McCready: Chris e os outros conheciam Andy melhor do que eu. Não quero dar a entender que eu era um grande amigo de Andy nem nada do tipo. Infelizmente, houve muitas mortes por heroína naquela época, o que coincidiu com o período em que eu não estava tocando música. Foi uma época sombria... Eu tinha ido para Los Angeles com a minha banda na época, SHADOW, mas não fizemos sucesso e depois eu fiquei doente com a Doença de Crohn. Fiquei super deprimido quando voltei para Seattle no final dos anos 80, sabe? Basicamente, eu tinha desistido, mas percebi que uma cena musical enorme e florescente estava acontecendo na cidade. Todas as bandas dos meus amigos estavam começando a decolar, então, senti que já tinha perdido a minha chance. Foi devastador para a cena quando Andy morreu. Ele era uma figura carismática, engraçado no palco e também quando você via ele assistindo os shows de outras bandas. Depois de 03 meses, recebi uma ligação inesperada de Stone no restaurante italiano onde eu trabalhava, me convidando para tocar com ele em uma banda. Para a graphic novel, eu também queria incluir o SHADOW, porque sinto que nunca recebemos o devido reconhecimento na história da música de Seattle. Fizemos muitos shows quando eu era adolescente, alguns dos quais Stone assistiu, e nos dedicamos muito quando éramos jovens, a ponto de conseguirmos nos apresentar no Moore Theatre em Seattle.
Jornalista: A banda SHADOW é chamada por outro nome na sua história?
McCready: Não, na verdade ela se chama SHADOW mesmo, porque eu tentei com outro nome, mas não consegui. Então, entrei em contato com os caras da banda para ter certeza de que eles concordavam e eles aceitaram. Eu queria dar um pouco de crédito a nós mesmos porque nos esforçamos muito antes da minha situação com o PEARL JAM, sabe? A banda no estilo PEARL JAM em que David toca nessa história se chama SOUL DREAM.
Jornalista: Certo, então, depois que o roteiro ficou pronto e o conceito foi desenvolvido, e após você entrar em contato com a editora Z2, como foi a experiência de colaborar com os ilustradores? Você já tinha feito algo parecido antes?
McCready: Não, nunca, e foi muito emocionante. Vou muito à Comic-Con (evento cultural) com meus filhos e lá conheci um escritor chamado Mark Sable. Eu não estava necessariamente procurando um escritor na época porque não sabia que isso ia acontecer, mas gostei de algumas das histórias que ele havia escrito. Contei a ele sobre o que eu estava trabalhando antes mesmo de ter um contrato, e 06 semanas depois, o contrato foi fechado. Agora, eles precisavam pegar meu roteiro e ilustrá-lo. Um artista argentino chamado Sebastian Piriz fez as artes e ele é um dos meus favoritos entre os exemplos que a editora Z2 tinha me enviado. É tudo tão novo e emocionante para mim, mas eu expliquei a eles minha perspectiva de não querer que a banda SOUL DREAM (PEARL JAM) se parecesse com ninguém. Eu queria que ela fosse uma entidade própria e vivesse em seu próprio mundo. Por exemplo, adoro Ziggy Stardust e The Rocky Horror Picture Show, pois estes conceitos musicais apresentam um forte apelo visual. Adoraria alcançar algo assim com a minha própria versão, sabe? Ainda não está 100% pronto, mas tem sido incrível ver esse trabalho em andamento.
Jornalista: Quais foram alguns dos aspectos que você considerou importante transmitir através do personagem David? Você queria que ele chegasse a alguma conclusão específica ao longo da sua história?
McCready: Quero manter certa ambiguidade sobre toda a história até que você a leia. Mas para David Williams, que sou eu, trata-se da minha jornada de sofrimento com a Doença de Crohn e o vício em drogas, de ver pessoas próximas morrerem, do imenso sucesso com sua banda e de como ter um lugar na 1ª fila para tudo isso me transformou e mudou minha perspectiva de vida. Como lidei com o sucesso estrondoso do PEARL JAM, tanto para o bem quanto para o mal, pois sou bastante exigente comigo mesmo. Em relação aos outros personagens, alguns lutam contra o vício e a busca pela fama. Quando os espíritos os tentam, qual caminho devem seguir? Estão sendo enganados? É apenas parte da indústria musical? O ego deles dizem: "Droga, é melhor eu fazer isso ou a banda não vai dar certo"?
Jornalista: Além dessa graphic novel, você criou um álbum complementar completo. O que você pode nos contar sobre ele?
McCready: Tem uma introdução e depois 06 músicas em que eu canto. Molly Sides, do THUNDERPUSSY, faz os vocais de apoio, e Duff McKagan, baixista do VELVET REVOLVER e GUNS N' ROSES, e Stefan Lessard, da Dave Matthews Band, tocam baixo. Tenho Mike Musburger, do FASTBACKS, na bateria, além das contribuições de Chris Friel, do SHADOW, e o produtor de Seattle, Nate Yaccino. É basicamente uma ópera rock perdida sobre um dos personagens. E quer saber, terminamos de grava-lo ontem.
Jornalista: As pessoas podem ouvir "ópera rock" e pensar no músico e cantor americano, Meat Loaf.
McCready: Eu adoro Meat Loaf! De todos os caras do PEARL JAM, eu sou o que mais curte bandas como KISS, AEROSMITH, Meat Loaf e coisas dos anos 70. Consigo compor ideias para o PEARL JAM que podem surgir de qualquer lugar, mas para esse meu projeto, me forcei a entender que preciso abordar um tema ao longo de 06 ou 07 músicas e manter o interesse do ouvinte. Tem que fazer sentido e a responsabilidade é toda minha. Já em uma música do PEARL JAM, o nosso vocalista, Eddie Vedder, escreve as letras e eu componho as músicas, ou então, todos nós colaboramos juntos. Um dos motivos pelos quais ainda não falei muito sobre esse projeto é que eu estou cantando. Venho fazendo aulas de canto há 02 ou 03 anos porque queria ficar bom o suficiente para lançá-lo sem me envergonhar... E estou muito orgulhoso e animado com tudo isso.
Jornalista: Para encerrar, você chegou a trabalhar em alguma dessas músicas para possível uso pelo PEARL JAM?
McCready: Não, tudo isso é específico desse projeto. Eu queria me forçar a escrever algo como uma ópera rock e acabou se tornando uma versão em miniatura disso dentro da graphic novel. É a minha perspectiva sobre um personagem e sua trajetória. Há mais coisas que eu gostaria de explorar algum dia, sabe? Novamente, uma graphic novel não era algo que eu imaginava para esse meu projeto. Sabe, Paul Westerberg (vocalista/guitarrista do THE REPLACEMENTS) costumava cantar sobre a oportunidade bater 01 vez só na sua vida e a porta se fechar com muita força. Quero dizer, quando uma oportunidade surge, você sabe como atravessar a porta e agarrá-la?
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