Pearl Jam: resenha do álbum “Versus”

September 21, 2017

 

É sem dúvida mais um álbum clássico desta banda, me deixando em dúvida até os dias de hoje se esse disco é o mais quebraceira de toda a discografia do grupo ou não? Assim como cada registro do PEARL JAM tem algo ou alguma mensagem a dizer, este 2º álbum de estúdio lançado em 1993 se apresenta com uma mensagem e sonoridade enraizadas no volume mais alto possível, carregada de muito vigor, energia, explosão e fúria.

 

Como um processo natural das coisas, nesse disco já é possível verificar (musicalmente falando) a leve e sutil transformação de como o som do PEARL JAM foi nos apresentado no seu álbum de estreia em 1991 e de como ele estava se desenvolvendo até o ano de 1993. Aquele funk rock que permeia quase todo o disco de estreia continua em evidência aqui neste 2º disco, mas com uma certa roupagem que, timidamente em algumas músicas e escancarado em outras, já começa a se confluir e a se moldar com o estilo de som das músicas quebraceiras que o PEARL JAM iria começar a criar. As canções em que esta germinação começa a aflorar seriam: “Go”, “Animal”, “Glorified G”, “W.M.A”, “Blood”, “Rats”, “Leash” (que por sinal, esta última música havia ficado de fora do álbum de estreia da banda, “Ten”) e a música “Fuck Me in The Brain” (sendo que esta canção não entrou no álbum “Versus”).

 

Ao mesmo tempo em que esta influência funk rock da banda ainda insiste - no bom sentido - em não querer se desgarrar das suas origens, eis que começa a aparecer timidamente àquela outra grande influência que permeia praticamente ao lado do heavy metal, toda a base de bandas que surgiram no cenário de Seattle antes mesmo do grunge explodir no começo dos anos 90: o punk rock.

 

A estupenda música “Rearviewmirror” seria a que mais flerta com o punk rock neste 2º álbum, algo inédito até então nas composições da banda, mas que mesmo assim ainda não deixa se entregar 100% ao punk. Muito devido também ao estilo de tocar bateria de Dave Abbruzzese, que é um baterista totalmente influenciado pelo jeito funk rock de tocar. Esta música possui os acordes clássicos (power chords) para tocar e para se levar uma música punk rock - apesar do belo riff de guitarra - mas a maneira que a bateria se comporta ainda não nega as origens da banda.

 

Abrindo um parênteses, até hoje não é muito bem explicado o porquê da saída/demissão do baterista do PEARL JAM depois que a banda gravou o seu 3º álbum de estúdio no final de 1994. Muito se fala que ele e Eddie Vedder (vocalista) não se davam bem, de que no final da turnê do 1º álbum de estúdio a banda já estava fermentando a ideia de se afastar dos holofotes, mídia, entrevistas, capas de revistas e de aparições televisivas, também negando a regra máxima de terem que fazer vídeo-clipes para a MTV (lembrando que neste 2º álbum não foi feito nenhum vídeo-clipe).

 

Com várias leituras em livros autobiográficos e documentários que possuo, além de diversas pesquisas em sebos com leituras em revistas de rock das antigas e pesquisas cibernéticas, é possível perceber que Dave queria justamente o contrário. Ele queria a fama, o sucesso, os holofotes..., e a música “Daughter” como o 1º single deste álbum por se tratar de uma canção de fácil audição. O que podemos deduzir também musicalmente falando, é que o estilo de Dave em tocar bateria batia de frente com o que a banda estava querendo explorar, ou digamos, querendo expor também nas suas raízes e nas futuras composições musicais, porque apesar de Dave ter levado mais músicas no estilo punk rock no próximo 3º álbum de estúdio do grupo, é perceptível que a levada dele não chega a ser uma coisa fiel ao jeito punk de se tocar.

 

Este é um ponto muito interessante para se discutir, porque para muitos fãs, Dave foi o melhor baterista que tocou no PEARL JAM até hoje e enxergar esse ponto de vista é algo totalmente plausível e que há de ser respeitado, ainda mais quando se trata de gostos, estilos pessoais e origens de uma pessoa referente à música. Mas às vezes não é só o lado musical que pode garantir a permanência de algum membro na banda. O lado pessoal, psicológico, objetivos próprios, relacionamentos e a maneira de como executar uma ação em conjunto, também contam muito...

 

Continuando a mesma receita de compor as letras para as suas músicas, naturalmente agora de uma forma mais aprimorada, neste álbum também podemos notar que algumas canções são relatadas sobre histórias de outros personagens, como as músicas “Daughter”, “Dissident”, “W.M.A”, “Elderly Woman Behind The Counter in a Small Town”, “Hold On”, “Hard to Imagine”, “Bee Girl” e “Hold Me” (sendo que estas 04 últimas canções foram pérolas que também não entraram no álbum).

 

Assim como temos as músicas que focam aquele aspecto geral da coisa possuindo um cunho social e político, que também é uma ideia remanescente do 1º álbum da banda, o disco “Versus” nos apresenta as canções “Glorified G” e “Rats” que exemplificam muito bem essa postura. Em particular, a letra da música “Glorified G” indica mais um indício do relacionamento/postura divergente que Eddie (ou até a banda toda, vai saber) tinha em particular com Dave. Pois um belo dia, Dave chegou ao estúdio onde a banda estava gravando este álbum com 02 armas e se glorificando com isso. O acontecido, o diálogo entre os membros da banda sobre este assunto, a posição de Eddie referente a isso e a confluência desse forte tema (porte de armas) inserido na sociedade americana, foi parar direto nas letras desta música.

 

Deixando agora um parágrafo em especial, temos que relevar ainda as músicas que falam sobre Eddie. A verdadeira arte de uma obra-prima, a verdadeira mensagem a ser captada pelo ouvinte, é aquela em que você interpreta a música da melhor maneira que lhe convêm, lhe abrindo um leque de sinapses e percepções diferentes a cada audição de uma determinada música, correndo junto com o ouvinte em cada momento e situação diferente que a pessoa está passando nesta vida. Dependendo do seu estado de humor, acontecimentos na sua vida, perdas, amor, frustrações e desejos a realizar, cada música vai lhe passar uma mensagem especial e única, que dependendo do que for ela não será errada e nem correta para todo mundo, mas somente uma mensagem unitária para aquele ouvinte em especial. Este é o verdadeiro poder de uma música!

 

Pois bem, esta pequena introdução foi feita pelo fato de que as letras de algumas músicas desse álbum, desde quando eu o escutei pela 1ª vez lá em 1993 (assim como foi quando eu também escutei o disco “Ten” pela 1ª vez lá em 1991 numa fita cassete), sempre me soaram e foram interpretadas por mim de um tal jeito, mas que no decorrer dos anos eu comecei as enxergarem de outra forma fazendo com que eu mudasse de opinião. 

 

As músicas “Go”, “Animal”, “Rearviewmirror”, “Leash” (aproveitando aqui para celebrar a juventude nesta canção) e “Indifference”, são um exemplo claro do que eu acabei de falar. Antes, eram músicas que eu sempre interpretei como sendo também histórias de outros personagens, mas que com o passar dos anos eu comecei a vê-las como um desabafo de Eddie justamente contra a pressão da mídia, dos críticos musicais e das exigências da gravadora, sendo uma atitude de tentar limpar aquela neblina gerada pelos holofotes que cercava o prisma da banda. Junto com a letra totalmente introspectiva e pessoal da música “Blood”, e com a música aqui já citada que acabou não entrando no disco, “Fuck Me in The Brain”, seriam estas canções que estariam ainda tentando “libertar” Eddie Vedder - até mesmo a banda como um todo - para iniciar o processo de procura do seu “eu” interior.

 

Estes seriam os primeiros passos dados em direção ao que Eddie iria reconhecer e entender mais tarde, como somente uma parte do todo à descoberta cristalizada da sua rota de fuga - a qual viria a sacramentar num futuro álbum de estúdio do PEARL JAM... Mas isto é assunto que esse disco em questão irá nos dizer mais tarde...

 

E outro sinal claro, quantitativamente falando, é de que já são mais músicas diretamente falando sobre Eddie neste álbum do que no disco de estreia, ou seja, mais picaretas para poder abrir e entender o muro que estava na sua frente naquele momento de sua vida, e como ele poderia chegar ao outro lado.

 

Ainda é incrível, somando a todos estes pontos levantados (pressão externa, o baterista da banda e a negação por parte do grupo em cumprir vários “acordos” comerciais), a questão sobre o local onde foi feito a gravação deste álbum, que se iniciou em Seattle, mas que foi tomando corpo e finalização num estúdio na Califórnia, mais propriamente dito em um sítio. Isto deixou Eddie muito nervoso, brabo e indignado com o local, lhe dando agonia e não conseguindo entender como era possível gravar um álbum de rock em um lugar daquele.

 

Juntando tudo isso e ocasionando na explosão da sua já marcante voz, o poder lírico que vislumbra do seu vocal vai cativando mais ainda o ouvinte a participar, entrar e também assumir para si as mensagens das letras e o seu papel inserido, além da representação e fotografia viva de cada personagem nas suas respectivas poderosas músicas que este álbum nos proporciona.

 

Esta capacidade única que Eddie tem com a sua voz e performance foi muito marcante também no álbum de estreia, sendo um dos vários pontos fortes do disco “Ten” que conseguiu cativar o seu público de imediato. Este dom continua mais do que presente no álbum “Versus” também.

 

“Versus” ainda apresenta um Eddie “amarrado” na situação em que a banda se apresentou ao mundo e de como que o grupo teria que se comportar dali em diante perante aos seus empresários, exigências da gravadora e com as flechadas do mundo externo. Vemos um Eddie muito indignado com a situação em que ele se encontrou ainda sem apresentar uma rota de fuga (assim como foi no álbum de estreia), com a coleira que a banda teve que botar nos seus pescoços sendo “mandados” a se comportarem do jeito que o mainstream pedia.

 

Juntando isso que foi acabado de ser dito, mais com tudo o que já foi escrito nesta resenha, creio que o tema do álbum “Versus” pode ser resumido em uma palavra: confronto! Se no álbum de estreia o tema foi a palavra “traição”, a banda agora tomando consciência disso e sancionando o que havia para destilar, chegou a hora da reação, chegou a hora da atitude, chegou a hora do confronto! O nome deste álbum esmiúça muito bem essa ideia assim como o nome que o disco iria levar - que a princípio iria se chamar originalmente, “Five Against One”.

 

E também após o lançamento deste álbum, mais precisamente em 1994, a banda resolveu cancelar a sua turnê de verão devido ao monopólio da Ticketmaster que ocasionou performances, logísticas, promoções, anúncios e despesas dos shows tudo por conta própria da banda, além da presença da mesma em tribunais (essa história da Ticketmaster já é de conhecimento de todos, por isso que não será aqui detalhada e analisada mais a fundo, ok)? Mais uma reação da banda dentre várias citadas nesta resenha..., mais um tipo de confronto.

 

Novamente, agora um pouco mais aflito e tentando ser um pouco mais claro do que foi no 1º álbum, Eddie está tentando buscar uma rota de fuga para os seus problemas existenciais e para a posição a tomar pela banda perante toda esta miscelânea, mas de novo ele ainda não a encontra. O que ele encontra e relata é a podridão que a sociedade é em situações recíprocas e empíricas do nosso dia a dia, além dos relacionamentos emocionais entre si, sendo que a música “Rats” exemplifica muito bem esta questão fazendo a correlação da vivência dos ratos com a sociedade humana. A catarse ainda não é totalmente intelectual neste álbum, ela ainda é emocional com um mais do que poderoso e sônico imediatismo.

 

Mudando de assunto agora, assim como já aconteceu no 1º álbum da banda e que me chama muita atenção em destacar, mais uma vez podemos verificar uma música no disco “Versus” que possui aquela levada tribal que iria ficar marcado em toda a discografia da banda. A canção “W.M.A” representa muito bem esta faceta deixando-a única e singular, assim como cada música com levada tribal ou somente nas percussões que o PEARL JAM nos apresenta em toda a sua discografia. Aqui, a canção caminha sobre um andamento mais agressivo com a levada das guitarras e do baixo se apresentando de uma forma espetacular que vai permeando por toda a música. Ela também nos proporciona uma letra verídica e fatal, misturando tanto a história de um personagem com a sistematização arcaica e racista da polícia, da política e da sociedade em geral. Bela música tribal que, graças ao baixo de Jeff Ament, também flerta com o funk rock.

 

Caminhando agora para o final desta resenha, falta ainda destacar 04 músicas que não entraram no álbum “Versus” e que ainda não foram citadas. A 1ª seria a canção “Angel”, uma música lenta, bonita e tranquila, mas que o lado musical não reflete o que a letra desta canção quer dizer. Uma questão muito interessante com esta música é que a mensagem dela seria ainda uma continuação do que já vinha sendo dita no 1º álbum do PEARL JAM. Se me permitem fazer 03 citações de mim mesmo retirada da resenha do álbum “Ten”, onde está escrito: “Desde o início havia uma dimensão social/política na música que o PEARL JAM fazia, um desejo e uma necessidade de confrontar o mundo exterior e assim tentar desvendar o que aconteceu de errado, o porquê de não estarmos vivendo o que nos foi prometido quando éramos crianças e, acima de tudo, descobrir o que podemos fazer com relação a isso...” “...a música no início dos anos 90 foi escrita para os filhos cujo pais eram jovens/adultos na geração de meados dos anos 60 e da década de 70. Este período foi um dos grandes picos na onda do rock, onde a música tentava com todas as forças ser transformativa, tentava corrigir os erros do mundo (Vietnã, vou dar 01 exemplo somente) e servir como fonte de inspiração e emoção para as pessoas...” “...a geração no início dos anos 90 cresceu em meio a essa falha na revolução proposta pelos seus pais. Essa nova geração sentiu-se de alguma forma traída, havia a sensação de que uma grande promessa havia sido perdida e que as pessoas não tinham ideia para onde ela foi e o que aconteceria dali em diante...” Ou seja, o tema que a letra da música “Angel” aborda vai de encontro, conforme uma flecha que voa direto ao seu alvo, com o tema do álbum “Ten”.

 

A 2ª música é a instrumental “Cready Stomp”. Como será que esta canção teria se comportado se Eddie tivesse colocado os vocais nela? Assim como aconteceu com a música “Angel” pelas suas letras, a levada desta música instrumental nos remete e muito também ao estilo das músicas quebraceiras do álbum “Ten”.

 

A 3ª música seria a já citada aqui nesta resenha chamada “Hold On”, mas que nos apresenta além da sua versão elétrica, uma linda versão acústica que independente de qual versão seja, a audição de ambas imediatamente remete ao ouvinte aquela mesma atmosfera e clima que marcou essa época, com o prisma da nostalgia e do saudosismo do começo dos anos 90 à flor da pele. A versão elétrica também representa muito bem como era o estilo das músicas quebraceiras que o PEARL JAM tocava nas antigas, antes do punk rock chegar de uma forma bem característica nas composições das suas músicas.

 

E a 4ª e última música a destacar seria o cover mais que batizado pelo jeito PEARL JAM de ser, a canção "Crazy Mary", composta pela cantora americana Victoria Williams.

 

Uma obra de arte, dentre vários conceitos e simbolismos, é marcada também pela fotografia que ela nos remete à mente e pela cápsula do tempo em que o ouvinte vai de encontro quando se comenta em uma conversa sobre o álbum “Versus”. De imediato é estampado na mente e realmente fica marcado na vida de um fã, como por exemplo, na canção “Rats”, onde o vocal soturno de introdução e as viradas da bateria que acontecem no finalzinho da música com o volume abaixando; ou o riff e o solo marcante das guitarras de Stone Gossard e Mike McCready na canção “Leash”; o grito imensurável e inigualável de Eddie na música “Rearviewmirror”; os suspiros introspectivos chegando ao ponto de ser possível ouvir a respiração do vocal na canção “Indifference”; e o que dizer da bateria de introdução da música que abre o álbum, “Go”? Por falar em bateria, bela batera no final da canção “Blood”.

 

São estes lampejos e várias outros sintomas inconscientes que temperado nisso tudo, não é muito difícil de ouvir também no decorrer desse disco as influências do guitarrista da banda, Mike, pela guitarra psicodélica de JIMI HENDRIX (principalmente nos seus solos).

 

Nota: O álbum “Versus”, que já é de conhecimento de todos os fãs do PEARL JAM, na 1ª semana do seu lançamento vendeu mais de 950 mil cópias só nos EUA, superando todos os demais álbuns combinados que faziam parte do Top 10 da Billboard daquela época. Isto definiu um recorde na história do rock’n roll que foi mantido por 05 anos, além de também ter ocupado o 1º lugar da Billboard durante 05 semanas. Mas somente entre álbuns de rock, este recorde só foi quebrado depois de 07 anos após o seu lançamento. Além disso, é um dos poucos discos que conseguiram a proeza de ranquear músicas na lista da Billboard que não foram singles.

 

Track-list:

 

1- Go
2- Animal
3- Daughter
4- Glorified G.
5- Dissident
6- W.M.A.
7- Blood
8- Rearviewmirror
9- Rats
10- Elderly Woman Behind The Counter in a Small Town
11- Leash
12- Indifference

 

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