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  • by Brunelson

Pixies: "somos autodepreciativos, travessos e propensos às velhas cantigas, isso é o Pixies”


Confira na íntegra a matéria e entrevista que a revista Spin realizou recentemente com a banda PIXIES:


Banda de "outsiders", é possível realmente conhecer o PIXIES?


Os enigmáticos antepassados do rock alternativo e independente não estão interessados em rótulos, legados ou padrões da indústria.

Escrever sobre o PIXIES é difícil porque, em algum nível, eles são incognoscíveis.


Por exemplo, o vocalista da banda nasceu como Charles Thompson IV, é conhecido no grupo como Black Francis e se apresenta solo sob o apelido de Frank Black. Além disso, a banda - cuja primeira encarnação de 1986 a 1993 foi reformada em 2004 - tem evitado entrevistas, videoclipes e outras formas tradicionais de promoção. Tudo isso, junto com a natureza abstrata das letras do grupo, com a propensão de Francis para referenciar tudo, desde movimentos de séculos passados até a Bíblia, se tornando um legado de música que é amado por quase todos os subgêneros da música alternativa, criando uma tempestade perfeita de música artística e ambígua.


Embora essa fórmula possa parecer pretensiosa no papel, a música do PIXIES é tudo menos isso e isto porque a maneira como eles se apresentam foi tão consistente que parece extremamente improvável que seja uma coisa inventada e artificial.

Quando perguntado pela revista Spin se a abordagem enigmática da banda era consciente ou apenas alinhada com as personalidades individuais dos membros da banda, Francis respondeu: “Bom, eu diria que ambos. Temos plena consciência de que estamos sendo citados, observados, revisados ou qualquer outra coisa pelas pessoas e veículos de comunicação. Isso reforça as nossas tendências ao surrealismo, quero dizer, não somos surrealistas no sentido clássico da palavra, mas o tom e a atitude de muita arte surrealista clássica acho que influenciou a nossa estética”.

O surrealismo é conhecido por ser sobrenatural, metafísico e desconhecido, mesmo assim, é a chave para tentar entender o PIXIES. Talvez em algum nível, Francis esteja sendo enigmático como parte de uma ideologia que imita a vida na arte (e uma desconfiança arraigada de jornalistas).

Mas além de ser responsável por ajudar a criar um quarteto de álbuns do rock alternativo objetivamente perfeitos no final dos anos 80 e início dos anos 90, essa sensibilidade surrealista duradoura é uma das razões pelas quais a lenda do PIXIES parece maior do que a vida quase 04 décadas após o seu lançamento. Os mitos informam a mitologia nesse momento e até a própria banda não tenta fazer essa distinção. Em outras palavras, não obter respostas diretas é, em última análise, apenas parte do desempenho.

Nesse espírito, o que Francis acha que é o maior equívoco sobre o PIXIES?

"Não tenho certeza se eu sei", diz ele. “Estamos abertos a interpretações”.

Para aqueles que não estão familiarizados com a história do PIXIES, Francis e o guitarrista Joey Santiago se conheceram como estudantes na Universidade de Massachusetts em meados dos anos 80 e formaram a banda em Boston em 1986, logo recrutando a baixista Kim Deal (que viria a formar o THE BREEDERS com a sua irmã gêmea em 1989) e o baterista David Lovering.


O álbum de estreia, "Surfer Rosa", produzido por Steve Albini em 1988 (o mesmo do disco "In Utero" do NIRVANA), continua sendo um dos mais importantes lançamentos do rock independente de todos os tempos e é tanto uma estreia quanto uma coleção de grandes sucessos, com músicas como “Bone Machine”, “Gigantic” e “Where is My Mind”. A banda lançou os também impressionantes álbuns "Doolittle" (2º disco, 1989), "Bossanova" (3º disco, 1990) e "Trompe Le Monde" (4º disco, 1991).

Então, as coisas ficaram um pouco confusas e nebulosas depois de tudo isso, mas há algumas coisinhas que sabemos...

A banda se separou em 1993, quando Francis proclamou na rádio BBC de Londres que o PIXIES tinha encerrado as atividades e de acordo com o documentário de 2006, "LoudQUIETLoud: A Film About The Pixies", Francis não informou os outros membros do grupo antes do anúncio público na rádio.

Francis seguiu em carreira solo, Deal continuou com o THE BREEDERS em tempo integral, Santiago continuou a trabalhar com Francis enquanto escrevia músicas para a televisão, e Lovering se apresentou com a banda de Santiago, THE MARTINIS, além de uma passagem pelo CRACKER.

Então, o PIXIES fez algo que era muito menos comum em 2004. Eles se reuniram e começaram a excursionar novamente, tocando em festivais como o Lollapalooza, Coachella e sendo a atração principal.

Ao longo de tudo isso, as tensões entre Francis e Deal foram bem documentadas e o PIXIES anunciou em 2013 que Deal havia deixado a banda. Deal foi substituída brevemente por Kim Shattuck e em seguida, pela baixista do A PERFECT CIRCLE, Paz Lenchantin, que tem sido a formação da banda atual desde então. Reunidos, eles lançaram os álbuns "Indie Cindy" (5º disco, 2014), "Head Carrier" (6º disco, 2016), "Beneath The Eyrie" (7º disco, 2019) e "Doggerel" (8º disco, agora em setembro de 2022).

Se isto soa como o enredo de uma novela de uma banda de rock, você não seria o primeiro a se sentir assim. No entanto, a complicada história do grupo não deve ofuscar o seu último álbum de estúdio, "Doggerel", um excelente disco que soa como o clássico PIXIES.


Desde a abertura sincopada e furtiva da música “Nomatterday” (que apresenta uma mudança de ritmo surpreendente e estranhamente satisfatória), à progressão misteriosa e falsete instantaneamente reconhecível na canção “Haunted House” e ao groove descontraído na música “Pagan Man”, o álbum "Doggerel" é digno do catálogo clássico da banda e está repleto de leveza e de peso que às vezes se cruzam, mas na maioria das vezes deixam o ouvinte com a incapacidade de decifrar um do outro.

Um exemplo perfeito disso é a canção “Get Stimulated”, que apresenta backing vocals especializados de Lenchantin e abre com o dístico: “Eu não tenho pílulas ou emoções para sobreviver / Alguns dizem que nunca vivi / Mas sei que estou vivo / Você sempre diz que eu estou vivendo na minha cabeça / Mas vou chorar por você muito tempo depois que você morrer”.


Essa dicotomia entre elogio e euforia está no cerne do álbum e é o que faz do disco "Doggerel" o tipo que se desdobra mais e mais a cada escuta subsequente, o que tem sido um pré-requisito característico de todos os lançamentos celebrados da banda.

Desta vez, o grupo trabalhou em um local muito diferente para criar o álbum. O mesmo foi gravado ao longo de 03 semanas em janeiro e fevereiro de 2022 com o produtor Tom Dalgety no Guilford Studios no estado de Vermont, e essa experiência definitivamente influenciou o som geral do disco.

“Há uma atmosfera cinematográfica em que entramos”, disse Francis quando perguntado sobre a influência do cenário e paisagem do local. “Foi espelhado pela floresta congelada, riachos e campos de neve que ficavam do lado de fora das enormes janelas com vista que tem no estúdio”.

“Pode haver uma correlação que foi ativada”, acrescentou Santiago. "Não sei, podemos ter feito um álbum semelhante em algum estúdio punk em Oakland, ninguém sabe, mas foi bastante confortável e na hora de arregaçar as mangas para começar a trabalhar, era muito melhor ficar dentro do estúdio e não sair para a neve. Você poderia literalmente morrer se saísse naquela nevasca e dessa forma parecia que estávamos em um tipo de pensamento profundo... Quero dizer, eu simplesmente não poderia imaginar estar gravando esse disco num lugar ensolarado. Acho que era hora de trabalhar e tem que ser no inverno, tipo, acho que as 04 estações do ano são muito naturais pra mim no que se deve fazer”.

Lenchantin assumiu um ângulo mais introspectivo sobre o mesmo tópico, explicando que o isolamento a ajudou a visitar um “'eu' em potencial que eu não vejo quase nunca” antes de se aprofundar no quão sortuda ela se sente pessoalmente, no que se refere da banda gostar de trabalhar e gravar juntos, em vez de lidar com as coisas digitalmente e a distância.

“Eu matei aula na escola quando tinha 13 ou 14 anos de idade para ver o show do PIXIES no Dodger Stadium em Los Angeles junto com o THE CURE”, disse ela. “Obviamente, é uma banda importante na minha vida e educação, então, há um entendimento natural. Eu não tive que aprender nada quando entrei no grupo, pois foi como um entendimento natural embutido em mim, mas o estilo próprio é importante, você sabe, sempre me identifiquei com o estilo do PIXIES e adoro isso. Eu amo que eles possuem uma personalidade própria e gostei muito de gravar esse último álbum. Fiquei com o coração partido por não poder fazer uma turnê em divulgação ao disco 'Beneath The Eyrie' devido a pandemia. Estávamos apenas começando a cair na estrada quando tudo foi cortado. Sempre pensei que se você perder algo, você deve substituí-lo por algo ainda melhor, certo? É assim que você transforma essa energia e eu realmente acredito que fizemos isso”.

Santiago também parece se sentir grato por estar no PIXIES nos dias de hoje, embora ele nem sempre tenha se sentido assim: “Na verdade, eu estava muito azedo”, disse ele sobre um momento específico em que o PIXIES não estava em atividade. “Eu fui ao cinema uma noite e sem saber ouvi a nossa música, 'Where is My Mind', em um trailer antes do filme principal começar e eu fiquei, tipo: 'Ah, foda-se' (provavelmente do filme 'Clube da Luta', onde esta canção toca nos créditos finais)”.


Santiago acrescentou que sofre de um distúrbio chamado Misofonia, que o torna muito sensível a sons como mastigar e comer: “Eu fico meio que com raiva, então, isso me deu outra desculpa pra ficar pensando: ‘Viu? É por isso que eu não vou continuar com o PIXIES', então, eu saí da banda”.

Mas agora que Santiago e o PIXIES estão se aproximando de sua 2ª década de "re-existência", o guitarrista está alcançando novos patamares dentro da banda. O disco "Doggerel" apresenta a primeira música do PIXIES que ele escreveu 100%, “Dregs of The Wine”, além da canção “Pagan Man”, na qual ele ajudou Francis com a letra.

Mesmo assim, ele não vai perguntar a Francis sobre o significado das músicas do PIXIES.

“Não, não...”, ele ri. “E eu espero que eles não me perguntem sobre as letras da canção ‘Pagan Man’. Era apenas um monte de palavras esmagadas e eu tive que jogar palavras fora e colocar novas lá, o que foi um processo divertido e no final se tornou essa história. Eu não perguntaria a Charles sobre o que se trata, porque parece muito pessoal e deve haver um quebra-cabeça lá que é, você sabe, um segredo profundo”.

Em outras palavras, se Francis não sente a necessidade de discutir as suas letras com os seus próprios companheiros de banda, não é surpresa que ele não queira ser muito descritivo com mais ninguém: “Bom, há duas co-escritas com Joey e eu no álbum 'Doggerel'”, disse Francis. “Acho que é mais uma colaboração de escrita maior do que apareceu em qualquer outro disco no catálogo do PIXIES e imagino que haverá muito mais colaboração por vir... Eu sinto isso”.

De certa forma, é revigorante que o PIXIES tenha cultivado um som e uma identidade que parece existir em um vácuo cultural, dando ao ouvinte informações suficientes para criar a sua própria imagem idealizada da banda. Assim como a obra-prima inadvertida de 1996 do WEEZER, o álbum "Pinkerton", o PIXIES influenciou muitas bandas do punk rock, rock alternativo e independente, mantendo um nível de distanciamento que contrasta fortemente com uma cultura musical impregnada de autoconsciência e mídia social.

“Já foi dito muitas vezes que somos influentes”, disse Francis. “Não sei se posso sentir isso ou não... É bom receber um elogio, ok, eu aceito, mas não é a razão pela qual fazemos música, certo? Validação simples e patrocínio simples é tudo o que já pedimos ao nosso público e gostamos de sentir que o cliente recebeu o valor do seu dinheiro. Além disso, queremos que seja uma coisa boa”.

Santiago está pelo menos ciente do álbum tributo ao PIXIES de 1999, mas ele não parece ter muito um ponto de referência para o tipo de música daquelas bandas que fizeram os covers do grupo. Aliás, o fato de que muitas das maiores bandas da cena punk rock e alternativo daquela época começaram fazendo covers de clássicos do PIXIES como as canções “Velouria” e “Debaser”, o que é mais uma razão para Santiago não se interessar por eles.

“Quando alguém me diz: ‘Estou ouvindo essa banda e eles se parecem com vocês’, eu digo: ‘Obrigado pelo aviso, cara, mas não vou ouvir'. Vou admitir que, talvez uns 02 anos atrás durante a pandemia, eu finalmente parei para escutar o FUGAZI e adorei! É muito bom e foi como: 'Foda-se, eu sou o cara que está descobrindo somente agora o FUGAZI'. É assim que eu sou, sabe? Simplesmente não vou ouvir coisas que acho que serão muito próximas de nós”.

A modéstia inerente dos membros fundadores da banda sugere que a indiferença do PIXIES à sua influência, pode estar mais impregnada de utilidade do que qualquer outra coisa. Claro, pode ser apenas humildade externa para minimizar a sua própria importância, mas não há sinal de que Francis ou Santiago secretamente se deleitem em seu papel como antepassados do rock independente, enquanto fingem ser os desajustados sociais da indústria da música.

“Nós somos as pessoas mais nerds que existem nos bastidores de qualquer festival de música e todo mundo parece realmente uma banda de roqueiros, menos nós, mas cara, aqui estamos nós, apenas passeando, sabe?” disse Santiago. “Sempre me senti um estranho e ainda não acho que estou na ‘cena’ no sentido da moda, sabe? Eu sei, porque muito do rock n' roll é baseado na moda também, não é? E eu nunca prescrito pra isso e gostaria que fosse feito de forma natural. Eu gostaria de poder dizer que estamos indo contra a corrente, mas não posso. Além disso, parece haver uma roupa específica para algo que supostamente está do lado de fora como 'outsider'. Tipo: 'Então, você quer ser um 'outsider'? Entre aqui então, mas tem uma regra: você tem que se vestir desse jeito assim'. Cara, que tipo de rebelião é essa então?”

O funcionamento interno do PIXIES é difícil de definir porque essa banda realmente de "outsiders" também faz o ouvinte sentir que está sempre do lado de fora como "outsider".


Quando solicitado a definir a dinâmica atual da banda, Francis educadamente pediu para assistir ao documentário da banda, "LoudQUIETLoud: A Film About The Pixies", que narra a turnê de reunião da banda em 2004 com Kim Deal ainda no baixo. Talvez a melhor maneira de obter uma resposta mais concreta sobre como a banda funciona, é pedir à única pessoa que a experimentou tanto como fã quanto como um membro do grupo.

“Eu fui a única olhando a banda de fora e entrando no grupo com esse tipo de amor, perspectiva e respeito, o que me forneceu um outro tipo de força”, disse Lenchantin. “Em uma época também onde a banda era anti-videoclipes e num período de tempo em que não havia telefones celulares e redes sociais, tipo, crescer escutando PIXIES me deu outra perspectiva e vejo como o som da banda é atemporal. O que é bom e é uma coisa que vai transformar você em algo que você não pode ignorar”.

A baixista também explicou como a banda conseguiu se manter tão relevante e vital no álbum "Doggerel", evitando as armadilhas típicas da indústria da música. Após cuidadosa consideração, percebemos que a maior pista sobre a identidade atual da banda vem de quando perguntamos a Francis sobre a decisão de nomear o seu último disco como "Doggerel", uma palavra que é definida como “a medida de um estilo solto e irregular, especialmente para efeito burlesco ou cômico”.

“Geralmente, intitulamos os nossos álbuns a partir de uma letra do disco, ou às vezes pode ser também apenas do título de uma música”, explicou Francis, encerrando a entrevista. “A palavra se encaixava na música e o título da música se encaixava no nome do disco. Estamos propensos às velhas cantigas, somos autodepreciativos e também somos travessos... Afinal, somos o PIXIES”.


Confira os singles lançados pelo PIXIES em divulgação ao álbum "Doggerel":


"There's a Moon On"


"Vault of Heaven"


"Dregs of The Wine"


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