• by Brunelson

Billy Corgan: confira recente entrevista para revista Rolling Stone em 2021


Antes dos álbuns "Nevermind" (NIRVANA), "Ten" (PEARL JAM), "Badmotorfinger" (SOUNDGARDEN) ou "Dirt" (ALICE IN CHAINS), havia o disco "Gish" do SMASHING PUMPKINS.

E embora possa ser exagero dizer que esse álbum de estreia do SMASHING PUMPKINS em 1991 foi o primeiro disco da revolução do rock alternativo - é o primeiro álbum independente que mais vendeu cópias em seu lançamento na história do rock - com certeza deixou a sua marca que foi assimilada por muitas outras bandas.

Em um momento em que a maioria dos discos independentes falhavam em alcançar muitos fãs fora do pequeno culto de um ato, o álbum "Gish" entrou inesperadamente no ranking da Billboard e liderou algumas paradas alternativas se conectando a territórios tão distantes como a Nova Zelândia e Austrália.

Poderia ter sido muito mais, mas talvez porque o público mainstream da MTV não conhecia o SMASHING PUMPKINS até o sucesso do seu 2º álbum de estúdio, "Siamese Dream" (1993), muito depois que o NIRVANA e o PEARL JAM estouraram pela MTV - com o impacto do disco "Gish" sendo um pouco obscurecido nesses termos.

Com o álbum "Gish" completando 30 anos de vida, a revista Rolling Stone entrevistou Billy Corgan (frontman) sobre como a banda criou o disco "Gish" gravando com o produtor Butch Vig no Smart Studios em Madison, Wisconsin; o impacto que o ácido LSD teve em sua música; o longo legado do disco "Gish"; sobre o último álbum de estúdio lançado pela banda, "Cyr" (10º disco, 2020), os planos futuros do grupo que incluem a gravação do vindouro álbum e que será a etapa final da trilogia dos álbuns "Mellon Collie and The Infinite Sadness" (3º disco, 1995) e "Machina The Machines of God" (5º disco, 2000) e um retorno à estrada após um hiato de 02 anos devido a pandemia.


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Seguem alguns trechos dessa entrevista:

Jornalista: São 8:30hs da manhã e estou surpreso que você queria fazer essa entrevista tão cedo. Você é uma pessoa matutina?

Billy Corgan: Eu acordei às 5h30hs da manhã.

Jornalista: Nossa... Eu queria começar falando sobre o disco "Gish", já que este é o 30º aniversário do álbum. Como é pensar que foi há 30 anos que esse disco foi lançado?

Corgan: É muito selvagem de pensar, porque não parece que foi há muito tempo atrás. Me lembro da minha avó me contando histórias sobre coisas que aconteceram e me dizendo: "Puxa, não me parece que isso aconteceu há tanto tempo atrás". Pra mim, quando era criança, 30 anos parecia uma vida inteira.

Corgan: E agora eu olho para trás e não sinto que isso foi há muito tempo. Ainda posso nos ver no Smart Studios com o produtor Butch Vig gravando o álbum "Gish". Ainda consigo ver onde estava a bateria no estúdio e tudo mais. Está tão claro em minha mente como se tivesse acontecido há 01 ano atrás. É muito selvagem de se pensar e sei que passou 30 anos, mas estou um pouco "lento" para aceitar isso.

Jornalista: Você gravou esse disco quando as maiores bandas de rock eram grupos do glam metal. Você ao menos achou que seria possível para o álbum encontrar um grande público naquele cenário?

Corgan: Acho que o nosso foco era o mundo em que estávamos. Se você pudesse se apresentar no clube Metro em Chicago para mil pessoas, você estaria fazendo algo. Era onde íamos assistir as bandas que gostávamos na época. Foram bandas que eu realmente gosto e que foram deixadas de lado pela história, grupos como LOOP e SCREAMIG BLUE MESSIAHS. Havia muitas outras bandas que estavam no cenário na época e que eram muito boas, como COCTEAU TWINS e CLAN OF XYMOX.

Corgan: Então, a aspiração era que, se você fosse grande, você tocaria no clube Metro. E se você fosse realmente grande, você tocaria no Riviera Theatre para quase 3 mil pessoas. Foi isso e esse era o nosso ecossistema.

Jornalista: O produtor Butch Vig foi obviamente uma parte muito importante do álbum "Gish". Do seu ponto de vista, quais foram as contribuições mais importantes dele?

Corgan: Bom, a primeira coisa é que Butch Vig, como baterista que ele é, realmente se conectou com o nosso baterista, Jimmy Chamberlin, mas não apenas na bateria em si, mas também no som que a bateria poderia emitir. Eles tinham uma afinidade natural e falavam aquela língua que apenas bateristas entendem. Butch foi um dos primeiros... Acólito? Eu não sei qual é a palavra certa, mas ele foi o primeiro verdadeiro crente na habilidade de Jimmy. Ele percebeu, pois Butch estava gravando bateristas independentes o tempo todo e lá vem Jimmy Chamberlin aparecendo na porta, tipo, Butch pensava: "Esse é o cara!"

Corgan: O jeito que Jimmy tocou bateria no disco "Gish" se conectou com o jeito que Butch gravou a bateria. Pra mim, quando penso nesse álbum, penso no som da bateria.

Jornalista: Eu sei que Butch Vig pressionou muito você como vocalista e fez você cantar partes indefinidamente. Eu imagino que, em retrospecto, você reconhece que ele estava apenas tentando extrair o melhor de você? Deve ter sido frustrante na época...

Corgan: Bom, há uma mensagem dupla aí... Uma é que Butch falava ruidosamente sobre as experiências que teve no mundo da música, sobre ele, como músico sendo torturado por produtores. Não vou citar nomes, mas ele se sentiu muito queimado pelas experiências em bandas que assinaram com grandes gravadoras.

Corgan: Agora, é claro, na era pós-Pro Tools, eu entendo que, o quê Butch estava tentando fazer era alcançar um nível de consistência que só poderia ser verificado por meio de um trabalho realmente árduo, mas na época estava tão fora do meu alcance de experiência que interpretei como: “Bom, se tenho que cantar isso 40 vezes, não devo ser um bom cantor”.

Jornalista: Esse foi o seu primeiro álbum e você era muito jovem. Eu imagino que muito do processo estava fora da sua zona de conforto.

Corgan: Sim. Os pontos de stress de Butch estavam em sintonia, tanto musicalmente quanto com os vocais e ele elevou tudo há um nível muito, muito alto. Eu nunca tinha tocado nesse nível e nem Jimmy. Ele nos mostrou como a natureza concussiva da banda poderia ser percebida com precisão. Isso nos estabeleceu esta trajetória em particular e assim que pudemos fazer isso, ele só queria mais e mais. Foi uma daquelas coisas em que se tornou como uma droga viciante, sabe? A cada sessão que passava, ele continuava a elevar a barra de dificuldade para nós.

Jornalista: Essa é a marca de um bom produtor.

Corgan: Sim. Uma coisa é olhar para a história e dizer: "Que fantástico", mas na época era muito inseguro e nenhum de nós tinha garantia de nada.

Jornalista: Eu acho que as grandes gravadoras não conseguiam compreender que esse tipo de música pudesse encontrar um grande público. Deve ter parecido um nicho para as gravadoras e elas queriam "mudar" a música para algo que achavam que iria vender.

Corgan: E nós não precisávamos adivinhar isso, eles mesmos nos diziam. Você se sentava nas reuniões e eles diziam: “Esse material não vai vender”. Estou parafraseando a citação geral, mas era como a gravadora dizia: "Sabemos que algo está acontecendo e queremos estar nesse negócio, mas não achamos que será tão grande quanto poderia ser. Lhes pergunto: vocês estão dispostos a torná-lo uma coisa maior?” Todos nós encolheríamos os ombros e diríamos: "Não sabemos do que você está falando".

Jornalista: Não era como se você fosse escrever uma receita pronta de comida ou algo assim. Você fez o que tinha que ser feito na hora.

Corgan: Eles iriam flutuar em perguntas desde: "Você está disposto a trabalhar com produtores estrangeiros?" Eles lançariam nomes que obviamente matariam a sua credibilidade. Você pode ver onde a dobra começou a acontecer quando indiquei Butch Vig para trabalhar conosco antes de assinar o contrato com a gravadora. A reação deles foi: "Ok, acho que vamos deixar você trabalhar sozinho com esse (desconhecido) Butch Vig, se é isso o que você realmente deseja".

Corgan: Houve muito desse tipo de reação por parte deles em revirar os olhos, sabe? É mais fácil usar a situação do álbum "Nevermind" para ilustrar esse ponto de vista. Kurt Cobain diz à gravadora que quer Butch Vig produzindo o seu disco. A gravadora tentou "amarrar" Butch Vig para trabalhar junto com um produtor renomado. Isso não acontece e Butch faz a produção sozinho e depois a mixagem. Depois de tudo feito, a gravadora tira fora a mixagem de Butch e pedem para Andy Wallace fazer uma nova mixagem porque ele é uma pessoa conhecida na indústria musical. Se você se lembra, Kurt Cobain disse em entrevista que, já que tinham que escolher uma pessoa para mixar, ele queria Andy Wallace, porque Wallace era o escolhido da banda SLAYER.

Corgan: A questão é que todas aquelas bandas e nós estávamos entrando sorrateiramente pela porta lateral, por assim dizer... As gravadoras subestimaram severamente o poder do que estava por vir, então, começamos a trabalhar com um produtor sem nome chamado Butch Vig para fazer um disco que, na cabeça das gravadores passaria despercebido. Esse álbum começou a vender loucamente e eles começaram a pensar: “Talvez eles estejam no caminho certo”. Na época em que as gravadoras estavam tentando descobrir o que fazer, foi aí que veio o álbum do PEARL JAM, "Ten", e depois o disco do NIRVANA, "Nevermind". Foi quando o jogo mudou instantaneamente do dia para a noite.

Jornalista: Eu queria falar sobre algumas canções do álbum "Gish". Você já disse uma vez sobre a música "Rhinoceros" como um verdadeiro ponto de virada para você como compositor. Você poderia elaborar mais sobre isso?

Corgan: Acho que, para nós, foi tentar encontrar o equilíbrio entre a sensualidade e a graça do tipo que realmente gostávamos, fosse em bandas como THE CURE, SIOUXSIE AND THE BANSHEES ou MY BLOODY VALENTINE, contra o que estávamos interessados no momento - que até então chamávamos de rock clássico, mas não estava sendo chamado ainda de grunge.

Corgan: Essa foi a única coisa com a qual muitos compositores independentes tiveram problemas por volta de 1990, tipo, eu ainda estava confluindo nomes como BLACK SABBATH e LED ZEPPELIN à minha música, sabe? Mesmo a forma como o SOUNDGARDEN foi recebido, que era uma espécie repleta de riffs pesados onde eles estavam fazendo aquele som sério e nada estúpido.

Corgan: Para nós, foi tentar se tornar um ponto de equilíbrio entre o que parecia ser um riff idiota de rock e as coisas que realmente nos atraíam vindas do Reino Unido. Colocamos essas peças junto com os BEATLES em algum lugar no meio e uma música como “Rhinoceros” encontrou esse equilíbrio para nós onde poderíamos ser lindos, bonitos, psicodélicos e em seguida, girar o botão e ser pesados e tocar uma música emocionante.

Corgan: Na época, muitas pessoas me perguntavam: "Que porra vocês estão fazendo?" Eles simplesmente não conseguiam entender porque você não deveria colocar essas peças juntas. Elas não combinavam esteticamente em suas mentes e elas certamente não combinavam comercialmente.


"Rhinoceros"


Jornalista: O riff da canção “Siva” também parece um momento importante...

Corgan: Pra mim, essa foi a primeira vez que pensei: “Ok, eu realmente posso fazer isso”. Quero dizer, eu realmente posso colocar essas ideias em uma música. Era pesado, mas parecia sensual. Foi a mesma sensação que tive quando tomei ácido LSD e ouvi música indiana. Havia um certo tipo de música ao querer "puxar" as cordas. Eu não sei como articular melhor, mas era essa necessidade de um sentimento psicodélico e demorou um pouco para descobrir tudo isso.

Corgan: Mesmo quando o gênero grunge começou a decolar, fomos tratados como estranhos, uma vez que a nossa abordagem não era tão óbvia quanto a da maioria das pessoas quando se tratava de rock. Quando você olha para alguns dos grandes momentos no início da história do grunge, você tem a sensação de que as bandas não estavam se importando. Eles diziam: “Sabemos que estamos tocando esse tipo de rock, mas não o estamos levando muito a sério e você também não deveria”. Resolvemos levar muito mais a sério e recebemos muita merda por isso.


"Siva"


Jornalista: Em uma música como “Daydream”, eu ouço a influência da banda MY BLOODY VALENTINE, mas você colocou o seu próprio toque nela.

Corgan: Sim e essa é uma história engraçada. As nossas bandas se tornaram amigas uma da outra e uma vez, Kevin Shields (vocalista/guitarrista do MY BLOODY VALENTINE) estava em nosso ônibus de turnê em algum lugar e ele me disse: “Eu realmente gosto daquela música chamada 'Daydream'”. Eu respondi: “Você deveria, porque eu herdei isso de você” (risos).

Corgan: Até a maneira como abordamos a forma de cantar... Foi um momento tão lindo, porque você se sentia livre para pular e encontrar coisas que achava interessantes e jogava na mistura do som da nossa banda. O que é interessante e que eu gosto de dizer sobre o álbum "Gish", é que mostra as nossas influências e quem éramos como pessoas antes da pressão real entrar em nossas vidas. Já o disco "Siamese Dream" é a representação de quando a pressão entrou. Foi tipo: “Ok, agora precisamos realmente descobrir quem somos”.

Corgan: De repente, com o álbum "Siamese Dream" estávamos naquele lugar incrivelmente lotado. Antes, com o disco "Gish" estávamos trabalhando no estúdio de Butch Vig e não havia pressão. Atravessaríamos a rua para comer um sanduíche de queijo grelhado, não havia internet e não havia literalmente nada. Éramos apenas nós e a Guerra do Golfo passando na TV. Era tão simples e a cena era muito pequena. Eu amei que fomos capazes de capturar quem éramos como pessoas antes daquela louca viagem de foguete começar. Obviamente, tudo o que veio no pacote depois nos mudou e nada mais foi o mesmo depois daquilo.


"Daydream"


Jornalista: Se você não tivesse experimentado ácido LSD durante esse tempo, você acha que o álbum "Gish" teria sido um disco diferente? O LSD abriu a sua mente para novas ideias?

Corgan: Tipo sim e tipo não. Eu era um grande ouvinte psicológico, por assim dizer. Eu ouvia discos psicodélicos que encontrava em brechós. Eu e James Iha (guitarrista) ouvíamos um monte de coisas, como a banda THE LEMON PIPERS. Costumávamos sentar no meu quarto e ouvíamos também a banda THE LOVIN' SPOONFUL por volta de 1989 e o ácido LSD me deu confiança para tentar essas coisas em uma espécie de ato estranho andando na corda bamba.

Corgan: Vou te dar uma pequena visão da minha experiência. Eu estava obviamente muito orgulhoso de lançar um álbum e trabalhei muito nele e então, dei a minha primeira cópia do disco ao meu pai. O meu pai era um ótimo músico e meio que meu ídolo. Fui até ele nervosamente para ver qual seria a sua reação, já que ele é muito capaz de ser extremamente crítico. O seu único comentário foi: "Você dividiu muitos fios de cabelo meu". O que isso significa em nossa linguagem familiar, é: "Você fez um trabalho muito interessante de junção de genes com as suas influências neste álbum".

Corgan: Ele basicamente admitiu que eu fiz um bom trabalho de junção de genes, mas também me rebaixou por tirar de outras pessoas e não ser totalmente original, mas sem o ácido LSD, não acho que teria a confiança para tentar.

Corgan: Como eu disse anteriormente, literalmente as pessoas realmente não entendiam o que estávamos fazendo. Elas não entendiam e você precisa imaginar como era naquela época. Pense em uma multidão por volta de 1990 em algum bar e eu tocando essas músicas. Apenas as notas da guitarra já assustavam as pessoas. Elas diziam para nós: “Por que vocês são tão agressivos? Por que o som está tão alto?” Estas pessoas se sentiam confortáveis com a opinião (som) de outros artistas e bandas, mas a nossa opinião (som) os deixavam desconfortáveis porque era um rock muito clássico. Havia muito das bandas BOSTON e QUEEN em nosso som para eles e isso meio que os assustaram.

Jornalista: Por que você deu ao álbum o nome da atriz de cinema mudo, Lillian Gish? Qual é a conexão entre ela e a música?

Corgan: Tenho uma vaga lembrança de conversar com a minha avó quando era criança, sobre como foi crescer na zona rural de Kentucky. Ela nasceu em 1911 e eles não tinham um carro. Ela morava numa fazenda, então, quando ela fosse para a cidade, eles teriam que ir a cavalo e charrete. Imagine a minha avó em algum lugar por volta de 1920. Certa vez, eles foram de cavalo e charrete para a cidade porque iria chegar um trem trazendo uma estrela do cinema.

Corgan: Ela falou comigo sobre ver a atriz Lillian Gish no trem. Eu li sobre isso desde então e essas estrelas do cinema faziam várias viagens de trens naquela época atravessando zonas rurais. Elas paravam, acenavam, deixavam as pessoas tirar algumas fotos, ficavam 05 minutos e o trem seguia em frente. Para a minha avó em 1920, ver Lillian Gish na parte de trás do trem - que era a maior estrela de cinema do mundo - houve algo nessa memória que realmente me marcou, que foi o contraste entre a luz brilhante do estrelato e uma menina crescendo literalmente num chão de terra.

Corgan: Há algo sobre a coisa sentimental que se implantou na minha mente. Ela me deu essa memória quando eu tinha 10 anos de idade e isto ficou gravado no meu cérebro. Quando estávamos gravando o álbum "Gish" e procurava por um título, pensei em todos os tipos de títulos elegantes, mas tudo parecia inadequado. Um dia, quando estava sob efeito de ácido LSD, o nome Gish apareceu e pensei: "Isso é interessante. Ninguém sabe o que significa, mas eu sim”.

Corgan: Propositalmente, acho que não disse à banda o nome do álbum até que o disco foi lançado. Era para que eles não pudessem discutir, tipo: “Ah, que pena. Já foi lançado e o nome é esse mesmo".

Jornalista: Pulando para o presente, depois de gravarem com o produtor Rick Rubin o álbum de retorno dos membros originais em 2018, "Shiny and Oh So Bright, Vol. 1" (9º disco), o que fez você decidir produzir sozinho o próximo álbum, "Cyr", (10º disco, 2020) e trazer vários sintetizadores ao som?

Corgan: Bom, trabalhamos com Rick Rubin no álbum "Shiny and Oh So Bright, Vol. 1", e Rubin gosta de trabalhar muito rápido. Ficamos de bem com isso, já que originalmente a ideia era gravar apenas 01 música para marcar o retorno dos membros originais (somente a baixista D'arcy não voltou). Era como: "Vamos fazer do jeito de Rubin. Não vamos nos atolar, porque definitivamente temos uma tendência a atolar quando vamos gravar um disco”. Pelo menos, eu tenho a tendência a atolar.

Corgan: Depois que fizemos este álbum com Rubin e vimos o que as pessoas gostaram nele - e o que as pessoas não gostaram - foi tipo: “Ok, agora é a hora de fazer um álbum mais na tradição de como fizemos os nossos discos”. Nós apenas entramos no estúdio para fazer o álbum "Cyr" e passamos muito tempo nos preparando e gravando.

Corgan: No que diz respeito à influência de sintetizadores e outras coisas, pra mim é apenas uma escolha binária de... Como posso dizer? Vou tentar ser político quanto a isso, para variar... Vejo alguns dos meus contemporâneos fazendo música que é muito semelhante à música que eles sempre fizeram por muito, muito tempo. Mesmo assim eles são vistos sob uma luz contemporânea, pois as pessoas não veem a música deles como sendo do passado.

Corgan: Mas quando fiz música para guitarra nos últimos 10 anos, vi muitas referências ao passado. Acho que isso está me confundindo, já que não vejo... Só vejo isso como uma forma de me criticar de um jeito muito preguiçoso. As pessoas me dizem: “Ah, guitarras. Ele ainda está fazendo a mesma coisa", e eu fiquei, tipo: “Ok, vou fazer música moderna. Vou fazer música moderna da maneira que fazia música moderna em 1993. Só vou fazer da maneira que vejo melhor”.

Corgan: Não é tanto a favor ou contra algo. O novo álbum em que estamos trabalhando possui 01 tonelada de guitarras, mas na época em que gravamos o álbum "Cyr", eu pensava: "Vou tentar fazer um álbum contemporâneo agora, porque não gosto de ser resignado ao cemitério da história". Então, antes era rotulado de preguiçoso e com o disco "Cyr" fui rotulado de não apropriado. Tradicionalmente, temos sido uma banda de singles de muito sucesso e isso faz parte do nosso charme, tipo, podermos produzir singles de maneira eficaz. Isso é o que nos manteve no negócio de lançar álbuns, pois temos a capacidade de criar música nesse nível.

Corgan: Agora, para o o vindouro disco, eu pensei: "Vou voltar ao que estávamos fazendo historicamente. Eu não vou ser pego em..." Porque nós temos uma base de fãs dizendo que eles querem música de guitarras, mas quando eu faço música para guitarras, aparecem alguns críticos dizendo: "Ah, ele está apenas fazendo música antiga novamente".

Corgan: Então, com o disco "Cyr" fizemos um álbum bem contemporâneo. Eu sabia que isso iria dividir ao meio a nossa base de fãs e foi o que aconteceu, mas agora que as pessoas tiveram tempo de absorver o disco "Cyr", elas realmente gostaram e foi fortemente revisitado e revisado. Pode não ser o maior negócio de todos, mas pelo menos o álbum não foi totalmente negativo, como geralmente os críticos querem deixar marcado.

Corgan: Você sabia que tivemos o nosso maior sucesso nas paradas em mais de 01 década com a canção "Cyr"? As coisas estão em alta para nós, estamos em uma ótima situação com a gravadora Sumeria Records e agora estamos fazendo um enorme disco com 33 músicas, o qual envolverá tudo o que fazemos: guitarra e música contemporânea. Se pudermos colocá-los juntos, melhor ainda.

Corgan: Isso é difícil de explicar e não é a mentalidade de uma vítima. Não é como se estivéssemos sentados dizendo: "Ah, coitado de mim", é mais como se soubéssemos que temos que adentrar na floresta por conta própria e ninguém vai nos dar passes gratuitos... É assim que as coisas são.

Corgan: Mas não posso fingir que outras bandas da minha geração não estão fazendo música contemporânea e são tratados como se ainda estivessem em 1995, o que acho isso muito intrigante.


"Cyr"


Jornalista: Deve ter sido frustrante que você tenha feito esse - na minha opinião - ótimo álbum, sem poder realmente fazer uma turnê por causa da pandemia...

Corgan: Isso é uma coisa interessante... É uma espécie de sim e não. Ainda estamos na briga de tentar provar que podemos apresentar mais músicas novas no palco. Ainda fazemos isso com grande abundância, mas ainda há uma grande parte da base de fãs que querem reviver o ano de 1993 novamente.

Corgan: Não sei se isso estará respondendo à sua pergunta, mas é uma experiência do dia-a-dia de ter passado pela depressão, de ter sido o único membro original da banda por um período, ser criticado por isso e todas essas coisas malucas que acontecem, para depois estar de volta com 3/4 da formação original completa, fazendo turnês em grande nível, tocando em grandes shows, liderando festivais, ainda vendendo discos e fazendo todas as coisas que você deveria fazer. Mas ao mesmo tempo, tentamos provar para muitas pessoas que ainda somos capazes de fazer música para este século. Essa é uma luta que não desistiremos, porque somos quem somos.

Jornalista: Depois que vocês lançarem o vindouro álbum, você está pensando em uma turnê especial onde irão apresentar somente as músicas dos 03 discos da trilogia?

Corgan: Nós adoraríamos. Iríamos fazer uma turnê para comemorar o 25º aniversário do álbum "Mellon Collie and The Infinite Sadness" em 2020. Não iríamos apenas tocar as músicas do disco, mas queríamos ter uma noite totalmente envolvente e temática. Seria um setlist com a curadoria de tempo do álbum "Mellon Collie...", mas meio que atualizada, assim como Roger Waters atualizou o "The Wall" nos shows, certo? Na verdade, foi isso o que me ajudou a compreender a capacidade de fazer uma nova música numa moldura contemporânea, mas então, a covid veio e tudo foi colocado de lado.

Corgan: Ainda há pessoas nos questionando se iremos ou não fazer essa turnê do disco "Mellon Collie..." Pode ser que o momento tenha passado, mas não nos importamos que seja para o 26º ou outro ano.

Corgan: Estamos bem para comemorar as nossas conquistas e é mais sobre estar em nossos termos. Isso é o que aconteceu pra mim... Desde o retorno do SMASHING PUMPKINS em 2007, eu criei um monte de coisas novas por dizer que não queria tocar os álbuns antigos nos shows, quando todas as outras bandas estavam fazendo o inverso correndo atrás e fazendo exatamente isso. Não é que eu não quisesse tocar música antiga, só não queria fazer dessa forma.

Jornalista: Falando em turnê, você tem algumas datas em festivais americanos para setembro de 2021. Você vai sair em uma turnê adequada nessa época?

Corgan: Não sei... Estamos tentando descobrir quando vamos nos preparar novamente. No momento, ficaremos gravando pelo resto do ano. Vamos tentar terminar este álbum duplo e muitas das datas que estão disponíveis agora são basicamente datas que foram adiadas do ano passado. É meio estranho... Qualquer conversa sobre uma nova turnê acho que voltará para o ano de 2022 e acho que ainda há um pouco de apreensão nos negócios sobre como tudo vai se resolver. Obviamente, festivais que esgotam é um grande passo para as pessoas quererem voltar e se divertirem, mas para nós, simplesmente não temos uma pista clara do que iremos encarar pela frente.

Jornalista: Posso perguntar se você foi vacinado contra a covid?

Corgan: Eu não falo sobre essas coisas.

Jornalista: Ok. Seguindo em frente, eu li você dizer que só recentemente se tornou confortável em equilibrar o seu passado com o seu presente. Você pode explicar como você chegou a isso?

Corgan: Pra mim, acho que o que era, foi a sensação de que o passado estava pendurado em meu pescoço como uma pedra. Não tanto porque era isso que as pessoas queriam curtir, mas porque as pessoas queriam usar isso como um porrete contra mim. A minha versão pessoal da história é, se você não recebe crédito quando faz algo em seu tempo, é muito estranho alguém tentar lhe dar crédito por essa mesma coisa mais tarde e esperar que você viva de acordo com essa versão do crédito.

Corgan: Por exemplo, não vou citar nomes, mas quando você foi fortemente criticado pela multidão, mas então, eles seguram um álbum como do "Siamese Dream" nas mãos durante os shows e dizem: “Essa é a apoteose da sua experiência!” Isso é terrivelmente rico para mim, porque essa mesma multidão foi muito negativa sobre o álbum quando ele foi lançado. Eu tive que descobrir como não apenas fazer isso do meu jeito, mas também realmente aceitar como o passado é constituído. Mesmo que não seja a minha própria versão, é uma bênção e que me sinta confortável com isso. Deixe as pessoas se divertirem pelo que realmente é, ao mesmo tempo que não deixe que as pessoas controlem a sua própria narrativa, mas encontre uma maneira de equilibrá-la.

Corgan: Acho que ter filhos faz parte disso. Gosto de dizer às pessoas que é muito importante para mim como pai, especialmente um pai mais velho como sou - meus filhos têm apenas 05 e 02 anos - quero que eles cresçam, me vejam totalmente engajado e em paz com a minha vida da melhor maneira possível. Acho que é a melhor maneira de ensiná-los que não só cometi erros, mas também me pus em pé e fui capaz de descobrir como seguir em frente e ser feliz fazendo isso. Parte disso é não crescer com amargura sobre o que deveria ter acontecido ou não.

Corgan: Definitivamente tive essa experiência com o meu pai. Ele estava muito, muito amargurado com as suas experiências no mundo da música e ele realmente colocou essas experiências em mim e me avisava constantemente: "Eles vão levar todo o seu dinheiro" e todas as coisas malucas que um pai diria se ele tivesse uma experiência ruim no mundo da música. Não sei se isso está respondendo à sua pergunta, mas estou apenas aceitando...

Corgan: A coisa mais estranha pra mim sobre o passado é que você realmente está lidando com a memória das pessoas e não com a realidade. Começamos essa conversa falando sobre o disco "Gish". Eu sei o quão importante o álbum "Gish" foi e testemunhei isso. Eu observei a crista da onda, assim como toda a banda e então, vi pessoas depois de 20, 30 anos agindo como se isso não tivesse acontecido... Isto é um pouco estranho.

Corgan: Eu vejo como isso é parcialmente sobre memórias, mas também vejo onde as pessoas reescrevem narrativas porque é apenas conveniente. Vemos isso politicamente e socialmente o tempo todo. Não deveria surpreender ninguém que isso aconteça na música, mas é muito interessante ver as pessoas reescreverem a história, já que é uma coisa tão conveniente.

Jornalista: Mas os verdadeiros fãs sabem da verdade.

Corgan: Eu realmente não sei sobre isso... Gosto de dizer que vivemos em uma era pós-verdade.

Jornalista: Existe algum tipo de cronograma para quando o novo álbum ser lançado?

Corgan: Temos esperança de lançar um single até o final do ano e a nossa gravadora parece aberta a isso. Acho que eles estão apenas esperando para ver quando a música estará pronta... É um projeto tão grande, quero dizer, 33 músicas é como mover um pequeno exército.

Jornalista: Para encerrarmos, o seu último show completo foi há quase 02 anos atrás. Tenho certeza de que você está ansioso para voltar ao palco em setembro.

Corgan: Muito mesmo. Tive muito tempo para realmente refletir sobre o que significa atuar no palco. As pessoas me perguntam se eu sinto falta. Eu não sinto falta da maneira que eles possam pensar, mas sinto falta de nós fazendo o que fazemos, se isso faz algum sentido. É um pouco mais parecido com a mente de um atleta. Se você pode ter um desempenho no mais alto nível, a celebração é ser capaz de vivenciar isso com outras pessoas. Nunca olhamos para um show como uma experiência servil. Demorou um pouco para descobrir o que queremos e o que o público quer.

Corgan: Acho que temos esse equilíbrio agora e é por isso que há tantas vibrações boas ao nosso redor, mas é estranho pensar: "Nossa, não faço essa coisa maluca há alguns anos (shows). Eu realmente preciso me colocar em forma para poder tocar nesse nível novamente”.

Corgan: Quando você está fazendo isto nesse nível, você está apenas vivendo, mas realmente, tirar 02 anos de folga é uma loucura.

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