• by Brunelson

Foo Fighters: entrevista para a revista Entertainment Weekly - Parte 3/3


Confira a 3ª e última parte dessa bela entrevista que toda a banda FOO FIGHTERS concedeu para a revista Entertainment Weekly, onde aqui, eles falam sobre a própria mortalidade e qual a visão deles sobre a aposentadoria, além de falarem também sobre o novo álbum de estúdio, "Medicine at Midnight" (10º disco, 2021).


* Foo Fighters: entrevista para a revista Entertainment Weekly - Parte 1/3


* Foo Fighters: entrevista para a revista Entertainment Weekly - Parte 2/3


* Pat Smear: "fiquei traumatizado com a morte de Kurt Cobain"


Continue na parte onde o jornalista comentou sobre a vivacidade e evidência do rock em escala mundial atual - em comparação de como era até a internet surgir - dando a entender que essa tocha agora está sendo levada por bandas como o FOO FIGHTERS.


Última Banda em Pé

Dave Grohl (vocal e guitarra, 1995 - presente): O negócio é o seguinte: nós sempre fomos felizmente removidos de qualquer tipo de tendência. Em primeiro lugar, a própria banda, pois estamos em nosso próprio selo, Roswell Records. Nós gravamos os discos sozinhos com amigos e por conta própria. Nós mesmos reservamos e agendamos as turnês, fazemos os videoclipes, basicamente, tudo isso dentro de nossa perfeita pequena bolha.

Grohl: Então, ao longo dos anos, houve tendências na música que não nos encaixamos, como o rap e o new metal de New York no início dos anos 2000 ou no final dos anos 90. Basicamente, ficamos em nosso porão e gravamos discos à medida que essas coisas aconteciam e sem sentir qualquer obrigação de fazer parte delas. Nós pensávamos: "Bom, vamos apenas fazer o que sabemos, porque é tudo o que podemos fazer".

Taylor Hawkins (bateria, 1997 - presente): Dave sempre foi o tomador de decisões em tudo e não estou dizendo que é como uma ditadura, mas no que diz respeito ao que a nossa banda faz. Ponto. Então, nunca tivemos que assinar um contrato como esses pobres garotos têm que fazer hoje em dia e dar metade de suas publicações para a gravadora, porque esses artistas alegam que não estão ganhando dinheiro, embora a gravadora esteja ganhando dinheiro com o streaming.

Hawkins: Mas no que diz respeito a carregar a tocha pelo rock, acho que nunca pensamos nisso. Houve um tempo nos anos 90 quando as pessoas diziam que o rock estava "morto" e nós pensávamos: "Não de onde vivemos. No nosso continente, não está", porque você poderia dizer a mesma coisa sobre o QUEENS OF THE STONE AGE, você poderia dizer a mesma coisa sobre o GREEN DAY, PEARL JAM ou RED HOT CHILI PEPPERS, tipo, há um punhado de nós que é capaz de ser headliners de qualquer festival, mas você está certo, é um grupo pequeno.

Grohl: Eu lembro que houve um ponto em que percebi que representamos algo, o que foi engraçado, porque nunca pensei que representássemos algo. Eu pensei: "Oh, nós somos uma banda que você pode beber cerveja e pular", mas no MTV Awards na Espanha em 2002 ou 2003, éramos a única banda de hard rock lá, ao lado de vários artistas pop e do R&B. Foi naquele momento que percebi: "Cara, nós somos aquela banda agora onde alguém diz: 'Precisamos de uma banda de rock! Alguém tem uma banda de rock? Ah, FOO FIGHTERS? Sim, basta colocar o FOO FIGHTERS lá!' Isso foi o que eu imaginei que estava acontecendo na época...

Nate Mendel (baixo, 1995 - presente): Isso é uma coisa que as pessoas às vezes não entendem sobre o FOO FIGHTERS, tipo, nunca tivemos um álbum de sucesso. Alguns de nossos discos venderam 01 milhão de cópias, o que não é um número pequeno, é claro, mas também não é 03 ou 07 milhões, que era o que as bandas de rock vendiam na época nos anos 90. Mesmo a música "Everlong" não era uma dessas canções. O videoclipe foi exibido muito na MTV, mas não nos impulsionou imediatamente a ser uma banda de arena... Isso demorou mais alguns anos.

Chris Shiflett (guitarra, 1999 - presente): Nunca houve um momento em que tivéssemos um daqueles sucessos que estivesse no nível que permeia a cultura e domina o mundo. Foi uma queima lenta o tempo todo.


"Everlong" (2º disco, "The Colour and The Shape", 1997)


Pat Smear (guitarra, 1995-97, 2006 - presente): Acho que esta subida lenta nos salvou. Eu não estava no NIRVANA quando aquela primeira explosão de sucesso aconteceu, mas eu vi as repercussões disso quando entrei. Quero dizer, como você volta ao normal depois de lançar o disco "Nevermind"? É brutal, sabe?

Grohl: Com o passar dos anos, eu veria o público se tornar cada vez mais diversificado, de forma que agora você tem caras com bigodes (antigamente, relacionado ao machismo). Agora você tem caras com bigodes e seus filhos que têm bigodes. Não é mais apenas o público da Amoeba Records, tornou-se algo um pouco mais amplo ou geral. Acho que com o tempo, conforme as bandas de rock começaram a se desvanecer no grande esquema da música popular, estávamos sempre lá. Estávamos sempre na porra da estrada.

Hawkins: Nós somos o GRATEFUL DEAD do pós-grunge (risos).

Grohl: Houve um momento em que as pessoas começaram a se concentrar na perfeição. Bandas de rock subiam ao palco com backing tracks, click tracks e essas máquinas que eram ligadas ao equipamento de iluminação. Era como um espetáculo, um verdadeiro show de palco, mas para ser honesto, nunca participamos disso, porque não pensamos que seríamos capazes de realizá-lo. Então, pensamos: "Vamos tentar ser o melhor no que pudermos". E é um som cru e imperfeito. Nós cometemos erros. Nós paramos as músicas quando as estragamos. Nos shows, não soa exatamente como ficou gravado no álbum e acho que com o tempo isso se tornou um fascínio.

Grohl: Essa é uma banda que vai subir no palco e aquela guitarra pode estar desafinada. Essa música pode ser tocada mais rápida ou mais lenta, ou aquele vocal pode soar um pouco monótono numa certa vez, mas porra, cara, estamos dando tudo o que temos. Então, eu acho que com o tempo, nós nos tornamos essa banda também, tipo: "Oh, vamos ver o quanto o FOO FIGHTERS pode arrebentar essa noite!", mas é verdade... No começo, eu definitivamente estava com medo de me envolver com o público, porque, o que eu diria? Não posso ser Freddie Mercury no Live Aid Festival. Então, em algum momento, percebi que a coisa mais importante no palco é ser você mesmo.

Shiflett: Essa é a beleza disso agora, referente a todo esse tempo que estamos juntos como uma banda. Parece mentira em dizer, mas na verdade nunca temos shows ruins, sabe? Porque as pessoas não estão lá por acidente. Elas saem de suas casas porque querem ouvir as músicas e cantar junto. Há muitos de nós no palco e o som sai alto pra caralho, tipo, você realmente tem que bagunçar muito para arrastar e afundar este "navio" num show.

Hawkins: Se os jovens olharem para nós, eles ficarão: "Sim, eles são apenas velhas estrelas do rock", e talvez em algum nível sejamos agora um ato de herança e estou de bem com isso. Você só consegue ser os jovens punks por um certo tempo, não é? Pra começar, essa é a essência do que é rock and roll, de Elvis Presley até SEX PISTOLS, JANE'S ADDICTION, NIRVANA... Uma vez que você realmente está voando em aviões particulares e coisas assim, você não é mais um punk realmente jovem, você é um punk bem alimentado. Então, eu realmente não sinto que seja o nosso dever necessariamente manter vivo o rock and roll. Acho que esse "dever" está nas mãos do próximo Jimi Hendrix ou Kurt Cobain ou John Lennon que está no porão na casa dos pais odiando as coisas agora e se preparando para explodir o mundo inteiro com a música rock novamente.

O Melhor Medicamento

Embora eles tenham começado a gravar no final de 2019, o 10º álbum de estúdio do grupo, "Medicine at Midnight" - como o aniversário da banda de 25 anos e tantos outros planos - foi adiado pela pandemia.

Grohl: De todas as coisas que fizemos antes na linha do tempo da nossa banda, digo, sons altos, dissonantes, punk rock ruidoso, coisas gentis, bonitas ou acústico orquestrado, pensei que a única coisa que não tínhamos feito ainda era um disco de rock baseado em groove. Eu não queria fazer um álbum de música eletrônica, ok? Eu queria incorporar ritmos um pouco mais groovy do que tínhamos feitos antes, então, acho que as pessoas podem estar apavoradas que nós fizemos algum disco funk rock, mas não é isso, é o mais longe que já avançamos na direção que faz você querer sacudir o traseiro.

Smear: Bom, eu tenho que lhe dizer, não percebi que era um álbum de dança até que outras pessoas começaram a dizer que era. Eu comparo com o VAN HALEN. Não que pareçamos nada com o VAN HALEN, mas eles sempre tinham um álbum para tocar nas festas e que deixariam os meninos e as meninas felizes.

Mendel: Uma coisa é clara, não é chumbo grosso de forma alguma, nem super denso ou agressivo, e o álbum foi gravado assim de propósito.

Shiflett: Definitivamente não é um álbum pesado. Eu sei que continua sendo chamado de um disco de dança ou disco de festa ou qualquer coisa, e sim, há espaço nisso nele, com alguns loops de bateria e coisas assim, mas pra mim, não é uma mudança radical. Não acho que as pessoas vão ouvir e ficar, tipo: "Mas que porra aconteceu com o FOO FIGHTERS?" Mas definitivamente fomos mais fundos e foi muito divertido de gravar o disco. É bom não ter todas as músicas do início ao fim apenas com 08 mil guitarras (risos).

Grohl: Olhando para trás, é fácil ler as letras e ter uma perspectiva revisionista, onde você fica: "Oh, meu Deus, que profético o nome do álbum, 'Remédio à meia-noite'... Ele está se referindo à vacina?" Mas não, parte de fazer um álbum é a experiência e a atmosfera do momento. Gravamos esse disco em 2019 e era assim que nos sentíamos na época, antes do mundo parar com a pandemia, mas o deixamos de lado e esperando a hora de lançar. Taylor o chama de nosso novo disco antigo...


"Cloudspotter" (10º disco, "Medicine at Midnight", 2021)


De Volta Para o Futuro

Depois de 1/4 de século, a banda é filosófica sobre os seus planos futuros.

Grohl: Em primeiro lugar, nunca diga que está se separando, tipo: "Esta é a última turnê". Foda-se essa merda. Basta calar a boca e pendurar os instrumentos quando você quiser... É isso. É como dizer a alguém que você está parando de fumar e 06 meses depois coloca um cigarro na boca. As pessoas ficam, tipo: "Cara, achei que você tivesse parado de fumar?" E você fala: "Bem... Pois, é..." Você não pode fazer assim.

Hawkins: Espero que isso continue pelo resto da minha vida, mas novamente, se eu morrer no palco, tudo bem também. Como morrer de um ataque cardíaco na bateria... Seria meio poético, suponho.

Shiflett: Bom, isso seria bom (risos). Espero que Taylor morra no palco para deixarmos pendurado lá... Não, o rock and roll geralmente termina em tragédia, então, esperemos que não, mas eu me lembro de ter ido ver um show do ROLLING STONES alguns anos atrás e pensado: "Tudo bem, ainda podemos fazer isso por um tempo. Eles ainda estão mandando a ver, então, temos alguns bons anos pela frente ainda".

Mendel: Eu acho que terminar propositalmente seria bom ao invés de uma tragédia ou apenas ficar mancando até que tudo se desfaça. Eu sou um planejador e gostaria de planejar. Gostaria de saber quando está acontecendo e comemorar adequadamente. Qual seria a aparência disso? Não sei, ainda não cheguei lá.

Smear: Por que temos que parar? (risos) Não parece haver mais idade de aposentadoria para bandas de rock e falando sério, o que mais qualquer um de nós podemos fazer? Eu literalmente não sei fazer nada além de tocar guitarra no FOO FIGHTERS, então, por favor, não tirem isso de mim e não faça isso acabar... Não, estou brincando, mas mesmo assim não sou qualificado para trabalhar em algum emprego normal.

Grohl: Se você já passou 20 minutos conosco nos bastidores quando estamos prestes a subir para tocar num show, você vai perceber que é como um pedaço de bar, tipo, todo mundo está tomando doses de uísque e todo mundo está rindo histericamente. Todo mundo está torto de tanto rir até que o nosso gerente de turnê chega e diz: "Vocês, venham, vamos lá!" E nós subimos no palco ainda rindo.

Smear: Somos os nossos melhores amigos e não posso te dizer quantas vezes um grande astro do rock veio até aos bastidores de um de nossos shows e disse: "Espere, vocês estão todos compartilhando o mesmo camarim?" Nem tinha nos ocorrido que a maioria das bandas não compartilham.

Smear: Lembro que uma vez fizemos um show com a banda EAGLES, o que foi muito bizarro. Era um show corporativo - como eles os chamam - e todos da banda vieram cada um em seus jatos particulares, entraram em seus próprios carros e foram levados para camarins separados, tipo, eles só se viram no palco na hora do show... Bandas assim, primeiro me deixam triste, e depois eu penso: "Caralho, como uma banda assim funciona?" Então, eu me lembro: "Ah, eu já estive em bandas assim também!" Daí eu entendo (risos).

Hawkins: Com Dave, eu conheci esse cara e logo saquei que seríamos parceiros de merda na vida, sabe? Tornamo-nos um pouco telepáticos no palco. Dave está comandando o show e ocupado garantindo que o público fique feliz. Ele é o cara que vai ao jogo de baseball e vende comida nas arquibancadas. Eu sou o cara que está trabalhando nos cachorros-quentes.

Grohl: Eu não tinha visto Taylor por 08 meses durante a pandemia e isso nunca tinha acontecido antes. Quando voltamos a nos encontrar, foi como um filme em câmera lenta onde há dois amantes correndo por um campo de flores e eles têm essa colisão se abraçando... Claro, você não percebe o que tem até que ele vá embora, então, quando todos nós voltamos no final do verão e apenas nos sentamos numa sala para conversar, isso me deu muita felicidade - sem instrumentos, apenas sentamos para conversar.

Mendel: Por mais divertido que tenha sido, também deu muito trabalho construir essa banda até onde está, então, agradecemos o que custou para chegar até aqui. Existem apenas algumas regras não escritas sobre como nos conduzimos e como tratamos uns aos outros, tipo, elas nunca foram explanadas abertamente e ainda assim todos aderem a elas.

Mendel: Se eu tivesse entrado em meu trabalho e não gostasse de alguém com quem estou trabalhando tão intimamente, não sei se ainda estaria fazendo isso. Além disso, ainda estamos fazendo boa música e há uma grande base de fãs por aí que aprecia ir aos shows, então, não há porque parar com isso.

Shiflett: Vou te dizer o que sinto falta... Sinto falta do imediatismo de tocar uma nova música na frente de uma multidão.

Grohl: Quando as coisas voltarem a abrir e as pessoas voltarem para aquele lugar onde podemos ficar juntos em um campo suado ou numa arena suada, não sei quando isso vai acontecer. Não sei onde e não sei como, mas a única coisa que sei é que vai ser muito elétrico e será maravilhoso. Eu sonho em entrar no palco e ficar lá por 03 minutos, apenas olhando para o público e celebrando o fato de estarmos juntos e então, começar uma música e pular novamente por 03 horas.


"No Son of Mine" (10º disco, "Medicine at Midnight", 2021)


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