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  • by Brunelson

Nirvana: resenha original de 1993 do álbum "In Utero" pela revista Spin


Confira a poética resenha que a revista Spin havia feito originalmente lá em outubro de 1993 para o último álbum do NIRVANA, "In Utero" (4º trabalho de estúdio, 1993), de quando havia sido recém-lançado. Essa matéria é em homenagem ao relançamento desse disco programado para outubro de 2023 em comemoração ao seu 30º aniversário. Além de vários bônus, o mesmo apresentará áudios inéditos de 02 shows realizados na turnê americana do álbum "In Utero".


Segue:


Você quase pode sentir o gosto da mistura de emoções na boca de Kurt Cobain no álbum "In Utero", cuspida como se o cantor estivesse tentando expelir a língua junto com as palavras. Quanto mais extrema a voz se torna (os gritos de “go away!” na música “Scentless Apprentice”, o balbucio na canção “Tourette's”), mais a música morde a isca, virando um feedback sorridente de corte e anseio que é um jogo metade bêbado, metade de uma cena de um acidente post-mortem.

Faz apenas 02 anos que o NIRVANA de repente deu ao punk rock a cara dos lucros com o álbum "Nevermind" (2º disco, 1991), mas pelo som desse novo álbum poderíamos dizer que se passaram 02 décadas de um lançamento para outro. A fama envelheceu a voz rouca e queixosa de Cobain, como se a celebridade fosse uma espécie de masmorra pública que transformasse o seu grito num prisioneiro à procura de um eco em seu confinamento solitário.

As músicas do disco "In Utero" são fraturadas, espasmódicas, distorcidas e com notas puxadas do avesso. Levados ao limite, a guitarra volátil de Cobain, a bateria independente de Dave Grohl e o baixo dividido de Krist Novoselic, nunca foram tão coesos. O ímpeto sinistro e inexorável da canção “Serve The Servants” leva direto aos riffs num buraco sem fundo da música “Scentless Apprentice”, um playground que se dissolve para revelar a boca de um vulcão.

Este som - um buraco negro inclusivo - estava tomando forma no disco de estreia do NIRVANA, "Bleach" (1989), e nas melhores sobras que o álbum "Incesticide" coletou (3º trabalho de estúdio, 1992), só que agora as contradições reduzidas de músicas como “School” (1º disco) e “Aneurysm” (3º disco) foram explodidas em todos os sentidos possíveis. A canção “Smells Like Teen Spirit” (2º disco) ensinou quanta repulsa e empolgação o NIRVANA poderia colocar naquele formato de 04 minutos de duração, mas deixou o resto do álbum "Nevermind" parecendo gestos comuns, desculpas frágeis e uma falta de coragem, se comparado ao disco "In Utero".

E apesar dos rumores de que o álbum "In Utero" foi forçado a ser regravado ou atenuado de outra forma (02 músicas são reconhecidas como tendo sido remixadas) e de apresentar ganchos melódicos subliminares embutidos em ruídos, isto poderia soar uma coisa tão imprudente quanto qualquer ato selvagem medieval.

O ponto de partida do disco é a velha rotina do estrelato como martírio, mais vividamente anunciada nas canções em sequência, “Rape Me” e “Frances Farmer Will Have Her Revenge on Seattle”. A 1ª abre com um trecho desses agora genéricos acordes da música "Smells Like Teen Spirit”, apenas destruindo-os para sugerir o vampirismo da mídia. Já a mensagem da 2ª é uma alusão transformada em trocadilho da 1ª, em homenagem à atriz de sua cidade natal que foi perseguida, institucionalizada pela mãe e eventualmente agredida enquanto se submetia a “tratamentos”, apenas por ser uma mulher além do seu tempo e rotulada como louca, lembrando a caça às bruxas da inquisição. Impulsionada por essa música, a auto piedade é expurgada e o sentimento de violação se expande, retornando como uma maldição sobre a própria vida com as letras: “Ela voltará como fogo / Para queimar todos os mentirosos / E deixar um manto de cinzas no chão”.

Solto no disco "In Utero", esse espírito é capaz de fazer todo tipo de conexões invisíveis, trazendo as rupturas da história para o presente. Talvez seja assim que os ecos fantasmagóricos da música “Apokalyptickej Ptak”, gravado pelo banido grupo tcheco, PLASTIC PEOPLE OF THE UNIVERSE em 1975 (e não lançado até 1992), poderiam ter atravessado as fronteiras do tempo e lugar para emergir da carnificina de guitarras na música "Radio Friendly Unit Shifter" do NIRVANA. Mantendo esse espírito fugitivo, não é a libertação, mas a sua ausência que é iluminada nas músicas do NIRVANA.

Em “Pennyroyal Tea”, uma canção tão amarga e empática quanto o NIRVANA tentou, o assunto nominal é o aborto. O título se refere a uma receita caseira para induzir um aborto, mas não é uma música que possa confortar as pessoas de ambos os lados dessa questão. Com uma homenagem à canção “I’m So Tired” dos BEATLES (John Lennon é certamente a fonte mais profunda de Cobain como cantor), as letras falam sobre as cicatrizes feias que qualquer escolha difícil deixa em nós. A culpa oficialmente sancionada se transforma em desespero privado e a falsa consciência se funde com a dor real. A música “Pennyroyal Tea” apresenta a repressão e a negação como condições sobre as quais ninguém tem controle. A canção não é um cartaz justo de um feto, mas um despertar desesperado e não resolvido sobre o assunto para o quanto de pessoas no planeta que todos os dias matam e se mutilam.

Ouvindo a música “Pennyroyal Tea” e o resto do álbum, pensei em uma obra prima punk quase esquecida de 15 anos atrás, com o emocionante e o desesperador lado a lado.

Esse é o lema do NIRVANA aqui: cercado, perdido em uma multidão hostil, amordaçado, mas tentando responder de qualquer maneira. Com o disco "In Utero", suspeito que o NIRVANA pretendia, em algum nível, invocar o espectro do punk rock para dar-lhe um enterro adequado, martelando o último prego numa caixa em formato de coração ("Heart Shaped Box") e deixando para trás uma lápide adequada.

Com a intenção de fazer o seu último álbum punk, em vez disso, fez o que parece ser o primeiro.


Track-list:


1. Serve The Servants

2. Scentless Apprentice

3. Heart Shaped Box

4. Rape Me

5. Frances Farmer Will Have Her Revenge on Seattle

6. Dumb

7. Very Ape

8. Milk It

9. Pennyroyal Tea

10. Radio Friendly Unit Shifter

11. Tourette's

12. All Apologies

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