Neil Young: o movimento musical que ele considerou uma moda passageira
by Brunelson
2 de jan.
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Atualizado: 3 de jan.
Qualquer disco de Neil Young nunca seria fácil de fazer.
Ele nunca se contentava em se acomodar e entregar o tipo de álbum que todos queriam ouvir, e assim que se cansava de um gênero específico, ele encerrava o dia e estava pronto para partir para qualquer outro gênero musical que despertasse seu interesse.
Isso pode ter se tornado um pesadelo de relações públicas para os executivos de sua gravadora, sempre que ele começava a trabalhar em alguns de seus experimentos com gêneros estranhos, mas para Young, o lado corporativo do rock não tinha ideia do que ele queria.
Afinal, Young passou a maior parte da década de 70 fazendo o que queria, e mesmo quando era um pouco desleixado na produção, como no álbum "Zuma" (7º disco, 1975), não era nada por acaso e longe de ter ficado ruim. Aliás, o álbum anterior, "Tonight's The Night" (6º disco, 1975), está cheio de erros em toda a sua track-list, uma atitude proposital para gravar um álbum que soasse tão frágil quanto a situação que Young estava passando no momento - perdendo amigos e relacionamentos quebrados.
Mas essa visão pragmática no estúdio nunca funcionaria quando os anos 80 atingisse o auge comercial da coisa com o glam metal e a new wave. E dos grandes músicos em atividade na época, nenhum outro artista jamais esteve menos preparado para a MTV do que Neil Young. Embora ele geralmente se sentisse à vontade para gravar discos para irritar sua gravadora, como "Everybody's Rockin'" (14º disco, 1983), a falta de vendas o obrigava a considerar seriamente qual seria seu próximo passo.
Seus discos country e folk das antigas nunca venderiam bem nos anos 80, mas ouvindo o que ele fez em álbuns como "Landing on Water" (16º disco, 1986) ou seu retorno à Crosby, Stills & Nash no final dos anos 80, percebemos que Young não iria se tornar uma relíquia somente do passado aos olhos de muitas pessoas.
E mesmo com o movimento grunge chegando no início dos anos 90, essa turma usaria a mesma estética moral que Young era caracterizado.
Desde que Young também tinha retornado à forma com o álbum "Freedom" (19º disco, 1989), ele começou a se tornar novamente muito mais descolado e identificável a uma nova geração. Sua necessidade de fazer o que queria, independentemente do que a gravadora dizia, era praticamente o mantra da cena grunge de Seattle, e mesmo quando ele gravou um álbum com o PEARL JAM em 1995, "Mirror Ball" (23º disco), Young não teve problema em ser direto sobre o que a cena grunge representava.
Afinal, nenhuma das bandas de Seattle jamais se identificou como uma banda grunge para fácil comercialização e muito menos queriam se vender para alcançar o sucesso, e apesar de ter alguns amigos verdadeiros do noroeste do Pacífico que moram em seu coração - e Young sendo ídolo para praticamente toda a turma grunge - uma vez, Young não teve problema em chamar o movimento grunge de modismo ao falar sobre o poder de sua própria banda de apoio que o acompanha desde sempre, a CRAZY HORSE.
"Quando você quer que uma música decole, não há banda melhor que a CRAZY HORSE. Ela é uma máquina, não é uma atração passageira e não é um brinquedo. O grunge era uma atração passageira, não a música que tocamos juntos. A CRAZY HORSE existia antes do movimento grunge e sobreviveu ao grunge", disse Young uma vez em entrevista.
Isso pode ter sido difícil para algumas bandas de Seattle ouvirem, mas Young não estava tentando ofender ninguém. Era mais para zombar das gravadoras que, ao olharem para alguém na rua vestido com blusa de flanela, viam uma desculpa para gerar dinheiro assinando o quanto antes com essas bandas - e vice-versa, com grupos se "transformando" em grunge para conseguir grandes contratos de gravação.
Young até gostava de trabalhar com muitas bandas grunge, mas encarar isso como uma atração passageira era provavelmente a melhor maneira de encarar a situação do ponto de vista da mídia, e não na visão íntegra das bandas grunge.
O grunge representou um retorno glorioso à forma para o rock and roll autêntico, mas desde que o PEARL JAM fugiu dos holofotes, o NIRVANA perdeu Kurt Cobain, o ALICE IN CHAINS foi se apagando até chegar ao óbito de Layne Staley (vocalista original) e o SOUNDGARDEN encerrando as atividades no final dos anos 90, não é como se eles estivessem ansiosos para serem estrelas do rock da mesma forma que as bandas glam metal eram na década de 80.
E sim, a mídia usou o termo "grunge" que ela mesma criou para empacotar tudo na mesma sacola aquela pletora de bandas que surgiram de Seattle e região no começo dos anos 90, tudo para fácil comercialização e venda. Tanto que o grunge influenciaria até a moda e vestimentas, com suas roupas de flanela estampando vitrines de lojas famosas e até artistas da pop music (Madonna e Mariah Carey, dentre outros) usando roupas grunge em seus videoclipes promocionais.
Mas quanto ao som e atitude, não há como negar e até Neil Young irá admitir, que o grunge ainda é uma influência e inspiração para muitas bandas do underground e mainstream, o que se perpetua até hoje.
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