• by Brunelson

Mad Season: "éramos jovens, rockstars e tinha muita festa e abuso de substâncias"


Em 2013, a revista Total Guitar tinha entrevistado o guitarrista Mike McCready (PEARL JAM, MAD SEASON e TEMPLE OF THE DOG) para marcar o relançamento do único álbum de estúdio do MAD SEASON, "Above" (1995), que incluiu vários bônus e inéditas em áudio e vídeo - contando novamente com a participação de Mark Lanegan (vocalista do SCREAMING TREES).


* Mad Season: o emocionante relato do baterista da banda

É outono de 1994 e a cena musical de Seattle está em estado de choque. Kurt Cobain está morto pelas suas próprias mãos e outras bandas estão enfrentando os seus próprios conflitos internos.

O vocalista do ALICE IN CHAINS, Layne Staley, é escravo do vício em heroína com o qual Cobain lutou e durante a gravação do 3º álbum do PEARL JAM, "Vitalogy" (1994), Mike McCready deu entrada numa clínica de reabilitação para tratar dos seus próprios problemas com as drogas.

“Foi uma época estranha”, McCready contou. “Nós éramos muito jovens e nos tornamos grandes estrelas do rock e havia muita festa e abuso de substâncias. Ficar limpo e sóbrio e tentar fazer com que os meus amigos fizessem o mesmo, foi a resposta inicial do que eu queria que a banda MAD SEASON fosse, mas isso foi super ingênuo de minha parte e você não consegue ficar limpo a menos que realmente queira individualmente”.

McCready conheceu o baixista John Baker Saunders na clínica de reabilitação e a sua amizade foi o catalisador para a banda que se tornaria no MAD SEASON, quando Layne Staley e o baterista do SCREAMING TREES, Barrett Martin, se juntaram a eles. O aprendizado do blues de Saunders em seu tempo na cidade de Chicago, daria sabor à mistura sombria no som da banda que apresentaria uma proposta única.

É uma das histórias mais intrigantes do grunge, um grupo que se formou, gravou 01 álbum e fez apenas 06 shows em 06 meses juntos (todos em Seattle ou cidades próximas). Agora, com o relançamento do disco "Above", Mike McCready revisitou as emoções misturadas de um ponto crucial em sua carreira como consagrado guitarrista e compositor que se tornou.

Confira a entrevista que foi disponibilizada somente agora na íntegra pela 1ª vez pela revista:

Jornalista: Trabalhar nesse relançamento do MAD SEASON foi uma experiência agridoce para você?

Mike McCready: Com certeza. Foi uma época estranha, éramos todos muito jovens e nos tornamos grandes estrelas do rock, ou já tínhamos sido, e havia muita festa e abuso de substâncias. Então, ficar limpo e sóbrio naquela época e tentar fazer com que os meus amigos fizessem o mesmo, foi a resposta inicial do que eu queria que o MAD SEASON fosse.

McCready: Mas isso foi super ingênuo de minha parte porque você não pode ficar limpo a menos que você realmente queira individualmente. Em termos de Layne e Baker falecendo e morrendo do vício, é terrivelmente triste e eu penso muito sobre esses caras, tipo, onde eles estariam agora e qual seria o seu sistema de valores comparado com o que era naquela época. Há uma espécie de buraco lá, mas pelo lado positivo eles existiram por um tempo e criaram uma música muito legal e eu tive sorte o suficiente para tocar com eles... E é isso que esse disco é.


Jornalista: E vocês tiveram que terminar algumas músicas antigas com Mark Lanegan emprestando os seus vocais.

McCready: Fiquei muito feliz por finalmente Mark Lanegan colocar algumas coisas em cima daquelas músicas. Eu não o fiz fazer isso, foi ele que quis fazer. Eu queria que ele gravasse os vocais em músicas gravadas há 16 anos e finalmente tudo se encaixou em seu tipo de mundo. Mark teve tempo para fazer isso e eu fiquei muito empolgado. Ele fez um ótimo trabalho, nós conseguimos remixar o disco e foi uma jornada interessante.


"Locomotive"


Jornalista: De onde veio o nome MAD SEASON?

McCready: O nome veio da Inglaterra. Estávamos em Surrey com o produtor Tim Palmer no Ridge Farm Studios mixando o disco de estreia do PEARL JAM, "Ten" (1991), e eu estava andando pelas ruas com os meus fones de ouvido escutando no meu walkman a música "Wish You Were Here" do PINK FLOYD. Era a fita-cassete do álbum "Animals" e eu diria que estava um pouco... Talvez eu estivesse chapado e voltei para o estúdio e estava chovendo. Era muito legal ficar ouvir esses discos e estar lá na Inglaterra.

McCready: Voltei ao estúdio e estava conversando sobre isso com alguém que estava trabalhando lá e eles disseram: "Ah, deve ser a 'temporada louca'". E eu fiquei, tipo: "O que é isso?" E eles me explicaram que era um termo para quando os cogumelos alucinógenos surgiram na Inglaterra. Então, eu guardei esse termo por 03 anos e pensei: "Eu vou usar isso em algum dia, seja numa música, não sei". Então, o nome tem ligações com a Inglaterra.


Jornalista: Como era a atmosfera na cena de Seattle na época do MAD SEASON?

McCready: Foi profundo... Estávamos todos fora de turnês com as nossas respectivas bandas e havia muita atividade acontecendo nos clubes noturnos em Seattle. Tivemos tempo para sairmos juntos, pois não estávamos na estrada com as nossas principais bandas. SCREAMING TREES e o ALICE IN CHAINS estavam retornando de grandes turnês e o PEARL JAM também. Estávamos todos vivendo esta 2ª onda de sucesso que veio de Seattle com o MAD SEASON e estávamos gostando muito.

McCready: Foi um período intenso e libertador em que podíamos fazer o que quiséssemos e criar música dessa maneira que queríamos e não estar em um cronograma em que tivéssemos que sair em turnê e obedecer agendas. Tínhamos um pouco de tempo para ficarmos juntos e ninguém estava em turnê, então, vamos nos reunir e apenas tocar. Nós tocamos alguns shows e então, Layne falou: "Vamos para o estúdio gravar", e ficamos, tipo: "Ok, vamos".

McCready: Layne se envolveu muito rapidamente com o processo e nós chegamos a conversar e lhe disse: "Cara, você pode escrever o que quiser, você é um grande letrista e é assim que as coisas vão ser". Todos nós podíamos trazer as nossas próprias ideias e de certa forma era uma democracia e nos divertimos com isso, então, esse foi o tipo de atmosfera que nos envolveu.


Jornalista: Então, a escrita foi muito instintiva para você?

McCready: Acho que o nosso baixista, Baker, trouxe um elemento de blues para o qual eu gravitava muito. Layne trouxe a sua incrível voz e habilidade de composição. Barrett Martin trouxe a sua bateria multi-instrumental totalmente matadora, mas também traria coisas em percussões e violas. Ele é um dos caras mais inteligentes que eu já conheci que poderia trazer muito mais do que o rock nos apresenta e isso me atraiu.

McCready: Eu sempre curti rock e estava trazendo essas coisas na banda também, mas com o MAD SEASON eu tive que experimentar. O que o MAD SEASON era para mim naquela época foi uma liberdade e eu aprendi a escrever músicas. Eu senti que não estava intimidado com aqueles caras, assim como eu me sentia intimidado com os membros do PEARL JAM por terem grandes compositores. Eu era o guitarrista solo do PEARL JAM e éramos bons naquilo, mas escrever músicas não era o meu forte e eu realmente não tinha confiança para fazer isso até que o MAD SEASON aconteceu. Então, o MAD SEASON foi um grande negócio pra mim.


Jornalista: E depois voltando ao PEARL JAM, você conseguiu contribuir mais?

McCready: Sim, porque quando gravamos o álbum "Yield" (5º disco, 1998), eu tinha 03 músicas nesse álbum. Foi "Given to Fly", "Faithful" e uma outra que eu não lembro... "Brain of J". Então, antes disso, para o álbum "No Code" (4º disco, 1996), eu tinha apresentado algumas ideias de riffs ou algo assim, o que me ajudou a estruturar as músicas.


Jornalista: Qual era a sua mentalidade como guitarrista naquela época?

McCready: Eu acho que eu queria ser Jimmy Page (guitarrista do LED ZEPPELIN) nesse disco do MAD SEASON, com certeza (risos). Eu estava passando por uma grande fase do LED ZEPPELIN que eu entro e saio ocasionalmente. Eu entro na discografia e escuto tudo da banda e analiso demais as coisas e sinto coisas novas. Estava ouvindo a música "In The Light" sem parar naquela época e aquilo me deixava totalmente impressionado.

McCready: E naquela época eu até cheguei a comprar uma guitarra como a de Jimmy Page, a de braço duplo SG Gibson EDS-1275. Eu toquei com ela na música "Lifeless Dead" e duas outras, incluindo a canção "All Alone" com o pedal Delay para guitarra. Na música "All Alone" estou tocando nas 06 cordas do braço duplo, mas o captador das 06 cordas não está ligado, mas sim o captador de 12 cordas está ligado. Os harmônicos relativos que estou tocando estão vindo em ondas e tem um leve Delay também. Isso foi tudo um acidente e aconteceu por engano.


"Lifeless Dead"


"All Alone"


Jornalista: Parece que você está canalizando o espírito de Jimi Hendrix na música instrumental "November Hotel".

McCready: Bom, com Hendrix, já que eu sou de Seattle também, mas a música "November Hotel" se trata das cartas do meu pai que ficavam na parte de trás do seu avião F4 Phantom do Vietnã, da época em que ele era piloto. Elas ficavam na cauda do seu avião e se você imaginar um avião estrondoso saindo de um porta-aviões no Golfo de Tonkin em 1968, essa foi a minha representação artística de como ele soaria com a bateria trovejante de Barrett Martin.

McCready: Eu fui em frente e Layne também está tocando guitarra. Virou uma jam e Barrett realmente me inspirou porque ele trouxe essas baterias estrondosas e ele é muito bom nisso. É por isso que eu queria tocar com ele no MAD SEASON, porque eu o tinha visto fazer isso no SCREAMING TREES por muito tempo.


"November Hotel"


Jornalista: Layne tocou muita guitarra no álbum?

McCready: Ele tocou guitarra. Ele havia escrito a canção "I Don’t Know Anything" e ele toca guitarra nessa música. Ele toca também na música "November Hotel" e Barrett Martin toca uma parte na canção "I’m Above". Eu acho que era só, porque Layne principalmente cantava e era nisso que ele era um mestre.

McCready: Quando ele trouxe a música "I Don't Know Anything", eu disse na hora: "Isso é incrível! Nós temos que levar adiante". Era um riff tão estranho porque soava bidimensional e então se transforma em um tipo de groove tridimensional pra mim. Ele tinha algumas letras legais para ela e foi ótimo. Felizmente nós a gravamos com ele.


"I Don't Know Anything"


Jornalista: É interessante ouvir a dinâmica entre a voz de Layne com a sua guitarra na canção "Artificial Red".

McCready: Essa foi principalmente baseada no baixo de Baker e no estilo de chamada/resposta de Layne que eu sempre achei muito legal da parte dele.

McCready: Eu nunca tentei fazer isso com Eddie Vedder (vocalista do PEARL JAM) porque as nossas músicas não fazem isso ou não se enquadram nisso. MAD SEASON era uma paleta aberta e pensamos: "Vamos tentar isso". Acho que aconteceu naturalmente...


"Artificial Red"


Jornalista: "River of Deceit" parece a música-chave do álbum e uma canção muito confessional de Layne, especialmente agora olhando para trás. Quais são as suas memórias de compor e gravar essa música?

McCready: Eu tive esse riff por um tempo e nunca senti que poderia trazê-lo para o PEARL JAM. Mais uma vez, essa era a minha mentalidade naquela época. Eu era um pouco tímido e não sabia como eles iriam se sentir sobre as minhas composições, então, eu trouxe para o MAD SEASON e os caras da banda gostaram e quando vimos já estávamos criando uma música completa.

McCready: Layne gravitou em torno da canção "River of Deceit" em termos de letras porque nos sentamos para conversar e ele me contou sobre o que elas significavam. Elas eram sobre um livro chamado "The Prophet" de Kahil Gibran. A linha principal é: "A minha dor é auto escolhida / Pelo menos é assim que o profeta diz". Foi muito profundo e eu podia sentir a sua dor e o seu sofrimento. O seu desejo de sair da miséria em que estava (drogas), mas o fato de que ele não conseguia fazê-lo. Ele estava tentando fazer isso e fazendo através das letras daquelas músicas. É muito sinistro o que ele estava cantando porque ele era muito honesto.


"River of Deceit"


Jornalista: É verdade que você comprou a sua guitarra Gibson Les Paul '59 na época da gravação do disco "Above"?

McCready: Eu comprei sim, mas não a gravei em nenhuma música nesse álbum. Eu já tinha a minha Fender Stratocaster '59 (que depois foi revelado se tratar de um modelo de 1960) com o captador de agudos fora de fase. Das 05 posições, era a segunda a partir do topo. Eu tinha uma Gibson Les Paul preta que gravei nesse disco. Acabei comprando uma de cor roxa também porque Layne tinha uma dessa mesma cor e que eu achava bem legal, mas esta roxa eu comprei só depois da gravação desse disco.

McCready: Então, eu ainda não tinha a Les Paul '59, mas comprei em Seattle e consegui um bom negócio na loja Danny's Music. Acho que troquei algumas guitarras por ela e custou cerca de U$ 13 mil dólares, o que meio que me impressiona.


Jornalista: E você ainda faz turnês com ela até hoje, o que algumas pessoas podem achar bastante surpreendente…

McCready: Bom, eu sinto que é a Les Paul com melhor som que eu tenho, a mais fácil de tocar, a melhor para a música "Alive" do PEARL JAM e para algumas outras. Na verdade, confio na equipe e em todos.

McCready: Você nunca sabe o que vai acontecer, mas as guitarras são feitas para serem tocadas, certo? Eu tive pessoas me oferecendo coisas em troca das minhas guitarras e eu sabia que elas as pegariam e as deixariam penduradas na parede ou qualquer outra coisa, mas as guitarras é para serem tocadas e eu quero tocar essa mesma Les Paul porque ela soa incrível, como se fosse em 1959. Possui uma sonoridade incrível e vale muito a pena.


Jornalista: Parece que você usou sutilmente o pedal para guitarra Phaser como parte do seu tom no disco "Above". Estou certo?

McCready: Sim, eu tinha um Phaser 90 e estava usando ele repetidamente. A canção "X-Ray Mind" também possui o Phaser e a toquei com a guitarra SG Gibson de braço duplo.


"X-Ray Mind"


Jornalista: Você pegou os mesmos amplificadores que estava usando com o PEARL JAM na época?

McCready: Praticamente. Era o que eu sabia no momento e não experimentei muito. Eu provavelmente usei um cabeçote JCM 800 porque era isso que eu estava usando em alto-falantes 4x12 de 25 watts. Então, para um tom limpo, eu provavelmente estava passando pelo meu Fender Bassman. Tenho 99% de certeza que era isso que eu estava usando. Provavelmente também usei um Fender Twin nas gravações.


Jornalista: Ouvindo a sua performance hoje no álbum do MAD SEASON, como você sente que mudou como guitarrista ao longo de sua carreira?

McCready: Eu acho que melhorei muito... Bom, eu espero! Provavelmente devo ter feito uns 500 shows desde então, gravei um monte de discos e toquei nos álbuns de outros artistas. Eu sinto que estava apenas começando a realmente aprender a escrever músicas quando o MAD SEASON se formou.

McCready: Acabei de passar 06 meses aprendendo a tocar a música "Eruption" de Eddie Van Halen. Eu meio que entendi, não tenho 100% de certeza, mas não poderia ter feito isso naquela época do MAD SEASON. Ou eu não teria pensado em fazer isso naquela época, mas agora eu me peguei pensando: "Eu tenho que aprender a tocar essa música!"

McCready: Eu toquei outra noite a canção "Eruption" e acho que me saí muito bem. Dito isso, eu treinei por 06 meses todas as noites trabalhando nela, porque é uma música super difícil, é óbvio. Foi um desafio pessoal pra mim e isso me ajudou a tocar de forma diferente, tipo, me fez sentir diferente sobre a guitarra. Me fez tocar diferente de como eu já toquei na minha vida e foi nisso que a jornada em tentar descobrir a canção "Eruption" se tornou tão interessante. Eu não poderia ter feito isso no MAD SEASON, mas agora eu só quero aprender porque é totalmente genial.


Jornalista: É ótimo saber sobre alguém que alcançou o que ainda não tinha aprendido na guitarra...

McCready: Bom, eu sinto que a vida é um processo de aprendizado e como artista, quero continuar a criar e ser desafiado por isso e trazer coisas para o PEARL JAM que eu não tinha antes. É como fazer um pouco mais de pontuação, sabe? Estou tendo aulas de piano agora, eu quero aprender e tem sido uma experiência muito legal.

McCready: Sinto que não há tempo suficiente e me sinto bem sobre onde estou com a guitarra. São aprendizados assim que me ajudaram a me tornar um guitarrista melhor.

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