Radiohead: "grande parte do vício e da depressão possui suas raízes na infância", disse o guitarrista
by Brunelson
há 7 dias
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Atualizado: há 6 dias
“Sou obcecado por som”, disse o guitarrista do RADIOHEAD, Ed O’Brien, em uma nova entrevista para a revista Spin.
O'Brien falou sobre seu recente 2º álbum solo, sobre fugir dos fantasmas de sua infância e como o RADIOHEAD sempre será como uma família para ele.
Para o guitarrista, o longo hiato do RADIOHEAD (de 2018 a 2025) foi um período de escuridão e revelação.
A pandemia em 2020 teve um papel importante, principalmente por obrigá-lo a parar tudo e se conscientizar em enfrentar seus conflitos internos que o perseguiam desde a infância. E seu despertar se manifestou na nova música que ele criou para seu 2º álbum solo, o belíssimo e meditativo, "Blue Morpho".
Sendo entrevistado em sua casa, em País de Gales, O'Brien descreveu repetidamente na entrevista a "noite escura da alma" que vivenciou durante e após o confinamento da pandemia.
“Meu papel no RADIOHEAD é servir à música de uma forma sonora, mas no meu próprio disco solo é completamente diferente”, disse ele, comparando suas músicas pessoais com o trabalho que faz no aclamado grupo britânico. “Em um álbum do RADIOHEAD, eu costumo entrar no estúdio cedo e trabalhar em alguns sons, fazendo muita pesquisa e desenvolvimento, por assim dizer. Simplesmente não tenho tempo para fazer isso no meu disco solo, porque estou tocando, tenho que compor e tenho que escrever as letras. Estou tocando muito mais guitarra rítmica também, coisa que eu adoro”.
“Sou obcecado por som”, acrescentou o guitarrista de 58 anos de idade, sobre seu crescimento através da criação do seu disco solo, "Blue Morpho": “Quando você volta ao mundo do RADIOHEAD, é bom ter o luxo de simplesmente brincar com seu instrumento e criar sons divertidos por horas a fio”.
Confira somente alguns trechos dessa entrevista:
Jornalista: Estando em uma banda enorme como o RADIOHEAD, há muitas considerações a ter em conta quando se faz um disco solo, quero dizer, o que se pretende alcançar ou o que evitar?
Ed O'Brien: No meu 1º disco solo isso já acontecia. Eu pensava: "Será que consigo fazer isso"? Às vezes, eu ficava quase paralisado por causa da produção do RADIOHEAD, que é de onde eu venho. Meu 1º disco solo foi tão diferente do som do RADIOHEAD que eu meio que tinha esquecido deles e isso foi muito libertador. No meu 1º disco eu ficava tenso o tempo todo. Gastei uma quantidade absurda de energia nervosa me preocupando com isso. Mas agora em meu 2º disco solo, eu simplesmente não me preocupei. Pra mim, esse disco é uma criação junto com meu espírito. Eu literalmente me soltei, não havia regras e realmente abracei estar nesse lugar de incerteza.
Jornalista: Você poderia nos dizer algo sobre seus conflitos internos e que lhe inspiraram na criação deste seu 2º disco solo?
O'Brien: Os detalhes não importam, porque não seria justo com os envolvidos. Mas é como diz Gabor Maté (médico e autor): "Grande parte do vício e da depressão possui suas raízes na infância". O que acontece é que você reage como uma criança e cria essa estrutura para sobreviver e lidar com a vida, e pensa que é assim que se segue. Esse é o seu modus operandi, e ele deixa de funcionar depois de um certo tempo. São apenas adaptações que você fez quando era muito pequeno (criança) para conseguir sobreviver sozinho. Então, é incrivelmente libertador pensar: "Ah, esse não sou mais eu". Aí você se pergunta: "Quem sou eu agora"?
Jornalista: As letras das suas canções solo surgiram de imediato ou depois de você já estar trabalhando no álbum há algum tempo?
O'Brien: As palavras têm sido a parte mais difícil para mim, sendo que a música é a parte mais fácil. Eu gosto do desafio e amo as palavras. De certa forma, eu realmente as aprecio. Sempre adorei as letras de Thom Yorke (vocalista do RADIOHEAD) e obviamente de pessoas como John Lennon, Bob Dylan, Leonard Cohen e Michael Stipe (vocalista do R.E.M). Mas como guitarrista, meu foco sempre foi nas guitarras, nas melodias e no som da banda. O que tem sido maravilhoso é essa mudança em ouvir as letras e amar as palavras. Meus cadernos agora estão cheios de frases, sabe? Amo a arte das palavras e amo o processo, mas ainda é bastante desafiador.
Jornalista: O baterista do RADIOHEAD, Philip Selway, toca bateria em algumas músicas do seu álbum solo. Tem sido interessante ver também os trabalhos solo dele e ver outros membros do RADIOHEAD criando individualmente e seguindo seus próprios caminhos.
O'Brien: Philip possui um ritmo incrível e uma presença marcante em tudo o que faz. Já disse isso antes: as 02 coisas que mais definem o RADIOHEAD são a voz de Thom e a bateria de Philip... É a sensação, sabe? E a sensação de Philip é extraordinária.
Jornalista: Você disse outra vez que todo este seu 2º disco solo foi gravado em 432 Hertz. É interessante você mencionar essa frequência. Recentemente conversei com Ziggy Marley, e ele agora está gravando tudo nessa frequência também. Você chegou a mencionar isso para o RADIOHEAD?
O'Brien: É interessante, porque quando mencionei isso, foi quando fomos gravar o álbum do RADIOHEAD, "A Moon Shaped Pool" (9º disco, 2016), e eu já era um verdadeiro entusiasta dessa ideia. Eles me olharam e disseram: "Não vamos fazer isso". Mas Thom Yorke me disse uns 03 ou 04 anos depois: "Sabe aquela coisa que você estava falando? Aphex Twin (DJ) não para de falar sobre isso". Tem muita gente que sente isso, está curiosa e parece haver um movimento crescente, principalmente nos últimos 06 anos.
Jornalista: Em uma de suas entrevistas recentes, você foi citado dizendo que a pausa do RADIOHEAD foi como um término da banda. Foi um término de verdade ou apenas uma espécie de hiato por tempo indeterminado?
O'Brien: Não, não! Alguém deve ter me interpretado mal. Nunca foi um término, foi apenas um hiato. Não seríamos tão estúpidos, certo? Só precisávamos de um tempo, quero dizer, é como uma família. Todo mundo precisava sair de casa uma hora. A gente precisa sair de casa, não é verdade? E a gente volta todo ano para o Natal.
O'Brien: Foi o fim de um capítulo. São laços e relacionamentos, e isso é família. Nossos filhos se amam e são como primos. Eles têm esse vínculo por serem filhos dos caras do RADIOHEAD, tipo, são famílias do RADIOHEAD. Só eles conhecem essa experiência e é algo lindo, então, nunca nos separaríamos. Isto seria uma loucura.
Jornalista: E para finalizar, a causa do fim desse hiato veio depois de criar seu 2º disco solo, "Blue Morpho"?
O'Brien: Sim, e o que é ótimo é que Philip ainda está gravando seus discos solo, Thom e Johnny Greenwood (guitarrista) são obviamente extremamente criativos e eles estão juntos na banda THE SMILE, fazendo trilhas sonoras e todo tipo de coisa. E Colin Greenwood (baixista) faz parte da banda de apoio do cantor Nick Cave, o que é uma combinação perfeita... E eu estou fazendo o meu trabalho.
O'Brien: Foi tão bom termos nos reunido em 2025 para aqueles shows na Europa. De certa forma, agora consigo ser mais objetivo em relação ao RADIOHEAD, tipo, não pensava nisso há 07 anos atrás, mas agora penso: "Nossa, isso é incrível. Todos os membros da banda ainda estão sendo muito criativos e fazendo coisas novas". Isso mostra o quanto amamos a música e mostra que o RADIOHEAD foi como ir para uma boa faculdade. Ainda fazemos isso pelos motivos certos e fazemos isso porque amamos.
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