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  • by Brunelson

Dave Abbruzzese: "a banda tinha se transformado em uma máquina tão grande, que os poderes constituídos tiveram que proteger sua máquina" - Parte 2/2


Dave Abbruzzese - ex-baterista do PEARL JAM da formação clássica, que adentrou ao grupo para fazer a turnê do seu álbum de estreia, "Ten" (1991), e que gravou a bateria nos álbuns "Versus" (2º disco, 1993) e "Vitalogy" (3º disco, 1994) - foi entrevistado pelo site Songfacts e dentre vários assuntos, falou sobre a dinâmica da banda entre seus membros durante essa época, escolheu os melhores bateristas da era grunge e como era tocar bateria nessa época, e as histórias por trás de vários clássicos do PEARL JAM que ele co-escreveu.



Confira a parte final dessa entrevista, com Abbruzzese falando aqui sobre as músicas "Angel", "Dirty Frank" e "Glorified G", revelações sobre o comportamento de alguns membros do PEARL JAM e se ele aceitaria tocar com a banda novamente, caso surgisse um convite.



Jornalista: Antes, você mencionou a música “Angel” (ficou de fora do 2º disco, "Versus", 1993). O que você lembra sobre a criação dela? A partir de 1991, PEARL JAM enviava singles aos membros do seu fã-clube todo mês de dezembro como presente de Natal, uma tradição que acabou em 2019. Em 1993, este single foi das músicas "Angel", escrita por você e Eddie Vedder, com um lado-b chamado "Ramblings".


Dave Abbruzzese: Foi quando cheguei a Seattle e estávamos começando a trabalhar juntos na banda. Eu fui ao local de ensaio e a bateria de Matt Chamberlain estava lá ainda (2º baterista do PEARL JAM, antecessor de Abbruzzese) e toquei nela durante aquele teste de audição por 01 semana. Quando fui escolhido e voltei ao local de ensaio com a minha bateria, foi quando saí daquele prédio de 05 andares onde eu morava num quarto e fui para a casa da cantora Kristen Barry. Foi quando inventei essa coisinha no violão, eu tinha um gravador de fitas cassetes, tinha uma caixa de fitas cassetes da Kristen e gravei o violão dessa música no meu gravador. Foram algumas gravações e quando cheguei ao ensaio seguinte, eu disse: “Hey, Eddie, tive uma ideia” e entreguei a fita cassete pra ele. Na manhã seguinte, ele me devolveu a fita com o seu vocal gravado em cima e aquilo foi incrível.


Abbruzzese: Então, quando estávamos no London Bridge Studios gravando uma versão da canção "Even Flow" e repassando as músicas do álbum "Ten" (1º disco, 1991), foi quando gravamos as canções "Breath", "Alone" e algumas outras coisas (ambas ficaram de fora do 1º disco). Demos um tempo e o violão de alguém estava ali, então, peguei o violão e eu e Eddie gravamos as nossas partes e a música surpreendeu a todos.


Abbruzzese: Quando estávamos pensando sobre o single de Natal para o nosso fã-clube daquele ano, no meio da conversa nos deparamos com a canção “Angel”. Mike McCready (guitarrista) e eu ficamos meio surpresos na época porque achávamos que era forte o suficiente para ser lançada em um álbum. No começo, foi como doar um obscuro single de Natal e pensei na hora que essa música merecia mais respeito do que isso. Mas então, alguns dias depois, eu pensei: "Nossa, que legal que vai ser uma coisa obscura". Assim como tudo naquela época, as coisas aconteciam muito rapidamente e é realmente uma música linda.


"Angel"


Jornalista: E quanto a música “Dirty Frank”, criada na turnê do álbum "Ten" (1º disco, 1991)? Você também ajudou a escreve-la?


Abbruzzese: Sim. Tocamos apenas 02 vezes e uma dessas duas vezes acabou sendo a da gravação. Não trabalhamos nela, simplesmente aconteceu. Esse era o aspecto da banda que era tão emocionante naquela época. Foi uma “jam”, apenas aquela ordem e aquela ação.


Abbruzzese: Criávamos muitas músicas no palco durante um show. Não tivemos problemas em improvisar diante de 10 mil pessoas, sabe? Se Stone Gossard (guitarrista) se sentisse inspirado e começasse a tocar alguma coisa, ele o faria. Se eu me sentisse inspirado e começasse a tocar alguma coisa, eu o faria. E então, Eddie começaria a cantar e aquilo ganharia vida.


Abbruzzese: Sobre a música "Dirty Frank", estávamos em turnê com o RED HOT CHILI PEPPERS há alguns meses e você sabe, fui influenciado pelo som deles antes mesmo de entrar no PEARL JAM. Eu sempre fui um grande fã do RED HOT CHILI PEPPERS e quando o disco "Blood Sugar Sex Magik" foi lançado, antes com o álbum "Uplift Mofo Party Plan" com Jack Irons na bateria, eu realmente amei esses 02 discos e os ouvia muito. Então, quando saímos em turnê com o RED HOT CHILI PEPPERS, noite após noite, saindo para vê-los tocar e ouvindo a sua música, sabe, me peguei pensando que já estava tocando aquela música funk rock antes de entrar no PEARL JAM e eu já tinha esta sensação sobre a minha forma de tocar, que veio de ser influenciado pelo RED HOT CHILI PEPPERS e os bateristas Jack Irons e Chad Smith.


Abbruzzese: Continuando, contratamos um motorista de ônibus – nosso primeiro ônibus e nosso primeiro motorista de turnê. Era um ônibus barato com desconto, para dizer o mínimo, e vinha com um motorista "com desconto". O nome do motorista era Frank e ele era pequeno em tamanho, mas grande em palavras. Ele falava como um cara durão, mas era um cara pequeno e talvez com uns U$ 30 dólares no bolso. Sua primeira introdução à banda foi ele nos dizendo: “Tudo bem. Vou lavar a roupa de vocês”. Ele inventava coisas, frases como: “Falando copaceticamente” e “Vou limpar o banheiro por si só, mas não vou limpar o banheiro”... Ele era esse tipo de cara.


Abbruzzese: Mas ele tinha uma regra. Ele apontou para uma vaga do maleiro embaixo do ônibus e nos disse: "Essa é a minha vaga. Ninguém abre e ninguém coloca nada nela. Essa é minha e esse é o meu espaço". Então, aquilo se transformou nessa teoria de que era onde ele guardava seu caldeirão de “sopa de groupies”, onde ele atrairia fãs desavisados para o ônibus e os matariam e os jogariam em seu caldeirão. E então, quando estávamos no estúdio, todos rimos disso. Stone começou a tocar esse riff, todos participaram e Eddie começou a cantar a história da música “Dirty Frank”.


"Dirty Frank"


Jornalista: É verdade que Eddie escreveu as letras da canção “Glorified G” depois de uma conversa que teve com você (2º disco, "Versus", 1993)?

Abbruzzese: Não foi comigo. Sabe, esses caras... Suas memórias ficaram bastante seletivas em alguns aspectos. Acho que é mais como se eles não tivessem descontado os rumores em relação a certas coisas... Mas a história por trás da música “Glorified G” é que o meu querido amigo, o artista Jon Anderson, estava de visita pela cidade. Ele morava na Indonésia e eu adorava brincar com ele, tipo, quando ele aparecia, chegava ao aeroporto vindo de sua ilha tropical e eu o buscava em um carro Chevy 1957. Depois, subíamos direto até 7 mil pés em botas para caminhar na neve e eu fumava um grande baseado com ele no alto da montanha. Ele ficou completamente chocado com a cultura que estava rolando em Seattle e que era uma coisa fora do seu elemento, então, tive muito orgulho de "mexer" com a cabeça dele quando ele voltou nessa época e ele também adorou.


Abbruzzese: Mas nesta viagem em particular íamos acampar e nós dois não éramos tolos, sabemos que há animais que não são necessariamente amigáveis no mato. Indo acampar no Monte Rainier, na subida passávamos por uma loja de armas e falamos: “Provavelmente é melhor ter alguma coisa, mesmo que seja algo para fazer barulho”. Então, comprei alguns rifles descartáveis calibre 22 para cada um de nós termos em nossa barraca, mas o empresário da banda, Kelly Curtis, não tem outro jeito de falar, cara, mas ele gostava de mexer na merda às vezes, sabe? Ele era uma espécie de "rainha do drama" em alguns aspectos. Eu disse a ele que iria acampar, explicando: "Não se preocupe, tenho algumas armas para pegar na loja". Falei isso pois seria algo que o faria saber que não precisaria se preocupar com a possibilidade de eu ter problemas no meio do mato enquanto estivesse acampando.


Abbruzzese: Eu apareço para o ensaio depois daquele fim de semana, entro no local e já há uma atitude no ar... Aconteceu muito isso, sabe? Às vezes havia um pouco de maldade naquela banda, principalmente entre Jeff Ament (baixista) e Eddie. Eles são pessoas muito criteriosas, quando alguém falou: “Hey, ouvi dizer que você comprou uma arma”. Isso aconteceu depois de minutos sem ninguém falar nada na sala, apenas aquela tensão estranha no ar. E a situação foi apresentada como se eu estivesse olhando de cima pra baixo para eles, como se eu tivesse feito algo errado. Então, a minha resposta foi: "Não. Na verdade peguei duas armas". E isso deu início a toda essa conversa sobre armas. A certa altura, eu falei: "Comprei algumas descartáveis, grande coisa. São como espingardas de chumbo glorificadas, tipo, não vou sair por aí num tiroteio". Uma espingarda de chumbo glorificada foi tudo o que eu vi.


Abbruzzese: Mas então tudo se transformou em uma conversa mais ampla sobre armas e Jeff mencionou que, quando ele cresceu, havia armas por toda parte. É o Estado de Montana, cara, e uma das regras era: “Você sempre mantém tudo carregado”. Essa é a maneira mais segura em ter uma arma – mantê-la carregada e blá, blá, blá. Então, essencialmente, foi uma conversa que todos nós tivemos sobre nossas opiniões e experiências com armas. Não foi necessariamente uma coisa negativa e ninguém disse que “se sentiam viris quando armados”. Isso foi algo que Eddie pegou quando estava escrevendo as letras, apenas fazendo anotações abundantes sobre a nossa conversa.


Abbruzzese: Mas naquela época houve um período estranho em que as coisas estavam explodindo e havia muita agressividade passiva. Eddie era um cara bastante passivo-agressivo. Isso levou a uma dinâmica que acho que ajudou de uma forma estranha a nossa música, mas acabou prejudicando a banda. Mike tinha esse riff da canção "Glorified G" e eu adorava porque assim que ele começava a tocar o riff, eu entrava com aquele groove tão amigável e imediatamente acessível a ele. Quando Eddie começou a cantar as primeiras vezes a partir da página de anotações que ele havia escrito durante aquela nossa conversa, tudo se encaixou muito rapidamente e instantaneamente. Era uma musiquinha bem legal.


Abbruzzese: Mas nunca me senti ofendido ou triste com as letras dessa música, porque achei legal que Eddie fosse capaz de conduzir aquela conversa da forma que tinha iniciado e admirei o fato de que era uma forma realmente criativa de escrever uma letra de uma canção, ao fazer anotações de uma conversa. Estávamos todos discutindo sobre a mesma coisa e ele transformou aquilo em um hino anti-armas de uma forma estranha. Foi irônico, meio que zombando da posse de armas: “Sempre mantenha-as carregadas” e “Sinta-se tão viril quando armado” e todo esse tipo de merda. “Porque eu amo a Deus” e “Sinto-me tão viril quando armado”. Essas foram coisas que ele colocou para fazer com que apontasse para o tema sobre armas, mas essas frases não faziam parte da nossa conversa antes.


“Glorified G”


Jornalista: Você ainda mantém contato com algum de seus ex-companheiros do PEARL JAM?


Abbruzzese: É estranho... Na verdade, estou em contato com Dave Krusen (1º baterista), Jack Irons (4º baterista) e Matt Cameron (5º e atual baterista), mas não falei ou ouvi falar de nenhum dos outros membros da banda desde que fui demitido, nem uma coisa. Eu conversei bastante com Kelly Curtis ao longo dos anos, nosso antigo empresário, e então, entrei em contato com ele um tempo atrás e descobri que ele havia se aposentado. Mas não, não tenho notícias ou falo com nenhum dos outros caras desde 1995, 1996, quando estávamos trabalhando em acordos comerciais após a minha saída do grupo.




Jornalista: Se a oportunidade se apresentasse, você gostaria de conversar ou tocar com eles novamente?


Abbruzzese: Sim, com certeza. Pra mim, muitas das coisas obscuras aconteceram em termos de negócios (business), mas nunca achei que isso fosse obra deles. A banda se transformou em uma máquina tão grande que os poderes constituídos tiveram que proteger sua máquina. Tudo parecia bem e de repente fomos esmagados por essa máquina, coisas assim. Não acho que nada disso tenha sido devido aos membros da banda, então, não tenho nenhum ressentimento depois de todos esses anos em relação aos caras.


Abbruzzese: E se surgisse a oportunidade de subir ao palco e tocar as músicas desses dois álbuns, "Versus" e "Vitalogy" (3º disco, 1994), eu adoraria, porque realmente sinto que isto seria algo especial para os fãs da banda. Foi o maior momento para o grupo em sua carreira e terminou tão abruptamente - e não foi anunciado pela banda desde então. É uma daquelas coisas estranhas...





Jornalista: Para finalizar, o que você está fazendo atualmente na música?


Abbruzzese: Estou gostando do processo musical novamente. Desde emprestar meus talentos por trás da bateria até mixagem e produção de discos. Meu amor pela música e pelo processo de contribuição para composição e gravação está mais forte do que nunca. Possuir e operar meu estúdio que é uma instalação analógica completa, me ensinou muito sobre o processo. E ter contribuído com a minha bateria para centenas de músicas de vários estilos, realmente me amadureceu como músico.


Abbruzzese: Trabalhando com vários artistas como Roger Hodgson (SUPERTRAMP), Carmine Rojas (David Bowie) Bernard Fowler (ROLLING STONES), Eric Schenkman (SPIN DOCTORS), além da minha banda, GREEN ROMANCE ORCHESTRA, e de contribuir com faixas de bateria para dezenas de outras bandas nos últimos anos... Sabe, tem sido um período fantástico de trabalho pra mim.


Abbruzzese: Sou um músico que tem como principal inspiração o meu estado emocional. Assim como amadureci como pessoa, também amadureci como músico. Minhas decisões e opiniões são muito mais fundamentadas e sinto que minhas decisões musicais estão melhores agora do que nunca. Dito isso, não sinto que vou parar tão cedo. Ainda resta bastante coisa para colocar em meu "aquário". Num futuro próximo, estou planejando me abrir para a ideia de voltar à estrada e me apresentar em turnês novamente.








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