• by Brunelson

Steve Albini: “vi Kurt Cobain trabalhando e ele levava sua música a sério e com paixão genuína"


O veterano punk, guitarrista e lendário produtor, Steve Albini (foto acima, de chapéu, junto com o seu engenheiro de som, a bebê Frances Bean Cobain e com o NIRVANA em 1993), foi recentemente entrevistado pela revista britânica Kerrang e falou sobre as bandas que participou - BIG BLACK e RAPEMAN - da sua banda atual, SHELLAC, Kurt Cobain e muito mais...


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Na noite anterior ao NIRVANA começar a gravar o seu 4º e último trabalho de estúdio em 1993, "In Utero", Kurt Cobain, Krist Novoselic e Dave Grohl receberam uma proposta intrigante. Escolhido para gravar o que foi indiscutivelmente o álbum de rock mais esperado da década de 90, Albini, que em seu currículo já tinha trabalhado com bandas como THE BREEDERS, JESUS LIZARD, PIXIES, FUGAZI e outras, se ofereceu para produzir o álbum "In Utero" de graça se alguém do trio grunge o vencesse num jogo de sinuca.

No entanto, se Steve Albini ganhasse, NIRVANA teria que dobrar os seus honorários.

“Estávamos pagando a ele U$ 100 mil dólares”, lembrou Dave Grohl mais tarde. “Qualquer pessoa que tenha coragem para apostar algo tão grande, deve ser incrível no que faz, então, todos disseram não. Além disso, ele tinha o seu próprio taco para jogar sinuca e não queríamos brincar com isso".


No fax que Steve Albini enviou ao NIRVANA antes de ser contratado pela banda e explicando o seu método de trabalho, ele mesmo escreveu que pediu U$ 400 mil dólares pelo serviço.


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Albini ri quando a história é trazida agora.

“Fiz isso com todas as bandas com as quais trabalhei e ninguém nunca aceitou a minha oferta”, revelou Albini. “Não é como se eu fosse um jogador de sinuca particularmente bom, mas tenho chances iguais de ganhar em um jogo justo. No final das contas, não faria muita diferença na minha vida se eu ganhasse o dobro do dinheiro pela sessão ou trabalhasse de graça, mas acho que o NIRVANA era um pouco mais avesso ao risco do que eu”.

A anedota fala sobre a reputação do homem de 59 anos de idade como um destemido e rebelde não convencional da indústria musical. Mesmo antes de começar com a sua banda BIG BLACK, o trio punk rock ferozmente independente e agressivo que lhe trouxe reconhecimento global na comunidade da música alternativa underground, Steve Albini já era sinônimo de integridade descomprometida e honestidade brutal, devido ao seu trabalho como escritor de fanzine, DJ de rádio na faculdade e promotor de eventos punk rock.

Ao delinear o modus operandi do BIG BLACK nas notas do encarte do seu álbum póstumo ao vivo: “Evite pessoas que apelam para a sua vaidade ou ambição - elas sempre possuem algum interesse. Opere o máximo possível fora da 'cena musical'. Durante o processo, não aceite nenhuma merda de ninguém”, Steve Albini lançou luz sobre os princípios morais inflexíveis que informaram o trabalho de sua vida ao longo de 04 décadas, tanto como um músico extremamente influente com a banda BIG BLACK, o polêmico RAPEMAN e o seu atual projeto coletivo, SHELLAC, como um profissional de estúdio conceituado, cujo currículo inclui gravações de alto nível com Jimmy Page e Robert Plant do LED ZEPPELIN, PJ HARVEY, THE STOOGES, BUSH e literalmente centenas de bandas punk rock.

Em entrevista direto do seu estúdio em Chicago, Steve Albini está em uma forma bastante objetiva...

Jornalista: Antes do punk rock entrar na sua vida, que música você ouvia?

Steve Albini: Quando eu era criança, não tinha muito interesse por música, sabe? Os meus pais tinham uma coleção de discos composta principalmente por cantores e compositores folk dos anos 60, pessoas como Pete Seeger & The Weavers e um cantor chamado Hedy West, de quem a minha mãe era amiga. Além de Johnny Cash e Hank Williams... O meu irmão tinha uma coleção típica de discos de um adolescente com Alice Cooper, THE WHO e quando ele foi para a faculdade, eu herdei todos eles, mas realmente não ouvia muita música até que comecei a ficar obcecado com o punk rock.

Jornalista: Os RAMONES forneceu a sua epifania punk rock, não foi?

Albini: Sim, eles foram um verdadeiro catalisador pra mim. Eu não sabia nada sobre música, exceto o que vazou da consciência popular, então, quando os RAMONES apareceu totalmente como banda formada, isso tocou diretamente nas minhas obsessões e nos meus amigos idiotas, que eram filmes de terror, cultura trash, mau comportamento geral dos adolescentes e pensamentos transgressivos. Eu tinha tudo isso em mim e era inescapável que esta seria a banda e o cenário pra mim. O rock na época tinha muita pompa e muito disso me parecia um absurdo afetado. Então, os RAMONES apareceram, vestidos do jeito que eu e os meus amigos se vestiam, sem maquiagens ou máquinas de fumaça e aquilo parecia muito mais poderoso pra mim.

Jornalista: Você se lembra da sua primeira vez num palco?

Albini: Assim que entrei no punk rock, montei uma banda com os meus amigos. Nós tocamos em algumas festas nas casas dos outros e fizemos um show num clube e um show numa escola. Todas as apresentações foram desastrosas, mas uma coisa que descobri e que considero incomum é que não tive crise de ansiedade no palco. Coincidentemente, mais ou menos nessa mesma época, também percebi que as opiniões de outras pessoas sobre mim não tinham nenhum poder. Contanto que, o que eu estivesse fazendo fosse honrado em minha própria mente, eu poderia fazê-lo confortavelmente e se outras pessoas não entendessem ou não concordassem com isso, tudo bem, pois não teria nenhum efeito sobre mim. E continuo assim até hoje, porque eu ainda não dou a mínima se for julgado.

Jornalista: Você começou a banda BIG BLACK como um projeto de quarto de 01 homem só enquanto estudava na universidade. Certa vez, você afirmou que isso acontecia porque não conseguia encontrar músicos que pensassem como você...

Albini: (risos) Sim, além disso, eu estava impaciente. Eu tinha tocado em algumas outras bandas, mas estava apenas um pouco satisfeito com esse nível de participação e queria ter uma banda que tivesse o seu próprio conjunto de ideias. Eu fiz uma fita demo que era só eu e uma bateria eletrônica e a distribuí, e não despertou muito interesse nas pessoas, mas quando pressionei algumas unidades em vinil, tornou-se um cartão de visitas de sucesso e pude montar uma banda de verdade. Foi uma verdadeira banda colaborativa daquele ponto em diante.

Jornalista: Considerando que você estava na faculdade, BIG BLACK era inicialmente um projeto de meio período?

Albini: Fazer música em uma banda ainda é uma coisa de meio período pra mim. A minha ocupação agora é como engenheiro e produtor trabalhando em discos de outras pessoas e operando um estúdio de gravação, mas eu dedico todo o tempo livre que tenho à banda em que estou e era desse mesmo jeito que fazia naquela época. Eu estaria trabalhando com a minha banda ou agindo como um promotor local fazendo shows, ou estaria contribuindo para fanzines, ou fazendo arte e ilustrações para as bandas dos meus amigos. Não estou tentando dizer que fui um polímata incrível, essa é apenas a maneira que todos se comportavam na cena naquela época. Nenhuma das pessoas que conheci na cena musical em Chicago tinha qualquer aspiração em ser músico profissional. Cada uma delas estava envolvido com a música porque éramos fãs e queríamos que a nossa cena fosse incrível. Não tinha ambições de ser um magnata e nunca imaginei que a música pudesse ser uma carreira pra mim. Muitos anos depois, quando comecei a conhecer pessoas com ambições explícitas de seguir uma carreira musical, ficou claro que eram pessoas horríveis pra mim. A abordagem mercenária delas na música era corrupta e elas geralmente faziam músicas terríveis.

Jornalista: Agora, há um romantismo ligado à cena musical underground dos EUA da década de 80, principalmente desde a publicação do clássico livro do escritor e jornalista Michael Azerrad, "Our Band Could Be Your Life". Como um participante-chave dessa comunidade, é uma época para a qual você olha para trás com carinho?

Albini: Na verdade, sim. Acho que todos lembram com carinho do período em que formaram a sua identidade e foi definitivamente quando desenvolvi a minha noção do "eu real", o que também acho que foi um período genuinamente único e produtivo para a música. Muita música incrível foi feita por pessoas que considero amigos e colegas, e até o livro de Michael Azerrad ser lançado, muitas delas não eram documentadas. O que todas essas bandas tiraram do punk rock foi a ideia de que você não precisava tocar em um estilo pré-ordenado, pois a lição fundamental para nós era que éramos malucos e podíamos nos divertir com isso. Cada cidade tinha o seu próprio grupo de esquisitos e cada grupo de esquisitos era diferente um do outro, e isso foi a coisa mais revigorante pra mim.

Jornalista: Como escritor de fanzines, você tinha a reputação de crítico contundente. Isso já rendeu alguma agressão em você quando saía em turnê com o BIG BLACK e conheceu pessoas cujos discos você crucificou?


Albini: (risos) Bom, acho que todo mundo tinha uma pele bastante dura naquele época... A primeira crítica de um disco do BIG BLACK foi feita por um cara chamado Steve Bjorklund, que foi odiosa e ele mais tarde se tornou um bom amigo meu. Em nossa comunidade, todos reconhecemos que todos estariam dando cotoveladas nos outros, mas a lógica por trás disso era que todos queríamos que tudo fosse incrível. Se alguém estava fazendo algo terrível, você tinha que contar a ele. Não que tenhamos ouvido mesmo assim o que alguém nos disse, independentemente do quanto nos odiava.

Jornalista: O que finalmente fez o BIG BLACK encerrar as suas atividades?

Albini: O nosso guitarrista, Santiago Durango, queria estudar direito. Ele foi um herói meu e ele estava na banda NAKED RAYGUN quando eu comecei no punk rock e eles eram a minha banda favorita (foi também o 1º show e banda punk rock que Dave Grohl assistiu). Eu o considerava indispensável no BIG BLACK e não conseguia imaginar continuar sem ele. Depois que tomamos essa decisão, ficou claro que era o momento certo para parar, porque começamos a ver um bando de idiotas querendo entrar na banda no lugar de Santiago. Além disso, havia pessoas que adotaram uma apreciação superficial do BIG BLACK como uma marca registrada de sua inteligência, as quais eram exatamente o tipo de pessoas que esperávamos que nunca gostassem da nossa banda. Queríamos permanecer para sempre alheios aos "conhecedores".

Jornalista: A sua próxima banda, RAPEMAN, atraiu um tipo diferente de atenção, em grande parte com base no nome do grupo...

Jornalista: Sim e muito disso na época me irritou. O nome da banda foi obviamente um erro indesculpável e indefensável, mas na época eu estava surdo a essas críticas. Não há nada que eu possa fazer para compensar essa perspectiva anterior que tinha, a não ser dizer que eu estava errado. Estava numa posição privilegiada por ser um cara cercado por outras pessoas que estavam ansiosas para encorajar uns aos outros a fazer coisas transgressivas, e parecia que havia um limite que as pessoas não iriam ultrapassar e decidi ir além disso. Tirando o nome da banda, estou muito orgulhoso de tudo o que o RAPEMAN fez. Fizemos boa música, agimos de forma justa e generosa com todos com quem lidamos, mas me arrependo de escolher esse nome.

Jornalista: Entre a dissolução do RAPEMAN em 1989 e a formação do SHELLAC em 1992, você gravou álbuns para bandas como JESUS LIZARD, THE BREEDERS, TAD, THE WEDDING PRESENT e muitas outras. Foi uma tentativa deliberada de se afastar dos holofotes na época?

Albini: Bom, eu ainda tinha um emprego normal naquela época, mas gravava as bandas dos meus amigos desde a adolescência e pude ver que tinha trabalho de gravação suficiente na minha agenda para me sustentar pelos próximos 06 meses, então, pensei em desistir do meu emprego e tentar somente a carreira musical. Não me via como um produtor como Phil Spector ou Quincy Jones, mas escolhi o cérebro de pessoas como Iain Burgess e John Loder, que foram generosos em seus tempos e conselhos. O tempo todo achei que precisaria voltar ao meu antigo emprego ou encontrar outro, mas aqui estamos, 30 anos depois. Jornalista: Trabalhando com o NIRVANA na gravação do álbum "In Utero", Kurt Cobain parecia um talento especial? Albini: Bom, eu não tentei me tornar um amigo íntimo dele, porque sabia que todos ao seu redor estavam tentando se infiltrar em seu mundo de forma parasitária e eu queria que ele soubesse que não precisava se preocupar com isso comigo. Portanto, nunca o pressionei por qualquer intimidade pessoal, mas eu pude vê-lo trabalhando e vi que ele levava a sua música extremamente a sério e que a sua paixão era genuína. Acho que foi a isso que as pessoas responderam, porque ele tinha uma voz distinta e aprendi a respeitá-lo como artista e como pessoa. Jornalista: A confusão durante a gravação do disco "In Utero" - com a controversa contratação do produtor Scott Litt, da banda R.E.M, para adoçar a sua mixagem tipicamente abrasiva - pintou um retrato seu de alguma forma demonizado pela indústria fonográfica corporativa... Albini: Com certeza houve um retrocesso após a publicidade em torno daquele álbum. Eu era persona non grata com as grandes gravadoras e tive um ano financeiro difícil após o lançamento desse álbum, porque o meu trabalho com artistas dessas gravadoras tinha acabado, onde foi que voltei a trabalhar com bandas underground. Jornalista: Qual é a compulsão de continuar fazendo a sua própria música com a banda SHELLAC? Albini: Exatamente a mesma de quando eu era adolescente. Gosto muito de tocar com Bob Weston (baixista) e Todd (baterista). Amo viajar, fazer shows, compor músicas e gravar discos. Essa é a coisa mais gratificante que posso fazer como uma saída criativa e faço durante todas as margens da minha vida, o que eu sentiria muita falta se não conseguisse fazer tudo isso. Jornalista: Se o punk rock teve um efeito democratizador na música, com os artistas se apoderando dos meios de produção, você vê a revolução digital na música como uma situação um tanto análoga? Albini: Não é realmente análogo, porque tudo o que estávamos fazendo no punk estava combatendo a natureza isolada da indústria como um todo. O negócio regular de discos garantiu que pessoas como nós nunca olhássemos para a indústria da música, então, não estávamos tentando fazer um universo paralelo. Estávamos tentando tornar esses obstáculos irrelevantes, operando como se eles não tivessem controle sobre nós. Se você é um artista brilhante que faz música em seu porão agora, pode encontrar um público pela internet e não consigo ver isso como nada além de uma coisa boa. Eu sei que tem sido destrutivo para a indústria fonográfica e teve um efeito catastrófico nos estúdios de gravação, mas não consigo formar uma opinião sobre os avanços tecnológicos que não incluem o fato de ser incrível em alguns aspectos. Lutamos contra as barreiras por tanto tempo, que parece mesquinho reclamar da falta de barreiras agora. Jornalista: Você tem a reputação de ser um espinho no lado da indústria musical convencional e ainda assim a maneira como você opera é justa e moral, com a sua acessibilidade e recusa em receber royalties sobre os álbuns que você grava... Albini: Acho que essa reputação se dá em parte porque as pessoas me julgam por não querer receber royalties. Posso criticar o sistema da indústria musical sem criticar os artistas que se encontram presos nela, pois a minha simpatia estará sempre com o artista, mas não posso controlar o que as outras pessoas pensam de mim e estou confortável com isso. Jornalista: Fora da música, você tem uma reputação formidável como jogador de pôquer. Que lição você tira disso? Albini: Eu jogo pôquer por dinheiro. É um jogo fascinante e estimula o meu cérebro, mas se eu não ganhasse dinheiro com isso, não o faria. Tornou-se uma parte significativa da minha renda e conto com isso como parte do meu sustento. Eu não faço isso por diversão. Jornalista: Já se passaram 05 anos desde o último álbum do SHELLAC. Para encerrar essa entrevista, existe alguma sugestão de novas músicas? Albini: Estamos gravando, damos um tempo e voltamos ao estúdio volta e meia. Trabalhamos num ritmo lento, mas ainda estamos gravando e eventualmente haverá novas músicas.


Confira o áudio de estúdio da música "Radio Friendly Unit Shifter" do NIRVANA, lançada no disco "In Utero" e produzida por Steve Albini:


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