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Steve Albini: produtor do Nirvana fala sobre streaming e por que não aceita royalties


O produtor do álbum "In Utero" do NIRVANA, Steve Albini, também falou sobre a sua recusa em aceitar pagamento de royalties pelo seu trabalho por todos os discos que já produziu na sua carreira - em entrevista para o podcast Cobras and Fire.


* Steve Albini: produtor relembra gravação do álbum "In Utero" do Nirvana


Albini também já gravou álbuns de bandas como do PIXIES, FUGAZI, THE STOOGES e várias outras...


Como nota, no box de relançamento do álbum "In Utero" em 2013, em comemoração aos 20 anos de vida, no encarte vem um fax inteiro que Steve Albini havia mandado ao NIRVANA, explicando o seu método de trabalho. Neste fax, ele diz que não aceitava royalties, comparando ao trabalho de um encanador, que recebe o pagamento 01 vez só pelo serviço e não fica ganhando royalties a vida inteira pelo fato da casa que ele fez o serviço ainda estar de pé.


* Nirvana: fax que o produtor do disco “In Utero” mandou para a banda

Seguem alguns trechos desta recente entrevista:

Jornalista: Você cobrou uma taxa fixa pela produção do álbum "In Utero" do NIRVANA (4º e último trabalho de estúdio, 1993), e não um royalty? Esse é basicamente o seu caminho padrão?

Steve Albini: Sim, quero dizer, já falei sobre isso longamente outras vezes, mas a maneira como pessoas como eu eram remuneradas em gravações na época, foi estruturada de forma a beneficiar os meios corporativos. É como se você fosse um administrador de uma gravadora e pudesse distribuir dinheiro para outras pessoas, onde você se tornaria maior e mais importante na indústria da música.

Albini: E se você como banda fizer um acordo com alguém que lhes conceda muito dinheiro, tipo, se for o dinheiro da gravadora, você pode ter problemas, mas você pode gastar o seu próprio dinheiro (da banda) sem se meter em encrencas. Foi assim que essa forma de compensação se desenvolveu, as pessoas começaram a fazer acordos com outros artistas no mundo da música para se tornarem mais influentes e importantes.

Albini: Esses negócios meio que inflaram e escalaram, e os negócios envolviam gastar dinheiro de outras pessoas. Então, se eu estivesse recebendo royalties por esses registros - os meus royalties - a minha parte dos royalties teria saído da parte que, de outra forma, teria que ter ido para a banda, certo?

Albini: Então, literalmente, cada dólar que eu fosse receber em royalties seria outro dólar que a banda não receberia e eles já estavam numa posição em que muitas pessoas drenavam a sua renda. Apenas do ponto de vista ético, eu simplesmente não posso estar envolvido num esquema como esse, não sei, soa como extorsão e eu simplesmente não faço isso.

Albini: Eu nunca fiz e não consigo imaginar fazer isso no futuro. Vou ressaltar que todo mundo se comporta dessa forma que eu trabalho em tudo, exceto na produção de discos. Como em todas as outras coisas em sua vida, se você contratar alguém para fazer algo por você, você paga uma vez só.

Jornalista: É inútil perguntar o que você acha sobre streaming? Estou curioso sobre isso...

Albini: Bom, eu tenho pensamentos divergentes sobre streaming. Em certo sentido, acho que a conveniência dos streams é inegável. No momento, é muito fácil para as pessoas ouvirem música o dia todo sem ter que gastar muita energia selecionando a música. Elas podem apenas guiar esses algoritmos de streaming para tocar a sua música e funciona da maneira que a rádio funcionava antes, quando alguém estava tomando decisões e tocando música para você.

Albini: E as suas escolhas e preferências podem moldar o que você está ouvindo agora em um grau muito, muito mais refinado, enquanto anteriormente você ouvia aquela estação de rádio e ficava a espera de tal música... Agora, você pode pesquisar em 01 minuto listas de reprodução específicas da coisa mais misteriosa, por exemplo. Você pode ouvir coisas muito específicas que combinam com você de forma única e pode passar o dia todo ouvindo uma lista de reprodução muito específica, que atende aos seus gostos e o que é incrível, porque nunca foi realmente possível assim antes.

Albini: Você também pode descer pela "toca do coelho", procurar artistas associados ou encontrar coisas que foram recomendadas por outras pessoas que gostam das mesmas coisas que você. Vai conhecer alguém que mora numa pequena cidade no estado de Indiana que está profundamente envolvido com a música jamaicana ou o que quer que seja, um tipo de música que talvez nunca tenha sido exposto durante a era da mídia física em vinis.

Albini: É provável que não haja uma loja especializada em reggae lá nesta pequena cidade em Indiana, então, desta forma eles nunca teriam encontrado esse tipo de música e considerando que, em alguns segundos você pode se perder num mundo inteiro de música que nunca teria sido exposto de outra forma, é incrível!

Albini: Agora, a forma como a economia desses fluxos é configurada atendendo aos detentores dos direitos, ou seja, uma grande corporação que detém a maior parte da propriedade intelectual que está sendo transmitida, seria o ponto da questão... Estas ex-gravadoras, que agora são empresas de mídia, são as ex-gravadoras que recebem a maior parte dos benefícios da receita de streaming.

Albini: Mais uma vez, as bandas pequenas e independentes não estão se beneficiando disso como fonte de receita, mas isso não é muito diferente de quando até o século passado onde essas bandas pequenas e independentes não eram tocadas na rádio. Estas bandas não estavam recebendo royalties de rádio, os seus discos não estavam sendo promovidos pela MTV ou qualquer outra coisa, então, elas tiveram que se contentar em ser um artista de nicho e tiveram que encontrar os seus fãs um de cada vez.

Albini: Felizmente, agora é muito mais fácil descobrir os fãs um de cada vez do que nunca e as bandas podem criar uma espécie de rede autossustentável com o seu público, onde são apoiados diretamente pelo seu público e este público agora está comprando fielmente cada coisa que você faz, e toda vez que aparecer em público, sabe que vai começar a ganhar um retorno.

Albini: Esse tipo de relacionamento é onde a maior parte do dinheiro muda de mãos para a banda independente, enquanto anteriormente havia alguma receita de discos e alguma receita de turnês, uma pequena quantia de receita de licenciamento e esse tipo de coisa, sabe? É por isso que é injusto, você tem os grandes músicos e artistas independentes, mas os grandes músicos fecham negócios logo no início, onde estão ganhando muito mais dinheiro pelo mesmo serviço.

Albini: E pra mim, esta é uma das razões pelas quais o streaming entrará em colapso algum dia, porque coisas independentes que são operáveis numa base mais justa acabarão sendo preferidas. A Internet trata esse tipo de limitação de acesso como uma espécie de falha e trabalha para violá-la. Se você só consegue ouvir uma peça musical em uma plataforma, a Internet acabará por fornecer uma maneira de contornar isso, onde você poderá ouvi-la em todas as plataformas e você pode considerar isso clandestino se quiser, porque essa é a mentalidade destas pessoas.

Albini: É apenas o produto natural da evolução da Internet e é assim que a Internet fica melhor, fornecendo mais acesso a mais coisas para mais pessoas.

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