Alice in Chains: a música lado-b que Jerry Cantrell a chama de "brilhante, queria ter lançado como single e ter feito um videoclipe para ela"
by Brunelson
há 14 minutos
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Ao analisar alguns dos melhores materiais da discografia do ALICE IN CHAINS, percebe-se uma outra vibe quando você coloca o disco "Alice in Chains" para escutar na íntegra (5º trabalho de estúdio, 1995).
Apesar de todos os seus álbuns serem pesados (musicalmente e liricamente falando) e arrastados, esse disco, que foi o último a contar com os vocais do seu cantor original, Layne Staley, parece uma outra coisa.
O que não quer dizer que a banda mudou drasticamente sua sonoridade, mas apenas engordando mais ainda sua áurea para o lado escuro da coisa e apresentando muitas músicas lado-b e com sua grande maioria não sendo apresentada nos shows - e que mesmo assim, sem nenhuma turnê promocional, estreou em 1º lugar no ranking da Billboard.
De muitas maneiras, a melhor explicação seria que esse era um ALICE IN CHAINS completamente diferente naquele momento específico de sua carreira. Embora grande parte do contexto em torno da produção do álbum "Alice in Chains" seja geralmente reduzido à mesma escolha de adjetivos como sombrio, sério, taciturno e assim por diante, esse disco homônimo da banda aparenta esse rosto porque genuinamente representa um dos períodos mais sombrios do grupo, principalmente devido ao vício em heroína e crack de Layne Staley e que estava corroendo seus laços internos de amizade.
É difícil ignorar o quanto também parece uma banda no limite, com problemas que foram ignorados ou marginalizados como forma de se arrastarem até o fim antes que tudo se desfizesse em fragmentos irreparáveis. Isso também transpareceu nas músicas desse álbum e é provavelmente por isso que, para muitos, o disco "Alice in Chains" pode ser escolhido por último para se escutar, comparado aos 05 trabalhos de estúdio que o ALICE IN CHAINS lançou nos anos 90 com Staley nos vocais.
Por exemplo, músicas desse disco como "Sludge Factory", "Head Creeps" ou "God Am", são todas ótimas canções, mas se tornaram lados-b quase nunca lembradas pela banda nos shows, o que também pode ser o álbum do ALICE IN CHAINS que mais apresenta um conjunto de lados-b. Não há dúvidas sobre o charme familiar na complexidade de alguns arranjos e como muitos parecem ter uma linha direta com uma emoção específica – um feito poderoso em que o ALICE IN CHAINS sempre se destacou – mas quando você escuta esse álbum na íntegra, também parece um pouco exagerado em certos momentos com muitas repetições em espiral.
Por outro lado, há que se destacar as músicas lançadas nesse disco e que ficaram marcadas na história da banda e do rock, como "Grind", "Heaven Beside You", "Again" e "Over Now", com as 03 primeiras sendo apresentadas até hoje nos shows da banda e ganhando seu videoclipe promocional, e a última se destacando no acústico da MTV em 1996 e ganhando um vídeo dessa apresentação para também rodar incessantemente na programação da MTV - e todas sendo lançadas como singles do disco.
E voltando para os lados-b, uma que se destaca é novamente a música "God Am", embora talvez sua excelência tenha sido massivamente ofuscada não apenas pelas outras canções lançadas como singles, mas pela atmosfera contaminada do disco em geral.
Essa é uma opinião que o guitarrista Jerry Cantrell também compartilhou, conforme ele deixou escrito no encarte da coletânea da banda: "É uma música que eu acho que poderia ter ido para algum lugar, mas nunca chegamos lá com ela. Eu sempre desejei que tivéssemos feito um videoclipe para ela e lançado como single, porque acho que é uma canção brilhante".
Apesar do disco "Alice in Chains" ter sido alvo de críticas mistas devido à sua própria natureza controversa, Cantrell continua orgulhoso dele, mesmo levando em conta as dificuldades que foi para compor todo esse material. Aliás, ele disse que toda a atitude do disco foi definida logo no início, especificamente nos primeiros versos das letras da canção que abre o álbum, "Grind", com Staley cuspindo as palavras como um aviso: "No buraco mais escuro / Você seria bem aconselhado / Em não planejar meu funeral antes que o corpo morra".
Assim como a música que encerra o álbum, "Over Now", que com um título mais sugestivo do que esse para o momento em que a banda passava, não há.
Em 1996, Cantrell disse para a revista Rolling Stone que esse disco ocupa um lugar firme em seu coração, apesar das dificuldades que o acompanharam e de tudo o que os outros membros da banda passaram, especialmente Staley, cujo trabalho vocal no álbum continua sendo um dos melhores que ele gravou com o grupo, mesmo em curva descendente ao seu vício e carreira: "Muitas vezes foi deprimente gravar esse álbum e querer terminá-lo era como arrancar os cabelos, mas foi a coisa mais legal do mundo e estou feliz por ter passado por isso... Guardarei essa lembrança para sempre".
Assim como Cantrell concluiu: "É como se esse disco falasse, tipo: 'Não me descarte, seu filho da puta, porque eu vou me levantar e chutar sua bunda quando você menos esperar'".
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