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Mike D: "eu não queria muito ser um dos vocalistas do Beastie Boys quando ainda éramos uma banda punk hardcore"

by Brunelson
há 3 horas
10 min de leitura

Confira quase na íntegra a matéria e entrevista que o site Consequence fez com Mike D, eterno baterista/vocalista do BEASTIE BOYS, onde ele falou sobre sua ex-banda e colegas de grupo, assim como sobre seu 1º disco solo, "Thank You" (foto), lançado agora em agosto de 2026:




Harold Diamond, professor de escola em New York que se tornou comerciante, faleceu no final de 1982. Seu filho mais novo, Michael — então ainda no ensino médio — canalizou a raiva decorrente dessa perda para sua banda punk hardcore, chamada THE YOUNG ABORIGINES. 


Agora, o artista multifacetado conhecido mais como Mike D, trocaria o nome do seu grupo para BEASTIE BOYS, mergulhando em uma nova onda sonora junto com seus mesmos colegas de banda. E depois de mais de 40 anos, lançaria seu 1º disco solo, "Thank You" (2026), que contou com a participação dos seus 02 filhos, Davis e Skyler. Aos 60 anos de idade, ele canaliza uma gama mais ampla de emoções para a música, um momento de fechamento de ciclo para o artista sexagenário.


“Meu pai era mais carinhoso comigo do que minha mãe”, disse Mike D, antes de um show que iria fazer na Cidade do México. “Uma das coisas que me deixava muito revoltado com a morte do meu pai, era justamente a falta daquele sentimento e daquele apoio. Embora eu o tenha perdido como pai e como pessoa na minha vida, o fato de poder, de certa forma, levar isso adiante no meu relacionamento com os meus filhos. é algo muito bom e bonito”.


Mesmo com a família ao seu lado, retornar à música após 01 década e meia sem lançamentos comerciais após o fim do BEASTIE BOYS em 2012, traz consigo certas angústias. É compreensível que ele se sentisse sobrecarregado e paralisado pelo imenso legado do BEASTIE BOYS, grupo que, ao longo de 31 anos (contando desde quando eram aquela banda punk hardcore de garagem), explorou mais territórios musicais, políticos e estilísticos, do que talvez qualquer outro artista, com exceção de David Bowie e dos BEATLES.


Quando surgiram, eles foram uma das primeiras bandas de hardcore de New York, antes de transitarem entre 1983 e 1984 para um grupo de rap propriamente dito. No final de 1986, conquistaram o mainstream, dominando a MTV e as rádios logo com seu álbum de estreia, "Licensed to Ill" (1986), que combinava rap autêntico com elementos do hard rock (as origens do rapcore), incluindo uma dose casual de misoginia.




"Fight For Your Right" (1º disco)


“Todos nós meio que vivenciamos juntos essa jornada em descobrir como era divertido ser um babaca, e depois, sentir o quão estúpido e ruim aquilo realmente parecia, quando você começa a perceber os efeitos que fazia de diferentes maneiras sobre outras pessoas”, reconheceu Mike D sobre aquela fase inicial do grupo. “A ideia de que pudemos vivenciar todas as pontas desse espectro juntos é algo incrível”.


Após se mudarem para Los Angeles no final da década de 80, o BEASTIE BOYS gravou seu 2º álbum de estúdio, "Paul’s Boutique" (1989), uma obra-prima baseada em samples.


"Looking Down The Barrel of a Gun" (2º disco)


Com a chegada dos anos 90, eles voltaram a tocar seus instrumentos de origem — sem jamais abandonar o rap — entregando coletâneas musicais ecléticas que foram fenômenos comerciais, aclamadas pela crítica e pela consciência social, na forma de álbuns como a santíssima trindade dos anos 90, "Check Your Head" (3º disco, 1992), "I'll Communication" (4º disco, 1994) e "Hello Nasty" (5º disco, 1998), tudo isso enquanto administravam seu próprio estúdio de gravação em Los Angeles, o G-Son Studios, sua própria gravadora, a Grand Royal Records, sua própria revista (também chamada Grand Royal), além de ajudarem a liderar uma loja e marca de roupas chamada X-Large.



"Gratitude" (3º disco)


"Sabotage (4º disco)


"I Don't Know" (5º disco)


Mike D — cujos emblemas do símbolo da Volkswagen roubados na época de beastie boy transformados em joias irônicas e que há muito se fixaram no imaginário coletivo — estava no centro dessas iniciativas paralelas. Ele era um mestre junto com seus colegas de banda, em abraçarem o planeta com uma força cultural abrangente que o BEASTIE BOYS representou para várias gerações.


A perda de Adam “MCA” Yauch (baixista/vocalista) para o câncer em 2012, pôs fim, de forma abrupta e definitiva, à banda como entidade voltada a apresentações e gravações. Diante disso, qual é a situação dos integrantes que permaneceram?


A atitude mais segura que Mike D poderia ter tomado seria nunca mais abrir a boca e surfar em direção ao pôr do sol (em sua prancha, já que agora ele é surfista), mantendo intacto seu legado inabalável como um beastie boy. A 2ª opção mais segura seria nos entregar um álbum feito sob medida para os fãs, replicando a sonoridade e o estilo das músicas mais famosas de sua antiga banda.


Mas por que jogar pelo seguro? Consistente com a reputação do BEASTIE BOYS de subverter as expectativas, Mike D seguiu um caminho totalmente diferente em direção ao seu 1º disco solo, "Thank You", o que aconteceu de forma gradual e natural.


“Seria uma frase de efeito melhor se eu dissesse: ‘Tive uma experiência de quase morte no banco de trás de um táxi’, mas isso não aconteceu”, disse Mike. Em meio à intensa cobertura midiática sobre o seu retorno — impulsionada pela mesma estrutura que trabalhou com o BEASTIE BOYS na fase final da carreira, a gravadora Capitol Records e empresariado pela Silva Artist Management — Mike D refinou a narrativa de sua origem como artista solo até deixá-la afiada como uma lâmina.


Trabalhar com o ex-colega de banda, Adam Horovitz (Ad-Rock, guitarrista/vocalista), no livro "Beastie Boys Book" (que estava em fase de concepção quando Yauch ainda era vivo), e na produção do documentário chamado Beastie Boys Story, dirigido por Spike Jonze, ajudou Mike a refletir sobre toda a sua vida adulta e a lidar com emoções difíceis. Por volta dessa mesma época, Mike e sua esposa, a diretora de cinema e TV, Tamra Davis, se separaram. Então, veio a pandemia da covid e os 02 filhos do casal voltaram-se para a criação musical, formando a banda VERY NICE PERSON.


“Eles começaram a levar cada vez mais equipamentos do meu estúdio e a transferi-los para o estúdio deles. Aí, finalmente eu desisti e pensei: ‘Certo, não tenho mais estúdio. Está tudo desmontado. Vamos focar totalmente em um único estúdio’”, relembrou Mike. “E isso foi ótimo! Sinceramente, acho que não consigo expressar em palavras o valor que isso teve para nós, tipo, servir como um ponto de encontro da família durante a covid e ter esse refúgio criativo”.


Mike viu seus filhos colaborarem com outros músicos e produtores, mantendo uma lista mental de com quem ele trabalharia caso decidisse retornar àquele universo. Após a pandemia, Mike produziu para alguns artistas, incluindo a banda sueca de garage punk, THE HIVES, mas acabou percebendo que estava oferecendo suas próprias ideias para os trabalhos de terceiros, em vez de aproveitá-las para si mesmo. Inspirado por uma sessão de gravação improvisada na casa de um amigo e por uma viagem junto com a VERY NICE PERSON para um show que eles iriam fazer, Mike se viu diante de um momento decisivo.


“Nesse processo e na vida em geral, existe uma espécie de ponto crítico em relação àquilo que sempre nos dizem quando somos crianças: ‘Se você realmente quer algo, vai ter que pedir’. Só que a gente se sente meio inseguro ou com medo de pedir por uma série de motivos”, admitiu Mike. “Por fim, tive que telefonar para os meus filhos e dizer: ‘Olha, escutem... Eu estou voltando. Quero reservar por umas 02 semanas o estúdio que dividimos e decidi que quero mesmo focar só na música e quero vocês lá também... Vamos ver no que dá’. Foi legal. Havia um certo nervosismo pra fazer esse pedido e foi aí que tudo começou de verdade”.


Isto foi agravado por outra preocupação: “Existe aquela insegurança, do tipo: ‘Bom, talvez eu não dê conta. Talvez eu chegue lá e não tenha nada a dizer, nada saia de mim, nada funcione, pois não tenho ideias musicais nem ideias para letras'. Isso é sempre uma possibilidade, sabe?”


Os receios de Mike se dissiparam quando seus filhos - já na casa dos 20 anos de idade - voltaram a fazer música com o pai. Era a 1ª vez que isso acontecia para Mike desde 2011, quando o BEASTIE BOYS estava no estúdio gravando o que se tornaria seu último álbum, "Hot Sauce Committee Part Two" (8º disco, 2011).


"Multilateral Nuclear Disarmament" (8º disco)


Em seu disco solo, Mike toca bateria em grande parte do álbum, instrumento que sempre foi sua zona de conforto: “Eu não queria muito ser um dos vocalistas do BEASTIE BOYS quando ainda éramos uma banda punk hardcore. E depois, quando mudamos nosso som e comecei a cantar, foi meio que como se eu tivesse tirado a carta mais curta, porque eu preferia muito mais ter sido somente o baterista”.


Chegando nos dias de hoje, a música resultante de toda essa jornada colaborativa na vida de Mike D soa como uma "esquisitice caótica, analógica e digital, que mistura lo-fi, emo, home-core e electro", conforme definida pelo próprio Mike. O termo "bitcrush" também poderia descrever as sonoridades retro-futuristas e fortemente comprimidas, filtradas por inúmeros efeitos e que formam a base musical do disco "Thank You". Além disso, talvez o termo funcionasse melhor na etiqueta de uma prateleira de loja de discos.


Só não use aquela palavra que começa com a letra "R" perto dele para definir seu novo som: "A palavra 'rock' me causa uma reação negativa imediata".


“Acho que no início do processo de gravação do meu disco solo, eu precisava mais dos efeitos do que depois, porque, pra mim, um som inspira outro”, explicou Mike ao ser questionado sobre como se sente ao ouvir sua própria voz reproduzida. “Então, quando você tem um som que parece inspirado e inspirador, isso te dá vontade de continuar criando mais sons. Funciona assim com instrumentos também... Não me sinto culpado por colocar efeitos nos meus vocais”.


Ele aponta a influência da música dub em seu trabalho: “É claro que vou usar a mesa de som. Vou passar sons por sintetizadores de maneiras para as quais eles nunca foram projetados, porque eu posso e as possibilidades são infinitas. Então, quero ouvir como tudo isto soa. Por que me contentar em fazer tudo de forma convencional? Eu entendo se você for a Billie Holiday. Eu também quero ouvir a Billie Holiday cantar, mas não sou a Billie Holiday... Desculpe decepcionar!”


Há um certo grupo alemão que exerce uma influência marcante sobre o trabalho de Mike D e no álbum "Thank You": “KRAFTWERK é, sem dúvida, uma das 10 influências formativas mais icônicas de todas... E eu também adoro grande parte do que o KRAFTWERK inspirou. Refiro-me a nomes como o artista Egyptian Lover, o grupo SOULSONIC FORCE e tantos outros”. 


“Também foi muito útil para mim durante a criação desse disco junto com a minha parceira, Nadia, ter participado de alguns retiros de meditação budista”, explicou Mike, meio relutante. Ele tem receio de parecer “um idiota místico” e acabar soterrado pela própria retórica, mas um dos aspectos mais interessantes em alguém tão associado ao riso é descobrir o que essa pessoa leva a sério: “A meditação foi fundamental para me dar esse espaço, e então, retomar a escrita, me sentindo mais livre para escrever e mais alinhado com meus sentimentos ou com alguma inspiração genuína”.


A meditação também ajudou Mike a lidar com o inevitável. A decisão de continuar fazendo música e de continuar vivendo, é norteada pela consciência da própria mortalidade: “Aos 60 anos de idade, é simplesmente uma outra realidade, certo? Tenho menos tempo pela frente do que já vivi. A morte é uma certeza e o tempo é finito. Ao dizer tudo isso em sequência, você poderia acabar tomado pelo medo, mas pra mim, é justamente o contrário. É algo ótimo, porque pode ser realmente libertador. Quando você consegue aceitar isso como uma verdade fundamental, o restante da vida se torna muito mais fácil, pois muda toda a sua relação com o tempo”.


Mike D é, pelo menos, o 2º integrante do BEASTIE BOYS a buscar esse caminho espiritual. Como é sabido, o saudoso Adam Yauch tornou-se adepto do budismo tibetano no início dos anos 90, ajudando a criar a série de shows, Tibetan Freedom Concert, e o Milarepa Fund, que promove o movimento de independência do Tibete: "Yauch ficou tão tocado pelo que vivenciou, pelo que aprendeu e pelo que sentiu, que eu ver um dos meus melhores amigos passar por isso foi simplesmente muito comovente. É algo autêntico, genuíno e não apenas uma referência cultural", recordou Mike.



De vez em quando, ele vê seu velho amigo enquanto está em estado meditativo: “É quase como um relance, apenas uma troca de olhares, sabe? Dá a sensação de que ele sabe o que estou fazendo e que está tudo bem, e a sensação é muito boa”. Mike deixou claro que não quer se definir por meio de rótulos. “Não gosto de dizer que sou budista, pois tenho muita cautela com identidades religiosas, no entanto, como prática, o budismo é fundamental para mim” — o que talvez seja a coisa mais budista que alguém já disse.



É um assunto basicamente de família, por isso, é compreensível que Mike D esteja se acostumando a responder perguntas sobre seu companheiro de banda remanescente e "irmão de outra mãe", Adam Horovitz: "Houve um momento, durante a produção do meu disco solo, em que percebi que estava tão envolvido e realmente comprometido, não apenas em fazê-lo, mas provavelmente em lançá-lo, que precisei ligar para Adam Horovitz e contar o que eu estava fazendo", disse Mike. 


O novo papel de Mike D como comandante-chefe criativo é, de certa forma, aterrorizante para ele. Mike não está voltando aos holofotes em busca de glória ou de certificações multi-platinadas, mas admite não ter superado a preocupação terrena com o que o público pensará do seu novo disco: "Em um mundo ideal, eu não me importaria nem um pouco, mas no mundo real, eu me importo... Adoro fazer música e sou imensamente grato por isso. Gostaria que isto bastasse, mas não estou imune ao sofrimento que pode vir com a rejeição ou com críticas negativas", disse Mike, rindo.


Ainda assim, desta vez há uma fonte de conforto diferente: “Hoje em dia, os pais seriam presos por serem tão permissivos quanto foram na época em que éramos crianças e adolescentes em New York”, disse Mike sobre a dinâmica de criação em que os filhos ficavam muito tempo sozinhos em casa, o que permitia que ele e seus colegas de banda (ainda adolescentes) frequentassem casas noturnas de Manhattan, muito antes de terem a idade legal para consumir álcool. 


Quando ele próprio se tornou pai, já no século XXI, o cenário havia mudado completamente, concluindo: “Sinto que, na criação dos filhos, presume-se que você saiba o que fazer, embora não exista um manual. Você meio que tateia no escuro e basicamente tenta reproduzir as coisas que uma figura paterna ou materna conseguiu lhe oferecer, ao mesmo tempo em que tenta não repetir tudo o que fizeram e que você jamais gostaria que fosse feito a alguém — ou a você mesmo. Então, você tenta, de certa forma, promover o que é certo e corrigir todos os erros”.


Ele já é 04 anos mais velho do que o seu pai era quando morreu. Nesse processo de transmitir o que é certo e corrigir erros na relação com seus próprios filhos, Mike D também conseguiu montar uma banda, gravar um disco e fazer uma turnê mundial com seus filhos.


"Switch Up" (Disco: "Thank You")


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