• by Brunelson

Pearl Jam: resenha do álbum "No Code"


Em 26 de agosto de 1996 - na ressaca do grunge - PEARL JAM lançava o seu 4º álbum de estúdio e o mais experimental de toda discografia, "No Code".


Este disco não foi apenas uma liberação emocional, mas também uma liberação do termo grunge - uma deliberada mudança de som da banda, desde a sua estreia em 1991.


"Eu acho que todos nós concordamos que o álbum ‘No Code’ foi meio insano, que já não era mais somente sobre a música", disse o vocalista Eddie Vedder numa entrevista para a revista Spin em 1997.


A banda vinha de uma turnê tortuosa do seu disco anterior e dando continuidade a tudo que estava aplicando: as suas corridas por conta própria, resolvendo e abdicando questões judiciais e se esquivando mais ainda do pacote midiático. Longe dos holofotes e num estado mais reflexivo e de meditação, o grupo mergulha fundo no disco "No Code" e busca o seu eu interior para achar as respostas e entendimentos.


Lembremos como era em 1996: Os fãs do grunge e rock alternativo haviam sido gravemente feridos pela morte de rockstars como Bradley Nowell (vocalista/guitarrista do SUBLIME) e Shannon Hoon (vocalista do BLIND MELON) - juntamente com a maior figura do grunge 02 anos antes, Kurt Cobain. O rock alternativo nunca foi sobre festas e felicidade, mas em 1996, o sentido daquele humor sutil encontrado em bandas como RED HOT CHILI PEPPERS e NIRVANA, passou muito longe de nós - onde apenas a ressaca permaneceu. Muitas bandas de rock estavam aparecendo em todos os lugares, mas a melancolia e a desgraça soavam agora uma coisa menos sincera...


Detalhe: desde o 2º disco (1993) que o grupo não vinha promovendo videoclipes na MTV - algo realmente chocante na época, pois era o sonho de toda banda ter um vídeo passando na emissora para se promover.


De mãos dadas com a parte filosófica vem a sonoridade desse disco, demonstrando a guinada musical em novas vertentes em relação ao som grunge de Seattle. Vemos batidas tribais em devaneios com dinâmicas louváveis e uma dosagem sonora mais leve em relação aos 03 primeiros discos - aproveitando o gancho, o baterista Jack Irons (ex-RED HOT CHILI PEPPERS) faz a sua estreia aqui, deixando a sua notável marca.


Lembrando que foi Irons quem fez a ponte entre a fita demo do PEARL JAM (quando estavam procurando um vocalista) com seu amigo Eddie Vedder... O resto da história, nós já sabemos.


A sonoridade de gravação ao vivo e em sequência se faz forte no álbum, da melhor maneira "garagem" possível!


As sessões do álbum começaram com conflitos e tensão. Também para a mesma revista Spin, o baixista Jeff Ament não estava ciente de que a banda estava gravando até 03 dias depois das sessões terem iniciado, dizendo: "Eu não estava super envolvido com esse álbum em nenhum nível". O guitarrista Mike McCready também falou: "Tenho certeza que Jeff estava chateado, devido a separação que a banda estava passando... Todos estávamos meio chateados uns com os outros".


Em um ponto, Ament até saiu das sessões de gravação e considerou desistir da banda, devido (em parte) ao controle do processo de criação liderado por Eddie Vedder - desde o 3º disco assumindo este leme.


No livro oficial da banda, lançado para comemorar os 20 anos de vida, "PJ20" (2011), Ament disse: "É interessante, porque existe muito papo sobre ter existido uma mudança no poder nessa época. Eddie estava no poder e Stone (guitarrista) e eu não estávamos. Mas eu acho que realmente estava acontecendo era que Eddie trazia músicas completas e ninguém mais fazia isso".


Caindo agora para as músicas e como já desenhadas, as canções punk rock nesse álbum são: "Hail Hail", "Habit" (ficou de fora do 3º disco), "Lukin", "Mankind", "Don't Gimme No Lip" (Stone Gossard leva os vocais em ambas, sendo que esta última não entrou no disco), "Black, Red, Yellow" e "All Night" (outras duas pérolas que também ficaram de fora).


Na verdade, a base pode ser um punk cru, mas as músicas que não entraram no álbum, "Black, Red, Yellow" e "Don’t Gimme No Lip", foram mais como um retorno nostálgico ao rock’n roll dos anos 50 e 60, do que os verdadeiros ataques brutos que nós conhecemos.


O lado funk rock de origem flerta levemente no baixo arrastado da canção "Smile" (na verdade, Jeff Ament toca guitarra e Gossard leva o baixo nesta música, mas a composição é de Jeff) - experimentalismo realmente alcançando todos os níveis nesse disco, além da gaita. A inspiração e influência de NEIL YOUNG na música "Smile" realmente nos faz sorrir (em oposição à letra da canção), com um som brilhoso iluminando a terra por um sujeito apreciador da memória – apesar do “torto coração que incha por inteiro” (citando uma parte da letra).


As canções atípicas que fazem jus ao disco e que formam as cerejas do bolo, vem acompanhadas de batidas tribais (característica permanente em cada disco), guitarras espelhadas e vocais estrondosos. As músicas "Who You Are" (acompanhada por cítara, piano e palmas), "In My Tree", "Sometimes", "Present Tense" (uma das melhores canções da banda, junto com "In My Tree"), "I'm Open" (um mantra que Eddie tocava no seu apartamento, antes de entrar no grupo), "Olympic Platinum", "Dead Man" e "Happy When I'm Crying", fazem parte dessa leva (sendo que as 03 últimas não foram lançadas no álbum).


Fica também o destaque para a patriarca das futuras composições blues grunge que o PEARL JAM iria lançar, com "Red Mosquito" acenando por aqui.


Ainda lembrando sobre o cover gravado nestas mesmas sessões para o disco "No Code", a canção "Gremmie Out of Control", da banda THE SILLY SURFERS. Eddie Vedder havia dito em entrevista sobre esta gravação: "Brendan O'Brien, o príncipe da surf music! (produtor da maioria dos álbuns do PEARL JAM e que leva a surf guitar nessa música). Originalmente gravada para o álbum 'Mother Oceans', um disco beneficente à fundação Surfrider e um ótimo grupo que realiza importantes trabalhos. Eles podem ser consultados em www.surfrider.org".


O guitarrista Mike McCready também havia dito nessa mesma entrevista, realizada em 2003: "Brendan O'Brien criou incríveis guitarras nessa canção... Em toda a música".


Falemos agora sobre a parte lírica das canções.


Por se tratar de um álbum transcendental e ainda existencialista, Vedder aborda várias questões pessoais e da humanidade em si próprio. Com isso, seguem as canções que falam sobre o vocalista e na música "Sometimes", que abre o disco, como estimulação Vedder se abastece de Deus nesta reflexiva canção.


Na música "Who You Are", Vedder (e a banda) está ousando e correndo risco em busca da verdade e da auto sabedoria, numa marcha desfilante e edificante com as linhas de baixo por Jeff Ament no estilo “escalando a montanha do Himalaia”, e com a unidade vocal de toda a banda em seu refrão.


Ou na escaldante canção "In My Tree", cuja sonoridade mística de inspiração oriental, faz você realmente subir nesta pacífica casa na árvore de Vedder.


As músicas "Lukin" e "Present Tense" fecham esse quadro lírico sobre o vocalista. No geral, Vedder não está mais naquela posição de ataque, sendo mais sereno agora, introspectivo e reflexivo.


Das músicas que ficaram fora do disco e que também tratam sobre o vocalista, ficaria somente com as canções "All Night" e "Happy When I'm Crying". De forma um tanto terapêutica, Vedder enxerga como é seu estilo de vida, como é a realidade que nos cerca, como as informações são despejadas pelos veículos de comunicação e algumas nuances no caminho do rock - chegando em conclusões introspectivas.


Em "No Code", Vedder parece ter encontrado a sua rota de fuga em busca da cura interior - letras de "Who You Are", "In My Tree", "Sometimes" e "Present Tense", são um belo de testamento. Pode até ter encontrado, mas se livrar 100% das indagações ou se desgarrar dos carrapatos, é outra coisa. O seu poder lírico ainda é do mesmo nível dos outros 03 discos, mesmo apresentando estados alternativos de mente, visão e timbres.


Continuando em sua fórmula, as canções que tratam agora sobre personagens, são: "Hail Hail", "Smile", "Off He Goes", "Habit", "Red Mosquito" (compartilhando uma lembrança sobre a guerra espiritual que nos cerca), "I'm Open", "Around The Bend", "Olympic Platinum" (homenagem aos jogos olímpicos), "Dead Man" (trilha sonora do filme dirigido por Tim Robbins e estrelado por Sean Penn) e "Black, Red, Yellow" (homenagem ao astro da NBA, Dennis Rodman, com gravação real de voz do atleta numa secretária eletrônica para Eddie Vedder).


Sobra as composições e vocais do guitarrista Stone Gossard, "Mankind" e "Don't Gimme No Lip", não poderia ficar de fora aquela velha visão social/política presente desde o 1º disco - junto com uma crítica sarcástica aos imitadores do grunge do 3º escalão.


Escutando e escutando novamente todo o disco - para poder entender e digerir - a declaração de Jeff Ament para a mesma revista Spin em 1997, reluz em nosso inconsciente: "Eu acho que nós estamos constantemente tentando encontrar um equilíbrio".


Vedder tenta clarear o ambiente: "Fazendo o álbum ‘No Code’, foi tudo sobre ganhar novas perspectivas".


O tema de "No Code" pode ser traduzido como uma forma de "busca interna e subjetiva". Com isso, a catarse começa a mudar nesse álbum, saindo aos poucos do emocional e cedendo espaços para o cognitivo e intelecto.


O jornalista David Browne, da revista Entertainment Weekly, afirmou na época que: "O disco 'No Code' mostra uma gama maior de estados de espírito e instrumentação, do que qualquer outro álbum do PEARL JAM".


"No Code" estreou em 1º lugar no ranking da Billboard e também alcançou o topo máximo na Austrália, Canadá, Dinamarca, Nova Zelândia, Portugal e Suécia, além de um 3º lugar na Áustria, Irlanda, Noruega e Reino Unido. Foi top 04 e 05 em países como: Bélgica, Holanda, Finlândia e Itália.


Ganhou Disco de Platina nos EUA, Austrália, 2x platina no Canadá e Disco de Ouro no Reino Unido. Também em 1996, a banda havia ganhado o seu 1º Grammy - ainda referente ao seu disco anterior, lançado em 1994.


Mas foi em "No Code" que o PEARL JAM perdeu uma boa base de fãs que apenas queriam o grupo soando e tocando os velhos sucessos, mas também rendeu à banda o apoio imortal de seus fãs mais comprometidos. Dessa forma, não foi nenhuma surpresa lançarem a música "Who You Are" como single do álbum, que decididamente não tinha uma sonoridade muito acessível ao grunge ou rock alternativo - os fãs não sabiam mais qual PEARL JAM podiam esperar.


O produtor do álbum, Brendan O'Brien (que também trabalhou com o grupo no 2º e 3º disco), havia falado para o livro PJ20: "Em 'No Code', eu não sabia muito bem o que eles estavam tentando fazer, além disso, sempre fui o cara que tentava empurrá-los para serem mais universais. Então, lançamos um disco que dizia: 'Não estamos pensando em vocês (público) de qualquer forma'. Foi uma experiência significativa fazer esse disco, mas de certa forma foi indiferente para o ouvinte. O disco tinha muitos méritos e algumas músicas incríveis, mas a reação das pessoas com relação ao PEARL JAM mudou naquela época".


Stone Gossard também relata no mesmo livro: "É um disco parcialmente amador, estávamos apenas improvisando e tentando coisas que talvez não funcionassem muito bem".


Eddie Vedder relata no livro PJ20: "Diminuir aquele nível de sucesso um pouco foi provavelmente bastante útil em termos criativos".


Assim como foi na turnê do 3º disco, em "No Code" a turnê foi pequena, devido à recusa da banda em tocar nos locais patrocinados pela Ticketmaster (velha questão judicial).


O perfil da banda estava possivelmente em seu ponto mais baixo até aqui em sua carreira - embora fosse intencional.


Uma turnê europeia aconteceu no outono de 1996 e Gossard havia dito em entrevista anos mais tarde: "Havia muito stress associado a tentar excursionar naquela época. Estava se tornando mais e mais difícil ficar empolgado em ser parte de uma banda".


McCready também recorda anos mais tarde que Irons pediu aos membros da banda que discutissem os seus problemas, chamando o baterista de: "Uma grande influência espiritual, se não a maior".


Após o lançamento do álbum, "No Code" recebeu críticas mistas a positivas.


David Fricke, lendário jornalista da revista Rolling Stone, deu ao disco 04 de um total de 05 estrelas, elogiando e dizendo que o álbum: "Está abrupto em seu humor, quase chegando ao ponto da vertigem. O tipo de tumulto impulsivo, quixotesco e provocativo, que se tornou raro em um mainstream de rock moderno. 'No Code' basicamente significa um livro sem regras, sem limites e acima de tudo, sem medo".


A revista Q também concedeu ao álbum 04 de um total de 05 estrelas, dizendo: "Constantemente adiciona detalhes inesperados e fascinantes... Uma atração sólida entre estranhezas intrigantes e o poderoso conjunto de som das guitarras".


O famoso crítico Robert Christgau, descreveu o álbum melancólico, mas: "Ganhando lentamente uma batalha reconfortante contra o constitucionalismo".


O renomado escritor da revista AllMusic, Stephen Thomas Erlewine, deu ao álbum 3,5 de um total de 05 estrelas, dizendo: "Embora um pouco incoerente, 'No Code' é o álbum mais rico e recompensador do PEARL JAM até hoje, bem como o mais humano".


A revista britânica New Music Express deu a nota 07 de um total de 10, afirmando em sua resenha que: "Vedder ainda está preocupado com a sua própria mortalidade, mas agora ele parece mais quase místico do que miserável... Apesar de toda a sua relativa placidez, 'No Code' ainda é uma fera difícil de lidar".



Vedder chega em sua conclusão sobre o disco, na entrevista para a revista Spin em 1997: "Eu aprendi o que significa a expressão da frase de artes marciais, ‘Jeet Kune Do’. Você sabe, quando alguém vem até você com um monte de energia e você apenas usa esta energia para deixar que ela lhe acerte ou para deixa-la entrar em você... Não vá até lá para lutar contra essas coisas que são muito maiores do que você, apenas se desvie de toda essa energia ou deixe que a coisa da 'viagem' caia sobre si mesmo, entendeu?”


Em 1996, eu tinha 16 anos e estava andando de skate com a galera. Me lembro que um brother meu chegou até mim e perguntou se eu já tinha escutado o novo disco do PEARL JAM, "No Code". Ele me entrega a fita cassete para eu escutar rapidamente no meu walkman, já que ele estava na maior fissura em continuar escutando o som enquanto andávamos de skate. A música que estava no gatilho era "Lukin" e meu canário... Que porrada era aquela, bicho. Nunca vou esquecer daquele sentimento e palavras infelizmente não traduzem corretamente o momento que vivenciei... Só agradecia pelo PEARL JAM ainda estar lançando discos, mantendo a sua integridade, viajando bonito neste álbum e ser aquele grupo que já tinha lançado 03 discos e que curtia desde 1991.


Ao ouvir a tranquilidade e serenidade de “No Code”, encontramos o PEARL JAM - o cabeça do grunge na década de 90 depois do NIRVANA - em uma guilhotina. Eles brilharam somente com uma lanterna e deram um espelho para a cena grunge - que estava se tornando um reflexo embaçado do passado se entrincheirando na profunda escuridão.


Com uma base gigante de fãs, o PEARL JAM espera que nós aprendemos com as tragédias e que possamos desfrutar de novas perspectivas sobre a vida, vendo quem realmente nós somos e nos abraçarmos de vez.



ps: Em 17 de Outubro/2014, na cidade de Moline/EUA, o PEARL JAM realizou o que pode ser o único show de toda uma geração: incluiu no seu setlist a apresentação na íntegra e na mesma ordem do álbum, as músicas de “No Code”.


Track-list:


1. Sometimes

2. Hail Hail

3. Who You Are

4. In My Tree

5. Smile

6. Off He Goes

7. Habit

8. Red Mosquito

9. Lukin

10. Present Tense

11. Mankind

12. I'm Open

13. Around The Bend

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