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  • by Brunelson

Queens of The Stone Age: “álbum 'In Times New Roman' soa tão brutal quanto a sensação de estar vivo"


No topo de uma colina na praia de Malibu, na California, o vocalista/guitarrista do QUEENS OF THE STONE AGE, Josh Homme, foi entrevistado pela revista britânica New Music Express e falou como a dor, divórcio e o colapso social influenciaram o novo álbum da sua banda, "In Times New Roman" (8º disco, a ser lançado em 16 de junho de 2023).




Segue essa matéria e entrevista na íntegra:

Josh Homme coloca o pé no acelerador com estampa de oncinha no chão do seu carro e acelera pela Pacific Coast Highway em uma nuvem de borracha saindo dos pneus.


Estamos em seu Chevrolet Camaro prata 1967, o único carro que Homme já teve em toda a sua vida. O veículo é o companheiro constante do frontman do QUEENS OF THE STONE AGE, de 50 anos de idade e com esse carro desde os 14 anos, sendo que por um breve período nos anos 90, foi também a sua única casa.


Quase inaudível acima do rugido do motor, o artista Chet Baker está cantando a música “I Fall in Love Too Easy” na rádio do seu carro. O oceano que estamos costeando está à nossa esquerda, então, viramos à direita, subindo as colinas da praia de Malibu em direção a um local tranquilo com vista para o mar que Homme descreve, sorrindo por trás do seu cavanhaque branco e desgrenhado, como “ponto de encontro”.

Já se passaram 06 anos desde que o QUEENS OF THE STONE AGE lançou o seu último álbum de estúdio, "Villains" (7º disco, 2017), e os 06 anos dos mais difíceis na vida de Josh Homme.

Em 2019, ele se separou da sua esposa, a vocalista/guitarrista do THE DISTILLERS, Brody Dalle, após quase 14 anos de casamento. O seu divórcio, finalizado somente no início de 2023, foi ainda mais confuso por acusações de violência, ordens restritivas de ambos os lados e um longo cabo de guerra sobre os seus filhos. Em março, Homme recebeu a custódia legal exclusiva de todos os seus 03 filhos e compartilhou uma declaração oficial completa explicando sobre essa batalha nos tribunais.

O mundo de Homme também foi abalado pela morte de alguns dos seus amigos mais próximos.


Em 2022 e num espaço de 02 meses, Homme perdeu o seu amigo e vocalista do SCREAMING TREES, Mark Lanegan (também foi vocal de apoio e convidado especial em alguns discos do QUEENS OF THE STONE AGE e turnês), e logo depois, o seu amigo e baterista do FOO FIGHTERS, Taylor Hawkins, além do seu melhor amigo, o ator Rio Hackford. No total, ele sofreu 11 mortes de entes queridos nos últimos 07 anos, incluindo outro conhecido companheiro de bebida, o chef e jornalista de viagens, Anthony Bourdain.

Após um período auto imposto de exílio e luto durante a pandemia, Homme e a sua banda retornam com o 8º álbum de estúdio do QUEENS OF THE STONE AGE, "In Times New Roman". Apoiado no capô do seu carro, com nada além do oceano à sua frente, Homme conversou com a revista New Music Express falando como aprender a arte da aceitação moldou o som cru e puro do seu vindouro disco.


Jornalista: Entre o divórcio, o falecimento de amigos próximos e a pandemia, houve uma mudança considerável na sua vida desde a última vez que o QUEENS OF THE STONE AGE lançou um álbum. Quando você começou a pensar em fazer música de novo?

Josh Homme: Quero dizer, o mundo estava todo fodido, o meu mundo estava fodido e o mundo de todo mundo estava fodido, então, fazer um disco não era uma grande prioridade.


Jornalista: Houve momentos em que você pensou que não faria outro álbum?

Homme: Mais ou menos... Acho que, quando você está lidando com os extremos altos e baixos da vida, você não para e fica pensando: "Eu realmente deveria gravar um disco". Essas coisas não existiam naquele momento. Se o telhado da sua casa está cheio de buracos e sua casa está inundando pela chuva, você não diz: "Devemos fazer um álbum sobre isso!" Você precisa primeiro evitar se afogar em uma enchente. Nós começamos a gravar o disco "In Times New Roman" provavelmente há 02 anos e meio atrás, mas o disco ficou lá esperando para ser finalizado, tipo, eu não cantei mais nada até novembro de 2022, sabe? Eu não tinha terminado de viver, mas honestamente, provavelmente eu estava com medo e não estava pronto ainda. Você precisa que o dilúvio acabe e então decide se pode aceitar o dilúvio. Eu acho que por ser um álbum sobre aceitação, você precisa chegar lá sozinho para entender.


Jornalista: Esse álbum parece tão direto e pessoal quanto qualquer coisa que você já escreveu. Isso é correto em dizer?

Homme: Sim, claro. Isso é o que é. Você começa a deixar cair a armadura que o protege de suas inseguranças e depois de deixar cair um pedaço dessa armadura, não consegue mais colocá-la de volta. Acho que nessa jornada do QUEENS OF THE STONE AGE não sobrou armadura nenhuma. Trata-se apenas de caminhar cada vez mais fundo na escuridão e é assim que deve ser. Curvar-se às minhas próprias inseguranças ou medos que a minha idade gera, não é uma boa ideia. Eu também acho que muitas pessoas e bandas estão gravando discos muito bem afinados e bem cuidados, tipo, tentando se misturar com a música pop. Em contra partida, o que queremos dizer com esse novo álbum é: "Não queremos isso, vamos fazer algo que soe tão brutal quanto é estar vivo agora”.


Jornalista: O título do novo disco, "In Times New Roman", vem da última música do álbum, chamada "Straight Jacket Fitting", que alude a semelhanças entre os EUA da época moderna com a queda de Roma das antigas...

Homme: Existem tantos motivos que é engraçado pra mim também. A fonte mais chata (EUA) com o nome de um dos maiores impérios de todos os tempos! O lugar que lhe trouxe ao vomitorium... Também acho que não há problema em reconhecer que a Roma atual (EUA) está queimando e o Titanic está afundando. Não vejo problema nisso ao lidar com o conceito de aceitação, pois devemos reconhecer a realidade. Você não pode estar se enganando.


Jornalista: Na canção "Paper Machete" você canta sobre a sua separação com sua esposa. Você se sentiu exposto ao escrever sobre um tópico que claramente ainda é tão cru na sua vida?

Homme: Eu devo escrever sobre a minha vida e deve ser real e honesto, certo? Ou devo escrever sobre o chamado de acasalamento da andorinha? Tudo o que realmente deveria ser é o mais real, honesto e vulnerável possível, porque esse é o meu trabalho. Quantas músicas foram escritas sobre separações ou encontros? É para isso que servem, certo? E assim por diante, então, não me preocupo com isso. Qual seria a possível preocupação em falar de um lugar honesto de si mesmo?


Jornalista: Na música "Negative Space" é justo dizer que você encontrou uma medida de aceitação, seja em termos do seu divórcio ou luto?

Homme: Eu estava pensando sobre a natureza do esquecimento. Você quer ouvir um pensamento deprimente? Se você fosse solto de sua nave espacial e está em um traje espacial em inércia no espaço, não há nada para impedi-lo. Você veria a Terra girando suavemente, até que você começaria a pensar: 'Porra, não consigo mais vê-la'. Lidei com muitas situações nos últimos 07 anos em que não importa se você gosta ou não, está acontecendo com você. De certa forma, isso é esquecimento. Seria a primeira respiração que você dá depois de pensar: 'Não há nada que eu possa fazer agora'. Acho que escrever sobre isso tem o seu valor, pelo menos pra mim, tem valor.


Jornalista: Tenho certeza de que isso repercutirá em muitas pessoas que desde o início da pandemia passaram por situações...

Homme: Muitas, muitas pessoas e eu também passei por muita coisa. De certa forma, eu me pergunto se esse disco não é um álbum para aquela época, uma época de brutalidade. Sendo honesto, eu não sei. Acho que, o que devemos fazer é aproveitar os momentos que temos até que alguém possa descobrir, mas nem vou tentar descobrir e essa deve ser a sua própria resposta também.


Jornalista: Na canção "Made to Parade" você canta: “Dê os seus melhores anos de distância / Para uma corporação inchada / Quem vai trabalhar com você como um escravo / Melhor pensar duas vezes”. Outro comentário relacionável sobre os nossos tempos?

Homme: Vender o seu medo, deixá-lo com medo e encaixotá-lo, para que você faça o que as outras pessoas querem... Sabe, sempre desprezei muito isso. Todo mundo está vendendo muito agora. O meu pai sempre diz: "Eu sei que você está com medo. Você corre o desafio, mas sempre sai do outro lado, contanto que você continue". Eu meio que fiquei obcecado sobre esses carrosséis da vida. A alegria é realmente uma roda girando numa gaiola? Você está realmente preso em alguma roda numa gaiola e fica lhe dizendo: "Estamos nos divertindo", mas depois de um tempo você pensa: "Não quero mais, eu vou vomitar. Vamos sair dessa roda"? Há muitas referências sonoras a merdas de carrosséis em todo esse álbum.


Jornalista: Essa música termina com um solo de guitarra eufórico.

Homme: Sobre as letras, é como: "Você já fez isso?" E a outra pessoa responde: "Não, mas já está quase pronto!" Novamente, isso também é aceitação, sabe? Eu romantizo os meus ideais: aceitação, perdão, verdade, justiça e perfeição. Essas são coisas pelas quais você se esforça, mas você realmente as alcança? Você apenas alcança o mais forte que pode. Em termos de perfeição, agora que você pode corrigir todos os seus erros e ajustar toda a sonoridade de uma música, a perfeição quando alcançada se torna chata. Pode ser seguro, mas não adianta, porque é na fricção da vida onde... O universo é feito de uma colisão e as faíscas a partir daí. É pegar emprestado o atrito e aceitar o atrito da vida, como olhar para um acidente de carro e enxergar o começo de algo.


Jornalista: Na música "Carnavoyeur" você canta: “Nós vivemos, nós morremos, nós falhamos e nós nos levantamos / Eu sou um abutre, então, ouço um adeus”. O que há com os abutres com os quais você se identifica?

Homme: Eu amo abutres e amo muito os animais. Eles apenas fazem exatamente o que deveriam fazer. Não há culpa, vergonha ou negociação. Eles lutam até o amargo fim. Mesmo com a perna quebrada, não importa. Eu já vi um animal dar o seu último suspiro e lutar até o fim. Eu amo isso. Eu acho que os abutres de certa forma são como o padre que ouve a sua confissão final e lhe diz: "Ok, ok, está tudo bem", então, ele diz: "Meninos... (Homme gesticula como se estivesse chamando outras pessoas de abutres)" e então, eles devoram você. Isso é o que deveria fazer. Há algo realmente lindo no final da vida sendo recebido e transportado por essa coisa que está fazendo o que deveria fazer. É como se: "Está tudo bem e eu também vou te consolar para o meu estômago, para garantir que você não seja desperdiçado quando morrer”.


Jornalista: Você teve que lamentar a perda de tantos amigos próximos nos últimos anos…

Homme: Foram 11 agora. Começando com o suicídio de Anthony Bourdain e antes disso, o que aconteceu no clube Bataclan em Paris no ano de 2015, onde terroristas mataram 90 pessoas no show do EAGLES OF DEATH METAL e justamente naquela ocasião eu não estava acompanhando a banda (que é outro grupo que Homme faz parte). Muitas vezes agora, eu me pego pensando em certas situações: "Josh, não nos importamos se você gosta ou deseja que algo mais aconteça, mas estamos aqui perto de você". Sabe, aceitar esses momentos tem sido... Acho que nunca aprendi tanto em um curto período de tempo. Eu ainda posso amar a todos, mesmo que eles tenham morrido. Eu ainda consigo amar todo mundo. Perdi o meu melhor amigo, o ator Rio Hackford. Ele tinha 02 filhos pequenos e ele faleceu com 52 anos de idade. Ainda tenho contato com a família dele e posso conversar com os seus filhos para lhes dizerem como o pai deles era, sabe?


Jornalista: Este sentimento de aceitação aparece na canção "Emotion Sickness". Por que esse foi o single principal do novo álbum?

Homme: É um single estranho. Eu não escolho esse tipo de música como single e realmente não me importo com isso, mas fiquei surpreso porque é uma canção monstruosa tipo Frankenstein. As partes do verso são todas tão fundamentadas, mas então, o refrão é como pegar uma asa-delta e sair correndo para pular de um penhasco. Nunca fizemos antes uma harmonia de 03 partes do tipo Crosby, Stills e Nash, mas mais uma vez, isso é tudo sobre aceitação e o que você pode conseguir na vida.


Jornalista: Você canta nessa música: “As pessoas vêm e vão na brisa / Por toda a vida? / Possivelmente".

Homme: Estou admitindo que não sei. Elas vão ficar nessa para sempre? Não sei. Algumas irão? Eu acho que sim. Assim que percebi que era sobre aceitação, foi um grande alívio. Sabe, no nosso álbum, "Lullabies to Paralyze" (4º disco, 2005), são contos de fadas como uma forma de explicar as coisas através desse tipo de olhar. Com o THEM CROOKED VULTURES, eram letras falando todas sobre animais: elefantes, leões, abutres, sanguessugas... Eu fico meio que fixado por coisa assim e preciso saber do que se trata, pois tem que significar alguma coisa. Quando eu escrevi e cantei inicialmente essas letras da canção "Emotion Sickness", foi tudo à luz de velas. Queria tentar coisas do tipo: "Estou com medo. Tenho medo de escrever isso. Eu estou aterrorizado".


NME: Por quê? Para encerrarmos essa entrevista...

Homme: Só porque as coisas foram tão pesadas e tanta coisa aconteceu nesses últimos anos. Eu pensava: "Como isso foi acontecer?" Mas então percebi: "Ah, merda, é sobre aceitação, não importa o que seja", foi quando eu fiquei bastante aliviado.


Desde janeiro de 2020 sem subir aos palcos devido a pandemia, QUEENS OF THE STONE AGE realizou 02 shows em festivais americanos agora em maio de 2023 e em semanas irão dar início a turnê europeia.




Confira os singles que o QUEENS OF THE STONE AGE lançou em divulgação ao vindouro álbum, "In Times New Roman":


"Emotion Sickness"


"Carnavoyeur"


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