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  • by Brunelson

Pearl Jam: entrevista com o produtor Andrew Watt, do álbum "Dark Matter"


Confira na íntegra matéria e entrevista que a revista Spin realizou com o produtor do vindouro álbum do PEARL JAM, Andrew Watt (foto, de branco). O 12º disco da banda, "Dark Matter", será lançado agora no dia 19 de abril de 2024 (sexta-feira):



Como um fã de longa data acabou escrevendo músicas e produzindo um álbum para sua banda favorita de infância.


Nos últimos 04 anos, Andrew Watt produziu álbuns e escreveu músicas para uma lista impressionante de superestrelas, de Paul McCartney, ROLLING STONES, Elton John e Ozzy Osbourne, a Justin Bieber, Post Malone e Miley Cyrus. Mas desde sua infância obcecado por música vivendo no subúrbio de Long Island, New York, Watt vinha sonhado principalmente em trabalhar com sua banda preferida de todos os tempos, que por acaso fez seu 1º show em um bar minúsculo de Seattle apenas 02 dias antes dele nascer em 1991.


O multi-instrumentista de 33 anos de idade e vencedor do Grammy, viu o PEARL JAM ao vivo aproximadamente umas 50 vezes e é o primeiro a admitir que sua vida está inextricavelmente ligada à música deles. É um vínculo agora ainda mais cimentado com o álbum "Dark Matter", o disco que eles todos (inclusive Watt) inesperadamente e literalmente fizeram todos juntos. De certa forma, o projeto é uma extensão do álbum solo de Eddie Vedder, "Earthling" (3º disco, 2022), que foi escrito e gravado no estúdio de Watt em Beverly Hills, Los Angeles, no 2º semestre de 2021.


Conforme a história continua, Watt conheceu Vedder durante um período de vários anos por meio de mútuos amigos, e quando finalmente se reuniram em Los Angeles em maio de 2021, eles começaram a fazer música juntos quase que instantaneamente. Com o baterista do RED HOT CHILI PEPPERS, Chad Smith, e o membro de turnê e multi-instrumentista do PEARL JAM, Josh Klinghoffer (ex-guitarrista do RED HOT CHILI PEPPERS), Watt também fez parte da banda de apoio de Vedder nas turnês, chamada EARTHLINGS.


Em meio a essa onda de criatividade, que fez com que Vedder criasse músicas novas ali na hora no estúdio em um nível incomumente prolífico, o vocalista do PEARL JAM teve um pensamento: por que não convidar o resto do pessoal do PEARL JAM para virem até aqui para criarmos e tocarmos juntos? Em poucos dias, eles chegaram – sem músicas e sem os seus instrumentos. E poucos minutos depois de montarem um círculo com equipamentos emprestados de Watt e Klinghoffer, eles logo de cara escreveram 02 músicas rock superlativas, “Scared of Fear” e “React, Respond”, que agora servem como o golpe duplo de abertura do disco "Dark Matter".


“É feito por um fã para os fãs e espero que eles gostem”, disse Watt com orgulho sobre o novo álbum, que une a coragem, angústia e o poder dos 03 primeiros álbuns clássicos do PEARL JAM - "Ten" (1991), "Versus" (1993) e "Vitalogy" (1994) - com um som moderno, elegante e aberto. Os refrões nas canções “Wreckage”, “Won’t Tell” e “Got to Give”, voam mais alto do que quase tudo que a banda já fez nas últimas 02 décadas, enquanto os grooves lúgubres da guitarra e os sons propulsivos, pesados e preenchidos do baterista Matt Cameron na música “Waiting For Stevie”, parece uma alegre cápsula do tempo desde o início do grunge.


As instalações do estúdio caseiro de Watt que fica no seu porão, foram arruinadas em 2023 pela chuva incessante que caiu em Los Angeles, mas em pouco tempo, o produtor Rick Rubin interveio para oferecer-lhe o uso de seu lendário Shangri-La Studios, na praia de Malibu, California, o qual pertencia aos membros do THE BAND na década de 70 e desde então, já recebeu artistas e bandas das mais variadas, do METALLICA, RED HOT CHILI PEPPERS e STONE TEMPLE PILOTS, a Harry Styles e Lady Gaga. PEARL JAM se reuniu novamente nesse estúdio por 10 dias em março de 2023 para criarem mais algumas músicas e finalizar o álbum "Dark Matter" – um processo concluído em apenas 02 sessões de gravação no total (aquela na casa de Watt e mais essa) em comparação com a gestação de 07 anos do seu álbum antecessor de 2020, "Gigaton" (11º disco).


Em um momento literal de sonho que se tornou realidade, Watt ficava com sua guitarra durante as sessões de composição para ajudar a banda a desenvolver suas ideias, e como tal, tornou-se o 1º não-membro a compartilhar os créditos de composição de um álbum do PEARL JAM em toda a sua história. 


“Andrew queria fazer um cruzamento entre o álbum 'Versus' do PEARL JAM com o álbum 'Badmotorfinger' do SOUNDGARDEN (3º disco, 1991)”, disse Klinghoffer uma outra vez para a revista Spin. “E ele chegou bem perto, sabe? Naquela 1ª sessão de gravação em sua residência, eu também estava lá e as músicas se juntaram tão incrivelmente rápidas que você conseguia ouvir os verdadeiros primeiros instintos de Matt Cameron. Todo mundo estava sentado a 03 metros da bateria e foi muito poderoso estar em uma sala de estúdio junto com ele. Você pode ouvir a emoção absoluta de todos nessas músicas e acho que os caras do PEARL JAM realmente gostaram de ser uma banda unida nesse processo de gravação... Andrew fez isso acontecer".


Um dos guitarristas do PEARL JAM, Stone Gossard, também apoiou essa mesma emoção em uma entrevista para a revista Spin em março de 2024: “Eu pessoalmente acho que a experiência de trabalhar com Andrew foi fantástica e adoraria outra chance de gravar um disco com ele. A química que tivemos e continuamos a ter com ele é algo que vale a pena explorar”.


Watt conversou com a revista Spin sobre por que ele incentivou o PEARL JAM a se apoiar em suas habilidades idiossincráticas de composição, no poder da improvisação e no que a experiência de trabalhar com seus ídolos musicais lhe ensinou.


Jornalista: Você já estava trabalhando com Eddie Vedder em seu álbum solo no verão de 2021 e em algum momento ele lhe disse: "Quero telefonar para os caras do PEARL JAM e pedir que venham até aqui". Alguma coisa específica precedeu essa decisão dele?


Andrew Watt: Bem, conhecer Eddie é amar Eddie, certo? Sendo a pessoa 100% genuína e graciosa que ele é em termos da maneira como pensa sobre as outras pessoas que ama, enquanto trabalhávamos juntos seu cérebro mudou para: "É quase errado da minha parte me divertir tanto assim sem os meus colegas de banda quando estou junto com Andrew". Ele estava se divertindo muito e queria compartilhar isso com sua banda. Acho que ele foi tão simples e altruísta quanto isso.



Jornalista: E quanto tempo depois eles demoraram para aparecer?


Watt: Não me lembro, mas para Eddie acho que foi meio rápido, tipo, foi tão incrível, sabe? Ele me disse que iria ficar trabalhando no meu estúdio por todo aquele tempo e talvez os caras da banda poderiam aparecer ainda naquele mês, e eles realmente vieram.



Jornalista: Então, de repente você está produzindo um disco do PEARL JAM. Eles virão até sua casa e você conduzirá estas sessões. Para onde foi seu cérebro nessa hora?


Watt: Voltei aos meus 12 anos de idade e de ter ido a um show deles e estar segurando um cartaz que dizia: "Posso tocar o solo de guitarra da música ‘Alive?’" (1º disco, "Ten") Estive pronto para esse momento no estúdio durante toda a minha vida e não houve necessidade de preparação. Como queremos que o baixo soe? Como Jeff Ament. Queremos que as guitarras soem como Mike McCready e Stone Gossard. Ok, vamos lá! O legal é que eles não trouxeram nada ao estúdio referente instrumentos e gravações demo.



Jornalista: Você poderia facilmente ter dito: "Tragam todas as gravações demo que vocês escreveram nos últimos 02 anos", mas você resolveu seguir em uma direção muito diferente.


Watt: Sou um grande fã do PEARL JAM. Cada membro dessa banda é um grande compositor, um grande cantor, um grande compositor de melodias, um grande letrista e um grande multi-instrumentista. É um grupo de virtuosos. Todos eles podem fazer tudo, inclusive criar álbuns completamente sozinhos. Em vez desse processo, que eles fizeram tanto nos últimos 04 ou 05 álbuns de estúdio, eu queria mudar as coisas. Eu estava com eles no estúdio para dar a minha opinião e dar o meu gosto como opção. Minha coisa favorita no PEARL JAM sendo um verdadeiro fã, é assisti-los ao vivo nos shows. Eles são uma das poucas bandas que são melhores quando se apresentam ao vivo do que já são nas gravações em estúdio. Eles soam maiores e melhores ao vivo, justamente porque não há truques sofisticados no estúdio quando eles vão gravar um disco. Então, minha declaração de missão passou a ser: vou reunir esses 05 caras incríveis em um pequeno espaço onde todos possam se ver e fazer com que toquem juntos seus instrumentos e capturem ali na hora a energia do que acontece nos palcos. Tipo, vamos gravar em uma única tentativa com tomadas completas. Vamos para solos de guitarra um pouco mais longos. Deixe Matt Cameron virar a barra de segurança de uma forma estranha para que todo mundo se segure para salvar suas vidas, e então, eles consigam pousar no chão novamente. Esse é o PEARL JAM que me deixa louco. Eu me considero um grande fã que apenas pensei: "Se eu gostar disso, talvez todo mundo da banda também goste?"


Watt: Sabe, não tivemos nenhuma grande conversa ou forçamos alguma coisa. O que foi comunicado era: "Venham sem nada e nem tragam seus instrumentos e equipamentos. Eu tenho tudo aqui. Bastam trazerem um riff ou algum arranjo, mas não desenvolvam nada além disso". Todo mundo estava em um círculo no estúdio com seus instrumentos e alguém perguntava: "Quem tem um riff?" E Stone diria: "Eu tenho um", e todos começariam a tocá-lo juntos. Eddie tinha um microfone ali e começou a criar a melodia vocal. Sabe, Stone é como o pintor estranho da banda. Ele coloca coisas que não estão em compasso 4/4 mas em uma batida 4/4. Seus riffs são excêntricos. Jeff pega o que Stone faz e às vezes toca literalmente na direção oposta. Ele faz uma bela simetria de acordes com as coisas malucas de Stone, o que faz com que soe especial desde quando eles tocavam juntos no GREEN RIVER. Isso começou a acontecer e Mike McCready criou um solo sobre tudo isso ali na hora. Esse foi o processo de como cada uma dessas músicas foram feitas. Por causa disso, possui muita esta sensação de ao vivo. Depois que todos conheciam a música e fomos grava-la na 1ª tentativa, pronto, esse havia sido a nossa única tomada. Nós não resolvemos grava-la novamente. Da forma como a canção foi descoberta, essa foi a tomada que usamos, mesmo quando ainda estava um pouco incerta e super fresca. É por isso que a energia improvisada permaneceu.



Jornalista: Você pode descrever a sua sala de estúdio onde estavam trabalhando?


Watt: Infelizmente, não existe mais, porque minha casa inundou durante aquela forte chuva em Los Angeles. O estúdio estava encharcado e inutilizável. Rick Rubin me fez um favor e esvaziou o Shangri-La Studios para trabalharmos pelo resto do período a qualquer momento que fosse. Foi muito legal da parte dele e não teríamos conseguido fazer esse álbum sem ele e o seu estúdio. O meu estúdio não era uma sala grande, era somente um típico porão. Originalmente era uma casa de teatros quando pertencia ao empresário de Charlie Chaplin. Transformamos seu espaço de estúdio com paredes de concreto, o moldamos e colocamos os alto-falantes. Os amplificadores estavam espalhados por todo o estúdio e os caras da banda estavam muito próximos um do outro em círculo. Nós gravávamos, escutávamos como havia ficado e se alguém tivesse que consertar alguma coisa ou duas, eles consertariam ou fariam alguns overdubs e deixariam as coisas mais completas. Então, Eddie gravava seu vocal e foi isso, a mesma coisa sempre. Não foi nada sofisticado, sabe? É uma porra de uma banda de rock e vamos ouvi-los tocar. Ao ouvir o disco, a qualquer momento você pode fechar os olhos e dizer: "Lá está Jeff com seu baixo, um som alto e orgulhoso. Tem Mike, tem Stone, tem Eddie".



Jornalista: No início, você ficava com uma guitarra e sentia as músicas com eles à medida que elas ganhavam vida...


Watt: Para ser completamente honesto, isso foi uma coisa dupla. Desde pequeno meu sonho era tocar com o PEARL JAM. Quando eu estava tocando junto com eles no começo, aquelas guitarras que toquei nem entraram no disco, sabe? Foi apenas pela pura alegria, como estar na Fantástica Fábrica de Chocolates. E aconteceu que, como alguém tinha um riff e estávamos montando as seções muito rapidamente e Eddie já começava a escrever as letras, isso realmente me ajudou a conhecer os acordes das músicas e entender onde uma seção deveria ir. O que está acontecendo musicalmente em termos de riffs ou harmonicamente? Em cada disco que faço, esteja tocando nele ou não, eu sei tocar as músicas, porque preciso estar dentro dela para saber o que é certo para ela. Também comecei tocando em bandas de garagem, então, você não sabe realmente o que está fazendo no início ou como algo deveria ser organizado.



Jornalista: Houve alguma conversa sobre como a banda queria que esse álbum soasse?


Watt: Esse não foi realmente o processo, sabe? Nada mudou em relação ao que soava quando a banda o estava gravando. Temos bons tons como a música "React, Respond" que é um ótimo exemplo. Esse é um riff de Jeff e ele tinha as seções A e B. Então, enquanto ele mostrava para nós, eu já estava ajustando o som do baixo e deixando-o distorcido. Especialmente quando você está trabalhando com uma banda, você tem que ouvir uns aos outros e estar disposto e aberto para aprender. Matt Cameron sabe como quer que sua bateria soe. Ele vem gravando nossas baterias de rock favoritas há muito tempo. Sempre procuro orientar os músicos com quem estou trabalhando para ajudá-los a obter o som que está em suas cabeças. É uma coisa muito colaborativa. Para Matt, é importante sentir como se você estivesse de pé na frente dele e pudesse sentir a vibração da sua bateria no ar. Há pequenas coisas que você pode fazer para tornar as coisas mais emocionantes à medida que os músicos avançam e apresentam suas partes. Os sons foram gravados enquanto tocávamos juntos e a banda estava muito envolvida em cada um conseguir o som que ouvia de sua parte nas suas mentes. Então, foi nosso trabalho fazer tudo criar vida. Eu queria que essas músicas se comparassem a outras músicas modernas que estão sendo lançadas agora, mas não, porque são basicamente apenas 05 caras tocando em uma sala.



Jornalista: Aos meus ouvidos, não sei se o PEARL JAM alguma vez se permitiu realmente acenar para seu passado musical como fizeram aqui no disco "Dark Matter". Há até uma introdução instrumental temperamental como a faixa "Master/Slave" que abre o álbum "Ten".


Watt: Foi ideia de Eddie fazer uma introdução. Ele meio que serviu algo e então, Jeff também teve uma ideia. Foi muito colaborativo. Eles estavam todos tão envolvidos nisso e deram muito de si mesmos. O álbum iria começar com o riff da música "Scared of Fear", tipo, bang bang bang! Claro, me peguei pensando na faixa "Master/Slave" depois que a gravamos e acabamos conversando sobre isso, e enquanto conversávamos, isto acabou se tornando um primo da faixa "Master/Slave".


Watt: Tive uma conversa com um amigo meu que me disse: "O que é Matt Cameron no PEARL JAM?" Matt Cameron do PEARL JAM é como no TEMPLE OF THE DOG, certo? São baterias do SOUNDGARDEN sobre riffs de Stone Gossard. Você também deve lembrar que Matt Cameron tocou nas gravações demo do disco "Ten". Quando Eddie Vedder foi surfar para criar as letras e melodias vocais depois de ter escutado aquela fita instrumental original que mandaram para ele escutar, quem está tocando bateria nessa gravação demo é Matt Cameron, e não o baterista que gravou o disco "Ten", Dave Krusen. Quando vocês ficam juntos por muito tempo, todos se tornam músicos melhores e mestres em seu ofício. No PEARL JAM, houve um tempo em que cada membro da banda trazia sua gravação demo e já tinham uma ideia para a bateria. Matt faria o que era certo para a música e expandiria um pouco mais, mas eu não queria que isso acontecesse aqui no álbum "Dark Matter". Eu queria que cada um dos seus instintos pudessem sair da forma mais pura e inalterada, e é isso que está nesse disco que foi escrito por todos os membros da banda em todas as músicas. Cada música começava com um riff e depois passava pelo filtro de cada um envolvido. Estávamos tocando a canção "Dark Matter" e Mike disse: "Parem, parem!" Ele escreveu a ponte da música em 02 segundos, ali, naquele momento em sua cabeça. Acho que eles se divertiram muito gravando assim.



Jornalista: Que divertido também que eles tocaram e gravaram com o seu equipamento e guitarras, assim como o equipamento de Josh Klinghoffer. Houve alguns itens específicos que eles acabaram usando bastante?


Watt: Um cara chamado Alexander Dumble fez os amplificadores pra mim. Ele era um cara muito estranho que infelizmente faleceu em 2022. Ele fez os amplificadores de Stevie Ray Vaughan e inúmeros outros. Ele se recusava a construí-los para muitas pessoas, mas por alguma razão, concordou em fazer 04 amplificadores pra mim. Eles são todos mods Fender dos anos 50: um Vibrolux, um Champ, um Deluxe e um High Powered Tweed Twin. Jeff tocou com um Fender Bassman. Conectamos Stone em uma guitarra Gibson Les Paul e uma Fender Stratocaster. Mike tocou com todas as minhas guitarras Stratocasters antigas e uma Gibson Les Paul 1959. Em um certo momento, Jeff estava rindo porque me disse: "Nenhum produtor quer que eu toque no meu baixo de 12 cordas na hora de gravar um disco". E eu falei: "Toque com o baixo de 12 cordas! E você pode aproveitar e tocar a canção "Jeremy" no baixo de 12 cordas pra mim?" A música "Jeremy" (1º disco, "Ten") foi gravada em um baixo de 12 cordas, assim como para a canção "Dark Matter".



Jornalista: Demorou mais de 01 ano e meio desde a primeira sessão de gravação em seu estúdio até vocês retornarem ao Shangri-La Studios. A banda estava ajustando as músicas durante esse tempo?


Watt: De certa forma, não, mas muito trabalho foi feito em tão pouco tempo para esses arranjos nessas 02 sessões de gravação que fizemos. A banda estava aprendendo as coisas ali no estúdio e depois de gravado fazíamos um pouco de overdub. Havia alguma linha melódica para o vocal e Eddie terminava as letras com base do seu ponto de vista vocal. Muitas daquelas músicas da 1ª semana de gravação foram deixadas exatamente daquele jeito, onde originalmente só tinha apenas uma aparência de melodia vocal de Eddie e as coisas que gravamos na hora. Então, não tinha nada a ver com o tema dessas músicas até que Eddie, da perspectiva dele, juntasse suas palavras à melodia vocal que ele tinha em mente. Nas músicas "Scared of Fear" e "React, Respond", Eddie fez o que ele queria fazer naquele momento com base na melodia vocal que ele criou na hora.



Jornalista: A canção "Wreckage" foi uma das que surgiram no Shangri-La Studios. Você poderia falar sobre como essa música evoluiu?


Watt: Essa também começou com o riff e todo mundo meio que formulando as seções juntos. Essa música veio para Eddie imediatamente. Nas primeiras tomadas, antes mesmo de conseguirmos acertar a canção, seus vocais já estavam certos. Suas melodias e palavras são tão fortes nessa música, sabe? Uma vez que a faísca inicial apareceu e houve algumas seções, tratava-se apenas de segui-lo. Estou tocando com uma guitarra Fender Telecaster '54 que ganhei quando estava gravando o álbum do ROLLING STONES. O guitarrista Keith Richards tocou bastante com ela no disco que gravamos juntos e me mostrou alguns truques de como tocar em uma afinação G aberta. Agora, ela só vive nessa afinação e foi trazida para a mixagem da canção "Wreckage", então, há um pouco de "cruzamento" entre esses 02 álbuns.



Jornalista: A origem da música "Waiting For Stevie" é quase boa demais pra ser verdade, pois você e Eddie estavam literalmente esperando por horas para que Stevie Wonder aparecesse em seu estúdio para gravar suas partes para uma música no disco solo de Eddie Vedder, "Earthling".


Watt: Estávamos sentados com as guitarras no colo e esperando, foi quando eu disse: "Tive uma ideia". E toquei um riff para Eddie, mas ele me disse: "Isso é tão estranho, porque eu tenho esse mesmo riff literalmente há décadas comigo, desde os álbuns e álbuns de muito tempo atrás". Ele me mostrou seu riff e era quase exatamente a mesma coisa que o meu, então, os dois meio que se fundiram. Apresentamos isso a todos na 1ª semana de gravação e todos escreveram suas partes e como as seções se moveriam em conjunto. Na verdade, só se tornou uma canção porque aquilo que mostrei a Eddie o lembrou de algo que ele havia escrito e que era muito semelhante. A bateria dessa música é bíblica pra mim. O canto fúnebre de Matt Cameron! Matt é um cara muito estóico. Ele é como Charlie Watts ou algo assim (baterista do ROLLING STONES). Eu estava gritando no estúdio: "Vai! Toca mais forte! Vamos!" Era como se eu estivesse em um show deles ou algo assim. Chegou em um certo momento que Matt dava gargalhadas.



Jornalista: Eu definitivamente pude ver essa música sendo tocada ao vivo no estúdio.


Watt: Ah, sim. Deixe Mike McCready detonar! Ele também ria um monte, porque algo que eu também estava gritando no topo das montanhas era: "Esse é o retorno do solo de guitarra de Mike McCready em um álbum do PEARL JAM!" Há algum tipo de guitarra solo em cada música e em músicas como "Upper Hand" há 02 solos. Eu realmente amo essa música. Stone veio com aquele riff e nós a tocamos. Havia outras músicas em que deixamos tomar forma e quando Eddie começava a criar sua linha vocal, ele me disse: "E se nessa parte a gente dobrasse os vocais?" O que foi legal é que ninguém apresentava nada como algo definitivo, era tudo maleável.



Jornalista: Você também pôde compartilhar essa experiência com Josh Klinghoffer, que tem crédito por escrever a canção "Something Special".


Watt: Josh, esse é meu irmão. Seu talento vai além de qualquer coisa compreensível. Fale sobre um virtuoso... Nós nos divertimos juntos fazendo essa música.



Jornalista: Já houve uma música do PEARL JAM com um refrão vocal de gangue como na canção "Running?"


Watt: (risos) Mark Smith, empresário do PEARL JAM, está cantando junto no refrão. Precisávamos de um vocal de gangue e acho que estávamos somente eu, Jeff, Stone e Eddie quando ficamos um dia no estúdio, então, pegamos Smith que estava ali também, tipo: "Precisamos de mais um!"



Jornaista: É possível quantificar o que você aprendeu sobre os membros do PEARL JAM ao gravar esse disco com eles?


Watt: Bem, eles se amam muito e isso é uma coisa tão linda. Tenho as fotos mais preciosas de todos os tempos, deles se abraçando e curtindo o processo de fazer algo realmente incrível juntos. Assistir Jeff ouvir um riff de Stone pela 1ª vez e então descobrir como torná-lo cantável para Eddie... Jeff é um baixista incrível e só ficou melhor com o tempo, mas às vezes seu papel é ser a base, porque o material de Stone é muito difundido e Mike está surfando em tudo isso e tocando os solos. Jeff é quem precisa criar uma base na qual Eddie possa se agarrar. Eu já havia trabalhado com Eddie antes, mas ele é quase primitivo na maneira como trabalha. Tipo, saia da frente do caminho dele. Ele vai se movimentar e colocar todo o seu corpo nisso e 90% das letras das músicas foram escritas nos primeiros 15 minutos do que ele tinha acabado de escutar. As melodias simplesmente vêm até ele.


Watt: Pegue a ponte na música "Dark Matter". O riff é muito cromático. Alguém como Ozzy Osbourne escreveria isso cantando a mesma melodia, mas Eddie tem um jeito de criar essas melodias brilhantes sobre esses acordes estranhos. O que ele faz em questão de minutos levaria 06 meses para outra pessoa. É tão natural e impensado que foi incrível testemunhar isso. O poder da improvisação é muito importante para ser um grande músico e cada um desses caras realmente possuem isso.



Jornalista: Para encerrar essa entrevista, você teve uma posição muito privilegiada, pois pôde assistir Eddie Vedder escrever 02 álbuns com material valioso nos últimos 02 anos.


Watt: Quero dizer, ele é incrível. Ele está no centro de tudo. Devido à intensidade com que estávamos trabalhando, ele estava simplesmente fluindo. Não houve tempo para eu parar e pensar: "Hey, cara, o que é isso?" Sua voz significa muito pra mim. Era a voz que eu ouvia em fones de ouvido quando criança, fosse escutando as músicas "Leash" (2º disco, "Versus") ou "Nothingman" (3º disco, "Vitalogy"), mergulhando em lágrimas e sentindo aquela emoção, sabe? Sempre me senti tão conectado com as palavras que saem dele e aplicando tudo o que ele está sentindo naquele momento em minha própria vida. Houve alguns momentos em que as músicas estavam sendo escritas ali no estúdio e eu fechava os olhos e voltava instantaneamente para o meu quarto de infância. Eu abriria meus olhos e ele estava ali agora, na minha frente. Tudo o que posso dizer é que o conteúdo das letras é extremamente intenso, emocionante e realmente me afetou enquanto estávamos gravando essas músicas. Foi uma experiência muito bonita, algo que nenhum de nós jamais esquecerá e algo que acho que significou muito para a banda.


Confira os 02 singles lançados em divulgação ao álbum "Dark Matter":


"Dark Matter"


"Running"






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