Road to Ruin: confira a ácida resenha que está no encarte do álbum.

April 10, 2017

 

Em 1978, a banda RAMONES lançava o seu 4º álbum de estúdio, “Road to Ruin”.

 

Eis que chegando ao ano de 2001, os álbuns de estúdio dos RAMONES haviam sido relançados com a adição de músicas inéditas e conhecidas através de demos, sobras de estúdio e performances ao vivo. E no livrinho que acompanha esse disco, além de várias fotos inéditas incluídas, consta também uma resenha escrita pelo cara que simplesmente ajudou a fundar em 1975 a famosa e lendária revista musical de New York, Punk Magazine, Legs McNeil, e que, após algumas idas e vindas, a revista Punk continua em atividade até os dias de hoje.

 

Portanto, segue a ácida e sincera resenha de Legs McNeil na íntegra, logo abaixo:

 

 

Foi um momento ruim para ser um ramone... Assim como o gerente da banda, Danny Fields, lembrou sobre o ano de 1978: "a indústria da música e o seu irmão imbecil, a rádio, acreditavam que a estética do punk rock continha dentro de si um motor de auto destruição. As bandas mais importantes do punk rock foram vistas como um mal investimento, para o alívio das muitas pessoas que nunca poderiam imaginar que o punk rock estaria em 1º lugar. Era mais simples dizer para as pessoas que toda essa gama de bandas e músicas rotuladas como punk rock, era apenas uma declaração da moda a partir da cidade de Londres ou o equivalente a vômitos (literalmente) em pessoas desconhecidas - quando essas bandas britânicas topavam com alguém nos aeroportos. O vômito britânico roubou o show e um monte de música boa foi enterrada em seu fluxo".

 

Contra todas estas probabilidades e os RAMONES pressionados, foi a partir disto que surgiu o seu 4º álbum de estúdio, "Road to Ruin", e que havia se tornado no seu disco mais agressivo até então. Foi nesse momento de sua carreira, depois de lançarem 03 grandes álbuns de estúdio do rock'n roll, que os RAMONES perceberam que eles ainda não haviam realmente estourado no mainstream...

 

A fantasia do estrelato instantâneo do rock’n roll foi rapidamente se evaporando... Eles não tinham nenhum jato com o nome da banda escrito nele com hordas de meninas gritando e esperando pela banda nos aeroportos... Eles apenas viajavam em turnê pelo país com a sua van, 300 noites por ano e lançando álbum atrás de álbum com grandes músicas. Em outras palavras, os RAMONES encararam um futuro sem nenhuma perspectiva, mas mesmo assim eles teriam que trabalhar duro se quisessem sobreviver.

 

Para dizer o mínimo, os RAMONES estavam putos! Provavelmente seja por isso que "Road to Ruin" se tornou tão grandioso. Eles sempre trabalharam melhor quando estavam com raiva e basta apenas ouvir o 1º álbum de estúdio novamente, caso você duvide disso. "Road to Ruin" foi o trabalho mais chato de se fazer desde a produção do seu disco de estreia, mas as suas canções sobre o niilismo e a angústia adolescente, que antes havia sido previamente nos apresentada de uma forma romântica e divertida, tornou-se agora numa outra coisa que não nos lembrava mais das suas piadas.

 

A música que abre esse álbum é um exemplo perfeito do que eu acabei de falar. A canção "I Just Want to Have Something to Do” atingiu um nível de, ouso em dizê-los, maturidade, profundidade e seriedade que atinge você direito no seu intestino. Há uma solidão nessa canção que é estranhamente viva e inegavelmente brilhante em sua ânsia, onde poucas bandas do rock’n roll (deixando as bandas punks de lado) conseguiram perceber e representar.

 

Vamos encarar..., é fácil ficar gritando: "Vão se foder!!!" no microfone durante um show, embriagar-se e ficar “deitando” sobre o público agindo como um idiota..., mas o que você faria por um bis?

 

O que você deveria fazer é o que os RAMONES fizeram: eles começaram fazendo tudo por conta própria para aos poucos irem se tornando ainda mais profissionais. Eles fizeram o seu som ainda mais apertado do que já era (com a ajuda de um ramone recém-adicionado, o baterista Marky que substituiu Tommy, agora, atrás da mesa de mixagem para o bem da banda).

 

Eles até tentaram tornar o álbum mais acessível para as rádios com canções como a 2ª música do disco, "I Wanted Everything", um uivo zangado sobre querer todas as coisas. O passado tenso que a letra dessa música nos remete é significativo quando comparado, por exemplo, com o otimismo da letra da canção "Today Your Love Tomorrow The World” (lançada no 1º álbum).

 

Nos primeiros dias de vida dos RAMONES, a banda estava indo tomar conta de algo que não importasse o que fosse... Mas de repente, as coisas haviam mudado... O que tinha acontecido?

 

O que aconteceu foi que o punk rock não estava mais funcionando, assim como é verificado na 3ª música, "Don’t Come Close". Esta é uma canção com influências country, o que ficou simplesmente bizarra. Artisticamente foi bem (provavelmente por ser divertida), mas comercialmente foi ridícula. Se mesmo assim haviam crianças adolescentes que não conseguiam entender os RAMONES, por que um bando (alguns, não todos) de caipiras retrocessos de merda iriam entender? Será que os RAMONES realmente pensaram que eles poderiam simplesmente “empurrar” essa música para os gráficos de vendas da música country, sem todo aquele povo da zona rural de Nashville percebendo que essa canção era tocada por 04 sujeitos de New York, em jaquetas de couro preta?

 

Enquanto que a música "Don’t Come Close" é uma canção ainda decente, ao mesmo tempo ela ecoava o desespero da situação em que a banda passava naquele momento. Se você tem alguma dúvida quanto ao pânico que as gravadoras tinham pelo punk rock, basta lembrar que Seymour Stein, então presidente da Sire Records (gravadora dos RAMONES), exigiu que colocassem anúncios nas revistas especializadas da época com a seguinte frase: "Não chamem isso de punk rock, chamem de new wave".

 

Mas isso não foi um verdadeiro voto de confiança...

 

É por isso que a 4ª música, "I Don’t Want You", funciona tão bem. Assim como aconteceu na canção "I Just Want to Have Something to Do", você tem a sensação de ouvir que a banda também não estava brincando na música "I Don’t Want You". Estas não são as canções divertidas dos outros álbuns dos RAMONES, mas sim, explosões de dor e raiva. Na verdade, esse contexto que engloba o disco "Road to Ruin" se parece também com a versão do álbum "Help!" dos BEATLES.

 

Até mesmo a grande versão da canção-hit, “Needles & Pins”, de 1964 da banda britânica THE SEARCHERS, soa cerca de 1.000 mil vezes mais trágica do que a versão original. O vocal de Joey Ramone nessa música nunca soou tão deliciosamente piegas... Quero dizer, eu nunca ouvi uma versão mais suicida de um cover.

 

Hey, não me interpretem mal... Eu gosto de atos suicidas no meio musical. Isso era apenas o que os RAMONES geralmente faziam, se divertiam com as coisas que davam erradas. Eles fizeram uma carreira em cantar sobre como eles eram felizes em meio à insanidade (mas às vezes, esses feios desenhos animados, os RAMONES, correm o perigo de se tornarem atraentes algum dia mesmo assim...).

 

Este outro lado da demência feliz é que faz "Road to Ruin" funcionar. Infelizmente, o que é ruim para um artista na vida real (pessoalmente falando) é às vezes grande para a sua arte como um todo. Quando eu vi o show dos RAMONES pela 1ª vez, foi quando ele subiram no palco do clube CBGB em New York, no Outono/1975. Eu havia pensado que a Gestapo havia acabado de chegar, quero dizer..., eram esses caras mesmo? Falando sério? Eu não sabia na época e havia algo extremamente perigoso sobre não saber...

 

A 6ª música, "I’m Against It", é um exemplo perfeito dos RAMONES tentando ser engraçado sobre odiar as coisas..., mas a piada não funcionava mais. As letras malucas dessa canção são contraditórias pelo veneno daqueles vários "against it" cuspidos pelo vocal de Joey.

 

A melhor canção de "Road to Ruin" (e que se transformaria em uma das 03 melhores clássicas músicas dos RAMONES) é a 7ª faixa, "I Wanna Be Sedated". Joey escreveu essa canção quando os RAMONES estavam indo se apresentar num show de véspera do Ano-Novo 1977/1978 em Londres (que depois, esse show foi lançado oficialmente como o 1º álbum ao vivo dos RAMONES, “It’s Alive”), 01 mês somente depois de Joey ter sido gravemente queimado antes de uma apresentação da banda no Teatro da Capitol, em Passaic/New Jersey. Assim como disse a lenda que ainda estava se recuperando, Joey já estava cansado o suficiente com a programação frenética dos RAMONES e falou à Linda Stein (então esposa de Seymour Stein) o seguinte: "Coloque-me em uma cadeira de rodas e me ponha em um avião, antes que eu fique maluco!"

 

A música "I Wanna Be Sedated", assim como todas as melhores canções dos RAMONES (como por exemplo: "Now I Wanna Sniff Some Glue", "53rd & 3rd", "Rockaway Beach" e "Danny Says", somente para citar algumas), possui um núcleo de verdade elevando-a ao status de hino. Quando a banda conseguia fazer direito assim como foi na canção "I Wanna Be Sedated", nós sabíamos que os RAMONES estavam cantando sobre coisas mais honestas do que qualquer outra pessoa da história do rock'n roll já havia feito até então, razão pela qual os RAMONES fizeram um monte dos seus contemporâneos se tornarem obsoletos.

 

Quero dizer, quem poderia ainda escutar alguns dos inferiores e insinceros álbuns emocionais do rock “orientado e enxaguado” dos anos 70, depois de ouvirem a banda THE TRUTH, por exemplo?

 

A 8ª música, "Go Mental", é uma continuação do apelo insano dos RAMONES e embora não seja um clássico como a canção "I Wanna Be Sedated", ela ainda é bem sucedida por causa do coro altamente melódico de Joey, cantando: "I'vvvve gonnnne mennnn-tal". Há algo hipnótico sobre esses longos desenhos jogados para fora da palavra "mennnn-tals", cantada pelo vocal de Joey - o que fez soar e parecer mais como um mantra.

 

Mas, logo quando a banda estava começando a nos sugar de volta para o seu perturbado (mas ainda familiar) mundo da doença mental, os RAMONES agora fizeram de novo..., eles nos acertaram com outra música de influência country. O que é isso, cara? Joey Ramone com chapéu de cowboy junto com Dee Dee The Kid?

 

Estamos falando da música "Questioningly", criada pelo baixista Dee Dee Ramone (talvez foi a sua maneira de lidar com a pressão). Ela é ainda mais preocupante do que a canção "Don’t Come Close", porque dessa vez, parece ser uma coisa levada completamente a sério. Eu não sei até hoje se a música "Questioningly" foi uma tentativa séria da banda no sentido de conseguir chamar a atenção das rádios ou se Dee Dee estava se rebelando contra a sua própria imagem - ou se ele apenas havia passado por alguma estranha experiência...

 

"Questioningly" é seguida pela canção mais “pra cima” do álbum, que é a música "She’s The One" - que mais parece que foi composta como uma reflexão tardia da banda, como por exemplo: 

 

- "Hey, caras, onde está a música alegrinha saltitante?"

 

- "Merda, nós esquecemos de fazê-la..."

 

- "Rápido então, vamos criar uma!"

 

E em 02 minutos e 11 segundos você tem a música “She’s The One”.

 

Depois de 02 canções de amor inócuas, os RAMONES nos serviram mais um ode à insanidade que foi a música "Bad Brain". A banda sempre foi esquizofrênica, mas as suas personalidades divididas eram familiares. Mas agora, com um futuro incerto do punk rock olhando para eles, outras características mais estranhas estavam começando a surgir na sonoridade da banda e a canção "Bad Brain" já nos apresenta alguns lampejos...

 

A 12ª canção e que é a última música do álbum, "It’s a Long Way Back", foi o lado mais sombrio de Dee Dee reaparecendo depois de um hiato das suas canções temáticas alemãs. Enquanto que esse material alemão colocou os RAMONES em um monte de problemas no seu 1º álbum de estúdio (e um pouco no seu 2º disco também), a verdade é que Dee Dee era um garoto solitário que cresceu nos escombros da pós-2ª Guerra Mundial na própria Alemanha, passando a sua infância brincando nos campos de destruição da guerra, coletando relíquias nazistas que ele achava pelo chão. Infelizmente, quando ele trazia esses artefatos para dentro de casa, o seu pai (que era um rigoroso oficial do exército americano) retirava esses itens de Dee Dee e mandava tudo para a área de balística do exército.

 

Você não tem que ser Freud para compreender que esses artefatos se tornaram sinônimos de irritação ao pai de Dee Dee, toda vez que ele os traziam para dentro da sua casa...

 

Como sabemos agora, "Road to Ruin" não se saiu melhor do que o 3º álbum dos RAMONES, "Rocket to Russia" (1977). A banda ainda viria a aparecer no vídeo clipe da música e também fazendo a trilha sonora do filme, ambos chamados "Rock'n Roll High School", sendo que em seguida o famoso produtor musical, Phil Spector, lançou e produziu esse espetáculo de canção no próximo 5º álbum de estúdio da banda, "End of The Century" (1980), antes ainda que os RAMONES percebessem que as rádios americanas não estavam dispostas a recebê-los e a tocar as suas músicas.

 

O “tempo” dos Ramones era apenas uma “espécie” que estava sempre desligada...

 

Quando John Holmstrom e eu começamos a fundar a revista Punk aqui mesmo em New York, nós só estávamos interessados em fazer aquele rock’n roll ser divertido e emocionante novamente, porque o rock perto de meados dos anos 70 havia se tornado naquela coisa inchada, corporativa e irrelevante.

 

Não houve lâminas de barbear para se cortar, cabelos moicanos ou pensamentos de anarquia. Uma das razões pelas quais os RAMONES foram selecionados para estrelar o filme “Rock'n Roll High School”, foi porque o diretor desse filme, Allan Arkush, viu Joey Ramone estrelar o filme de quadrinhos, "Mutant Monster Beach Party", da própria Punk Magazine, com uma foto de corpo inteiro em gibi sobre um menino surfista (Joey Ramone) que se apaixonou por uma garota legal (Debbie Harry, vocalista da banda BLONDIE) e que está a salvá-la de uma gangue de motoqueiros (que eram todas as outras pessoas em cena) e de um monstro mutante radioativo (desenhado por Bruce Carleton, que era o diretor de arte da Punk Magazine).

 

O filme em quadrinhos "Mutant Monster Beach Party" (habilmente dirigido sozinho por John Holmstrom, já que eu estava comprometido com a minha 1ª internação em uma clínica de desintoxicação) mostra as 02 interpretações diferentes do punk rock que eram a americana e a britânica, em uma época em que ambos estavam disputando pela supremacia musical (e como todos nós já sabemos, podem abaixar os braços porque a versão britânica ganhou).

 

Infelizmente, para os RAMONES, o filme “Rock'n Roll High School” os fez parecerem mais como os 04 adoráveis e bonitos membros da banda THE MONKEES, do que os delinquentes e verdadeiros punks que eles realmente eram. O que é surpreendente é que, assim quando o punk rock finalmente se tornou um fenômeno internacional, os RAMONES (que foi a banda primária que criou o punk rock no mundo e que realmente lançou toda a cena do punk inglês quando eles tocaram no clube britânico Roundhouse, ainda no dia 04 de Julho/1976) tentaram se distanciar da imagem punk para provar o seu valor comercial... Primeiro, com esse filme “bonitinho e comercial” e depois com a sonoridade do próximo 5º álbum de estúdio do grupo que foi produzido por Phil Spector, “End of The Century”, e que já havia trabalhado com os BEATLES, por exemplo.

 

Enquanto que o álbum produzido por Phil Spector possui algumas canções soberbas como "Danny Says" e "Do You Remember Rock'n Roll Radio?", adicionado à confusão generalizada que a banda estava passando pelo mal nome que o punk rock desencadeava na sociedade americana, mais ainda fazendo com que os RAMONES estivessem buscando por uma nova identidade, em última análise, o álbum “End of The Century” fez com que os RAMONES parecessem "quadrados" em comparação aos britânicos..., quando nós sabíamos que eles não eram nada disso.

 

Na verdade, as 02 primeiras músicas bônus lançadas aqui no relançamento de “Road to Ruin” (que são versões produzidas pelo engenheiro de som e produtor dos RAMONES, Ed Stasium) são exemplos perfeitos de que a cena americana daquela época era somente sobre: "I Want You Around" (que fala sobre ficar com uma menina) e "Rock'n Roll High School" (sendo que o nome dessa canção já reflete muito bem o pensamento dos adolescentes e jovens americanos, o que foi também um grande retorno para as escolas de rock de bandas como o BEACH BOYS ou CHUCK BERRY). Esta última música não é apenas o punk rock no seu melhor, mas sim, é o puro rock’n roll no seu melhor!

 

Por um breve momento no tempo, no entanto, havia uma chance de que a canção "Rock'n Roll High School" pudesse definir o punk rock americano como a força maravilhosamente inspirada, e que iria salvar o rock'n roll da merda inútil que havia se tornado... E para mim, essa música definiu sim.

 

Os RAMONES serão para sempre lembrados como a banda que redefiniu a maneira de se fazer novamente um rock'n roll divertido, durante um dos seus momentos mais sombrios da sua carreira.

 

 

por: Legs McNeil. Ele foi co-autor do livro “Please Kill Me: The Uncensored Oral History of Punk” (esse livro tem traduzido em português) e co-fundador e escritor da revista Punk.

 

Ano: 2001

 

Track-list:

 

1- I Just Want to Have Something to Do

2- I Wanted Everything

3- Don't Come Close

4- I Don't Want You

5- Needles & Pins

6- I'm Against it

7- I Wanna Be Sedated

8- Go Mental

9- Questioningly

10- She's The One

11- Bad Brain

12- It's a Long Way Back

 

Bonus tracks:

 

13- I Want You Around

14- Rock'n Roll High School

15- Blitzkrieg Bop (live)

16- Teenage Lobotomy (live)

17- California Sun (live)

18- Pinhead (live)

19- She's The One (live)

20- Come Back She Cried A.K.A. I Walk Out (inédita; demo)

21- Yea Yea (inédita; demo)

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

  • Facebook Social Icon
Mais Recentes

Grunge: Top 50 melhores álbuns pela Revista Rolling Stone - nº 38

November 12, 2019

1/5
Please reload

Destaques
Please reload

2016 by RockInTheHead