• by Brunelson

Fugazi: “deveria ter tocado trompa, pois sempre escuto na minha cabeça e passo para a guitarra"


Ian MacKaye, vocalista/guitarrista da banda pioneira do punk rock na capital Washington, FUGAZI, foi entrevistado pela revista Guitar World e refletiu sobre a sua vida referente a mudança de sons, mudança de amplificadores e a influência de Jimi Hendrix.

Os momentos de maior orgulho na guitarra do punk Ian MacKaye, dizem muito sobre a sua filosofia e estética para o instrumento.

No documentário de 1999 sobre a lendária banda punk/hardcore, FUGAZI, MacKaye está na frente da sua meia pilha de caixas da Marshall JCM 800, evocando feedbacks da sua guitarra Gibson SG branca.

“Há um momento em que faço essa coisa de feedback estridente”, lembra MacKaye. “Era realmente o que eu pretendia e sabia o que estava fazendo, então, fui logo capturado. É disso o que eu estou falando, sabe?”

MacKaye não pensa muito além da "madeira e do arame" quando se trata de guitarras. Em seus mais de 30 anos tocando guitarra, ele nunca usou pedais de efeito.

Mas dessa simplicidade surge um turbilhão de boas músicas sincopadas do FUGAZI em álbuns como "Repeater" (1º disco, 1990) e os tons cáusticos do álbum "In on The Kill Taker" (3º disco, 1993) - todos os álbuns do FUGAZI foram lançados pela Dischord Records, onde MacKaye é co-fundador.

“Gosto do que acontece quando você entra num espaço sonoro e em seguida, usa a chave seletora do seu amplificador para fazer música com ele”. MacKaye teve a sua inspiração e senso de aventura musical em Jimi Hendrix, cuja performance da canção “Villanova Junction Blues” no Woodstock Festival o impressionou profundamente quando criança.

“A sua relação com o instrumento é tão profunda que é quase sobrenatural”, ele se entusiasma, falando sobre Hendrix. “Você percebe que essa pessoa era um gênio além da medida... Não que eu pudesse esperar tocar assim, mas gosto de pensar que posso ser inspirado por esse tipo de relação com o instrumento e é assim que sempre abordei o meu jeito de tocar guitarra. Estou apenas comprometido em fazer sons interessantes através da guitarra".

Embora adorasse os titãs do hard rock e funk rock de Jimi Hendrix e outros dos anos 70, como Ted Nugent e QUEEN, a sua linguagem musical era originalmente no piano, onde ele aprendeu a tocar quando criança na capital Washington.

“Toda a minha orientação era em torno do piano que tinha localizações fixas”, diz ele. “Tudo era formas pra mim. Eu tinha uma escala que havia escrito, como uma espécie de escala de blues, baseada na simetria das notas das tonalidades reais do piano".

“Quando comecei a tocar guitarra, não conseguia nem entender o que era uma guitarra, como funcionava ou como você fazia um acorde na guitarra”.

Ele finalmente desistiu e se concentrou no skate com amigos como Henry Garfield - mais tarde conhecido como Henry Rollins (vocalista do BLACK FLAG). Quando ele tinha 16 anos, registrou os seus primeiros quilômetros de estrada pegando um ônibus com Henry Rollins e seus skates para a Califórnia.

Como um exercício criativo, o que MacKaye aprendeu no skate teve tanta influência em sua relação com a música e guitarra, tanto quanto fora com Hendrix.

“A coisa do skate é que ele ensina como redefinir o mundo ao seu redor”, ele continua. “Você apenas pega o que é dado e faz funcionar. Você chega a um estacionamento e pensa: 'Tudo bem, eu posso fazer isso ou aquilo'. Se você ver um pedaço de madeira compensada na beira da estrada, isso será uma rampa. Você vê uma piscina e pensa: ‘Espero que ela fique vazia um dia para poder andar de skate nela'”.

Certa vez, MacKaye drenou a piscina de um hotel puxando a água por uma mangueira de jardim na esperança de andar de skate nela, mas o hotel estragou tudo ao enchê-la de novo.

Quando o punk rock apareceu, ele encontrou um movimento musical que se enquadrou em sua política pessoal. Ele mergulhou primeiro formando a banda TEEN IDLES e depois com os pioneiros do hardcore, MINOR THREAT, sendo co-fundador da gravadora independente da capital, Dischord Records - que documentaria toda a cena punk/hardcore de Washington na década de 80.

“Eu associo música com a contracultura”, diz ele, “com o pensamento convencional desafiador, a liberdade de expressão e a conectividade com os seres humanos. Isso estava faltando em mim no meio da década de 70".

“Embora amássemos o hard rock, era tudo muito comercial e não parecia ter muito a ver com uma contracultura naquele ponto - ou a única contracultura realmente parecia ser a de autodestruição. Mas então, o punk rock apareceu e de repente foi como: ‘Sim, é isso que eu estou procurando’”.

Logo depois, o colega de banda de MacKaye no MINOR THREAT, o guitarrista Brian Baker (hoje no BAD RELIGION), vendeu-lhe uma guitarra fajuta por U$ 20 dólares, onde ele começou a fazer acordes poderosos.

Quando ele começou a tocar com o baixista Joe Lally em 1986, eles desenvolveram um vínculo musical que levou a formação do FUGAZI, o influente quarteto da capital mitificado por suas intensas apresentações ao vivo, com shows de U$ 5 dólares o ingresso e uma política ferozmente independente.

As linhas de baixo latejantes, as guitarras estrondosas e a interação rítmica precisa entre MacKaye, Lally e o baterista Brendan Canty, foram a base do som da banda em sua formação em 1986.


Em 1988, Guy Picciotto completou o quarteto também levando a guitarra e os vocais.

Porém, após 06 álbuns de estúdio, todo aquele barulho ficou para trás e desde que o FUGAZI entrou em hiato no ano de 2002, MacKaye buscou tons de guitarra mais suaves e limpos.

“Perto do final do FUGAZI e quando estávamos tocando, por causa do tamanho das salas que estávamos nos apresentando, eram locais realmente comerciais, tipo, essencialmente bares, sabe? Imagine se você fosse um poeta e o único lugar onde pudesse falar o que queria fosse em bocas de crack. É uma ideia absurda, mas é realmente o que aconteceu com a música e conosco naquela época”.

Com a dissolução da banda, MacKaye trocou a sua guitarra Gibson SG e amplificador da Marshall por um barítono Danelectro e um Fender Bassman para cobrir um espectro mais amplo de som.

E como ele está levando o seu som agora?

“Eu tenho muitas ideias super melódicas, mas muitas delas são eliminadas. Acho que provavelmente deveria ter tocado trompa, tipo, sempre ouço trompas na minha cabeça com essas linhas melódicas e procuro fazê-las na guitarra, sabe? É bem difícil".

“Para a música que faço atualmente, não queria mais tocar através de um amplificador da Marshall”, diz ele. “Não é o som certo e estou usando também um Fender Blues Deluxe. Desta vez, tenho um switcher de canal e também um pouco de reverberação nessa coisa - ocasionalmente uso reverberação, mas é isso. Sem pedais, cara... Acho os pedais de guitarra realmente uma distração”.

A relação de MacKaye com a música não mudou desde que ele começou a compor músicas do MINOR THREAT no piano e no baixo 04 décadas atrás.

E como nos velhos tempos, ele mantém um regime de treinamento quase diário.

“Eu faço música, certo? É isso o que eu faço e essa é a minha forma de expressão”, diz ele, encerrando essa entrevista. “Eu acho que a música é sagrada e uma forma de comunicação que antecede a linguagem. É uma forma de arte que existe desde sempre e que participou de praticamente todas as coisas importantes que já aconteceram na história do mundo”.


Confira a performance do FUGAZI em 1991, da música "Turnover" e que abre o álbum de estreia, "Repeater":


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