• by Brunelson

Thurston Moore: "não importava quem tinha escrito a letra ou a música, no estúdio era do fórum


O vocalista/guitarrista do SONIC YOUTH, Thurston Moore, foi recentemente entrevistado pelo site Guitar.com e falou sobre vários assuntos: seu novo disco solo, SONIC YOUTH, afinações de guitarra e outros temas.


Confira alguns trechos desta matéria e entrevista que traduzimos para você:



Enquanto Thurston Moore lançava o seu 6º álbum solo, nós conversamos com o pioneiro do "noise" de 62 anos para falar sobre afinações estranhas, compondo "músicas diretas", como ele aprendeu a ser um líder de banda e das suas excêntricas guitarras Fender Jazzmaster (foto).


Neste período de isolamento social, o vocalista/guitarrista do SONIC YOUTH, Thurston Moore, também passou o tempo em quatro paredes, aterrorizando as suas guitarras Fender Jazzmasters com blocos de construções do rock alternativo moderno, com a guitarra no colo e um olho na situação da pandemia mundial - tudo em sua cidade natal de adoção, Londres.


“Adorei trabalhar com guitarras na privacidade do meu apartamento, sabendo que tinha todos esses dias pela frente para fazer isso”, diz ele. “Mas psicologicamente é um conflito. Estou em um lugar onde posso ser criativo sem a ansiedade de ter que sair e trabalhar, mas a única receita real que ganho é saindo e trabalhando. Eu gosto de estar em um lugar público, mas há atrito porque vem com essa situação em que as pessoas são suscetíveis a ficarem fatalmente doentes em uma escala que é quase estranha demais para acreditar... Você teria que trabalhar num hospital para ver a realidade disso”.


O novo álbum solo de Moore, "By The Fire" (será lançado em 25 de setembro de 2020), pretende ser uma espécie de bálsamo. Não vamos fingir que é profético ou o disco perfeito para estes tempos imperfeitos, mas perto do seu coração, ele tem uma máxima relevante copiada do músico de jazz da vanguarda, Albert Ayler: "A música é a força curadora do universo", disse Moore.


Gravado em plena pandemia com alguns overdubs capturados depois que o mundo mudou, Moore pode ver a incerteza e a raiva da época na maneira como ele personalizou no álbum e na sua música solo.


“A situação com a pandemia e o aumento da fúria das pessoas nos EUA por causa da liderança nefasta que existe lá, informaram muito sobre como este álbum teria as suas músicas sequenciadas”, diz ele. “O título certamente faz referência a isso. Eu queria que fosse sobre as pessoas se comunicando de uma maneira realmente primitiva, sentadas ao redor de uma fogueira, contando histórias, mas também sobre o que o fogo denota quando as pessoas vão para as ruas. Elas acendem fogueiras para chamar a atenção para a opressão que está acontecendo na sua época. As músicas foram criadas atualmente, mesmo que as letras fizessem parte da sua linguagem histórica, mas elas sempre estão falando também sobre o que está acontecendo no momento”.


"By The Fire" é um disco com uma leitura literária das ambições e muletas de Moore. Apoiado por Deb Googe no baixo da banda MY BLOODY VALENTINE, o guitarrista James Sedwards, Jon Leidecker nos teclados e Steve Shelley do SONIC YOUTH na bateria, Thurston Moore tece instrumentais de guitarra meditativos, ocasionalmente sinuosos, junto com um imediatismo de canções de rock alternativo viciante como na música "Hashish", que soa como um irmão mais novo da clássica canção do SONIC YOUTH, "Sunday".


“O álbum começa muito alegre, com canções rock melódicas adequadas e diretas”, disse Moore. “Eu queria que a trajetória das músicas passasse pelo menos de forma direta nesse período complicado que estamos vivendo. É sobre sons que se unem por meio de uma estrutura, com as guitarras passando por uma sequência de notas muito específicas e sugestões de partes improvisadas".



Renegando o Hit


Moore vem realizando expedições musicais há 40 anos. Nascido em Coral Gables, Flórida, em 1958 e criado principalmente em Bethel, Connecticut, ele se mudou para New York no final dos anos 70 com uma Fender Stratocaster branca, passada por seu irmão mais velho que tocava coisas de Jimi Hendrix para ele.


Mas não demorou muito e o mundo sonoro de Thurston Moore seria refeito pelo punk rock e em tudo que ele iria descobrir com o pacote...


A chegada do punk rock em sua vida imediatamente traçou uma linha na areia entre o antes e o depois, quando aquele primeiro power chords (acorde clássico para tocar punk rock) abriu um caminho em seu cérebro. Ele disse que viu o seu próprio corpo do alto, fora dele, da mesma forma que Joey Ramone dizia sobre si, quando sentiu o futuro que a música iria fazer na sua vida.


Os seus discos de Frank Zappa e LED ZEPPELIN iriam se desintegrar no porão da casa de sua mãe, enquanto ele procurava coisas que eram novas, recentes e joviais.


“As revistas e notícias de rock eram incríveis na época”, lembra Moore. “E você poderia realmente comprar um fanzine e depois ir numa loja de guitarras e ficar boquiaberto lá, talvez tocar em algum instrumento por minutos para depois ir embora sem ter comprado nada".


Nesse redemoinho vieram as orquestras de guitarras da vanguarda, moldadas e manipuladas pelos compositores Glenn Branca e Rhys Chatham. Moore devorou o volume punitivo e conflituoso da música deles, estudou os seus grandes planos para construir sons que ninguém tinha ouvido antes e canalizou essas ideias de movimento perpétuo e experimentação em suas contribuições, para uma nova banda chamada SONIC YOUTH.


“Eu me lembro de quando o THE CLASH tocou pela primeira vez em New York, depois que eles lançaram o segundo álbum”, diz ele. “Eles não tocaram no clubes CBGB ou Max's Kansas City, eles tocaram neste grande lugar, chamado Palladium. Todas as pessoas do nosso mundo foram a este show. THE CLASH se apresentou e simplesmente arrancaram o telhado do lugar. Nos 06 meses seguintes, eles voltaram novamente e quer saber? Não era mais a mesma coisa, porque muito tinha acontecido desde então - novas ideias, discos e bandas. Havia uma quantidade incrível de coisas radicais acontecendo que o THE CLASH se apresentando no Palladium, parte 2, soou tradicional demais, sabe? Isto foi um momento incrível em minha vida e o SONIC YOUTH começou neste período”.



Tornando Líder


No disco "By The Fire", os instintos que ele aperfeiçoou de que tudo vale para o mundo ainda são relevantes. O que mudou é a dinâmica entre Moore e os seus companheiros de grupo. Ele é um líder de banda aqui de uma maneira que nunca foi durante o mandato do SONIC YOUTH, quando as suas interjeições eram apenas uma parte do quebra-cabeça, ao lado das poderosas mentes criativas que emanavam da vocalista/baixista, Kim Gordon, e do guitarrista Lee Ranaldo.


A sua marca ousada de hinos de escola de artes, dissonância turbulenta e com graus escaldantes - que abrangeu 16 álbuns de estúdio, discos ao vivo e EP's com o SONIC YOUTH - sempre foi uma colagem de sons. Desde o hiato do SONIC YOUTH em 2011, com o fim amargo do casamento de Moore e Gordon em seu âmago, ele tem procurado fomentar colaborações que pareçam diferentes.


“Desde o início, SONIC YOUTH foi uma preocupação democrática”, diz ele. “Como a maioria das bandas jovens são e deveriam ser, eram as pessoas se juntando para criar a soma de suas partes. Às vezes é realmente mágico, como aconteceu com os BEATLES aos SEX PISTOLS, onde algumas pessoas possuem egos mais fortes do que as outras, mas é sempre sobre a banda".


Ele continuou: "O grupo está escrevendo as canções, ao contrário de um compositor chefe. Isso é o que o SONIC YOUTH sempre foi. Toda a publicação, composição e todas as canções da banda, tudo era assim. Não importa quem escrevia a letra, quem trouxe a ideia musical. Estava no fórum do SONIC YOUTH e com a minha banda solo eu não senti que precisava experimentar isso de novo”.


No entanto, a sua abordagem não é perniciosa - ainda é sobre as músicas: “Eu certamente não digo a Deb Googe o que tocar no baixo”, ele acrescenta. “Deb Googe é uma musicista formidável e eu quero que ela toque comigo por causa de como ela escreve as suas próprias linhas. No início, James estava tocando guitarra em uníssono comigo, mas percebi que eu estava produzindo abaixo dele. Tipo, eu não posso tocar guitarra solo do jeito que ele toca, pois é uma técnica muito alta e tradicional. Ele toca assim sem esforço nenhum, mas para ele é um desafio trabalhar em afinações alternadas e é claro que ele está à altura da ocasião".


“Nós crescemos ouvindo uns aos outros... Acho que ele se sente um pouco mais confortável em deixar de apenas tentar reconhecer o que estou fazendo e isso vem com o tempo, sabe? Já passamos anos juntos na estrada e você pode ouvir essa camaradagem nessas peças. É bem diferente do relacionamento que tive com Lee Ranaldo como guitarrista. Isso não pode ser replicado, não que eu queira. Era muito pessoal, pois Lee e eu passamos 30 anos crescendo juntos no SONIC YOUTH”.


“Quando vi pela primeira vez os guitarristas Rhys Chatham e Glenn Branca tocar, não sabia que eles estavam tocando em afinações alternativas”, admite Moore. “Não foi realmente até que comecei a tocar com eles que eu pensei: ‘Ok, esta guitarra é toda de cordas mi agudas e esta outra é toda de cordas de sol'. Isso foi muito informativo e emocionante para mim na época, sabe? Quando o SONIC YOUTH começou, as primeiras guitarras que tínhamos eram tão baratas e horríveis que soavam terríveis nas afinações tradicionais".


“Mas elas soavam muito bem quando você colocava uma baqueta de bateria embaixo do 12º traste (do braço da guitarra) para criar este som arredondado onde você podia tocar em qualquer uma das pontas das cordas".


"Pelo estado da situação atual e que também atingiu a economia, eu não posso agora ter uma dúzia de afinações diferentes em um disco e quando for sair em turnê levar mais de uma dúzia de guitarras na estrada. Nos anos 90, quando tínhamos um perfil bem grande no cenário, SONIC YOUTH fazia turnês de uma forma que nos permitia viajar com duas dúzias de guitarras, para que pudéssemos compor músicas em qualquer afinação e o seu técnico de guitarra/baixo lhe entregaria o instrumento certo para você. Hoje, eu não tenho mais esse tipo de zona de conforto ou privilégio”.



Um Cara do "Jazz"


Os guitarristas do SONIC YOUTH desempenharam um grande papel em tornar a Fender Jazzmaster no símbolo de uma das guitarras mais legais do rock alternativo e que permanece até hoje. As negociações de Moore e Ranaldo com as guitarras Jazzmaster começaram pra valer em meados dos anos 80, se tornando logo depois a linha de maior exposição da banda. As guitarras do SONIC YOUTH rapidamente se tornaram simbióticas entre os músicos do grupo e também remetendo logo de cara a imagem da Jazzmaster com a banda.


“As nossas guitarras de lojas de caridade que tocávamos no início do SONIC YOUTH, estavam simplesmente se desmoronando”, lembra Moore. “O prazo de validade delas era limitado, principalmente pela forma como as tratávamos. Assim que tínhamos um dinheiro qualquer, me lembro de ir até a Rua 48th em Manhattan, onde ficava a loja de instrumentos, Manny’s Music, e todas aquelas outras icônicas lojas... Um dia, estávamos na loja e Lee apontou para uma guitarra Fender Jazzmaster e disse: 'Essa é o tipo de guitarra que Tom Verlaine usa (vocalista/guitarrista do TELEVISION)'. A loja Manny's Music acabou se tornando depois um verdadeiro ponto de venda da Jazzmaster, sabia?"


“Ninguém estava tocando com guitarras Jazzmaster na cena naquela época".


No rastro do SONIC YOUTH, frontman de bandas como do DINOSAUR JR. e NIRVANA também usufruíram bastante da guitarra Jazzmaster, o que se tornou uma atração de pico no rock alternativo no começo dos anos 90.


“Foi basicamente uma questão de economia que escolhemos a Jazzmaster”, admite Moore. “Mas os aspectos disso eram tão intrínsecos ao que estávamos interessados, já que estávamos usando guitarras e o fato da Jazzmaster ter todo esse terreno atrás da ponte dela para trabalhar, tipo, era uma coisa muito boa para nós, sabe? A Jazzmaster é um instrumento totalmente diferente, com um som realmente alto de cordas da guitarra elétrica... Eu também tenho uma certa altura, então, a Jazzmaster se ajusta ao meu corpo como nenhuma outra guitarra e não há mais nada com que eu me sinta tão confortável”.



Zonas de Conforto


Moore também se lembrou de quando o equipamento e instrumentos do SONIC YOUTH foram roubados no final dos anos 90, forçando a banda a reajustar toda a sua linha com novos instrumentos e acessórios de som. O incidente aconteceu em Orange County, Califórnia, em 1999 (várias guitarras do roubo foram recuperadas desde então, em grande parte graças a fãs diligentes).


“Se uma guitarra do SONIC YOUTH chega ao mercado, completamente destruída e reconectada, ela se tornará um item muito personalizado e icônico”, acrescenta Moore. “É uma guitarra do SONIC YOUTH, você me entende? Quem quer que as tivesse roubado, eles poderiam levá-las a uma loja de guitarras e provavelmente os compradores olhariam para elas e diriam: ‘Essas guitarras não valem nada!’ Espero que eles estejam começando alguns grupos de rock barulhento com as guitarras que roubaram”.


Isso enfatiza o fato de que as guitarras de Moore costumam fazer parte da música, desde aos tipos de afinações até o feedback gritante do seu amplificador. Morando em Londres, ele colaborou com uma série de músicos experientes e ousados de improvisação livre, às vezes adaptando o seu estilo para oferecer um contraponto de ruído febril e imprevisível.


Esta experiência passou a fazer parte da sua constituição como músico.


“Saber que você pode apresentar um feedback como um gesto musical espontâneo, é algo que começou a se tornar uma grande parte das composições do SONIC YOUTH em algum momento”, diz ele. “Isso para mim é tão bom quanto qualquer acorde ou qualquer escala de blues. Pode ter vida própria e você vira um pouco um domador de leões. Posso realmente manipular, dobrar o 'pescoço' e criar coisas de outras maneiras. Você pode envolver a guitarra fisicamente ao amplificador, criando algumas curvas leves de som sem precisar destruir tudo".


Moore finalizou: “Eu realmente não sei se alguma vez vi a guitarra completamente como uma ferramenta. Quando vou a uma estação de rádio e eles decidem na hora que eu toque uma música, é quase impossível. A música que eu criei é sobre tal afinação que usei e mesmo que eles tenham uma guitarra Jazzmaster para me emprestarem, a base de afinação não é a mesma e a música vai sofrer por causa disso. Ela não vai soar certa e tenho uma relação muito pessoal com as guitarras que eu toco, sabe? Eu nunca as vejo como intercambiáveis".

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