• by Brunelson

Sonic Youth: resenha do álbum "NYC Ghosts & Flowers"


No mesmo ano em que o álbum do RADIOHEAD, "Kid A" (4º disco, 2000), recebeu devidamente uma das mais famosas críticas do rock com uma nota 10, o site Pitchfork também concedeu uma crítica totalmente oposta ao álbum do SONIC YOUTH, "NYC Ghosts & Flowers" (11º disco, 2000).


O site nunca tinha concedido uma nota 0,0 antes e gastou parágrafos para justificar este ato.


Já curtia SONIC YOUTH desde 1992, quando em 1991 (aos 10 anos de idade) mergulhei nas ondas do rock e vim a descobrir a banda após o estouro que o NIRVANA fez no mundo inteiro - abrindo as portas para outros grupos entrarem no mainstream.


Me lembro que o SONIC YOUTH abriu uma tremenda cortina em meu cérebro, causando estado de choque ao ouvir a sonoridade do grupo e descobrindo que era possível fazer e levar o som através de outros caminhos...


Mas pulando até o ano de 2000, já entrando na casa dos meus 20 anos, na época a internet ainda rastejava por aqui e nem tinha noção que existia este site, sendo que esta notícia só fui ficar sabendo quando o guitarrista Lee Ranaldo foi entrevistado recentemente por Gastão Moreira, onde ele disse que o site Pitchfork havia dado a nota 0,0 para este álbum - escolhido por Ranaldo como um dos seus 04 principais discos do SONIC YOUTH.


Mas com os álbuns do RADIOHEAD e SONIC YOUTH lançados em 2000, apenas um deles se tornou parte da minha vida naquele momento para que eu continuasse a colecionar os discos do SONIC YOUTH que já tinha (grana curta, já morava sozinho pagando o aluguel e faculdade por conta própria).


Não foi o disco "Kid A", um ótimo álbum, diga-se de passagem, mas quando achei este disco do SONIC YOUTH na prateleira da loja e nem sabia que eles tinham lançado um novo álbum (MTV já não era mais a MTV naquele tempo), eu pirei e comprei na hora.


"NYC Ghosts & Flowers" não é um disco de fácil escuta... Me lembro na época que foi claramente um retorno às origens da banda, àqueles primeiros discos do grupo nos anos 80, onde este álbum estava fazendo uma curva à esquerda em comparação com a sonoridade que a banda vinha trazendo nos anos 90 - que era mais satisfatória e viável para o público mainstream. Independentemente disso, é um trabalho digno da vanguarda do rock alternativo.


SONIC YOUTH é famosamente conhecido como uma banda "noise", mesmo assim apresentando melodias protegidas por granadas de distorções dispersas como o NIRVANA ou qualquer outra banda que criava músicas verdadeiras faziam. Aqui neste álbum, SONIC YOUTH foi mais longe do que qualquer outro grupo ao dar a essas músicas camadas extensas, nas quais os elementos se desintegram, sangram e corroem, antes de encaixar a música no seu devido lugar como um osso restaurado. E aqui neste álbum em particular, o grupo apresenta sonoridades psicodélicas de ciclones distorcidos por pedais de guitarra.


A canção faixa-título seria um bom exemplo disso, com uma das partes finais mais intensas e emocionantes da banda de todos os tempos. Você mal percebe a mudança do canto de Lee Ranaldo na música, só percebendo que o ambiente está ficando cada vez mais alto e claustrofóbico. Ranaldo tem o hábito de roubar o show quando resolve cantar pelo menos 01 música em cada álbum lançado do SONIC YOUTH, com a faixa-título aqui procedendo diretamente de algo mais sombrio, talvez, o seu momento mais emocionante já registrado até aquele momento...


Poucas bandas tinham essa fluência, um domínio de sua própria linguagem particular de afinações e contra-tonalidades estranhas que desenhavam um mapa para melodias que não estavam realmente saltitando em "condições normais", mas o seu cérebro se conectaria a sua alma de qualquer maneira...


As melodias do SONIC YOUTH neste disco soa como aquela sensação de sentir algo flutuando em seu quarto, com os olhos fechados e o ouvinte indo até a Lua, mas mesmo assim sentindo a massa sonora que deixa a canção completa.


É difícil imaginar qualquer fã do SONIC YOUTH agitando a cabeça com estas músicas - talvez na música "Renegade Princess" - vide a canção que abre o disco, "Free City Rhymes", o deslumbrante abridor de sonhos do vocalista/guitarrista Thurston Moore com o final de garrafa quebrada do novo recruta e fazendo a sua estreia aqui, o multi-instrumentista Jim O’Rourke (que gravaria 03 discos com a banda).


Difícil balançar a cabeça, mas fácil de imaginar para qualquer fã adorando o single especialmente infantil do álbum, a canção "Nevermind", da vocalista/baixista Kim Gordon, com referências ao clássico disco do NIRVANA e com a sua tensão instrumental grudenta, onde ela também canta: “Garotos vão para Júpiter / Para ficarem mais estúpidos / Garotas vão para Marte / Para se tornarem estrelas do rock”.


As músicas do álbum "NYC Ghosts & Flowers" são do tipo que você precisa decidir se são do seu tipo ou não. A vibração na canção “StreamXSonik Subway” pegou fãs desprevenidos com a sua cativante mordacidade, mas dê ao grupo uma chance como você sempre faz em todos os discos do SONIC YOUTH e você logo consegue se acomodar em seu berço.


As músicas que Kim Gordon também canta, "Side2Side" e "Lightnin'", são verdadeiras experiências graduadas no currículo do SONIC YOUTH. A primeira é linda e catártica, com a segunda encerrando o disco com puro ruído que se você estiver escutando com fones de ouvido, é melhor deixa-lo um pouco fora da sua orelha de propósito.


Este álbum apresenta mudanças incrementais e micro-tonais que dominavam as decisões rápidas e nítidas que o SONIC YOUTH abrangia em seus primeiros discos.


SONIC YOUTH sempre foi uma viagem sônica (com o perdão do trocadilho). São aberturas no subjetivo da mente que estão diretamente ligadas numa linguagem universal de guitarra em expansão, que os convertidos da banda já conhecem e amam. O seu ritmo sempre foi incomparável e único, sabendo aplicar os seus ganchos melódicos em partes específicas nas músicas - sejam instrumentais ou líricos. Escutando o som da banda num fone de ouvido, dependendo do seu estado psíquico momentâneo e volume, você pode sentir a sua orelha esquentar e às vezes, é preciso abrir os olhos ou baixar o volume para que o ouvinte não se atreva a abrir "portas" inconscientes e não consiga achar o caminho de volta... Em particular aqui neste álbum, você percebe a sensação de estar com alguma coisa com pavio curto em suas mãos, só esperando a hora que o negócio vai explodir de alguma forma.


O disco "NYC Ghosts & Flowers" coloca tudo isso à prova absoluta em seu álbum com a instrumentação mais sonora de todos, feito com equipamentos totalmente novos depois que os seus instrumentos personalizados foram roubados na turnê anterior. Na entrevista de Ranaldo para Gastão Moreira, o guitarrista citou este álbum como um dos seus preferidos do SONIC YOUTH, pois foi o primeiro gravado pela banda com os seus novos equipamentos, onde eles tiveram que "reaprender" a personalizar e manusear os seus acessórios.


SONIC YOUTH criou algumas das músicas mais belas e estranhas que já existiram, sendo que aqui no disco "NYC Ghosts & Flowers" as mais estranhas se fazem presente. Mesmo assim e em última análise, a banda consegue deixar o som tão familiar a toda sua discografia, como em seu álbum sucessor e surpreendentemente limpo, "Murray Street" (12º disco, 2002), ou alguns dos discos de ouro da banda, como por exemplo, "Washing Machine" (9º disco, 1995).


Mas como a banda reconecta particularmente o seu centro de prazer, é a chave principal de qualquer álbum de estúdio que o SONIC YOUTH já lançou, transformando dissonâncias em ganchos que você nem poderia imaginar.


Aqui neste disco, as explorações mais profundas da banda se justificam.


Track-list


1. Free City Rhymes

2. Renegade Princess

3. Nevermind

4. Small Flowers Crack Concrete

5. Side2Side

6. StreamXSonik Subway

7. NYC Ghosts & Flowers

8. Lightnin'

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