• by Brunelson

Soundgarden: "sinto falta da companhia e inspiração colaborativa de Chris Cornell"


Confira na íntegra a matéria e entrevista que o guitarrista do SOUNDGARDEN, Kim Thayil, havia concedido para a revista britânica Kerrang em maio de 2019, exatamente 02 anos após a morte de Chris Cornell:

Kim Thayil, amigo de Chris Cornell e colega de banda do SOUNDGARDEN, falou sobre o homem por trás de uma das melhores vozes de todos os tempos do rock.

Mais tarde nesta noite, Kim Thayil subirá ao palco do O2 Shepherd’s Bush Empire, Londres. Ele está tocando como membro convidado da banda MC5, em turnê comemorativa dos seus 50 anos. Liderada pelo guitarrista Wayne Kramer, ao lado de uma formação com o baterista do FUGAZI, o baixista do KING'S X e o vocalista do ZEN GUERRILLA.

A revistra Kerrang cruzou o caminho da banda, onde também encontramos os caçadores de autógrafos parados na esquina de um beco que flanqueia o prédio onde o show será realizado.

Chegando ao camarim encontramos Kim Thayil, que admite que ainda está sofrendo do fuso horário, apesar de já ser o 4º show desta turnê pelo Reino Unido. Enquanto o guitarrista de 58 anos de idade está animado com uma noite de retrospecção estridente em homenagem a uma de suas bandas favoritas, agora ele está mais quieto e contemplativo enquanto fala sobre o falecido colega de banda do SOUNDGARDEN que ele carinhosamente se refere como "irmão".

Kim forneceu as notas de capa da coletânea póstuma de Chris Cornell para acompanhar a coleção de 64 músicas com a curadoria da viúva de Chris, Vicky Cornell, com canções do SOUNDGARDEN, TEMPLE OF THE DOG, AUDIOSLAVE e de sua carreira solo. Nas notas, ele descreve a música de Cornell como: “Um catálogo onde cada música e cada canção de cada álbum, é uma medalha de conquista e honra adornando nossa alma e concedida a nós por Chris”.

“Apesar de ter escrito tanto nessas notas, só pude me referir no que poderia dizer sobre Chris, a banda e o nosso relacionamento”, Kim reflete, com os seus olhos percorrendo a sala nervosamente.

Uma coisa que certamente não precisaria de uma contagem de palavras tão luxuosa dedicada a isso, é o encontro original de Kim com Chris. Esta pode ter sido a união do eixo criativo dentro de uma das bandas mais importantes do grunge, mas foi no mínimo desfavorável. Tanto é assim, na verdade, que Kim não tem certeza dos detalhes do encontro. 

O ano era 1982 ou 1983, e as circunstâncias levaram a resposta de um anúncio que o guitarrista havia colocado procurando um baterista e um vocalista. Kim pagou para o anúncio sair no jornal local de Seattle, o que levou a conhecer Chris Cornell. “O meu colega de quarto nos apresentou, dizendo: 'Este é Chris e ele quer tocar bateria na banda'. Eu disse: 'Ok, prazer em conhecê-lo, Chris', e fui para o meu quarto”, Kim falou rindo. “Foi um encontro monossilábico e ponto final”. Exceto que não foi, porque Kim, o filho de pais indianos, logo se viu convocado para manter este novo grupo vivo, ainda mais depois que o baixista original do SOUNDGARDEN, Hiro Yamamoto, saiu da banda. “Hiro era um velho amigo, sabe? Nós nos mudamos de Chicago para Seattle juntos”, explica Kim, que fez a viagem com um 3º homem, Bruce Pavitt, que iniciaria a Sub Pop, o selo de Seattle que acabaria lançando os dois primeiros EPs do SOUNDGARDEN, "Screaming Life" (1987) e "Fopp" (1988). “Logo depois que começamos os ensaios e Chris estava primeiro tentando tocar bateria, mudamos de ideia e Chris se levantou e cantou duas músicas. Já era o suficiente para marcamos alguns shows pela cidade”. Então, quais foram as impressões iniciais de Kim sobre Chris, o homem e o músico? “Era difícil considerá-lo um homem na época, porque ele tinha apenas 19 anos e precisava de licenças especiais para tocar em bares”, sorri. “Ele estava interessado em frivolidades infantis e mais propenso a brigar com as pessoas e brincar com os seus cães, o que ele realmente amava. Era o tipo de coisa que as pessoas no final da adolescência podiam fazer". “Para ser honesto, apesar de ter 23 anos e terminar a faculdade na Universidade de Washington onde me formei em Filosofia, eu também era muito imaturo”, acrescenta. “Chris e eu nos unimos por causa da nossa incapacidade de sermos adultos. Queríamos participar de bandas de rock'n'roll e não há nada incrivelmente adulto nisso!” Acontece que, apesar de hoje ser amplamente considerado um dos vocalistas do rock mais eletrizantes de todos os tempos, Chris estava longe de ser o artigo concluído naqueles primeiros dias. “Ele tinha uma voz poderosa, mas ainda não era o que acabaria sendo”, explica Kim. “Não dei muita atenção a isso na época, porque havia muitos bons cantores em bandas covers em pubs naquele tempo”. Chris e Kim estavam em uma dessas bandas covers, com um setlist cheio de clássicos do ROLLING STONES e THE DOORS, o que pode explicar por que o guitarrista não percebeu o quão talentoso era o seu novo colega de banda: “Não gostei do material que estávamos tocando. Eu só estava lá para ajudar alguns amigos e pensei: ‘Sim, ele é um bom cantor, mas é uma pena que ele goste dessa 'porcaria'’. Se ele tivesse ouvido BLACK FLAG ou MEAT PUPPETS, provavelmente eu teria ficado muito mais entusiasmado!” Em outra parte nas notas do encarte que Kim escreveu sobre Chris Cornell, ele observa que o vocalista do SOUNDGARDEN “não desanimaria facilmente”. Isso foi provado quando foi sugerido que a banda iniciante - então formada com Chris (bateria), Kim (guitarra) e Hiro (baixo) - encontrasse um novo vocalista. “Estávamos compondo músicas em compassos estranhos e ficou mais difícil para Chris cantar e tocar bateria ao mesmo tempo. Ele teve que escolher em qual instrumento focar e precisávamos conseguir um 4º membro para a nossa banda, que fosse um baterista ou um vocalista. Hiro e eu decidimos que precisávamos de um cantor, porque embora Chris fosse um bom vocalista, achávamos que ele era um pouco convencional em sua abordagem, mas como baterista e compositor ele era muito mais criativo”. Acontece que o desejo teimoso de Chris de encarar o microfone ajudou a moldar o som que logo se tornaria a marca registrada da banda, uma fusão de melodias dos BEATLES com grooves do BLACK SABBATH em diversas maneiras. “Chris tinha certeza que queria cantar, então, ele trouxe um amigo dele, Scott Sundquist, para tocar bateria, o que o liberou para estar na frente do palco. Scott era mais um baterista de blues, mas o SOUNDGARDEN estava pedindo um som mais pesado, essa coisa de blues psicodélico que as pessoas começaram a chamar de heavy metal. Chris, portanto, teve mais oportunidade de se concentrar em sua voz, que se tornou ainda mais forte e poderosa, onde ele a expandiu apresentando um ouvido musical único. Foi quando as coisas especiais começaram a acontecer”. Em meados da década de 90, ao final de uma turnê do SOUNDGARDEN, a banda decidiu transferir os seus instrumentos e equipamentos de um depósito para o estúdio de ensaio que possuíam. “Vim buscar as guitarras que sabia que eram minhas, incluindo uma Gibson Les Paul que chamava de ‘Diet Les Paul’”, lembra Kim. “Também havia algumas Fenders Telecasters por lá... Eu não sabia quais eram as minhas guitarras e quais eram a de Chris, porque algumas das cores são difíceis de identificar quando você está na escuridão do palco, então, eu as deixei lá até que pudéssemos determinar de quem era de quem. Na próxima vez que voltei, todas haviam sumido, tipo: 'Porra, onde estão as nossas guitarras?' E alguém me respondeu: ‘Ah, Chris não sabia quais eram as dele, então, ele levou todas embora'". Kim soltou uma risada longa e forte com esta lembrança. “A personalidade de Chris era um pouco mais solta quando se tratava de situações sociais”, explica o guitarrista. “Ele apenas evitava cenários que o obrigassem socialmente ou emocionalmente falando. Algumas pessoas pensariam que ele era uma pessoa arrogante, porque Chris era inacessível e não fazia contato visual com elas, mas eu simplesmente não acho que ele se sentia confortável em sua própria pele a maior parte do tempo. No entanto, ele não iria demonstrar isso porque era muito forte nesse aspecto. Ele simplesmente se desconectaria, sabe? Ele não se apegava a relacionamentos no mundo. Ele viajava leve com pouca 'bagagem’, é como gosto de descrevê-lo”. Essa ideia de que Chris, cuja boa aparência de estrela de cinema brilhou no palco e durante a sua participação no filme do diretor Cameron Crowe, "Singles" (1992), não tinha confiança ou desejo de se conectar, chega a ser uma surpresa, mas pode se tratar especificamente a dicotomia no coração de vários artistas e na mente de muitos depressivos. É também apenas um dos muitos contrastes exibidos por um homem que Kim descreve como sendo "sério, mas brincalhão, atlético e descoordenado... Chris não sabia dançar". “Normalmente, caras bonitos são amantes, não lutadores”, continua. “Mas Chris era definitivamente um lutador. Ele poderia, é claro, ser animado, engajado e extrovertido fora do palco exatamente como era, mas isso geralmente nos envolvia quando estávamos bebendo ou com amigos mais próximos. Muitos cantores quando terminam de se apresentar, preferem não falar e procuram descansar a sua voz. Chris era um desses caras, sabe? Ele era amigo de algumas bandas que eram nossos colegas, mas era menos propenso a solicitar relacionamentos". “Ao mesmo tempo, ele também era tão zeloso quando se tratava de ser criativo e tinha uma ótima ética de trabalho”, acrescenta Kim, sugerindo que as passagens simultâneas de Chris como baterista, cantor e compositor, plantaram as sementes dessa dedicação giratória. “Eu estava mais comprometido com os aspectos sociais e emocionais do que ele, mas trabalhei muito musicalmente para desmontar as coisas. Chris, por outro lado, era mais 'arrogante' quanto à manutenção de conexões sociais e emocionais, mas era muito organizado e trabalhava meticulosamente para fazer as coisas se encaixarem. Era aí que contrastávamos quando se tratava de fazer música, mas o que tínhamos em comum era que as nossas atitudes em relação ao trabalho eram totalmente contrárias aos nossos temperamentos”. Nos primeiros dias do SOUNDGARDEN, a banda tinha os mesmos interesses e objetivos, mas isso não significa que as coisas não ficassem um pouco complicadas ocasionalmente. “A desarmonia geralmente vem de trocas, contatos próximos e frequentes, como acontece com os irmãos. Definitivamente havia um pouco disso...” Kim faz uma pausa. “Depende do quão nostálgico eu sou ao explorar essas memórias, sabe? Houve casos de conflito, mas isso acontece quando você tem um grupo de rapazes viajando juntos numa van. Houve problemas com todos nós... Hiro e Chris viveram juntos por vários anos, então, é claro que eles passariam por alguns atritos. Hiro costumava falar: 'Chris sempre deixa a porra da louça suja na pia!'". “Nós nos conhecemos desde muito novos, onde pudemos ver um ao outro crescer, amadurecer e nos tornarmos mais ajustados em nossas vidas sociais e emocionais. Ele começou novos relacionamentos, tipo, Chris cresceu e se tornou pai. Como qualquer pai razoável, ele amava ser pai e gostava de ver a luz nos olhos dos seus filhos quando faziam algo divertido juntos ou os testemunhavam descobrindo algo pela primeira vez”. Chris Cornell faleceu em 18 de maio de 2017, horas depois de se apresentar pela última vez com o SOUNDGARDEN no Fox Theatre em Detroit. Menos de um mês depois do que Kim tremulamente descreve como "o incidente", o guitarrista foi incluído em conversas entre a Universal Music e a gestão do SOUNDGARDEN sobre um lançamento expansivo que encapsularia a carreira multifacetada de 33 anos de Chris, com a bênção da viúva Vicky. “Achei que era um pouco prematuro fazer esta coletânea na época, então, foi difícil me concentrar nisso”, ele admite. “Colocamos as nossas mãos neste trabalho para desacelerar um pouco as coisas, enquanto todos organizávamos nossos pensamentos e emoções em um momento tão difícil”. O homem pelo qual eles estavam de luto, é claro, expressou a sua opinião sobre a ideia de deixar aos ouvintes um legado musical amplo e variado. Cornell elogiou muito o seu herói, David Bowie, quando ele morreu em 10 de janeiro de 2016. Dois dias depois, já tendo postado um vídeo dele cantando a canção "Lady Stardust" em rede social, Chris escreveu uma postagem sincera na qual elogiou a capacidade de Bowie de “fazer com que envelhecer como artista pareça totalmente factível de uma forma vital”. A qualidade autobiográfica desta coleção cronológica é, diz Kim, o que a torna um documento musical tão poderoso. “É importante reconhecer a amplitude do seu trabalho ao longo do tempo”, diz ele com veemência. “Desde a música mais jovem, selvagem e agressiva de sua juventude, até o seu trabalho solo como um homem mais velho e um pai que era mais contemplativo dessa maturidade e daquele papel. E depois houve os anos intermediários, em que ele estava crescendo, experimentando e assumindo mais riscos, criativamente e emocionalmente falando. Isso dá ao ouvinte muitos insights sobre o corpo da música, ser capaz de ouvir como ele se transformou por meio do seu próprio material e da mesma forma, como este material se transformou ao longo de sua vida". “Cantores têm um trabalho difícil, sabe? É um papel muito autoconsciente e eles estão se expondo por meio da voz que é um instrumento íntimo a ser revelado, então, você tem que ter certeza de que é feito da maneira certa e reflete bem em você. E depois há o fato de que você está cantando coisas muitas vezes altamente pessoais". “Ele sabia o que podia fazer, tipo, todos nós sabíamos”, continua. “Mas ele gostava de perseguir as áreas nas quais não era tão forte. Ele estava mais inclinado a aceitar esse desafio com o seu instrumento (voz). Houve um ponto em que as pessoas começaram a dizer: ‘Ele é um ótimo cantor, talvez o melhor cantor do rock’, e foi quando ele começou a realmente se concentrar em ser o melhor vocalista que pudesse, para que pudesse ser ainda melhor”. Kim cita a música "Slaves and Bulldozers", a versão colossal do clássico álbum inovador do SOUNDGARDEN, "Badmotorfinger" (3º disco, 1991). “Esta canção captura tudo o que Chris foi capaz de fazer em uma única música. Ele está gritando como um réptil num certo minuto e depois canta num tom agudo na próxima parte, também sendo muito emotivo durante os versos". Thayil reforçou que a canção "Slaves and Bulldozers" é a sua favorita referente às performances vocais de Chris. Com uma discografia composta por 06 álbuns de estúdio e 02 EP's com o SOUNDGARDEN, 01 disco com o TEMPLE OF THE DOG, 03 álbuns com o AUDIOSLAVE e 04 discos solo, bem como uma variedade de participações especiais e compilações, a discografia de Chris Cornell é vasta e diversificada. “Foi um monte de coisas”, lembra Kim sobre o evento tributo a Chris Cornell em janeiro de 2019. “Pra começar, foi muito surreal, mas obviamente um grande orgulho poder homenagear o nosso irmão. Foi estranho também, porque havia um certo aspecto disso que era algo de showbizz por se tratar de um evento público. O baterista Matt Cameron (na banda desde 1986), o baixista Ben Shepherd (desde 1990) e eu, estávamos no palco novamente, o que nos deixou um pouco desconfortáveis. Nós, com Chris incluído, éramos os caras que nunca apareciam nos grandes eventos e festas, embora sempre fôssemos convidados". “Sinto falta da sua companhia e presença”, diz Kim, tornando-se estranhamente quieto e concluindo a sua entrevista. “Sinto falta também da inspiração colaborativa que ele trouxe, da equipe e da família que construímos juntos ao longo dos anos”.

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