• by Brunelson

Rage Against The Machine: o explosivo álbum de estreia que mudou o mundo


Em recente entrevista para o site Louder Sound, o guitarrista Tom Morello, baterista Brad Wilk e o baixista Tim Commerford, relembraram sobre o álbum homônimo de estreia do RAGE AGAINST THE MACHINE lançado em 1992.

Era início da noite de domingo, 21 de fevereiro de 1993, e para a maioria das pessoas que ouviam o resumo do gráfico semanal da Rádio 1 da BBC em Londres, o nome RAGE AGAINST THE MACHINE não significava nada. 

Por que seria? Uma banda totalmente nova que mistura metal e rap como ninguém tinha feito antes, eles ainda não tinham causado impacto fora dos clubes de rock dos EUA ou dos aparelhos de som dos fãs de metal mais informados...

E assim, quando o apresentador Bruno Brookes anunciou alegremente que o novo single da banda, a música "Killing in The Name", havia entrado nas paradas em 27º lugar e colocou a música para tocar na rádio, nem ele nem vários milhões de ouvintes sabiam o que estava para acontecer.

A música começou com uma guitarra enrolada e uma linha de baixo tensa, enquanto um cara fazia um rap sobre o racismo inerente à força policial americana com um poder palpável em sua voz. Então, bum! A coisa toda explodiu de repente e sobre guitarras que soavam como mil sirenes da polícia gritando ao mesmo tempo, o lendário refrão desta canção explodiu dos alto-falantes da rádio em todos os lugares - e não apenas uma ou duas, mas 16 vezes!

E então, atingiu o seu crescendo gloriosamente profano com uma palavra lançada com toda a raiva e dor que poderia ser reunida (vocês sabem qual é).

Compreensivelmente, a confusão gerou uma enxurrada de reclamações de ouvintes ofendidos à rádio britânica da BBC. Bruno Brookes, que não sabia que uma versão não editada da música havia sido transmitida acidentalmente, foi suspenso por uma semana e quase perdeu o emprego. Em alguns minutos, um grupo de agitadores políticos musicais de Los Angeles detonou um artefato incendiário ao vivo nas ondas radiofônicas do Reino Unido.

“Nós sabíamos que a política da banda era radical”, disse o guitarrista Tom Morello, hoje. “E que a música da banda era uma combinação radical de estilos, mas não achamos que isso importaria, porque ninguém jamais iria querer nos ouvir".

Mas as pessoas ouviram e aos milhões. RAGE AGAINST THE MACHINE estava prestes a iniciar uma revolução de quatro membros da resistência...

Mais de 1/4 de século depois de explodir como um carro-bomba sob o capô da cultura dominante, RAGE AGAINST THE MACHINE não perdeu nada do seu poder, impacto ou fervor provocativo. Era o som do PUBLIC ENEMY, BLACK FLAG e com as letras de Martin Luther King e Malcolm X, que criaram uma trilha sonora rapcore de ponta e inédita na época.

A banda chegou na cena mainstream do rock alternativo gerado muito pela catapulta que foi a MTV - em plena ebulição apresentando o movimento grunge emergente. Nos EUA, uma nova geração de bandas rap estava fornecendo um comentário social vital, casando a dura realidade das ruas com o glamour violento de filmes policiais de Hollywood. Tudo isso estava acontecendo em um cenário de turbulência global, tensão racial e a ameaça de guerra no Oriente Médio. 

Em retrospectiva, o timing foi perfeito...

Na verdade, foi puramente acidental. O vocalista Zack de La Rocha se juntou ao trio, com Tom Morello lembrando: “Eu estive numa banda que tinha um contrato com uma gravadora e na época já tinha me agarrado ao metal, mas a banda acabou e eu tinha 26 anos de idade e pensei que era isso, sabe? Tipo: 'Se eu não vou ser uma estrela do rock ou fazer álbuns, pelo menos vou tocar uma música que acredito 100%'. E eu tive a sorte de conhecer três pessoas que sentiam a mesma coisa”.

Os quatro foram reunidos por vários amigos em comum, embora Zack e Tim Commerford se conhecessem desde a infância. Zack e Morello tinham origens radicais semelhantes - Zack era filho do artista político mexicano/americano, Robert de La Rocha; Tom Morello era filho de uma mãe ativista americana branca e de um pai diplomata queniano. 

Enquanto cresciam, ambos haviam experimentado o racismo em primeira mão e se apegaram a suas visões políticas de extrema esquerda - visões que moldariam o RAGE AGAINST THE MACHINE desde o início.

“Eu queria garantir a proteção da integridade desta banda”, disse Zack numa rara entrevista ao jornalista Ben Myers em 1999. “As nossas palavras tiveram que ser apoiadas por ações, porque estamos lidando com essa enorme e monstruosa cultura pop que tende a ser uma merda, onde tudo é culturalmente resistente a ela, mesmo querendo pacificá-la e tornando-a ameaçadora”.

Ironicamente, para uma banda que se tornaria numa das mais bem-sucedidas dos anos 90, RAGE AGAINST THE MACHINE via a sua existência como um fator limitante do que eles poderiam realmente alcançar.

“Começamos com ambição comercial zero!”, disse Tom Morello. “Achei que não conseguiríamos marcar um show num clube, muito menos conseguir um contrato com uma gravadora. Não havia mercado para bandas multirraciais e neomarxistas de rap metal punk rock. Isso não existia... Então, nós fizemos essa música que era 100% autêntica, era 100% o que tínhamos vontade de tocar e não tínhamos expectativas”.

Ainda assim, ficou claro para os membros do RAGE AGAINST THE MACHINE desde o início que eles estavam em algo único. Brad Wilk se lembra vividamente do primeiro ensaio da banda.

“Mais do que tudo, me lembro dessa conexão, movimento e impulso que estava acontecendo naquela sala de ensaio. Algo clicou em nossas cabeças e quando Zack começou a cantar, parecia um raio caindo em cima de nós, sabe? Havia algo realmente especial no que estávamos fazendo e foi apenas um momento intenso para todos, percebendo o início do potencial sonoro que poderíamos ter”.

Como tantas bandas californianas antes deles, o primeiro show do RAGE AGAINST THE MACHINE aconteceu não em um clube, mas numa festa em Huntington Beach, no extenso subúrbio de Orange County ao sul de Los Angeles.

“Era uma festa na casa de alguém e muitas das nossas músicas nem tinham vocais naquela época", disse Tim Commerford. "Na verdade, tocamos uma versão da música 'Killing in The Name' que era apenas instrumental, pois Zack ainda não tinha feito os vocais. Você podia sentir a eletricidade na hora e parecia que você estava segurando a porra de um fio elétrico... Isso é o que era: um fio elétrico. E foi ficando cada vez mais e mais forte nos shows”.

Coletivamente, RAGE AGAINST THE MACHINE eram fãs de rap e Morello se lembra dos primeiros dias de banda acompanhando grupos como o PUBLIC ENEMY e CYPRESS HILL em turnê. Embora o rap tenha proporcionado uma grande orientação para a banda, esta não foi a sua única influência. Todos os membros do grupo cresceram ouvindo guitarras variando do rock dos anos 70 ao metal e punk rock dos anos 80.

“As nossas histórias são profundas e é por isso que éramos a banda que somos”, falou Brad Wilk. “Não ouvíamos apenas rap, mas todos os tipos de coisas desde BLACK SABBATH, LED ZEPPELIN, MINOR THREAT e SEX PISTOLS. Quando estávamos ensaiando juntos, concordamos que queríamos que o nosso álbum soasse em algum lugar entre um disco do Ice Cube e do LED ZEPPELIN".

Em março de 1992, RAGE AGAINST THE MACHINE embarcou em sua primeira turnê como banda de abertura para o PUBLIC ENEMY. Graças às controvérsias geradas pela mídia dos EUA em torno de grupos de rap daquela época, o mainstream da América tinha uma relação venenosa (racista?) com os problemas que o rap verbalizava no momento...

Era o ambiente perfeito para o RAGE AGAINST THE MACHINE.

“A turnê foi desnecessariamente controversa”, disse Tom Morello. “Na época, o rap era considerado um empreendimento perigoso e a polícia às vezes superava o público nesses shows. Eles tentaram fechar várias medidas cautelares e devo acrescentar que nenhuma delas obteve sucesso. Estávamos nos apresentando em faculdades e o público seria composto por garotos e garotas de fraternidade 100% brancos, onde passávamos por 05 níveis de detectores de metal e revistas policiais antes de subirmos no palco. Acho que os policiais estavam com medo de que iríamos "tacar fogo no circo" e sempre havia um ar de histeria”.

A fita demo de 12 canções tinha chegado às mãos de Michael Goldstone, o figurão da Epic Records e que tinha contratado o PEARL JAM.

“O nosso único objetivo era fazer música para nós mesmos e gravar o nosso próprio disco, que era uma fita cassete demo com as 12 músicas que havíamos criado”, disse Morello. “Esse era todo o nosso objetivo, sabe? Nunca pensamos que faríamos um show e nunca pensamos que iríamos gravar um disco”.

Garth Richardson era um jovem engenheiro de estúdio com fome e quando a Epic Records perguntou ao seu chefe, o produtor Michael Wagener, quem deveria trabalhar no álbum de estreia dessa nova banda de rapcore que eles tinham contratado, Richardson foi uma escolha óbvia.

“Peguei aquela fita demo e disse: ‘Puta merda!’ Não havia nada igual, cara”, lembra ele. “Fui vê-los ensaiar no espaço deles e acho que a banda tocou 04 músicas pra mim e fiquei pasmo, a ponto de não poder mais falar depois, porque a minha gagueira era muito forte. Eu falava para o meu chefe: ‘Você está brincando comigo? Eu vou gravar essa banda mesmo?’ Era uma nova força no ar, além das letras de Zack que eram tão frescas e novas”.

RAGE AGAINST THE MACHINE começou a gravar o álbum de estreia com Garth Richardson em março de 1992, onde 07 daquelas 12 músicas da fita demo, incluindo as canções "Killing in The Name", "Bombtrack" e "Bullet in The Head", seriam lançadas no disco.

Dado o tema lírico incendiário, houve surpreendentemente pouca contribuição da Epic Records. Eles pareceram aprender a lição depois de sugerir que a banda removesse algumas frases da música "Killing in The Name". 

“Houve uma grande conversa sobre isso”, lembra Garth Richardson. “E a banda apenas disse para a gravadora: ‘Foda-se, essa parte fica’”.

"Killing in The Name" seria a música que estourou a banda no Reino Unido. Por 06 meses, ela fez a trilha sonora de todos os clubes de rock do país, com o seu apelo apaixonado galvanizando as "pistas de dança" de pessoas que saíam para a festa. No entanto, como muitas das grandes canções, ela aconteceu por acidente...

“Me lembro de ter criado aquele riff”, falou Morello. “Eu estava dando aulas de guitarra na época e estava ensinando um músico de rock de Hollywood como fazer afinação em drop-D. Quando eu estava lhe mostrando, criei aquele riff e pensei: 'Espere um segundo' e gravei no meu pequeno gravador para trazer para o ensaio no dia seguinte com a banda, sem nunca perceber que seria a gênese de uma música que teria um impacto duradouro”.

Em abril de 1992, uma série de distúrbios eclodiram em Los Angeles quando 04 policiais brancos foram absolvidos ao espancar o motorista afro-americano, Rodney King, apesar do ataque ter sido filmado por uma testemunha da sacada de sua casa. Para os EUA, foi um momento de caos... 


Para o RAGE AGAINST THE MACHINE, que já havia gravado o seu álbum de estreia e o lançaria em novembro, o momento infelizmente foi conveniente.

“Todas essas canções foram escritas antes do caso de Rodney King”, continuou Morello. “Em alguns aspectos, o registro foi presciente, visto este turbilhão de lutas raciais e guerra imperialista no horizonte. Quando o disco foi lançado, ele foi jogado num campo fértil para termos os ouvidos do público em todo o mundo”.

A banda sempre foi orgulhosamente revolucionária, até demais para os EUA que demorou a entender. 

Já na Grã-Bretanha era um assunto diferente, como provou o infeliz acidente de Bruno Brookes na Rádio 1.

“O Reino Unido foi o primeiro lugar onde as pessoas perderam a cabeça por causa dessa música”, disse Tom Morello. “Uma das principais razões era que haviam leis de censura lírica mais flexíveis no Reino Unido na MTV e rádio. Nunca editamos os palavrões das músicas, então, as pessoas nos EUA não podiam nos ouvir na MTV ou na rádio. E em segundo lugar, os europeus ficaram surpresos ao ouvir uma banda americana que tinha uma visão da América semelhante à visão da Europa sobre a América”.

A partir dessa pequena faísca uma conflagração começou a se espalhar, enquanto a notícia sobre o RAGE AGAINST THE MACHINE crescia. O seu sucesso como uma bola de neve teve o efeito desejado, conforme uma geração - ou pelo menos partes dela - começou a despertar para as mensagens que transmitiam pelo megafone de suas canções. Musicalmente, eles também arrastaram o movimento adormecido do rapcore que tinha surgido brevemente no final dos anos 80 (BEASTIE BOYS manda um abraço!)

Além disso, a sociedade estava mudando rapidamente no início dos anos 90. 

Embora o sexismo, racismo e a homofobia ainda prevalecessem, havia uma oposição crescente a essas visões ultrapassadas. RAGE AGAINST THE MACHINE deu vários passos adiante - a própria capa do álbum apresenta uma foto de 1963 do monge vietnamita, Thich Quang Duc, ateando fogo a si mesmo em protesto contra a opressão do seu governo ao budismo. 

Foi a representação visual definitiva de protesto.

“Os meus heróis não eram caras de bandas de rock”, disse Tom Morello. “Eles eram revolucionários que lutavam para mudar o mundo. Parecia que teríamos uma oportunidade de entrar nessa arena, sabe? Esta foi uma oportunidade incrível de envolver o planeta... Não apenas com a nossa música, mas com as nossas ideias”.

O sucesso do RAGE AGAINST THE MACHINE pegou todos de surpresa, principalmente a própria banda. Eles rapidamente deixaram de ser excluídos da cena de Hollywood e se tornaram um para-raios do movimento do rock alternativo. Em vez de embotar a sua vantagem política, o sucesso apenas a aguçou.

Mas o ambiente explosivo que acompanha o fato de pertencer a uma banda revolucionária de esquerda acabou cobrando o seu preço. A tensão entre os membros do grupo cresceu (diga-se, Zack x Morello) e o RAGE AGAINST THE MACHINE se separou em 2000 após 04 álbuns de estúdio. 

Eles se reuniram novamente em 2007 até 2011 com apresentações ao redor do mundo, mas nada de lançamento inédito.

Mais de 25 anos depois de ter sido lançado, a estreia do RAGE AGAINST THE MACHINE continua a ser um marco na história - o ponto onde o rap e o rock realmente se uniram para desferir um golpe mortal no status quo.

“A luta humana não mudou e o racismo também não. As coisas realmente andaram ao contrário”, disse Garth Richardson, finalizando esta entrevista. “RAGE AGAINST THE MACHINE compôs um álbum incrível que foi/é atual e será uma ou outra vez que isso acontecerá na história com outras bandas”.


Confira a resenha deste álbum de estreia do RAGE AGAINST THE MACHINE que o site rockinthehead havia publicado um tempo atrás:


* Rage Against The Machine: a resenha do álbum de estreia 25 anos depois

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