• by Brunelson

Foo Fighters: "não é para isso que serve a música", sobre ter segurado o lançamento do novo disco


O ano de 2020 deveria ser um grande planejamento para o FOO FIGHTERS, com uma turnê comemorativa do seu 25º aniversário e lançamento do álbum "Medicine at Midnight" (10º disco, 2021), mas quando a pandemia fechou todas as portas, o grupo decidiu atrasar o lançamento do álbum e esperar por mais 01 ano.

“Sim, mas não é para isso que serve a música”, disse Dave Grohl, rindo, em entrevista ao site NPR, se referindo a decisão de querer atrasar o lançamento do álbum.

Originalmente começou como um projeto solo de Dave Grohl, depois de tocar bateria com o NIRVANA por 04 anos. FOO FIGHTERS viria a lançar o seu 10º disco em 2021 e Grohl chamou o novo registro de "um álbum de festa de sábado à noite", um som que ele disse não ter explorado até então na carreira: “Quando o produtor desse disco, Greg Kurstin, e eu nos reunimos para gravar o álbum 'Medicine at Midnight', a intenção era bem clara. Foi como: 'Vamos fazer alguns ritmos e grooves para que as pessoas fiquem pulando/dançando ao redor'".

Nessa entrevista, Dave Grohl falou como o disco "Medicine at Midnight" surgiu, a sua perspectiva sobre a fama depois de mais de 25 anos de carreira e outros assuntos.

Confira alguns trechos dessa entrevista:

Jornalista: O ano de 2020... Isso mudou todas as nossas vidas, pois era para ser um grande ano para a sua banda, já que você meio que esperava por esse álbum e uma grande turnê. Você pode me explicar - se pudéssemos voltar no tempo - como deveria ser? O que você imaginou para 2020?

Dave Grohl: Bom, sabíamos que o ano de 2020 seria especial para a banda, porque foi o nosso 25º aniversário. FOO FIGHTERS lançou o 1º álbum de estúdio (homônimo) em 1995... Queríamos gravar e lançar o nosso 10º disco para celebrar tudo isso e havíamos planejado uma turnê mundial. Tínhamos feito alguns documentários diferentes, os videoclipes, os caminhões já estavam carregados com os nossos equipamentos e todas as camisas prontas para vender, ou seja, tudo pronto para sairmos em turnê com o novo álbum todo concluído - mixado e masterizado.

Grohl: Em fevereiro, pensamos que 2020 seria o maior ano que a banda já teria e então, é claro, as coisas simplesmente pararam. No início, só queríamos ter certeza de que todos estavam seguros, saudáveis e todos nós seguimos os nossos caminhos separados e apenas ficamos aguardando, sabe? Tínhamos essas reuniões online cerca de 01 vez por mês apenas para verificar as coisas e ver se era a hora certa em ligarmos essa máquina novamente, mas finalmente percebemos que esta seria uma longa pausa.


Jornalista: Muita coisa mudou em 2020 e a música que você faria hoje em 2021 tenho certeza de que seria diferente ou talvez não, mas quando uma pessoa ouvir o álbum "Medicine at Midnight", você poderia explicar o que o mantém unido? O que este álbum está dizendo de forma coesa?

Grohl: Eu dei uma olhada em todo o trabalho que fizemos nos últimos 25 anos e nós fizemos coisas que são meio barulhentas, dissonantes, distorcidas, hard rock e punk rock, mas também fizemos coisas que eram acústicas, orquestradas e muito mais suaves... Você sabe, a única coisa que percebi que nunca tínhamos feito foi um álbum de festa para dançar e pensei: "Em vez de fazer algum disco acústico, como distintos cavalheiros do rock and roll para marcar os 25 anos de banda, vamos abrir uma garrafa de vinho para dançar!"

Grohl: E nosso produtor que trabalhou no álbum "Medicine at Midnight", Greg Kurstin, ele é mais conhecido por produzir discos de artistas pop, tipo, ele não é conhecido pelos seus grandes trabalhos em álbuns de hard rock. Ele é um grande amigo meu, quero dizer, ele é meu vizinho, sabe? Quando conheci Greg, não sabia que ele era um dos maiores produtores do mundo. Eu o reconheci de uma banda que ele faz parte, THE BIRD AND THE BEE, que é uma espécie de banda independente meio obscura. Quando o vi num restaurante certo dia, o reconheci e corri até a sua mesa e lhe disse: "Oh, meu Deus, eu amo a sua banda, cara! Eu adoro o seu álbum e acho você um gênio. O que está acontecendo agora com o THE BIRD AND THE BEE?" E ele me disse: "Bom, vamos gravar outro álbum, mas tenho que terminar de produzir alguns artistas que estou trabalhando". Eu não tinha ideia, sabe? Nos tornamos amigos e alguns anos depois eu o chamei para produzir o álbum antecessor do FOO FIGHTERS, "Concrete and Gold" (9º disco, 2017), e ele aceitou e aqui estamos nós novamente.

Grohl: E quando nós dois trabalhamos juntos, não há apenas esse tipo de amizade ou apreciação mútua, mas parece que nos ligamos em algum lugar no meio entre a sua técnica e o meu coração de rock and roll esfarrapado... Eu imaginei uma arena ou um estádio cheio de pessoas dançando essas músicas e cantando esses grandes refrões, onde fechava os meus olhos e pensava: "Isso é perfeito. Isso vai funcionar. Isso vai colocar fogo nos festivais, cara!"


Jornalista: Mas Dave, você segurou o lançamento desse disco e nós estávamos em nossas casas trancados neste isolamento. Aqui em nossas pequenas bolhas, precisamos nos mover e temos que curtir!

Grohl: Sim! Foi isso o que eu finalmente percebi. Isso que você falou é a coisa mais importante. Foi uma das minhas maiores revelações lançar este álbum mesmo em plena pandemia.


Jornalista: Você já disse em entrevistas que a música "Waiting on a War" - um dos singles do álbum "Medicine at Midnight" - foi inspirada liricamente pela sua filha, Harper. O que ela achou da música?

Grohl: Honestamente, eu não acho que ela goste do FOO FIGHTERS.


Jornalista: Bom, isso já é outra conversa...

Grohl: As minhas filhas olham pra mim como se eu fosse um eletricista ou trabalhasse em uma cafeteria.


Jornalista: Isso não pode ser verdade, quero dizer, eu sei que elas também são musicistas, certo? O nome de sua filha mais velha, Violet, está nos créditos neste novo disco do FOO FIGHTERS.

Grohl: A minha filha, Violet, tem 14 anos de idade. Ela tem um ouvido absoluto e perfeito. Ela tem memória fotográfica e quando se trata de qualquer tipo de arranjo, composição ou padrão, ela pode memorizá-los imediatamente. Ela canta com a sua alma e direto do seu diafragma, quero dizer, ela canta como Etta James desde quando tinha 08 anos de idade, então, é meio louco de se pensar.

Grohl: Outro dia, a minha filha do meio, Harper, veio até mim e disse: "'Pai, eu quero ser baterista", e eu olhei pra ela e disse: "Baterista? Você sabe, essa é uma posição de nível básico, tipo, é a sala de trocas de "correspondências" (membros) de qualquer banda". E ela me disse: "Sim". E eu a sentei na bateria com um par de baquetas e você sabe, no final do dia ela estava tocando junto com um disco do AC/DC, então, elas possuem uma inclinação musical.


Jornalista: Onde ouvimos Violet com mais destaque no álbum "Medicine at Midnight"?

Grohl: Bom, Violet não foi formalmente convidada para estar no álbum. Pra começar, não gravamos esse disco no estúdio, mas sim, gravamos numa casa velha e vazia que fica na mesma rua de onde eu moro. Eu pegava Violet no caminho da escola para casa e às vezes vínhamos direto para essa casa onde estávamos gravando. Ela se sentava no sofá e fazia a sua lição de casa. Um dia, o nosso produtor, Greg Kurstin, já tendo conhecimento de sua habilidade vocal, lhe disse: "Hey, Violet, você quer colocar um back-vocal em alguma música?" E ela respondeu: "Sim, claro". Então, ela parou na frente do microfone e fez algumas gravações, foi quando ela participou da música "Making a Fire", que é a primeira canção do álbum.

Grohl: E até alguns meses atrás, eu apenas encarei isso como uma espécie de ocorrência casual, quando a minha contadora me ligou e disse: "O que você quer que eu faça com esse dinheiro para Violet? Já que ela cantou oficialmente?" E eu disse: "O quê?" Eles disseram: "Bom, você sabe, ela cantou no álbum, então, ela tem que ser paga", e eu disse: "Ok, não estamos dando muito dinheiro a uma garota de 14 anos agora, então, vamos colocar isso numa conta bancária que ela poderá usar quando tiver 18 anos de idade".


Jornalista: Você ainda se apodera de tudo o que é bom de uma forma positiva e alegre naquilo que a sua experiência lhe produziu. Na minha pergunta também está embutido o conceito de que a fama pode ser tão quanto destrutiva e sombria... Você parece sempre andar tão levemente sobre tudo isso e me pergunto se é algo que você trouxe intencionalmente e tentou incutir em seus filhos, enquanto eles olhavam para o horizonte de sua própria possível fama? Ou se foi algo apenas do seu inconsciente?

Grohl: Quando o NIRVANA se tornou popular, eu tinha 21 ou 22 anos de idade. Você sabe, eu era uma criança e antes disso, tudo que eu queria fazer era sobreviver tocando música. Realmente, a minha maior aspiração era, você sabe, ter um apartamento para morar! Eu nunca imaginei que as coisas iriam sair do jeito que saíram e nunca imaginei que o NIRVANA se tornaria tão popular.

Grohl: Eu simplesmente nunca esperei por isso e na época esse tipo de música simplesmente não era acessível comercialmente, tipo, não era música popular. Era uma música underground e quando a banda foi se tornando popular pela primeira vez em nossas vidas, aconteceu numa velocidade assustadora, sabe? Em 01 ou 02 meses, deixamos de ser relativamente desconhecidos e passamos a ser o nº 01 nas paradas e um nome que todos reconheciam. Então, nessa idade, aos 21 ou 22 anos, isso é muita coisa para processar e se algum dia eu me sentisse sobrecarregado e exausto, simplesmente voltaria para a casa da minha mãe no estado da Virgínia. Eu voltaria para a casa onde cresci, sairia com os meus amigos do colégio e ficaria na minha vizinhança até me sentir de novo com os pés no chão, para daí sim, voltar aos compromissos com o NIRVANA.

Grohl: E dito isso, eu era o baterista da banda. Certamente não estive na linha de frente ou no centro das atenções, pois Kurt Cobain estava.


Jornalista: Para finalizar essa entrevista, você acha que isso te ajudou?

Grohl: Eu me sentia bastante anônimo no NIRVANA. Tive sorte em poder evitar muitos cantos escuros ou armadilhas, mas ao mesmo tempo, colher muitos dos benefícios disso. Quero dizer, comprei o meu primeiro carro. Comprei um velho Ford Falcon Futura 1963 e foi isso pra mim. Eu já estava decidido para o resto da vida que tinha um carro e foi tão simples assim...

Grohl: Mas é claro, quando o NIRVANA acabou, eu estava preso num lugar do qual não tinha certeza de como sair. Eu não queria tocar música. Eu não queria apenas entrar em outra banda. Eu não queria necessariamente sentar atrás da bateria, mas acabei percebendo que a música sempre foi aquilo que me curou ou me consolou, e que seria o que salvaria a minha vida novamente. Sempre gravei músicas sozinho num estúdio no porão de casa, tocando todos os instrumentos e fazendo essas demos experimentais, só por diversão, sabe? Apenas algum tipo de saída criativa e decidi me apoiar nisso. Resolvi entrar num estúdio e gravar um pouco de música sozinho - o que se tornaria no 1º álbum do FOO FIGHTERS - quase que de uma forma terapêutica e só para exercitar muito a minha dor e tristeza com o fim do NIRVANA. Eu olhei para isso como uma espécie de continuação, não necessariamente musicalmente, mas apenas na vida e emocionalmente falando... Esse foi o começo do FOO FIGHTERS e ainda hoje é o que o FOO FIGHTERS representa pra mim.

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