• by Brunelson

Chris Cornell: punhado de entrevistas concedidas à revista Kerrang


Após 04 anos e em homenagem ao falecido Chris Cornell, a revista britânica Kerrang reviveu algumas das entrevistas (foto) que realizou ao longo do tempo com o frontman das bandas SOUNDGARDEN e TEMPLE OF THE DOG, juntamente com a sua carreira solo, formando posteriormente o AUDIOSLAVE e carimbando a reunião do SOUNDGARDEN a partir de 2010.

A sua incrível música e legado continuam a nos cativar e inspirar - e sempre será.

Cornell levou uma vida extraordinária na música e a revista Kerrang estava lá para testemunhar muito disso em primeira mão. Se havia um fio condutor nas entrevistas que o vocalista concedeu à revista ao longo de mais de um 1/4 de século, era o seu desejo constante de chamar a atenção para o abismo entre a realidade da vida de um astro do rock e os preconceitos do público.

Ao longo de sua carreira, Cornell ficou profundamente impressionado com a fama, se tornando numa pessoa que tentava localizar qualquer verdade que pudesse em meio à mitologia cada vez maior do rock'n'roll.

Confira alguns trechos de entrevistas concedidas por Chris Cornell à revista Kerrang durante toda a sua carreira:

Dezembro de 1991

Já tendo criado bastante agitação nas costas com os seus 02 primeiros álbuns de estúdio do SOUNDGARDEN, "Ultramega OK" (1988) e "Louder Than Love" (1989), a primeira vez que Chris Cornell apareceu na capa da revista Kerrang foi como parte de uma pergunta que fizeram à sua banda: “Esses caras de Seattle são o futuro do metal?”

Dado que o SOUNDGARDEN tinha acabado de lançar o seu 3º disco, "Badmotorfinger" (1991), um álbum que mesmo em pleno 2021 ainda parece ter viajado no tempo como se fosse um novo lançamento, a pergunta que estava no ar ainda parecia redundante.

Como matéria de capa, a revista inequivocamente rotulou o SOUNDGARDEN de “a banda mais brilhante a atingir o planeta desde que o SLAYER lançou o disco 'Hell Awaits'”, depois que a revista tinha se encontrado com o SOUNDGARDEN para uma entrevista em New York.

Já então, Chris Cornell ostentava um ceticismo saudável em relação à fama, dizendo: “Um dia você ouvirá muitas coisas positivas e no dia seguinte você ouvirá coisas negativas. Essa coisa inspira e expira e às vezes, há momentos em que parece que existe esse tipo de exagero positivo que a crítica fala do SOUNDGARDEN e então, outras vezes, parece que ainda estamos todos perdidos..."


Abril de 1992

Sobre aquela inclusão no mainstream, em abril de 1992 o SOUNDGARDEN já tinha realmente atingido o acesso.

Quando a revista se encontrou com a banda para uma nova entrevista, eles estavam em turnê pelas arenas americanas abrindo shows para grupos maiores. Alguns na comunidade do rock alternativo viram o emparelhamento do SOUNDGARDEN abrindo para essas bandas como uma espécie de traição, afinal de contas, o grunge deveria ser a antítese do legado depravado do glam/hair metal dos anos 80.

“Muito disso está fora de proporção”, disse Chris Cornell sobre a vida na estrada com alguns desses grupos. “Muitos dos relatórios sobre como essas bandas lidam com o sucesso e o que fazem não são verdadeiros”.

Embora minimizasse qualquer noção do excesso de rock, Cornell notou que ser chamado de "deus do rock" já estava começando a irrita-lo - e continuaria a deixa-lo a partir de então.


Setembro de 1993

Quando a revista Kerrang viajou para os EUA acompanhar o SOUNDGARDEN em turnê com Neil Young, eles se depararam com um Chris Cornell de cabeça raspada.

Naturalmente, o título de capa da revista foi: Raspado & Perigosos.

Mas um novo penteado não foi a única mudança. Eles já haviam começado a testar algumas músicas novas nos shows como "Spoonman", "Kickstand" e "My Wave", quando chegou a hora de definir o título para o vindouro disco.

"Podemos simplesmente desistir dessa ideia e chamar o próximo álbum de 'Soundgarden'", disse Chris Cornell.

É claro que logo se chamaria "Superunknown" (4º disco, 1994), o álbum que ajudaria a definir o SOUNDGARDEN para as massas, para a história do grunge, para o rock dos anos 90 e uma maneira exemplar de vender milhões de cópias sem comprometer a integridade musical da banda.


Fevereiro de 1994

SOUNDGARDEN estava na Inglaterra para essa entrevista, mas o álbum "Superunknown" ainda não tinha sido lançado e no entanto, a banda, assim como o NIRVANA, PEARL JAM, ALICE IN CHAINS, SCREAMING TREES, MUDHONEY, MELVINS e tantas outras, estava lutando contra as armadilhas do mundo da música.

Mais do que nunca, eles estavam cientes de que o simples ato de serem eles mesmos no centro das atenções, era uma situação repleta de dificuldades: “Grande parte do público não gostaria de nos conhecer como realmente somos”, explicou Chris Cornell. “Porque nem sempre seremos agradáveis ou pessoas felizes... Não é que não apreciamos os fãs, é que somos assim uns com os outros, com amigos e familiares. Não podemos fingir e não podemos ser os apresentadores de um game show...”


Agosto de 1994

Muita coisa mudou em 1994...

Com o disco "Superunknown" lançado no mundo e ostentando um single gigantesco na canção "Black Hole Sun", SOUNDGARDEN era oficialmente uma das maiores bandas do planeta e a bola da vez em reinar operante no mainstream.

Mas também foi o ano em que o grunge perdeu a sua voz principal...

Enquanto o mundo continuava a refletir sobre o quê tinha levado Kurt Cobain a tirar sua própria vida, Chris Cornell - encontrando paralelos em suas próprias experiências como frontman - foi rápido em dissipar qualquer teoria que queria reduzir a morte de Kurt a somente 01 causa primordial: “Não foi só, tipo: esse cara é viciado em heroína e isso o deixou louco e ele se matou, ou, esse cara é incomodado por adolescentes e odeia isso, então se matou”, disse Cornell em entrevista para a revista Kerrang em New Orleans.


Maio de 1996


Em 1997, SOUNDGARDEN implodiu, encerrando o dia logo após a escalada de tensões na banda ter chegado ao auge.

Mas antes disso, a revista Kerrang foi para Seattle em uma entrevista que encontrou a banda bem-humorada e não disfuncional por causa do seu 5º álbum perenemente esquecido, "Down on The Upside" (1996).

Assim como o ensaio fotográfico alegre da banda chamou a atenção para o lado lúdico de um grupo frequentemente apresentado como miseráveis consumados, o mesmo aconteceu com as suas citações (sarcásticas): “Os meus amigos são legais com o meu dinheiro, então, eu dei a eles todas as motos que eu tinha”, disse Chris Cornell.


Setembro de 1999

Chris Cornell aceitou ser entrevistado pela revista Kerrang para refletir sobre o que tinha acontecido com o SOUNDGARDEN, enfatizando a sorte que obtiveram ao conseguirem o sucesso que tiveram, ao mesmo tempo em que expressaram pesar por não terem gostado mais da experiência.

No entanto, nem tudo foram notícias tristes...

Sendo capa da revista, Cornell também anunciou o lançamento de sua carreira solo com o disco "Euphoria Morning", uma estreia contundente e assustadora.

Sendo entrevistado num quarto escuro de hotel em Hollywood, Chris Cornell refletiu abertamente sobre a sua infância e o papel que a depressão desempenhou em sua vida e música: “Há momentos em que você pensa: 'Porra, queria que isso não significasse nada para mim, queria ser uma dessas pessoas normais e felizes'”.


Novembro de 2002

“A primeira vez que entrei no estúdio quando aqueles caras estavam tocando, parecia incrível”, disse Chris Cornell quando viu os membros do RAGE AGAINST THE MACHINE - Tom Morello (guitarrista), Tim Commerford (baixista) e Brad Wilk (baterista).

“Depois de um breve pensamento, percebi que não conseguia encontrar um motivo bom o suficiente para não querer entrar nessa banda”.

E assim nasceu o AUDIOSLAVE.

Para alguns, emparelhar a voz uivante e melódica do SOUNDGARDEN com a espinha dorsal musical incendiária do RAGE AGAINST THE MACHINE, era uma ideia simplesmente boa demais para ser verdade.


Maio de 2005

Quando a revista Kerrang se encontrou com o AUDIOSLAVE para a matéria de capa, eles eram uma banda crescendo em sua própria pele.

Isso incluiu a decisão de finalmente abraçar a sua própria herança...

Depois de inicialmente somente apresentar músicas autorais, AUDIOSLAVE começou a tocar covers do SOUNDGARDEN e do RAGE AGAINST THE MACHINE nos shows.

Os fãs estavam enlouquecendo, onde o grupo não estava apenas ressuscitando canções como "Spoonman" e "Killing in The Name", mas eles também estavam se preparando para lançar o tão aguardado 2º álbum de estúdio, "Out of Exile" (2005), um disco que viu um sóbrio Chris Cornell abordando a gravação do álbum.

“Ficar sóbrio mudou muito as coisas pra mim”, disse Cornell. “Não sou o tipo de pessoa que quer saber ou sentar e analisar as coisas, mas sou um novo homem agora..."

AUDIOSLAVE lançaria o seu 3º e último álbum em 2006, "Revelations", antes de se separar logo depois e de não terem feito nenhuma turnê promocional desse grande disco, mas o seu legado inclui algumas das melhores canções lançadas nos anos 2000.


Novembro de 2012

Apresentando o álbum de retorno do SOUNDGARDEN, "King Animal" (6º disco), esse álbum capturou a alquimia musical única da banda em classe mundial, desde o riff distorcido e descontraído da canção "Non State Actor" até a beleza desencantada da música "Black Saturday".

O mundo tinha sentido falta deles e os membros do grupo sentiram falta um do outro.


“Já faz muito tempo”, disse Chris Cornell para a revista. “Depois de 15 anos, voltamos a ficar juntos e fizemos um dos nossos melhores álbuns. Ainda temos algo mais a dizer sobre o rock que ninguém mais está dizendo”.


Setembro de 2015

Em sua entrevista final para a revista Kerrang, Chris Cornell era uma pessoa aparentemente mais reflexiva pelo potencial da vida: “Desde que comecei a ter filhos, estou cercado por eles o tempo todo e pensando neles a toda hora também, assim como acho que começamos muito bem na vida com o SOUNDGARDEN... Começamos muito conectados com a maravilha, o espanto e o milagre da porra desse mundo, mas somos corrompidos por muitas inseguranças, autoconsciência, pela pressão de sobreviver e pela estranha natureza egoísta que temos com outras pessoas, não importa o quão próximos estejamos”.


* Chris Cornell: punhado de entrevistas sobre Kurt Cobain ao longo da história


* Chris Cornell: Top 10 das músicas mais subestimadas


* Chris Cornell: alguns dos maiores desempenhos vocais nas bandas que participou


* Chris Cornell: podemos dizer que ele é o atual rei do grunge?


* Chris Cornell: resenha do novo livro autobiográfico "Total Fucking Godhead" pela revista Kerrang

  • Facebook Social Icon
Mais Recentes
Destaques