Soundgarden: "ainda irei fazer algo original com os meus companheiros de banda"

September 9, 2020

 

Confira a matéria e entrevista completa que o guitarrista do SOUNDGARDEN, Kim Thayil, concedeu recentemente para a revista britânica Kerrang, onde informações reveladoras foram anunciadas, inclusive Thayil admitindo que além das 07 músicas "prontas" que estão emperradas no tristonho processo judicial da viúva de Cornell - referente ao álbum inacabado que o SOUNDGARDEN estava gravando antes do falecimento de Chris Cornell - eles ainda possuem umas 06 músicas que Thayil acredita que Chris Cornell possa ter gravado os vocais para estas demos, onde ele até desconhece como poderia ser o tipo melódico vocal gravado para essas demos.

 

O site rockinthehead traduziu para você. Confira:

 

 

A vida e os tempos do deus da guitarra grunge do SOUNDGARDEN, Kim Thayil, pela revista Kerrang.

 

Em 1981, Kim Thayil partiu para uma viagem que mudaria sua vida. Na época, o jovem de 21 anos estava em um estado de turbulência pessoal. A sua banda de Chicago, IDENTITY CRISIS, tinha se separado e a sua namorada por três anos havia se mudado de cidade por causa da faculdade, assim como muitas outras pessoas que ele conhecia. Felizmente, Thayil não estava sozinho nesta situação. 

 

Também sem colegas e sem banda, estava o seu amigo, Hiro Yamamoto.

 

Diante da perspectiva de, bem, não ter nada para fazer, seus pensamentos logo se voltaram para viajar para o mais longe possível. E então, eles partiram em uma viagem de 3 mil quilômetros até a cidade natal de Kim Thayil, Seattle, que ele havia deixado quando tinha 05 anos de idade. No que diz respeito às decisões importantes da vida, é difícil pensar como algo poderia ter sido melhor, afinal, isso levou a dupla a formar o SOUNDGARDEN em 1984 com o baterista, repito: baterista - Chris Cornell.

 

SOUNDGARDEN não apenas se tornou o grande precursor da cena do "som de Seattle" com 06 álbuns de estúdio, mas Kim Thayil também se destacou como ser o guitarrista mais inventivo da cena. Basta olhar para ele criando as misteriosas notas de abertura da canção "Flower" (1º disco, "Ultramega OK", 1988).

 

SOUNDGARDEN foi o trabalho da sua vida, enquanto a trágica morte de Chris Cornell em 2017 trouxe fim à mais magnífica das bandas.

 

Thayil, no entanto, esteve ocupado cuidando do legado do grupo.

 

Em 2018, além de retornar aos palcos para a turnê de aniversário do MC5, ele escreveu um ensaio incrivelmente comovente para o box set póstumo da carreira de Chris Cornell, e em janeiro de 2019, se juntou aos seus companheiros de banda - Matt Cameron (baterista) e Ben Shepherd (baixista) - para se apresentarem no evento tributo "I Am The Highway" de Chris Cornell, dando vida à música deles no palco com vocalistas convidados.

 

Ainda em 2019, SOUNDGARDEN lançou o DVD "Live From The Artists Den", se apresentando para um público em êxtase no Wiltern Theatre na cidade de Los Angeles em 2013, uma performance que captura a banda em alto voo na sua experiência e divulgando o fenomenal álbum de retorno do grupo, "King Animal" (6º disco, 2012). Thayil esteve presente na festa de lançamento do DVD com uma sessão de estreia nos cinemas junto com os fãs.

 

Conversando com a revista Kerrang direto de sua casa em Seattle, Thayil é, ao mesmo tempo, ferozmente inteligente e profundamente sério, mas também extremamente cortês, afável e até mesmo propenso a gargalhadas baixíssimas. E há muito o que falar. Não apenas em relação ao passado e presente, mas talvez o mais importante, o que o futuro reserva para ele...

 

Jornalista: Como você se sentiu assistindo o "Live From The Artists Den" no cinema junto com os fãs?

 

Kim Thayil: Tentei não expressar algo negativo enquanto assistia (risos). Eu não gostaria que o público avaliasse o desempenho com base na minha reação se eu estremecesse ou hesitasse, só porque vi algo que ninguém mais viu. É um pouco estranho, tipo, é como se olhar no espelho, mas não é em tempo real e não há nada que você possa fazer para ajustar a imagem. Você só precisa se sentar e deixar levar!

 

 

Jornalista: O mais impressionante é como as músicas do álbum "King Animal" se mantém contra os clássicos mais antigos. Na época, você estava determinado a provar que o SOUNDGARDEN não dependia da nostalgia?

 

Thayil: Sabíamos que o público queria ouvir as canções clássicas como "Black Hole Sun" e "Spoonman" (ambas do 4º disco, "Superunknown", 1994), e queríamos tocar essas músicas para eles, mas também estávamos tentando impressionar uns aos outros. Uma das coisas que eu disse quando o grupo retornou em 2010, foi que, embora apreciamos e amamos o nosso público, sempre tocamos um para o outro da banda. Esse sempre foi o tipo de banda que éramos, desde o início. 

 

Além disso, embora tivéssemos um monte de singles lançados, mais do que eu me lembre às vezes, não éramos o tipo de banda que tinha um grande corpo de grandes sucessos, sabe? Não éramos o ROLLING STONES ou o NIRVANA (risos). Nosso objetivo sempre foi pensar em novas maneiras de descrever o que é estar no SOUNDGARDEN, onde manipulamos elementos sombrios, de peso ou estranheza. 

 

Na verdade, o que nos separava de muitas outras bandas do nosso gênero era provavelmente que éramos estranhos. Fizemos muitas coisas peculiares, estranhas e acho que isso nos deu aquela 3ª dimensão onde você quase pode enfiar a mão na música e sentir a borda dela em seus dedos, sabe? Acho que continua atemporal, porque também éramos esquisitos e meio patetas.

 

 

Jornalista: Considerando o quão estranhas técnicas algumas músicas do SOUNDGARDEN possui, alguma vez você ficou apreensivo em toca-las ao vivo?

 

Thayil: A canção "Black Hole Sun", só porque é muito delicada. Algumas das partes da guitarra eram como partes do piano e você se sente nu e exposto ao tocá-las. A introdução sempre me deixou nervoso, sabe? Eu me virava e ficava olhando para Matt Cameron e ele iria sorrir para mim se eu perdesse uma nota. A cada cinco ou seis shows, eu fazia isso e ele ria de mim e eu me virava para a plateia rindo.

 

 

Jornalista: Vamos voltar ao início de sua jornada como músico. A internet relata amplamente o nome da sua primeira banda como ZIPPY AND HIS VAST ARMY OF PINHEADS. Isso é verdadeiro ou falso?

 

Thayil: Esse nome está incorreto! Zippy The Pinhead era um gibi underground. Éramos BOZO AND THE PINHEADS. Éramos uma banda de punk rock de Chicago e havia um palhaço popular em Chicago - e em todo o país - que se chamava Bozo. Peguei a parte do Pinheads da música dos RAMONES e fazíamos covers do SEX PISTOLS e DEVO, mas a maior parte das músicas que tocávamos eram autorais. 

 

Comecei a escrever letras quando tinha 12 anos de idade. Eram meio bobas, na maioria estranhas. Algumas eram canções de amor para paixões pré-púberes, e o resto era sobre como eu não me encaixava e tudo era uma merda. A primeira música apropriada que escrevi foi chamada "Plastic Love" e ainda me lembro da letra.

 

 

Jornalista: Do que fala a letra?

 

Thayil: Eu poderia te dar a música inteira! "Trabalhando o tempo todo / Não chego em casa antes das nove / Pulo direto para a cama com a minha manequim / Seu cabelo é feito de Dacron / A sua mente de celulose / Ela é alguém em quem eu posso deitar / Que está em semi-coma". O refrão diz: "Amor de plástico, amor de plástico, amor de plástico". Me lembro do vocalista da banda me dizendo: "Eu acho que não existe esta tal palavra 'celulose'". E eu falei pra ele: "Existe, isso é coisa de fibra vegetal!'”

 

 

Jornalista: Como era Seattle quando você chegou?

 

Thayil: Era linda. Era metade da população que é agora. Você iria a um show de punk rock e haveria 50 pessoas lá. Se você fosse a um show de metal, haveria 100 pessoas. Os cidadãos de Chicago eram cosmopolitas, integrados e sofisticados, e então havia essa separação estranha, econômica, social e ética dentro de suas fronteiras. Mas em Seattle não tinha essa segregação aberta, mas só porque não precisava. Era principalmente branca. Havia alguns afro-americanos e asiáticos, mas não muitos. O que as pessoas não se lembram é que durante o primeiro semestre éramos "a banda asiática". Éramos Hiro e eu - um cara japonês e um cara indiano - e Chris Cornell era o baterista.

 

 

Jornalista: Partindo deste início ao advento do grunge. Enquanto as bandas dos anos 80 ansiavam pela atenção das massas, os grupos de Seattle muitas vezes pareciam irritados e repelidos por isso. Dito isto, SOUNDGARDEN frequentemente enxergava o afeto do mainstream, digamos, muito histérico?

 

Thayil: (Risos) Às vezes, éramos sarcásticos e esse sarcasmo era alimentado por cinismo, com certeza. Mas como a cena teve sucesso com as nossas bandas, pensamos em tentar não ser rudes ou maldosos com as pessoas que nos entrevistavam. Foi difícil não rir porque eles que se aproximaram de nós, já que existiam dezenas de bandas do rock'n'roll antes de nós... O que eles não entenderam é que viemos de um lugar diferente, uma subcultura diferente. Não era o glam metal, não era o novo romantismo dos anos 80.

 

Basicamente, as pessoas estavam acostumadas a entrevistar bandas de rock, que foram preparadas e montadas por gravadoras e empresários para serem estrelas. Nós não nos importávamos com isso. Não queríamos transar e nem ficar chapados, só queríamos te machucar ouvindo a nossa música (risos). Muitas pessoas em Seattle eram assim, tipo, os caras do MUDHONEY, GREEN RIVER, NIRVANA e MELVINS. Não precisamos aceitar elogios ou críticas de ninguém.

 

Seattle já tinha aquela vibração própria e ninguém estava tão interessado no pacote que o rock'n roll traz, as pessoas estavam interessados nas canções, escutar música e tocar, porque a cultura rock era ridiculamente boba. Naquela época era só roupa spandex, spray de cabelo, beicinho para as fotos e garotas dançando no capô de um carro, tipo, era estúpido. Como caras formados em antropologia ou literatura inglesa podem levar esse tipo de merda a sério?

 

 

Jornalista: Em 1996, SOUNDGARDEN realizou uma entrevista onde vocês foram chamados de "Frowngarden", mas houve algum outro equívoco sobre a banda que o irritou?

 

Thayil: Sim. Agora, mais do que nunca, vejo que as pessoas entendem o que éramos, mas no início nem sempre era tão claro. Tínhamos muitos fãs que não gostavam do aspecto heavy metal do que estávamos fazendo, e havia pessoas que não gostavam do aspecto punk. Eles provavelmente estavam sentindo falta de algo mais sobre o que a banda tratava. Alguns caras do heavy metal não achavam que estávamos demonstrando proficiência musical, mas tínhamos o melhor baterista do mundo! Mas naquela época, metade do nosso setlist não tinha solos de guitarra porque éramos mais propensos a dar feedbacks ou notas estranhas. Isso incomodava os caras do metal.

 

Também me lembro dos primeiros tempos que as pessoas pensavam que éramos machos demais. Se Chris tirasse a camisa, as pessoas pensavam que era uma brincadeira com imagens machistas. Quer dizer, sim, poderíamos beber mais cerveja do que os nossos contemporâneos, mas também éramos caras inteligentes e estudados. Estávamos meio que na defensiva em relação a isso, mas em algum momento nos anos 90, olhei para Chris e lhe disse: "Talvez sejamos machos demais? Que porra é essa, quem se importa? Acho que somos mais reais do que qualquer outra banda se pudermos ser inteligentes, machos e estranhos, então, vamos continuar fazendo o que estamos fazendo", e Chris começou a rir, tipo: "Ok!".

 

 

Jornalista: Certa vez, você descreveu o período após a separação do SOUNDGARDEN pela primeira vez em 1997, como uma “importante destruição intelectual e artística”. O quanto você precisava daquele tipo de limpeza naquele período?

 

Thayil: Grande parte do meu dia girava em torno da promoção e do envolvimento com o público, concedendo entrevistas para revistas, MTV ou rádio, ou você iria à lojas de discos para assinar pôsteres e encontrar fãs. Acho que precisávamos de tempo para outras coisas, sabe? Todos nós tínhamos namoradas, amigos íntimos, familiares e esses relacionamentos foram abandonados por causa do nosso trabalho. Socialmente falando, havia tantas coisas que eram importantes para nós, mas faltavam profundidade e eram as coisas mais importantes para se ter na vida.

 

 

Jornalista: No encarte do box tributo à Chris Cornell de 2018, você listou as muitas virtudes de Chris e uma delas foi "coragem". O que foi que o tornou corajoso aos seus olhos?

 

Thayil: Foram tantas as coisas que o tornaram corajoso... Certamente em termos de criatividade, ele rejeitou as críticas. As críticas vinham até ele, mas se Chris não achasse que fossem bem fundamentadas, ele iria desconsiderar e não deixava que aquilo o derrubasse. Ele aprendeu um pouco com Andy Wood, vocalista do MALFUNKSHUN e do MOTHER LOVE BONE (ex-colega de apartamento de Chris Cornell que morreu de overdose de heroína em 1990). Andy era assim, ele dizia: "Escreva, grave, mostre para as pessoas e não se preocupe com isso". Chris me ensinou a não ter medo de escrever e tocar. Ele me dizia: "Olha, é ótimo!" E se não fosse, se fosse uma merda, ele dizia: "Vá em frente, não se esconda, não pare". Ele foi solidário dessa forma com todos nós. Como pessoa, durante a maior parte dos anos em que eu o conheci, ele não se curvou. Você não conseguia fazer com que ele fizesse algo que não queria. Se ele queria fazer algo, era difícil dissuadi-lo. Isso mostra fortaleza, força e coragem. 

 

 

Jornalista: Como foi tocar as músicas do SOUNDGARDEN novamente num show como foi no "I Am The Highway"?

 

Thayil: A melhor coisa sobre isso foi tocar aquelas músicas novamente com Matt e Ben, e a próxima melhor coisa foi ter nossos amigos e convidados se juntando a nós. O resto foi um pouco desconfortável. Foi uma espécie de confusão. Emocionalmente falando, estavam mexendo em uma ferida aberta e ninguém estava muito animado de fazer aquilo. Mas ficamos emocionados de tocar as músicas para o nosso público e de tocar uns com os outros no palco. 

 

A vantagem foi a banda estar junto com a nossa família, equipe e amigos. Ver aquela família junta novamente era amor total. Todo mundo estava feliz e com os olhos marejados. Era a família SOUNDGARDEN junta, fazendo o que o SOUNDGARDEN faz, honrando e sentindo falta do nosso amado amigo falecido. Isso foi importante. O resto, tipo, a natureza, promoção e foco de celebridades foi tudo besteira. E sabíamos que seria uma merda entrar nisso. Só fizemos aquilo um pelo outro, para apoiar o legado de Chris. Havia algo estranho e nada íntimo naquela noite... É difícil eu entender isso, mas estou feliz que fizemos aquilo pelos nossos amigos e familiares.

 

 

Jornalista: Desde a morte de Chris, você tem escrito alguma música nova?

 

Thayil: Na turnê do MC5, durante a passagem de som e os ensaios eu escrevia e tocava com Brendan Canty (baterista do FUGAZI), Marcus Durant (vocalista do ZEN GUERRILLA), Wayne Kramer (guitarrista do MC5) e Billy Gould (baixista do FAITH NO MORE). Houve outras inspirações nesta situação que citei, obtendo novos insights sobre a minha abordagem com a guitarra e surgindo com outras ideias. Algumas delas ficaram melhores e eu as escrevi de alguma forma. Definitivamente, estou trabalhando em algumas coisas e haverá algo no futuro.

 

 

Jornalista: É difícil compreender o que você deve ter passado nos últimos dois anos...

 

Thayil: Eu sei o que você está querendo dizer... Acho que todos nós estamos tentando nos encontrar. Matt ainda tem a sua presença sendo baterista do PEARL JAM, então, ele se manteve compondo e gravando, o que é bom. Eu estou apenas tentando voltar para baixo, voltar para o planeta Terra... Na verdade, não sei se a Terra é o lugar adequado para compor (risos). Nós definitivamente encontraremos os nossos caminhos, seguiremos em frente e faremos coisas originais novamente. Com sorte, ainda vou fazer coisas com Matt e Ben.

 

 

Jornalista: Muitas pessoas estão se perguntando se algum dia ouviremos a continuação do disco "King Animal", o qual vocês estavam trabalhando também...

 

Thayil: Quando o SOUNDGARDEN terminou, tínhamos passado mais de 01 ano escrevendo e compondo, intermitentemente, entre os shows do PEARL JAM e as turnês solo de Chris Cornell. Havíamos escrito e feito demos em mais de 06 canções completas e provavelmente tínhamos outra 06 músicas em desenvolvimento. Poderíamos terminá-las, só exigiria que eu, Matt e Ben pegássemos as performances vocais que Chris gravou e tocássemos junto para terminar as músicas. Podemos fazer isso e em algum momento no futuro faremos. Neste ponto, não temos posse dessas fitas de trabalho. Há muitas pontas soltas por aí e coisas que eu adoraria fazer com Matt e Ben. Há algumas demos que eu gostaria de saber se Chris escreveu as letras para elas ou não... Não sabemos ainda.

 

 

Jornalista: Se você fosse escrever a história da sua vida até agora, qual seria a moral da história?

 

Thayil: Deus... Bom, às vezes eu posso entender a minha vida como um roteiro, não muito diferente das histórias em quadrinhos que eu costumava ler quando era criança. Esses superlativos, comportamentos e relações que só parecem existir no universo fictício dos quadrinhos? Aparentemente, eles existem de verdade.

 

 

Jornalista: Então, a que moral chegamos?

 

Thayil: Que eu não estou escrevendo esse roteiro (risos)! Achei que estava escrevendo, mas não estou.

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