• Estácio S. Filho

Soundgarden: o show que iniciou uma era na história musical em Seattle


Em uma prévia de sua próxima biografia sobre Chris Cornell, o autor e jornalista da revista Spin, Corbin Reiff, conta a história da banda que mudaria as programações futuras em Seattle.


O livro se chama "Total Fucking Godhead: The Biography of Chris Cornell" e será lançado hoje, 28/07/2020 (foto). E como aperitivo, a revista Spin compartilhou uma sinopse de como o show de 1985 do SOUNDGARDEN em Seattle ajudou a estimular os planos da Sub Pop Records.


O próprio autor do livro dá uma ideia de como tudo aconteceu:



Você realmente não pode contar a história do SOUNDGARDEN e Chris Cornell sem falar sobre a gênese da Sub Pop Records. Você também não pode contar a história expansiva da Sub Pop sem reconhecer o importante papel que o SOUNDGARDEN desempenhou ao tirar este selo do papel.


Um dos primeiros lançamentos pela Sub Pop foi o primeiro single do SOUNDGARDEN, "Hunted Down" / "Nothing to Say" em julho de 1987, seguido apenas alguns meses depois pelo EP de estreia da banda, "Screaming Life". Limitado a 500 cópias inicialmente e pressionado em um vinil laranja claro, "Hunted Down" serviu como uma introdução selvagem e cheia de riffs à estética pesada do SOUNDGARDEN.


Antes da Sub Pop se tornar o ponto de partida para alguns dos artistas com maior impacto cultural na história musical americana, o selo começou como um fanzine underground escrito por um "estrangeiro" nascido em Chicago, Bruce Pavitt.


Pavitt era amigo do guitarrista do SOUNDGARDEN, Kim Thayil, que uma vez tocou em uma banda chamada IDENTITY CRISIS com o irmão mais novo de Pavitt. Quando Pavitt começou a lançar fitas cassete e discos com o nome da Sub Pop, fazia sentido que ele e Thayil pudessem trabalhar juntos em alguma coisa. O único problema era que, embora Pavitt tivesse credibilidade e conexões no mundo do rock independente, ele não tinha recursos para fazer isso acontecer. Foi quando outro "estrangeiro" do meio-oeste para Seattle, um cara chamado Jonathan Poneman, entrou em cena.


Poneman foi um dos fãs mais antigos e dedicados do SOUNDGARDEN. Tudo começou com um show que ele viu no início de carreira da banda no Rainbow Tavern, perto da Universidade de Washington, em Seattle. Depois daquela noite, ele saiu convencido de que tinha que fazer o possível para ajudar esse grupo a lançar e divulgar um álbum. Ele finalmente fez uma parceria com Pavitt e investiu U$ 20 mil dólares com o seu próprio dinheiro para ajudar Chris Cornell e a banda a realizarem os seus sonhos.


Enquanto pesquisava materiais para o meu livro, "Total Fucking Godhead: The Biography of Chris Cornell", fui até a sede da Sub Pop e me sentei com Poneman para entrevistá-lo sobre as suas memórias de Cornell, SOUNDGARDEN e da noite fatídica que mudou a cena musical em Seattle para sempre.


Era uma noite fria e fora de época em Seattle, no dia 30 de julho de 1985. Depois da banda ter feito os ensaios naquela tarde, Jonathan Poneman estava levando o seu amigo Mark para casa, quando ele decidiu percorrer o Distrito Universitário da cidade para manter contato com o promotor de um pequeno local, um clube (fabuloso) chamado Rainbow Tavern.


Poneman havia se mudado recentemente da cidade de Toledo, Ohio, e se matriculado na Universidade de Washington, onde conseguiu um papel como um dos DJs da rádio universitária da KCMU. Para ajudar a arrecadar fundos para a emissora, ele começou a promover uma mostra semanal de bandas locais para se apresentarem no Rainbow Tavern. Foi uma boa olhada de atenção para a estação de rádio, construindo um elo tangível entre eles e os músicos da cena musical local. Também foi uma boa olhada para o Rainbow Tavern, que imaginou que qualquer banda jovem que tocasse naquela noite tipicamente sonolenta nos dias de semana, traria pelo menos algumas dezenas de amigos ansiosos para gastar o seu dinheiro em bebidas.


Naquela noite, pela grande janela frontal do local, Poneman pôde ver a banda de abertura subir ao palco, SKIN YARD. Ele gostou do que ouviu e ficou especialmente impressionado com o baterista, um garoto chamado Matt Cameron. Ele havia me dito: "Este é um cara que está acima de todos os outros. O guitarrista era bom, o baixista era bom, mas o baterista era realmente ótimo!" O vocalista do SKIN YARD, Ben McMillan, também DJ da rádio KCMU, insistiu a Poneman para que eles se apresentassem sempre neste horário noturno de terça-feira e ficou feliz em ter conseguido, mas ele também teve mais um pedido adicional. Ele falou a Poneman: "Você gostaria que a minha banda e a do K-Clone se apresentassem sempre juntos também?"


K-Clone foi outro talento no ar da rádio KCMU: era o alter-ego de Kim Thayil. A banda dele estava junto há apenas 07 meses e ainda nem tinha um single lançado. "Eu não conhecia Kim, apenas o conhecia pelo nome", disse Poneman. "Eu lembro que Ben mencionou que o baixista Hiro Yamamoto da banda ALTERED estava nessa banda e eu gostava do ALTERED". O sinal de Ben McMillan, junto com a sua afinidade pelo outro grupo de Hiro Yamamoto, foi suficiente para Poneman adicionar o SOUNDGARDEN ao projeto no Rainbow Tavern.


Naquela noite, SOUNDGARDEN subiu ao palco depois do SKIN YARD e Poneman ficou um pouco ouvindo a nova banda de K-Clone e Yamamoto. Algumas dúzias de pessoas sentadas em cadeiras espalhadas pelo chão observavam o quarteto, enquanto a banda se lançava em seu cenário cheio de raiva. Eles abriram o show com a música "No Wrong No Right" (que só seria lançada no 2º álbum de estúdio, "Louder Than Love", 1989), e os olhos de Poneman se arregalaram. Repleto de ameaças com guitarras frenéticas se empilhando pelo ar, aquilo era o mais longe possível dos atolamentos de música comercial.


Yamamoto e Thayil inventaram uma cacofonia impressionante, mas Poneman não conseguia tirar os olhos do jovem vocalista.


Chris Cornell era diferente de tudo que ele já tinha visto antes. Ele era um astro do rock em formação, com mais talento e carisma inexplorado e desconhecido do que qualquer um dos seus colegas locais jamais poderia ter. "Chris estava sem camisa, como ele costumava se apresentar", lembrou Poneman. “Ele cantava de forma apaixonada e tinha um daqueles bigodes de adolescente. Ele não parecia pertencer a esse lugar, pois a sua voz era incrível e sua presença de palco era inacreditável".


Poneman acabou ficando para ver todo o show...


Quando acabou, ele correu para dizer "olá" para a banda: “Fui até a frente do palco e me apresentei a Chris, e lhe disse: 'O meu nome é Jonathan, sou o organizador do evento e cuido das programações das bandas aqui no clube. Preciso dizer a você que foi um dos melhores shows que já vi em toda a minha vida'". Chris ouviu pensativo enquanto Poneman falava sobre o seu canto, a sua música e sua banda. "Me lembro dele sentado, acenando com a cabeça e sorrindo, dizendo: 'Isso é ótimo!'"


SOUNDGARDEN nem sequer tinha feito 10 shows até ali e com esse pequeno incentivo de alguém como Poneman, aquilo significou muito para a banda. "Para mim, ele foi a primeira pessoa que plantou aquela semente de 'vocês serão o futuro do rock'", lembrou Chris Cornell sobre Poneman. “Vocês estarão tocando em lugares enormes e estarão nas estações de rádio comercial de rock que as crianças ouvem nos seus carros”.


Aquele show no Rainbow Tavern, numa brusca noite de verão, anunciou a vinda do SOUNDGARDEN. Chris não tinha como saber que a pessoa que foi conversar com ele no final do show, começaria uma gravadora chamada Sub Pop. Ele não tinha como saber que Poneman finalmente usaria o SOUNDGARDEN como um trampolim crítico para mostrar o melhor rock and roll que o noroeste do Pacífico tinha para oferecer ao mundo.


Para acompanhar uma frase do lendário empresário de Bruce Springsteen, Jon Landau, Poneman "vislumbrou o futuro do rock and roll naquela noite no Rainbow Tavern e o seu nome era SOUNDGARDEN".


"Quando entrei naquele show do SOUNDGARDEN no Rainbow Tavern, eu era um músico em dificuldades", disse Poneman. “Quando saí daquele show do Rainbow Tavern, eu estava lutando para ser o cabeça de uma gravadora. Quando você enfrenta esse tipo de brilhantismo, basta dizer: 'Nossa!'"

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