Alice in Chains: "a reencarnação da banda não veio do nada"

May 31, 2020

 

William DuVall, há 15 anos como vocalista/guitarrista do ALICE IN CHAINS, relembra a sua jornada de punk pirralho para se tornar o homem que ajudou a trazer um dos alicerces do grunge de volta dos mortos.

 

Ele viveu uma vida cheia de música, mas como mostra o seu recente álbum solo de estréia, "One Alone" (2019), Duvall ainda está se desafiando a fazer algo novo e fora da sua zona de conforto.

 

Aqui, ele compartilha palavras de sabedoria sobre seguir o seu próprio caminho, a importância dos amigos, familiares e como escrever e compor músicas que podem mudar a vida das pessoas ao seu redor.

 

Confira a recente entrevista que Duvall concedeu ao site Louder Sound:

 

 

Aprenda com as pessoas mais próximas a você

 

“Durante a minha infância na capital Washington, o mais importante foi a descoberta da música. O meu primo mais velho, Donald, foi morar conosco quando eu tinha 08 anos, trazendo a sua pequena mas muito poderosa coleção de discos. Então, esse foi o verdadeiro impulso para eu descobrir a música nos meus próprios termos. Ele tinha de tudo, de Santana, Roy Ayers e da banda WEATHER REPORT, até o que realmente mais me atraiu na imaginação, o álbum de Jimi Hendrix, 'Band of Gypsies'". 

 

"Aquilo despertou a minha imaginação para tocar guitarra, sabe? Ouvir o disco 'Band of Gypsies' foi a força galvanizadora em termos de pensar: 'Nossa, eu quero fazer isso. Eu não tenho ideia de como ele está fazendo tudo isso, mas eu realmente quero fazer também'. Donald era um ótimo ouvinte e um grande mentor. Foi realmente um grande despertar para mim”.

 

Até instrumentos abandonados possuem vida

 

“Eu descobri o violão com cordas de nylon realmente surrado no porão da minha avó, que o meu tio havia abandonado muito antes. Então, eu estava tocando com esse violão terrível, tentando tirar um som daquilo, mas aquilo foi só o começo e o suficiente para me animar. Quando Donald entrou na marinha, eu tinha cerca de 09 anos. Eu tocava violão há cerca de 01 ano e estava ficando mais eficiente, então, com o primeiro salário do meu primo da marinha, ele comprou a minha primeira guitarra, uma novíssima Fender Mustang. Ele me mostrou como conectá-la através do aparelho de som, para que eu pudesse usá-lo como um amplificador improvisado”.

 

Confie no teu taco

 

“A minha descoberta da música e minha determinação em segui-la como carreira, criaram a parcela de conflitos em minha família. Os meus pais, principalmente o lado da minha mãe, são muito orientados para a educação escolar e muito incentivadores em termos das escolhas de carreira. Então, a minha mãe imaginava eu me tornando advogado ou talvez professor, mas no final, a minha busca acabou sendo justificada. Agora eles podem ver um sucesso muito claro e demonstrável e está tudo bem”.

 

Aprecie a sua mãe

 

“A minha mãe me levava aos shows quando eu era menor de idade. Você só poderia ir se fosse alguém conhecido da banda de abertura ou se tivesse um tutor ou pai para acompanhá-lo. Às vezes, na verdade eu estava de acordo com isso, porque comecei a tocar em bares e clubes aos 15 anos, mas na maioria das vezes, eu me infiltrava e era pego e jogado para fora do local". 

 

"Às vezes, seria apenas uma questão de implorar para a minha mãe me levar a um show. No início dos anos 80, ela ficava sentada meio inquieta lá no fundo da sala enquanto bandas como PIL ou RAMONES estavam se apresentando. Muitos daqueles shows eu tenho certeza que não eram do gosto dela”.

 

Alguns heróis do rock estão do seu lado

 

“A minha mãe até deixou o vocalista Jello Biafra assumir a responsabilidade de quando fui expulso de um show do DEAD KENNEDYS. O gerente do clube me observou no telefone público enquanto eu chamava a minha mãe para vir me buscar. Ela teve que dirigir de volta para a cidade e então, Jello Biafra me descobriu nos fundos do clube pelos barulhos nas lixeiras, porque estava jogando pedras nelas muito chateado. Ele me perguntou qual era o problema e eu disse a ele, foi quando ele me respondeu: ‘Parece o apartheid ao estilo da África do Sul! Eu assumo a responsabilidade garoto'".

 

"Então, a minha mãe voltou ao clube para me buscar e eu a trouxe pelos fundos do clube e a apresentei a Jello Biafra. E novamente para o seu crédito, ela deixou isso pra lá e eu pude assistir este show”.

 

Crie a sua própria cena

 

“A capital Washington teve uma das maiores cenas emergentes de hardcore de todos os tempos. No momento em que descobri tudo isso, nos mudamos para a cidade de Atlanta, onde literalmente não havia nada acontecendo, mas acabou sendo ótimo porque no verdadeiro estilo do punk rock tivemos que criar algo do nada. Os meus amigos e eu fomos os pioneiros abrindo caminho na selva com facões e criando um espaço para o punk rock e speed rock orientado a jovens e dirigido por jovens". 

 

"Não havia thrash metal em Atlanta e conseguimos. Não havia clubes para todas as idades, então fizemos isso acontecer. Parecia difícil passar a maior parte do tempo, especialmente desde que a minha segunda banda se chamava NEON CHRIST e depois mudamos o nome para BIBLE BELT. A polícia te odiava, os seus professores te odiavam e os seus pais certamente não te aguentavam". 

 

"Se você conseguisse reunir dinheiro o suficiente para entrar num estúdio, os engenheiros de som te odiavam. Eu nunca adotei acessórios punk em mim, mas mesmo assim tirávamos a vida com as nossas próprias mãos andando na rua naqueles dias. Havia muita gente da zona rural na cidade e eles estavam ansiosos para espancar alguém por qualquer motivo". 

 

"A banda NEON CHRIST teve uma mensagem política em muitas de nossas músicas, coisas que acabaram influenciando bandas como o RAGE AGAINST THE MACHINE. Foi esse tipo de perspectiva definida para essas músicas que as pessoas acharam inerentemente ameaçadoras. Ainda tenho adultos chegando até mim até hoje e me dizem: 'Quando eu tinha 15 anos, fui expulso da escola por escrever o nome da sua banda no meu caderno'".

 

Procure espíritos afins

 

"Em 1999, eu tinha essa banda chamada COMES WITH THE FALL. Chegamos em Los Angeles e começamos a correr por aí, tocando em qualquer lugar que nos aceitasse. Um amigo em comum me apresentou Jerry Cantrell para nós (guitarrista do ALICE IN CHAINS). Ele havia nos dito que a reação dele ao nosso primeiro álbum era que não tinha entendido nada, mas que ele estava dentro mesmo assim. Nós nos conhecemos num clube em Los Angeles e ele estava saindo conosco todos os dias depois disso". 

 

"Cantrell até se mudou para o prédio onde morávamos, porque ele estava direto lá com a gente, sabe? Ele foi tão próximo de nós e fazia participações em todos os shows que tocávamos em Hollywood. As pessoas até pensaram que ele estava se juntando à nossa banda". 

 

"Cantrell até nos substituiu tocando baixo quando o nosso baixista foi preso em Atlanta - ele tinha passado um baseado para um policial disfarçado e foi preso. Enquanto isso, Cantrell queria fazer alguns shows para o seu álbum solo, 'Degradation Trip'. Acabamos sendo a sua banda de apoio e de abertura dos shows. Aquilo deu a Cantrell e a mim muita história e milhares de quilômetros na estrada. Nós estávamos 'morando' juntos num ônibus de turnê por 02 anos, sabe?"

 

"Então, você conhece as pessoas nessas circunstâncias, não é? E quando você avança até 2006, a reencarnação do ALICE IN CHAINS não veio do nada, cara... Anos de história informaram tudo isso".

 

Supere os seus medos

 

“Eu tive muitos bloqueios psicológicos, problemas e apreensões internas, sobre colocar a música em meu próprio nome. Eu sempre fui um 'cara da banda'. A ideia de lançar um álbum solo de William DuVall me assustou por algum motivo, mas parecia funcionar organicamente como costumam fazer as melhores coisas da vida. É uma coisa íntima, sou só eu, sabe? É um violão e uma voz para todo o álbum, o que é uma grande pergunta para o ouvinte, mas eu só digo que este é um simples álbum de William DuVall, é só isso”.

 

Tribalismo no rock não é novidade

 

"Não me considero membro de nenhuma cena, mas havia muito tribalismo no punk rock e no hardcore nos primeiros dias e claro, o velho punk versus metal. Se você tivesse cabelos compridos e fosse num show de punk rock, você seria expulso do local, cara. Ou se você, como punk rocker, aparecesse em um show de heavy metal, pronto, levaria um chute para final da história". 

 

"Mas eu não me preocupava com isso, porque sempre via como era inútil esta situação. As minhas bandas favoritas sempre foram do jeito que queriam ser. Jimi Hendrix seguiu o caminho que ele queria seguir. Miles Davis, John Coltrane e BLACK FLAG, todos fizeram do seu jeito. A banda BAD BRAINS era a maior banda de thrash metal que já tinha existido, tipo, imagina esses caras sendo tão bons em um certo tipo de speed rock hardcore virtuosista e altamente musical ao mesmo tempo e então, eles decidem tocar reggae e lhe dão um chute na bunda". 

 

"Você tinha um público de garotos cheios de testosterona prontos para arruinar uma sala e eles iriam escutar playback nos shows? Imagina como essas crianças ficariam chateadas e só fez o BAD BRAINS açoitar todo o cenário daquela maneira!”

 

A boa música sempre se conectará

 

“Os shows solo que consegui fazer foram muito legais (devido a pandemia mundial). Foi lindo e num show em Minneapolis eu pedi para que um rapaz pedisse a sua namorada em casamento no palco e foi maravilhoso. Este álbum é tão íntimo por natureza que realmente se presta à auto-reflexão ao ouvinte". 

 

"Um colega me escreveu dizendo que acabara de voltar do hospital no nascimento de seu primeiro filho recém-nascido. Ele colocou o meu disco para tocar, se sentou no sofá e apenas chorou algumas lágrimas de alegria ao ouvir a minha música. Existem apenas histórias incríveis como essa que eu fico sabendo..." 

 

"Também teve um garoto de 12 anos que apareceu no meu show na capital Washington. Depois do show, ele estava em pé numa mesa dentro do supermercado junto com a mãe dele, depois de ambos terem assistido ao meu show e ele chorava, dizendo: 'Agora eu sei que posso tocar essa música que é o que realmente quero tocar!' Só porque ele se divertiu no show, sabe? Porque as outras crianças viviam incomodando ele na escola, pois ele não estava ouvindo hip hop como todas as outras". 

 

"Só espero que esse garoto mostre tudo do que ele é capaz, assim como eu fiz".

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