Mark Lanegan: "em vez de ser uma influência positiva para Kurt Cobain, me tornei um facilitador para a sua ruína"

May 25, 2020

 

O sobrevivente do grunge, Mark Lanegan, foi entrevistado pela revista britânica New Music Express e falou mais sobre o seu novo livro autobiográfico, Sing Backwards and Weep, revelando as suas novas memórias escaldantes, saindo com Kurt Cobain e é claro, essa briga com Liam Gallagher que gerou algumas farpas em rede social.

 

Muito se escreveu recentemente sobre como os vírus se espalham, mas Mark Lanegan (ex-vocalista do SCREAMING TREES) estava um pouco à frente da curva. O seu novo livro de memórias sobre a sobrevivência do grunge dos anos 90, Sing Backwards and Weep, também documenta, entre outras histórias contundentes, o trabalho pioneiro realizado nesse campo pelo falecido vocalista do SOUNDGARDEN, Chris Cornell. 

 

No livro, Lanegan também se lembra de ter ficado com um resfriado terrível no estúdio quando a sua banda, SCREAMING TREES, estava gravando o álbum "Uncle Anesthesia" em 1991 (5º disco).

 

"Cornell insistiu que eu permitisse que ele lambesse o meu globo ocular para testar a sua própria teoria sobre transmissão de vírus", ele escreve. “Obviamente fiquei encantado por participar do experimento. Chris nunca ficou doente e não me lembro se isso provou ou refutou a teoria dele, mas foi uma maneira eficaz de me fazer rir".

 

Não tente fazer isso em casa, mas é um momento raro, doce e brincalhão em uma história de vida que, de outra forma, torna um ícone do rock underground com um vício paralisante em heroína, parecer um jovem se lembrando das tenras amizades. 

 

Numa parte do livro, Lanegan relata quando estava em turnê pelos EUA no ano de 1996, enquanto perigosamente esgotado, ele se arrastava cagando e vomitando pelas ruas, para que em seguida (algumas páginas adiante), Lanegan está em Amsterdã, Holanda, ainda tentando se segurar para apenas ser repetidamente roubado, assaltado e envergonhado.

 

Quando fui entrevista-lo, cheguei a dizer para ele que apenas ler sobre as suas experiências foi o suficiente para me afastar completamente da heroína.

 

Agora com 55 anos e sóbrio, Lanegan desfruta de uma carreira solo frutuosa desde o seu disco solo de estreia dos anos 90, "The Winding Sheet" (1990), lançando o seu fantástico mais recente álbum, "Straight Songs of Sorrow" (12º disco, 2020).

 

Ele se lembra desta turnê européia em particular como uma das experiências mais brutalizantes de sua vida e um tempo que ele achou punitivo reviver durante o processo de escrita do seu livro: “Esse capítulo teve o dobro do tempo que todos os demais”, ressalta, “mas de certa forma, foi o capítulo mais importante, porque eu deixei de ser esse delinquente juvenil e participei de turnês pela Europa tentando ficar bem sob os piores problemas e condições. Foi facilmente o passeio mais angustiante da minha vida, sabe? Eu acho que isso aparece bem no livro".

 

Isso é um eufemismo característico. Notavelmente, esse passeio condenado não chega nem perto do fundo do poço para Lanegan, que acaba morando nas ruas com o seu corpo infestado de piolhos e os dentes podres. Fumar crack o suficiente para provocar um derrame e em seguida, consumir heroína para se recuperar não é uma opção de estilo de vida saudável. 

 

Não é até as páginas finais do livro onde ele encontra alguma saída. Ele já considerou Courtney Love um incômodo, mas ela surge como o anjo da guarda que faz o seu caminho na reabilitação.

 

Existe um dilema óbvio quando se trata de escrever um relato geral da sua vida, que é quase certo que você acaba expondo as verrugas de todos os que o rodeiam. A banda SCREAMING TREES se separou em 2000 e o guitarrista Gary Lee Conner sai muito mal no livro. Recentemente, o próprio guitarrista admitiu que "muitos dos fatos podem ser precisos", mas retrucou a Lanegan dizendo que as histórias do vocalista são "entregues com um veneno que é desconcertante e que a sua decisão de expor a velha roupa suja é cruel e mesquinha".

 

Você pode se surpreender ao saber que Lanegan não dá a mínima para o que Conner pensa: "Lee Conner tem sorte de não ter contado toda a verdade quando se trata dele", Lanegan cospe. "Ele nunca seria capaz de mostrar o seu rosto em público novamente se eu dissesse a verdade real sobre o idiota que ele era".

 

Lanegan estava em termos marginalmente melhores com o irmão de Lee, o baixista do SCREAMING TREES, Van Conner, mas diz que os esforços do baixista para ajuda-lo nas histórias do livro durante a sua formação, não deram em nada: "Van Conner escolheu ignorar todas as ligações", diz ele. "Depois de ler uma página do livro, ele fez ameaças físicas, o que é uma piada, porque ele sabe que eu poderia desmontá-lo. E seria, da próxima vez que eu o visse. Em outras palavras, levei na calma com esses caras. ”

 

Vamos lá, Mark Lanegan, conte como você realmente se sente! "Honestamente, eu odeio dizer isso, mas esses caras tiveram a sorte de me terem na banda", continua Lanegan, parecendo desconfiado como se ele não odeia dizer nada: “A minha experiência no grupo foi como arrastar um barco por uma montanha".

 

Lanegan dirigiu o seu incipiente livro para Josh Homme, que foi guitarrista na turnê final do SCREAMING TREES - entre o término da banda KYUSS e formação do QUEENS OF THE STONE AGE. Acabou sendo um exercício produtivo porque Homme foi capaz de preencher certas lacunas na narrativa. Houve uma noite em turnê que Lanegan havia escrito que ele não conseguia fazer nada, estava sem reação. Coube ao seu amigo Josh Homme lembrá-lo exatamente por que isso aconteceu: eles foram ameaçados na mira de armas por traficantes, quando apresentaram Homme como um policial disfarçado.

 

"Para mim foi apenas uma noite em que não consegui fazer nada", Lanegan ri. "Para Homme, causou uma grande impressão porque eu quase o matei".

 

Escusado será dizer que Lanegan não buscou a opinião de Liam Gallagher sobre o livro (vocalista do OASIS). Com certeza você já deve ter lido alguma coisa sobre eles recentemente pela internet. Enquanto que o SCREAMING TREES estava em turnê com o OASIS em 1996, Liam se apresentou a Lanegan gritando "Howling Branches!" na cara dele (algo como "Ramos Uivantes"). Lanegan, é justo dizer, ficou ofendido. Ele rasteja Liam metodicamente ao longo de um capítulo inteiro, descrevendo o ex-líder do OASIS como um “incômodo mosquito” e sugerindo que ele já foi “um garoto de calças curtas, em um dia ensolarado, alegremente balançando o seu minúsculo pinto enquanto fritava formigas debaixo de uma lupa”.

 

Quando trechos do capítulo foram compartilhados recentemente em rede social, Gallagher respondeu chamando Lanegan de "um viciado entediado com as suas pequenas calcinhas sujas numa reviravolta interna". Lanegan não se mexeu nem um centímetro, respondendo: "Quem cheira cocaína também são viciados. Ainda tentando provar que é uma pessoa durona. Eu ainda poderia causar um sério dano a você, cara. Deixe isso em paz, idiota, a menos que você esteja realmente pronto para finalmente começar aquela briga marcada”.

 

Falando agora, Lanegan parece ter amadurecido em relação a Liam - mas só um pouco: “O livro foi escrito do meu ponto de vista há 25 anos atrás, sabe? Não é como eu realmente vejo o cara agora... É que ele me abordou com enorme desrespeito logo de cara e isso foi algo que eu simplesmente não aceitava vindo de uma pessoa 10 anos mais nova do que eu, mas então, hoje eu vejo ele como um tio excêntrico, entende o que eu quero dizer?"

 

Algumas das letras mais poderosas e afetantes de Lanegan dizem respeito à sua amizade com Kurt Cobain. Tendo transmitido a história de marcar uma negociação por heroína para o líder do NIRVANA, ele se emociona com o conhecimento de que "em vez de ser uma influência positiva nesse cara, porque eu considerava Kurt um gênio e amava o meu irmãozinho, me tornei um facilitador para a sua ruína". A dupla estava sempre por perto - eles estavam tocando violão juntos quando Cobain compôs a canção "Something in The Way" e que foi lançada no disco "Nevermind" do NIRVANA - e Lanegan estava na primeira fila quando o álbum mudou tudo, não apenas para a sua própria banda, mas para toda a cena de Seattle e mundial.

 

Logo após o lançamento da música single do álbum "Nevermind", "Smells Like Teen Spirit", Lanegan lembra de sair com Cobain num hotel em Seattle.

 

"Estávamos prestes a sair na noite e estávamos deitados na cama do hotel. Kurt estava conversando com alguém ao telefone sobre alguma coisa de negócios. Como estava um dia quente, as janelas estavam abertas. Estávamos no 3º andar e a MTV estava ligada na TV. Eles estavam tocando a canção 'Smells Like Teen Spirit' o tempo todo. Kurt havia entrado numa discussão acalorada com quem estava conversando ao telefone e puxou o fio da parede. Nesse momento, o clipe da música 'Smells Like Teen Spirit' começou a tocar na MTV. Ele pegou a minha bota, que estava entre nós na cama, e jogou na TV. Foi um lançamento perfeito! Porque ele desligou a TV e naquele momento, três andares abaixo, ouvimos um carro passando na rua com a canção 'Smells Like Teen Spirit' tocando na rádio do carro!” Lanegan solta uma risada profunda que rola no ar como um trovão: "Foi quando eu percebi que não havia como escapar daquilo".

 

Incrivelmente, em 2021 marcará 03 décadas desde o lançamento do hino "Smells Like Teen Spirit", mas a música do NIRVANA não parece ter envelhecido. Lanegan não esteve ciente do recente tributo transmitido ao vivo de Post Malone ao NIRVANA pela internet - até onde posso dizer que ele não tem idéia de quem é Post Malone - mas não ficou surpreso ao saber que a música de Cobain ainda ressoa nas pessoas de maneira tão poderosa.

 

"Não vi isso, mas gostaria de conferir", diz ele. "É legal que um rapper faça isso. Eu acho que o NIRVANA ainda é tão vital hoje como era na época. Se uma estrela do rap está gastando tempo para fazer um tributo ao NIRVANA, isso é muito foda”.

 

O livro Sing Backwards and Weep encerra a sua história no final dos anos 90 com Lanegan indo para a clínica de reabilitação, muito antes das colaborações com o QUEENS OF THE STONE AGE - banda que marcou o início do 2º ato de sua vida.

 

Ele revela que realmente foi chamado para um papel maior na banda: "Josh Homme me pediu para ser o vocalista do QUEENS OF THE STONE AGE antes dele gravar o 1º álbum", diz ele. “Isso foi quando o SCREAMING TREES ainda era uma banda supostamente ativa. Ouvi e pensei: 'Seria fantástico, mas você precisa ser o vocalista dessa coisa'. Além disso, como aconteceu, fiquei internado numa clínica de reabilitação por quase 01 ano, então, perdi a oportunidade de encarar o desafio desde o início".

 

Ele compensou o tempo perdido com contribuições arrasadoras para o QUEENS OF THE STONE AGE. Lanegan cantou algumas músicas para os álbuns "Rated R" (2º disco, 2000) e "Songs For The Deaf" (3º disco, 2002): "O conceito de Josh em ter 03 vocalistas parecia estranho na época, mas foi realmente ótimo", diz ele. "Estou realmente orgulhoso do que fizemos com o álbum 'Songs For The Deaf'. Essa formação com Nick Oliveri (baixista/vocalista), Josh Homme (vocalista/guitarrista), Dave Grohl (baterista) e eu, foi facilmente a banda mais poderosa em que eu já estive na minha carreira”.

 

Hoje em dia a vida parece um pouco mais calma do que nos velhos tempos, quando ele estava, por exemplo, ocupado levando Homme em uma extensa excursão guiada às lendárias sepulturas pela Europa: "Ainda sou muito amigo de Nick e Josh", diz ele, com o que parece dizer assustadoramente com satisfação: "Conversamos, enviamos mensagens de texto, vamos ao cinema, almoçamos e coisas assim".

 

Ficar sóbrio também fez maravilhas na produtividade de Lanegan. Ele levou 08 anos para lançar os seus 03 primeiros álbuns solo. Já nos últimos 08 anos, ele lançou 06 discos solo. "Straight Songs of Sorrow" foi composto logo após o seu livro ter finalizado e apresenta um enorme peso do livro: "Logo de cara eu percebi: 'Nossa, espere um minuto, essas músicas são meio pesadas'", lembra ele. "Percebi que essas canções foram diretamente uma extensão do livro".

 

A finalização do disco a tempo de lançá-lo ao lado do livro exigia uma reviravolta apertada, mas felizmente para Lanegan, ele pôde convocar colaboradores como John Paul Jones, baixista do LED ZEPPELIN: "Quando você faz John Paul Jones tocar em algo que você compôs", observa ele, "você pode se aposentar depois disso".

 

Ele diz isso, mas sinto que Mark Lanegan não desligará o microfone tão cedo. Ele teve que lutar e se desfazer para ainda estar aqui, e um dia em breve ele sairá com os olhos "lambidos" junto com o resto de todos nós. 

 

Por direito, ele deveria estar morto várias vezes. Isto ensinou a ele o que é preciso para ser um sobrevivente? Lanegan finaliza: "Quero dizer, todo mundo que está vivo hoje é um sobrevivente", ressalta. “Você, eu, todo mundo. Dito isto...” e Lanegan solta outra risada como um trovão, "a vida não vai durar para sempre!"

 

O site rockinthehead publicou algumas matérias sobre a promoção do novo livro de Mark Lanegan. Para conferir, é só clicar nos títulos abaixo:

 

* Mark Lanegan: "a heroína me impediu de morrer de alcoolismo"

 

* Screaming Trees: a treta que rolou com o Oasis nos anos 90

 

E bem nas antiga, o site rockinthehead tinha publicado uma matéria especial sobre o SCREAMING TREES, saca só:

 

* Screaming Trees: um filho esquecido de uma geração

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