Revista 89 Rock: matéria de capa sobre o Nirvana em 2000 - Parte 1

May 20, 2020

 

Lá em abril de 2000, a revista brasileira 89 Revista Rock havia publicado uma matéria de capa sobre o NIRVANA (foto), mais especificamente sobre o seu frontman, Kurt Cobain, que marcava exatamente 06 anos do seu falecimento.

 

A reportagem aborda mais as histórias pessoais de Cobain com um breve resumo de sua vida e carreira musical.

 

Segue a matéria completa logo abaixo:

 

O Homem Que Vendeu o Mundo

 

Como líder da banda mais importante dos anos 90, NIRVANA, Kurt Cobain teve o mundo aos seus pés. Mas, pelo preço de uma bala em sua própria cabeça, preferiu entrar para a história como uma das grandes tragédias do rock'n roll.

 

Era um dia frio como os outros do inverno norte americano aquele 20 de fevereiro de 1967. Na verdade, era um dia como outro qualquer, menos para o casal Wendy Elizabeth Fradenburg e Donald Leland Cobain, que residia na pequena cidade de Hoquiam, no Estado de Washington. Naquele dia, nascia no Hospital Comunitário Grays Harbor seu primeiro e único filho, Kurt Donald Cobain.

 

O pequeno Kurt ainda não sabia, mas ele vinha ao mundo para uma breve e devastadora passagem. Anos depois, ele entraria no seleto clube dos que realmente mudaram a maneira de se ouvir e enxergar o rock'n roll.

 

À frente do NIRVANA, Kurt colocou no inicio dos anos 90 o rock novamente nas paradas, se encheu de sucesso e meteu uma bala na cabeça em abril de 1994, deixando o mundo inteiro perplexo. Mas conhecendo a trajetória do vocalista do NIRVANA, fica a sensação de que ele apenas cumpriu o seu destino trágico.

 

Hiperatividade

 

Pouco tempo depois do nascimento do filho, o casal Cobain retornou a Aberdeen, também no Estado de Washington, onde Kurt foi criado. Ele não foi uma criança fácil. Antes de completar o 3º aniversário foi acusado por um amigo de 07 anos de ter tentado cortar a sua orelha fora. Na mesma época, a polícia visitou a família Cobain pela 1ª vez. Motivo: Kurt estava torturando o gato de uma vizinha. A aversão aos policiais surgiu nessa época. Ao mesmo tempo, o garoto era considerado uma criança amável, adorava desenhar e escrever pequenos poemas. A maioria deles era endereçada à mãe, nunca ao pai.

 

Uma de suas ilustrações chegou a ser capa do jornal da escola onde estudava. Hiperativo, não conseguia se concentrar nas aulas e começou a tomar remédios (estimulantes do sistema nervoso central). Isso o levou a passar noites inteiras em claro e a dormir durante o dia, normalmente em sala de aula. Mas, se por um lado Kurt ia mal nos estudos, por outro começou cedo a se interessar por música.

 

Já aos 02 anos de idade ganhou a sua primeira guitarra de brinquedo. Aos 07 anos iniciou a sua enorme coleção de discos que a princípio era composta por álbuns dos BEATLES e dos MONKEES. Mas o seu disco preferido era "Alice's Restaurant", do cantor folk Arlo Guthrie. Quando estava na 3ª série, Kurt começou a ter aula de bateria. Queria ser Ringo Starr.

 

"Odeio Papai"

 

Por ser filho único, Kurt sentia-se uma criança muito sozinha. Procurou suprir essa carência criando um amigo imaginário, Bodah. Conversava, brincava e fazia de tudo ao lado dele. Muitas vezes, Kurt fazia sua mãe separar um lugar à mesa para Bodah se sentar com a família. O único que ignorava a "existência" do amigo imaginário era o pai de Kurt, que nunca entrava na brincadeira. A prova maior da sua profunda ligação com Bodah: foi para ele que o vocalista do NIRVANA escreveu a sua nota suicida.

 

Logo nessa idade a reviravolta na cabeça de Kurt começou quando os seus pais se divorciaram. Até os problemas de saúde, como as crises de bronquite, pioraram. Na cama que pertenceu a Kurt, na casa de sua mãe, era visível um rabisco que ele fez: "Eu odeio mamãe, eu odeio papai. Papai odeia mamãe, mamãe odeia papai. Isto só te faz ficar realmente triste". 

 

Depois do divórcio dos pais, Kurt virou um nômade. Morou na casa da mãe, do pai, de parentes, amigos e debaixo da ponte de Aberdeen. Também passou um tempo na cidade de Olympia e depois em Seattle. No aniversário de 14 anos, o seu tio Chuck perguntou se ele preferia ganhar uma bicicleta ou uma guitarra. Escolheu o instrumento e ganhou uma guitarra de segunda mão da loja de departamentos Sears.

 

Um Milhão de Tiras Mortos

 

Kurt começou a tomar aulas de guitarra e a beber na fonte do QUEEN, BLACK SABBATH, KISS e LED ZEPPELIN. Passou a se interessar também por grupos punks, como SEX PISTOLS e THE CLASH. Na aula de artes na escola, conheceu Matt Lukin e Buzz Osbourne, respectivamente baixista e vocalista/guitarrista do MELVINS (Lukin seria depois o baixista do MUDHONEY). 

 

Em pouco tempo já era roadie do grupo. Osbourne ainda o apresentou a outro cara da turma, o grandão e desengonçado Krist Novoselic, que tocava baixo. Não demorou para montar a primeira banda com Novoselic que, curiosamente, se chamava SKID ROW (não é aquela)! Vários nomes e formações depois, chegou, com o amigo baixista, ao NIRVANA em 1986. Nesse ano também, Kurt viu o sol nascer quadrado pela primeira vez. 

 

Foi pego cometendo um de seus atos rebeldes preferidos: a pichação. Quando revistado, os policiais encontraram em seu bolso, para azar dele, além de uma palheta e de uma lata de cerveja, uma fita demo chamada "A Million Dead Cops" (Um Milhão de Tiras Mortos). Teve de morrer com U$ 180,00 dólares para não passar 30 dias na cadeia por vandalismo. No mesmo ano de 1986, começou a ter experiências mais fortes com a heroína (no auge do sucesso, chegou a gastar U$ 100,00 dólares por dia se entorpecendo). Muitas vezes, Kurt justificava o uso da droga como a única maneira de controlar as dores estomacais fortíssimas que tinha com frequência. 

 

O problema no estômago durou toda a sua vida e o fez ter várias convulsões - como quando esqueceu de tomar o remédio e desmaiou em pleno café da manhã. Em 1991, durante as gravações do 2º disco do NIRVANA, "Nevermind", já com o baterista Dave Grohl incorporado à banda e pouco antes de estourar para o mundo, Kurt foi a um show do BUTTHOLE SURFERS e conheceu Courtney Love.

 

Paz Depois da Morte

 

Kurt chapou de primeira na líder do HOLE por achar que ela se parecia com Nancy Spungen, a groupie que se tornou mulher de Sid Vicious, baixista do SEX PISTOLS morto por overdose em 1979. Com o NIRVANA no auge do sucesso, casaram-se no Havaí em fevereiro de 1992. Ele de pijama, ela com um vestido que pertenceu a atriz Frances Farmer - que eles idolatravam. Tiveram uma filha que, não por coincidência, foi batizada de Frances Bean. 

 

Parecia que as coisas iriam melhorar para o atormentado Cobain. Que nada... 

 

Um relacionamento intenso, a superexposição na mídia, o sucesso (Kurt não aceitava ser o ídolo da "juventude normal" que ele tanto repudiara), os problemas estomacais... Tudo afundava Kurt cada vez mais nas drogas. Conheceu o fundo do poço quando o casal perdeu temporariamente a guarda da recém-nascida Frances porque uma jornalista afirmou que Courtney teria usado drogas durante a gravidez. Kurt não aguentou o baque. 

 

No começo de 1994, em Roma na Itália, ele tentou se matar tomando barbitúricos com champanhe e ficou em coma. Pouco tempo depois, já de volta a Seattle, Courtney teve de chamar a polícia pois Kurt se trancou com um revólver calibre 38 no banheiro e disse que iria se matar. Os policiais chegaram a tempo de evitar a tragédia. Quatro armas foram confiscadas, mas o fim era inevitável. 

 

Numa última tentativa de salva-lo, Courtney reuniu os amigos de Kurt e organizou uma corrente para que ele voltasse à vida normal. Poucos dias depois, ela foi a Los Angeles para o lançamento do disco do HOLE, "Live Through This". Kurt ligou para ela e disse que o álbum tinha ficado muito bom. Disse ainda, várias vezes, que a amava. Foi a última vez que se falaram. 

 

Sem os revólveres, Kurt telefonou para um amigo e pediu que o acompanhasse numa loja de armas. Disse que estava preocupado com a segurança de sua casa. 

 

No dia 05 de abril de 1994, seguiu um ritual que parecia estar planejado. Escreveu calmamente a carta de despedida. Usou heroína (a dose detectada em seu sangue era suficiente para te-lo matado várias vezes), subiu a uma pequena sala na parte superior de sua garagem - ainda teve a preocupação de deixar a carta ao lado da carteira aberta onde estava a licença de motorista para facilitar a identificação - e deu um disparo seco na boca. 

 

No dia 08 de abril, foi encontrado morto pelo eletricista chamado anteriormente para consertar o sistema de alarme no portão de sua casa. Kurt tinha 27 anos e toda uma carreira pela frente, mas optou, como afirmou a sua mãe ao saber da tragédia, por entrar para o "clube dos estúpidos", referindo-se aos astros do rock que sucumbiram às pressões da fama e morreram prematuramente. 

 

Um clube que, pelo que parece, Kurt sempre sonhou em se associar. Certa vez, questionado sobre o significado do termo "nirvana", ele foi rápido e sucinto: "Paz total depois da morte".

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