Ramones: a resenha do disco "Acid Eaters"

April 28, 2018

 

A biografia dos RAMONES, “Hey Ho Let’s Go: A História dos Ramones”, escrita pelo jornalista musical inglês, Everett True, foi lançada originalmente em 2002. Este jornalista era da revista Melody Maker e foi a mesma pessoa que “descobriu” o grunge em 1989 e mostrou à imprensa britânica, antes ainda do gênero explodir no mainstream em 1991.

 

Portanto, segue logo abaixo um trecho desse livro onde é destacado o 13º álbum de estúdio dos RAMONES, “Acid Eaters”, e que havia sido lançado em 1993:

 

 

 

Foi a coleção de covers psicodélicos dos anos 60, o álbum “Acid Eaters” (lançado em 11 de Outubro/1993), que convenceu a maioria dos fãs de que o tempo dos RAMONES havia chegado ao fim.

 

Estava claro que eles não tinham mais nada a dizer – ou não tinham mais interesse em fazê-lo – sobre as suas diretrizes musicais. O álbum foi gravado no estúdio Baby Monster, New York, em uma tentativa de fazer dinheiro aproveitando o interesse do público que o excelente trabalho de produção de Ed Stasium no disco anterior, “Mondo Bizarro” (12º álbum, 1992), havia despertado - e que também havia sido gravado, em parte, nesse mesmo estúdio.

 

Todo o exercício cheirava a cinismo: da inclusão da estrela pornô, Traci Lords, nos back-vocais do cover “Somebody to Love” (do JEFFERSON AIRPLANE), à calamitosa versão de “Out of Time” (do ROLLING STONES). Membros da própria banda eram proibidos de ficarem no estúdio, enquanto as celebridades convidadas estivessem presentes (o vocalista do SKID ROW, Sebastian Bach, também fez back-vocais nessa última) e a produção de Scott Hackwith esteve entre as piores que os RAMONES já tiveram, transformando a legítima muralha de som dos "bro" em uma banda de rádio universitária.

 

Nem mesmo a presença de Pete Townshend (guitarrista do THE WHO), nos back-vocais do cover de “Substitute” (do THE WHO), conseguiu salvar o álbum. Para acrescentar insultos a injúrias, o baixista CJ Ramone pôde cantar 03 músicas – “Journey to The Center of The Mind” (do THE AMBOY DUKES); “The Shape of Things to Come” (do MAX FROST AND THE TROOPERS); e “My Back Pages” (de BOB DYLAN) – e saiu-se melhor que o vocalista Joey Ramone - ao menos soou como se ele realmente se importasse com o que estava fazendo. Ele foi convidado para cantar uma 4ª música, “When I Was Young” (cover THE ANIMALS), mas Joey sabiamente não deixou.

 

CREEDENCE, BOB DYLAN, ROLLING STONES... Todos esses artistas e grupos tiveram os seus trabalhos massacrados por uma banda que um dia havia sido a melhor do mundo. É difícil saber a quem cabia mais culpa: à pessoa que teve a ideia original de fazer um álbum só de covers (empresário da época); o produtor com os seus babados de rock “bonitinho”; o guitarrista Johnny Ramone por cair fora do estúdio sempre quando tinha chance; ou Joey por levar adiante tudo aquilo?

 

O título do álbum foi tirado de um obscuro filme dos anos 60.

 

“Foi meio estranho”, disse Daniel Rey (guitarrista de estúdio dos RAMONES e grande amigo), sem esclarecer muito e que havia sido chamado novamente para tocar guitarra nesse álbum. “Traci Lords era amiga de Johnny e ele era fã de seu trabalho no ramo musical... Eu realmente não trabalhei com ela nesse disco e acho que ela deve ter tido uma carreira muito curta na música. Também não me encontrei com Pete Townshend, mas Joey estava lá para isso e foi uma grande emoção para ele”.

 

“Eu estava muito nervoso quando Pete apareceu, porque eu nunca o tinha encontrado pessoalmente antes”, disse Joey.

 

“Este álbum deveria ter sido um EP”, disse CJ Ramone, bruscamente. “E isso é fato, algumas das músicas são totalmente sem propósito, como o cover do JEFFERSON AIRPLANE... Oh, meu Deus! Nem a estrela pornô salvou essa canção. Era apenas horrível e horrível! Eu não ouvia nenhuma dessas músicas há tanto tempo, que sequer saberia dizer os seus nomes”.

 

O cover da banda LOVE, “7 and 7 is”, fala sobre sobreviver com a dignidade intacta, assim como a música que abre o álbum, a já citada “Journey to The Center of The Mind”, mas CJ Ramone cantou essa última, embora ele não fosse de forma alguma o vocalista dos RAMONES. Era como pedir a um fã dos RAMONES que tomasse o lugar de Joey nos vocais, enquanto Joey ficasse sentado sem fazer nada.

 

Poderia especular-se que o pragmatismo de Johnny deveria estar correndo desenfreado nessa época e que não era permitido que as preocupações artísticas se interpusessem ao que fosse. A lógica que o guitarrista tinha aplicado anteriormente – usando Daniel Rey, porque gastar tempo e dinheiro tocando uma parte de guitarra por 20 minutos se Daniel poderia fazer o mesmo serviço em 05 minutos – ele aplicava aos vocais de Joey agora. Notoriamente, Joey levava muito tempo gravando, portanto, por que não botar o mais novo cantando já que ele levava muito menos tempo? O fato de que a voz de Joey era quase a única coisa reconhecível dos RAMONES, escapou a ele (ou talvez, Johnny não estivesse nem aí). Os fãs apareciam nos shows, o álbum venderia a mesma coisa independentemente do que a banda fizesse, então, por que se incomodar?

 

Mesmo o cover de JAN & DEN, “Surf City” - uma música que os velhos RAMONES poderiam ter gravado de trás para frente com o pé nas costas - soa fraco e sem brilho. “Costumávamos tocar essa canção nos shows há uns 14 anos atrás”, Joey relatou na época. “Ela aparecia em algumas gravações piratas, então, resolvemos oficializar”. Uma pena eles não a terem gravado naquele tempo...

 

A capa do álbum foi uma feia aproximação da arte dos anos 60, alimentada por ácido LSD.

 

A reação da crítica foi adequadamente bajuladora: “O álbum ‘Acid Eaters’ é motivo de orgulho entre os álbuns dos RAMONES”, escreveu o crítico da revista People, sem a mínima vergonha, “e prova de que, ao combater a pretensão, a banda se tornou numa das mais bacanas do pedaço”.

 

Porém, os fãs de verdade não estavam tão impressionados. “Sempre comprei ingressos para os shows, mesmo podendo entrar como convidada”, explicou a fã e jornalista, Lindsay Hutton. “Desta vez, achei que era desperdício de dinheiro... Na última vez em que tinha visto Johnny, fiz uma crítica negativa do álbum ‘Acid Eaters’ em minha revista, na qual chamei o disco de, ‘Odor Eaters’ (traduzindo, ‘Comedores de Odor’), e ele havia ficado muito ofendido. Então, perguntei a ele quantas pessoas já haviam feito o cover da música ‘7 and 7 is’ na história do rock’n roll?”

 

Infelizmente, foi àquela altura de suas carreiras – quando os RAMONES estavam por fim já nadando desde o final dos anos 80 no reconhecimento que mereciam - que eles se tornaram uma versão diluída de si mesmos.

 

A inexorável máquina de turnê dos RAMONES ainda rodava. Em Janeiro/1993, a banda viajou ao Japão e depois, o grupo cumpriu algumas poucas datas na Europa no meio do ano – mas estava ficando claro que a saúde de Joey não estava muito boa e isso implicava no cancelamento de alguns shows. Assim, vieram outras tantas aparições em ritmo frenético na América do Sul em Junho (em 20 anos de turnês, o ritmo pouco tinha diminuído).

 

“As multidões eram fora do controle na América do Sul”, lembrou CJ Ramone. “Não podíamos sair do hotel e nem andar pelas ruas, sendo que cada membro da banda tinha o seu próprio guarda-costas... Para ser honesto, o que eu mais gostava na América do Sul eram as mulheres, incrivelmente lindas! Gosto da atitude geral que o povo tem no continente, pois a pobreza é tão grande e os garotos que não tem dinheiro gostam muito de rock. O rock’n roll não morreu por lá, ao contrário do que aconteceu aqui nos EUA, especialmente na Costa Leste”.

 

CJ emendou: “Uma vez, ainda na América do Sul, eu estava no carro com uns garotos que guiavam feito uns loucos, onde quase batemos 02 vezes! Eles achavam tudo muito engraçado, enquanto eu pensava que tinha um show para fazer no dia seguinte e não podia morrer... Éramos tão amados por lá”.

 

Em Agosto, a banda tocou em festivais na Europa. Em Setembro, fizeram uma turnê pelos EUA. Em Dezembro (com o disco “Acid Eaters” recém lançado), o grupo viajou para a Europa novamente para algumas datas.

 

Em Janeiro/1994, os RAMONES encabeçaram o famoso festival itinerante Big Day Out, na Austrália. Nesse evento, a lista de bandas que acompanharam os RAMONES era particularmente notável: THE BREEDERS, SOUNDGARDEN, PAVEMENT e SMASHING PUMPKINS.

 

Em Fevereiro, os RAMONES foram ao Japão novamente, bem a tempo de comemorar (na capital Tóquio) o show de nº 2.000 da banda. Em Março, o grupo estava de volta aos EUA fazendo shows nas cidades de San Francisco e Dallas.

 

Em 08 de Abril, foi anunciada a morte de Kurt Cobain. O vocalista do NIRVANA era (indiretamente) a única grande razão para o sucesso renovado dos RAMONES nos EUA e na Europa, sendo que o seu suicídio os chocou tanto quanto a qualquer um. Joey havia dito para uma jornalista em 1994: “As pessoas gostam de nós porque os RAMONES trouxeram a diversão de volta à música. Fomos chamados de estúpidos por conta disso, mas o rock’n roll sempre esteve ligado à diversão e não a algo sério, rígido... Agora, todos sabem que menos é mais. Agora, você tem essas bandas como o GREEN DAY, OFFSPRING, HOLE, NIRVANA e SOUNDGARDEN. Muitas delas são realmente boas e outras são péssimas! Kurt Cobain era de verdade e tudo isso é uma grande perda, porque ele era verdadeiro em suas canções, sabe? E também formavam uma banda maravilhosa e se divertiam muito juntos. Quando ouvi o acústico do NIRVANA na MTV, lembro de ter ficado de ‘quatro’ com a versão daquela música de DAVID BOWIE, ‘The Man Who Sold The World', que eu sempre amei. Ficou tão melancólica e exuberante com o violoncelo... Encontrei-os recentemente em uma festa de premiação dada pela banda REM. Dave Grohl (baterista do NIRVANA) parece ser um cara ótimo e o baixista (Krist Novoselic) é legal também, mas estava bem quieto. Ele é enorme e é muito mais alto do que eu!”

 

Em Maio, os RAMONES voltaram à América do Sul. Em Agosto, fizeram uma turnê pelo Canadá.

 

Em Setembro e Outubro, foi a vez de alguns shows em Londres e na Europa. A essa altura, cada show dos RAMONES era cotado como o último. Ninguém achava que a banda continuaria por muito mais tempo. Johnny não havia dito várias vezes que a banda terminaria quando fizesse 20 anos? E eles não tinham começado em 1974? A possibilidade de ser a última chance de assistir ao show dos RAMONES havia se tornado uma verdadeira instituição estimulativa para os fãs.

 

Em Novembro, a banda voltou à América do Sul novamente, dessa vez fazendo parte da turnê com a maravilhosa banda brasileira de heavy metal, SEPULTURA. Um jornalista local escreveu corretamente na época: “Pense nos BEATLES ou no ROLLING STONES tocando em estádios... Porque isso é exatamente o pandemônio que os RAMONES geraram quando venderam os 50.000 mil lugares em estádios de futebol no Brasil e na Argentina”.

 

“Este ano está sendo o mais lotado pelas turnês”, afirmou Joey, quase sem exagero. “Fomos à América do Sul 03 vezes nesse ano e somos um grande sucesso por lá. A garotada nesses países é passional e eles adoram os RAMONES da mesma forma que as pessoas costumavam amar os BEATLES. É um tipo de paixão, amor, admiração, lealdade e devoção. É como se fôssemos uma nova religião, sabe? Vamos especialmente bem em países de língua portuguesa e espanhola”.

 

Joey, impressionado pela febre que a sua banda havia provocado, concluiu na época: “Eles entoam esses cantos de futebol e modificam as letras para encaixar, tipo: ‘Olê, Olá, Ramones!'  Isso significa um sentimento forte para nós... Na atualidade, as 03 maiores bandas na Argentina e no Brasil é o NIRVANA, METALLICA e os RAMONES, e estivemos lá 06 vezes!”

 

Os RAMONES tocaram normalmente durante o ano de 1995. Era óbvio que, mais cedo ou mais tarde, os “bro” iriam cair na real, apesar da veneração crescente que atraíam em países como Brasil, Argentina e Japão – e mesmo em casa, com o despertar do respeito demonstrado a eles, via jovens imitadores como o RANCID, OFFSPRING e o GREEN DAY – eles não podiam traduzir a sua popularidade burguesa em venda de discos. Estavam em uma situação clássica: quanto mais famosos e institucionais se tornavam, menos as pessoas se interessavam por material novo deles. Johnny entendeu isso – que é o motivo dos shows dos RAMONES ao longo dos anos terem retirado a maioria de seu conteúdo dos 04 primeiros álbuns de estúdio – pois as músicas de qualquer outro álbum eram apenas lançadas.

 

Os RAMONES gostavam de seus fãs mais que a maioria das bandas. Nunca emplacaram nenhuma música nas paradas e nunca tocaram muito nas rádios... Os seus 22 anos de carreira foram impulsionados quase totalmente por seu público ao vivo. “Além de serem as minhas preferidas para tocar ao vivo”, Johnny disse em 2001, “a maioria das músicas que tocávamos nos shows eram também as minhas favoritas. Se não fossem, eu teria me livrado delas... Aprendi muito cedo a fazer de tudo para não desapontar os fãs, porque são eles os responsáveis por grande parte da minha felicidade”.

 

Então, os RAMONES excursionaram em 1995 como se fossem garotos novamente, apenas com a diferença que o faziam em lugares enormes, às vezes exóticos: Noruega, Holanda, Suécia, Bélgica, 06 noites na Argentina, outras 06 noites no Japão e mais 01 turnê pelos EUA.

 

Track-list:

 

1- Journey to The Center of The Mind

2- Substitute

3- Out of Time

4- The Shape of Things to Come

5- Somebody to Love

6- When I Was Young

7- 7 and 7 is

8- My Back Pages

9- Can't Seem to Make You Mine

10- Have You Ever Seen The Rain

11- I Can't Control Myself

12- Surf City

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

  • Facebook Social Icon
Mais Recentes

Prophets of Rage: fãs concedem as suas opiniões sobre o "fim" do grupo

November 18, 2019

1/5
Please reload

Destaques
Please reload

2016 by RockInTheHead