Nirvana: Dave relembra da última vez que falou com Kurt e sobre o disco "In Utero"

February 26, 2018

 

Em entrevista para a revista Rolling Stone em 2013, o baterista do NIRVANA, Dave Grohl, comentou sobre as gravações do álbum derradeiro da banda, “In Utero”.

 

“Há diversos modos de analisar”, diz Dave Grohl sobre o disco “In Utero” (1993), o último álbum de estúdio gravado por ele no posto de baterista do NIRVANA, marcando a volta ao som mais punk depois do sucesso monstruoso e multi-platinado de “Nevermind” (1991). “Você pode descrevê-lo como um grande feito”. Ele faz uma pausa. “E também pode lembrar dele como o produto de uma época completamente fodida”.

 

É manhã no 606, estúdio de Grohl no Vale San Fernando, em Los Angeles. No andar de baixo, na sala de controle, o produtor Butch Vig (o mesmo de “Nevermind” e do último álbum do FOO FIGHTERS, "Wasting Light", 2011) e membros da banda estão se preparando para trabalhar na pré-produção de um novo disco. No andar de cima, no lounge, Grohl marca o 20º aniversário de “In Utero” – lançado em Setembro/1993 e relançado também em Setembro/2013 em uma edição de luxo, incluindo demos raras, músicas inéditas, faixas ao vivo e uma nova mixagem – com um dos mais longos e profundos vídeos sobre os últimos dias do NIRVANA e do seu desafortunado líder, o vocalista, guitarrista e compositor, Kurt Cobain.

 

Grohl e o baixista do NIRVANA, Krist Novoselic, falaram bastante para a revista Rolling Stone sobre “In Utero” e o trágico clímax do disco – o suicídio de Cobain com um tiro de espingarda em Abril/1994. O baterista foi especialmente detalhista em suas memórias sobre “In Utero” e sobre os vários sinais contidos nas músicas de Cobain.

 

O que segue é somente a conversa com Grohl, depois que ele mostrou à reportagem da Rolling Stone o 606 inteiro, incluindo um corredor dedicado ao NIRVANA repleto de cartazes das turnês antigas e discos de ouro e platina de todo o mundo.

 

Seguem somente alguns trechos dessa entrevista:

 

Jornalista: Você entrou no NIRVANA bem a tempo de gravar o disco “Nevermind”. Houve tempo para desenvolver uma ligação com Kurt?


Dave Grohl: Toda banda que eu havia feito parte até aquele ponto era formada por amigos que, ou se juntaram para fazer música ou se transformavam em uma família durante as turnês. O NIRVANA foi um pouco diferente... Conviver com Kurt era engraçado, mas emocionalmente falando, ele se isolava em vários sentidos, sabe? Mas ele também tinha uma natureza doce e genuína. Nunca deixava você desconfortável intencionalmente e morar com ele naquele pequeno apartamento super apertado em Olympia, Washington (próximo de Seattle e antes de “Nevermind” ser lançado), funcionava como um tipo de elo entre a gente. Mas era bem diferente da relação que ele tinha com Krist.

 

 

Jornalista: Como você definiria a relação deles?


Dave: Eu via Krist e Kurt como almas gêmeas. Os dois tinham uma compreensão mútua tão linda e silenciosa... Aqueles dois caras, juntos, definiam totalmente o NIRVANA. Cada trejeito e todas as coisas estranhas da banda vinham de Krist e Kurt. Acho que o fato dos dois terem sido criados em Aberdeen – por terem passado por experiências juntos naqueles anos tão importantes na formação de uma pessoa – teve muito a ver com isso.


Musicalmente a química era simples e tudo o que tínhamos que fazer era sermos nós mesmos. Quando você entra numa banda sem nem sequer ter conhecido os outros membros antes, tudo o que você quer é ser musicalmente contundente. Muitas vezes me senti um estranho no ninho, sabe? Eu estava acostumado a me ver cercado de gente conhecida desde que tinha 13 anos de idade e de repente, estava morando na porra de Olympia, com alguém que eu nem conhecia. Não tinha sol... Era só a música.

 

 

Jornalista: Fico sempre lembrando da 1ª frase da música que abre o álbum “In Utero”, "Serve The Servants”: "Teenage angst has paid off well” [“A angústia adolescente teve um bom pagamento”]. Para você rendeu mesmo, com o FOO FIGHTERS e este estúdio, além do NIRVANA, é claro, mas Kurt poderia ter tido isso também. A principal vulnerabilidade dele era a incapacidade de ter prazer com as conquistas do próprio trabalho?

 

Dave: Eu não sei, cara... Muita gente não considera o próprio trabalho válido, porque é o trabalho dele mesmo - e entendo isso. Conheço muita gente que não se sentiria confortável com toda a carga resultante em estar numa banda grande como o NIRVANA, sabe? O que eu não entendo, é não conseguir apreciar o simples dom de poder tocar... Quando o NIRVANA se tornou popular, a transição foi difícil. Você faz parte de uma cena punk underground com heróis como Ian McKaye (FUGAZI) ou Calvin Johnson (BEAT HAPPENING) e deseja desesperadamente a aprovação destas pessoas, porque isso o validará como músico, tipo: “Ok, sou pra valer”.

 

Tive sorte, porque voltei para Washington e vi todos os meus heróis me dizerem que estavam orgulhosos por eu ter virado uma porra de uma estrela do rock corporativo. Este peso foi tirado dos meus ombros logo de cara, porque nunca me preocupei com isso, sabe? Talvez tenha algo a ver com a ansiedade de Kurt... Ele tinha medo que os seus ídolos ou pessoas da cena não aprovassem no que ele se tornou.

 

 

Jornalista: Você disse que as coisas ficaram estranhas para o NIRVANA em 1992. Aconteceram ensaios, mas poucas gravações e turnês. Vocês estavam naquela posição incrível de poder fazer o que quisessem, mas não sabiam o que iam fazer e nem como...


Dave: A organização do Lollapalooza nos ligava e dizia: “Vocês têm que ser a atração principal do festival!” Fui ver o U2 tocar com o PIXIES e fui arrastado até ao camarim de Bono: “Vocês têm que sair em turnê com a gente!” O pessoal do GUNS N’ ROSES nos ligavam e eu ficava, tipo: “Mas que porra está acontecendo?” Era bom para a gente não estar fazendo muita coisa, mas era como segurar um fósforo aceso e ficar só assistindo enquanto ele queima os seus dedos, você me entende? Era só uma questão de tempo até alguma coisa acontecer... 

 

Estávamos gravando algumas músicas, uma para o single da banda JESUS LIZARD (essa canção se chama “Oh The Guilt”) e um cover da banda WIPERS, “Return of The Rat”. Kurt um dia chegou até nós e disse: “Ah, eu tenho 01 ideia para uma música”, e ele tocou “Frances Farmer Will Have Her Revenge on Seattle", que depois foi lançada em “In Utero", e tipo: “Meu Deus, que alívio! Que bom que vamos gravar outro disco”.

 

 

Jornalista: Em que estágio estava a canção quando ele a tocou pela 1ª vez? Em que ponto ele trazia a música para mostrar a vocês?


Dave: Naquele dia, ele estava no porão da minha casa. Ele disse: “Olha só isso” e tocou o riff. Kurt também tocou a música “Very Ape” que acabou entrando em “In Utero”, e talvez tenhamos improvisado um pouco em cima no dia. Normalmente, quando o NIRVANA fazia uma música, não havia muita conversa entre nós. 

 

Queríamos que tudo fosse surreal e não queríamos nada certinho e calculado, sabe? Em uma música como “Heart Shaped Box” (single de "In Utero"), a gente simplesmente começava a tocar e improvisava. Kurt tocava o riff, Krist encaixava o que ele estava fazendo e eu ia acompanhando os dois. Entrávamos naquela dinâmica em tocar alto, depois baixo e aí alto novamente. Muita dessa coisa de alto/baixo veio deste experimentalismo.

 

 

Jornalista: Como você lidava com o vício de Kurt?


Dave: Eu parei com as drogas quando tinha 20 anos, sabe? Nunca usei heroína ou comprimidos, mas usei muito ácido LSD, fumei muita maconha e me diverti bastante. Quando se trata de narcóticos, é uma outra história... Felizmente, não era algo do qual eu fazia parte, o que não quer dizer que eu não me importava.

 

Não viajávamos mais de van e não fazíamos mais parte daquele nosso clubinho. Era palpável uma certa distância emocional, mas de um jeito melancólico. Havia vezes em que ninguém falava nada o dia todo, embora estivéssemos em turnê e tocando. E aí, a gente se trombava nos corredores e dizia algo, tipo: “A gente deveria arrumar umas minimotos quando voltarmos para casa. Conheço uma trilha que a gente pode fazer, que sai de trás da minha casa”. Ou: “Aquele lugar que vende cortador de gramas, também vendem karts. Vamos comprar uns daqueles!”. Era dessa forma os momentos em que a gente se conectava emocionalmente.

 

 

Jornalista: E rolava? Chegaram a comprar os karts?


Dave: Claro que não. Nessas horas tudo o que você precisa é daquele momento da validação de que ainda estávamos juntos.

 

 

Jornalista: O que você lembra das sessões de “In Utero”? Kurt estava usando heroína na época? Krist disse que achava que não.


Dave: Não sei, cara. Era um troço estranho... Estávamos isolados naquela casa, no meio da neve em Fevereiro, Minessota. Gravando com Steve Albini, era tipo, ele apertava o botão, começava a gravar, a gente fazia a tomada, ele batia palmas e dizia: “OK, qual é a próxima?” Espera, mas ficou bom?

 

Trabalhar com Butch Vig em “Nevermind” foi completamente diferente. Fizemos aquele álbum para ser exatamente o álbum que é. Estávamos empolgados pra caralho e havíamos passado muito tempo praticando e ensaiando... Para "In Utero", também estávamos soltos e entrosados quanto era necessário e passamos voando pelas gravações. Acabei a minha parte em 03 dias e tive mais 10 dias para ficar sentado com a bunda na neve sem fazer nada. Depois que terminamos a parte instrumental, era a vez de Kurt gravar os vocais e overdubs, e lembro que todo mundo estava preocupado com o tempo de "Heart Shaped Box”. Sabe como é, tocar usando um metrônomo não é legal e Kurt e Steve tiveram uma ideia: “A gente poderia usar uma luz strobo”. Tivemos uma longa conversa sobre como a luz não iria ditar o tempo e sim, fazer com que o tempo fosse apenas implícito.

 

 

Jornalista: Ou iria hipnotizar vocês. 


Dave: Eu disse: “OK, cara, o que quer que vocês queiram que eu faça, beleza”. Sentei lá por 01 tomada ou 02 com aquela porra de strobo na minha cara, até praticamente ter uma convulsão. Eu disse: “Será que a gente não pode simplesmente tocar? Deixar fluir. É só não encanar”.

 

 

Jornalista: Ficou surpreso por Kurt querer gravar a sua música, “Marigold”, durante as sessões de “In Utero”? É a única canção original do NIRVANA em que ele não teve qualquer envolvimento na composição.


Dave: Compus a música em uma mesa de 04 canais que havia na casa. Ele estava no quarto dele e não queria acordá-lo, por isso que eu gravava as coisas sussurrando baixinho no microfone. Eu estava gravando a harmonia vocal do refrão e a porta abriu. Ele disse: “O que é isso aí”? Eu respondi: “É só um negócio que compus”. E Kurt: “Deixa eu ouvir”.

 

Ficamos lá sentados e tocamos algumas vezes... Eu fazia a harmonia mais aguda e ele fazia a grave. É engraçado compor em parceria e eu nunca tinha feito isso antes. Componho para o FOO FIGHTERS e depois a banda toca comigo, mas sentar cara a cara com alguém é outra viagem. Não sei se ele já tinha feito isso alguma outra vez também... Era como um encontro desconfortável às escuras, tipo: “Ah, você também canta? Vamos fazer a harmonia juntos então”. Eu era muito tímido na época e fiquei envaidecido, mas lembro que Steve Albini havia me dito: “Talvez, ‘Marigold’ deveria entrar no álbum”. Fiquei apavorado, tipo: “Não, não, espera”. É aquela velha piada, qual a última coisa que o baterista disse antes de ser expulso da banda? “Hey, compus uma música nova!"

 

Obviamente, a canção não entrou no disco, mas foi lançada como lado-b no single de “Heart Shaped Box”. Fiquei feliz, porque o álbum manteve a integridade da visão de Kurt, mas fiquei incrivelmente envaidecido, tipo: “Sério, vocês gostaram mesmo da música?”

 

 

Jornalista: Lembra da última vez que viu Kurt e o que disse a ele?


Dave: Liguei para Kurt depois do que houve em Roma (em Março/1994, durante a turnê europeia de “In Utero”, Cobain tomou uma overdose de comprimidos e álcool num hotel em Roma. O NIRVANA cancelou a turnê e voltou para Seattle, onde Cobain morreu 01 mês depois). Eu disse: “Hey, cara, você deu um belo de um susto em todo mundo. Não quero que você morra”.

 

Depois o encontrei no escritório do nosso contador em Seattle. Ele estava saindo quando eu estava chegando... Ele sorriu e me disse: “Hey, e aí?” E eu falei: “Eu te ligo”. E ele disse: “Ok”.

 

 

Jornalista: Há algo em “In Utero” que as pessoas devam ouvir e saber para entender Kurt melhor como homem e artista, e menos como uma figura trágica? É difícil escutar o álbum do modo como ele pretendia que fosse, por conta da carga de tudo o que veio depois.


Dave: O álbum deve ser ouvido como se tivesse acabado de sair, sem nada por trás. É este o meu problema com ele... Eu costumava ouvi-lo muito e não ouço mais por causa disso. Para mim, se você escuta o disco sem pensar na morte de Kurt, ainda é capaz de entender o sentido original do álbum. Como as minhas filhas, elas sabem que eu fiz parte do NIRVANA e sabem que Kurt morreu. Não contei a elas que Kurt se matou, sabe? Elas têm somente 04 e 07 sete anos de idade, por isso, quando elas escutam o disco “In Utero”, o fazem de uma perspectiva totalmente diferente, como ouvintes de 1ª viagem e como era originalmente a intenção do álbum.

 

Um dia, elas vão saber o que aconteceu e daí o significado vai mudar... Foi o que aconteceu comigo.

 

Confira a performance do NIRVANA com a música "Serve The Servants", realizada na Itália em Fevereiro/1994:

 

 

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